{"id":190601,"date":"2017-04-30T07:25:16","date_gmt":"2017-04-30T10:25:16","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=190601"},"modified":"2017-04-30T07:25:16","modified_gmt":"2017-04-30T10:25:16","slug":"roberto-campos-genio-ou-reacionario-uma-trajetoria-brilhante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/roberto-campos-genio-ou-reacionario-uma-trajetoria-brilhante\/","title":{"rendered":"Roberto Campos: g\u00eanio ou reacion\u00e1rio, uma trajet\u00f3ria brilhante"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"titulo-materia\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p class=\"mg_sutia\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Se estivesse vivo, Campos completaria 100 anos em 2017. Pol\u00eamico, o intelectual faz falta no atual momento de debates raivosos<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bordaimg imgnoticia\" title=\"Intelectual, frasista e pol\u00eamico, Roberto Campos chegou ao fim da vida frustrado com a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica do Pa\u00eds \/ Foto: Nelson Perez\/ Divulga\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/jconlineimagem.ne10.uol.com.br\/imagem\/noticia\/2017\/04\/30\/normal\/f8bf32e4e5eb00da957ece7c796c19a7.jpg\" alt=\"Intelectual, frasista e pol\u00eamico, Roberto Campos chegou ao fim da vida frustrado com a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica do Pa\u00eds \/ Foto: Nelson Perez\/ Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"470\" height=\"230\" \/><\/p>\n<div class=\"legenda-foto\" style=\"text-align: justify;\">Intelectual, frasista e pol\u00eamico, Roberto Campos chegou ao fim da vida frustrado com a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica do Pa\u00eds<\/div>\n<div class=\"credito-foto\" style=\"text-align: justify;\">Foto: Nelson Perez\/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a class=\"assintatura\" href=\"mailto:economia@jc.com.br\">Saulo Moreira e Leonardo Spinelli<\/a><\/p>\n<div id=\"noticia_corpodanoticia\" class=\"t13 manipularFonte\">\n<p style=\"text-align: justify;\">G\u00eanio, vision\u00e1rio, reacion\u00e1rio, servi\u00e7al dos militares. O adjetivo varia de acordo com a matiz ideol\u00f3gica de quem o profere. Aqueles classificados de direita o enaltecem tratando-o de \u201cdoutor\u201d, \u201cministro\u201d, \u201cdiplomata\u201d. Os de esquerda o menosprezam com o mais que pejorativo apelido de \u201cBob Fields\u201d, por ser \u201centreguista\u201d. Se vivo fosse, Roberto Campos, um dos mais c\u00e9lebres pensadores brasileiros do s\u00e9culo 20, faria 100 anos neste 2017. Numa \u00e9poca eivada de debates rasos e raivosos, o polemista intelectual Roberto Campos faz falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m de defer\u00eancias ou deprecia\u00e7\u00f5es, Roberto de Oliveira Campos foi um homem de coragem. Nasceu em 1917, em Cuiab\u00e1, e morreu em 2001, no Rio de Janeiro, com 84 anos e tido como o maior defensor do liberalismo econ\u00f4mico cl\u00e1ssico no Brasil. Ainda jovem, por\u00e9m, flertou com a teoria de John Maynard Keynes, na \u00e9poca do p\u00f3s-guerra em que nem os EUA do New Deal de Franklin Roosevelt era uma economia liberal. Como se tratava da reconstru\u00e7\u00e3o do mundo, Campos acreditava no planejamento estatal. Nos anos 40, participou, ao lado do economista brasileiro Eug\u00eanio Gudin da Confer\u00eancia de Bretton Woods, respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o do Banco Mundial e do FMI. A confer\u00eancia tamb\u00e9m gerou a semente para a cria\u00e7\u00e3o, muitos anos depois, em 1993, da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo passou e no final da vida Campos era um convicto seguidor da escola austr\u00edaca, cujo s\u00edmbolo maior \u00e9 Friedrich August von Hayek (assista ao v\u00eddeo abaixo). Entendia que a economia funcionaria melhor se houvesse estabilidade de pre\u00e7os, seguran\u00e7a jur\u00eddica, menos controle estatal, est\u00edmulos ao empreendedorismo, privatiza\u00e7\u00f5es, concorr\u00eancia, reformas etc. Trata-se de uma vis\u00e3o moderna de mundo, sobretudo num momento em que o Pa\u00eds amarga \u00edndices recordes de desemprego e tr\u00eas anos de recess\u00e3o resultantes de administra\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias ao modelo defendido por Campos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/u0ypw6MXbpc\" width=\"470\" height=\"230\" frameborder=\"0\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a hist\u00f3ria \u00e9 feita de paradoxos, vale lembrar que o economista defendeu o golpe militar de 1964 e participou dos governos de Castelo Branco, Ernesto Geisel e Jo\u00e3o Figueiredo. Contribuiu, portanto, n\u00e3o apenas com ditaduras, mas tamb\u00e9m com administra\u00e7\u00f5es altamente estatistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 clara tamb\u00e9m porque o ide\u00e1rio liberal cl\u00e1ssico s\u00f3 prospera com liberdades individuais.<br \/>\nSempre que algu\u00e9m o tentava emparedar com esta contradi\u00e7\u00e3o na sua biografia, Campos, frasista brilhante que era (leia algumas abaixo), lan\u00e7ava m\u00e3o de uma de suas tiradas: \u201cContradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o caracter\u00edsticas de homens inteligentes, mulheres bonitas e pa\u00edses jovens.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao relembrar a frase, Gustavo Krause, ex-ministro de Itamar Franco e de Fernando Henrique Cardoso, d\u00e1 uma gargalhada. Para Krause, Campos era uma mente brilhante. \u201cEle sofreu dos seus advers\u00e1rios a intoler\u00e2ncia da inveja. Naquela \u00e9poca, pensar contra a corrente marxista era uma atitude de coragem.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes dos militares, o anti-marxista Campos tamb\u00e9m serviu ao segundo governo de Get\u00falio Vargas, quando criou o BNDE (o \u201cS\u201d, de social, veio depois). Na gest\u00e3o Juscelino Kubitschek foi um dos formuladores do famoso Plano de Metas. No governo Jo\u00e3o Goulart, gest\u00e3o notoriamente de esquerda, se tornou embaixador do Brasil em Washington e Londres. Campos entrou no servi\u00e7o diplom\u00e1tico em 1939. Antes havia sido seminarista, mas abandonou a escola para padres \u00e0s v\u00e9speras da ordena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua participa\u00e7\u00e3o em governos de diversas linhas, no entanto, n\u00e3o queria dizer concord\u00e2ncia. Muito pelo contr\u00e1rio, conta o diplomata e escritor Paulo Roberto de Almeida. \u201cEle se desentendeu com Vargas depois da cria\u00e7\u00e3o do BNDE, quando o presidente come\u00e7ou a fazer demagogia indicando amigos para cuidar da institui\u00e7\u00e3o. Com JK, a mesma frustra\u00e7\u00e3o acometeu o economista depois que Juscelino resolveu construir Bras\u00edlia, torrando dinheiro p\u00fablico e alimentando a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cJ\u00e1 Jo\u00e3o Goulart, atacava o \u2018imperialismo ianque\u2019, enquanto pedia cr\u00e9dito aos bancos dos EUA. Campos voltou a pedir demiss\u00e3o\u201d, conta Almeida, que organizou o livro O Homem que Pensou o Brasil, por ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio de seu nascimento.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">CHAMPANHE<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua trajet\u00f3ria como embaixador \u00e9 pr\u00f3diga em boas hist\u00f3rias. Em seu livro de mem\u00f3rias, A Lanterna na Popa, Campos conta uma conversa interessante com o ex-presidente dos EUA John Kennedy, em plena Casa Branca. Durante a Crise dos M\u00edsseis, em 1962, Kennedy lembrou a Campos que ele estava num pa\u00eds que poderia ser alvo, a qualquer momento, de bombas sovi\u00e9ticas. E quis saber o que o brasileiro faria se a sirene tocasse. Campos, com o ingl\u00eas perfeito, disse que iria para algum abrigo anti-nuclear em Camp David e procuraria a adega. Kennedy quis saber o motivo. E Campos: \u201ccomo dizem os franceses, presidente, entre uma trag\u00e9dia e uma calamidade, sempre haver\u00e1 tempo para um ta\u00e7a de champanhe\u201d. Kennedy gostou tanto da tirada que mandou um de seus assessores anotar. Ap\u00f3s sair da Embaixada do Brasil nos EUA durante o governo Jango, Campos foi para a \u00c1sia e conheceu pa\u00edses como Hong Kong, Cingapura, Mal\u00e1sia, Taiwan que mais tarde ficaram conhecidos como os Tigres Asi\u00e1ticos.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.fatiaimagem.com.br\/img\/5A010014\/imgs_0.jpg\" alt=\"\" height=\"215\" border=\"0\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.fatiaimagem.com.br\/img\/5A010014\/imgs_1.jpg\" alt=\"\" height=\"216\" border=\"0\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.fatiaimagem.com.br\/img\/5A010014\/imgs_2.jpg\" alt=\"\" height=\"215\" border=\"0\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.fatiaimagem.com.br\/img\/5A010014\/imgs_3.jpg\" alt=\"\" height=\"220\" border=\"0\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">SUAPE<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis que durante sua fase como ministro do Planejamento de Castelo Branco, j\u00e1 na ditadura, Campos foi contra a instala\u00e7\u00e3o da Zona Franca de Manaus, mas n\u00e3o tinha muito o que fazer. Os militares enxergavam a regi\u00e3o como uma zona estrat\u00e9gica e n\u00e3o aceitavam o contradit\u00f3rio. \u201cEle achava que a Zona Franca era uma aberra\u00e7\u00e3o, um privil\u00e9gio. Era a favor de algo maior, inclusive abrangendo Suape, que na \u00e9poca era apenas um projeto. Manaus ficaria com o polo de eletroeletr\u00f4nico e inform\u00e1tica e em outros locais se criariam Zonas de Processamento e Exporta\u00e7\u00e3o (ZPEs), incluindo Suape, Cama\u00e7ari na Bahia, Sepetiba, no Rio, e at\u00e9 Te\u00f3filo Ottoni, em Minas. Campos queria justamente replicar aqui o modelo dos Tigres Asi\u00e1ticos. Ele, como cidad\u00e3o do mundo, previu que os asi\u00e1ticos iriam acertar\u201d, conta o jornalista Arist\u00f3teles Drummond, amigo de Campos, que participa do livro Lanterna na Proa, organizado pelo presidente do IBGE, Paulo Rabello Castro, e pelo jurista Ives Gandra da Silva Martins, tamb\u00e9m em homenagem aos 100 anos de Campos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Drummond lembra que Campos era ir\u00f4nico. \u201cMe disse que n\u00e3o votaria em Jos\u00e9 Serra para presidente. Perguntei por qu\u00ea. E ele \u2018a \u00fanica vez em que Serra se dirigiu a mim foi na Revis\u00e3o Constitucional de 1993\u2019\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas porque Serra o havia procurado? Interessado em suceder FHC, Serra tinha o projeto de extinguir a Zona Franca, sabia que Campos havia sido contra desde a origem e veio pedir apoio. Campos ficou perplexo. \u201cEle disse a Serra: \u2018deputado, a Zona Franca emprega 100 mil pessoas com m\u00e3o de obra de qualidade, Manaus n\u00e3o tem outra fonte de renda. Fui contra instalar e agora sou contra tirar&#8230;E esse Serra ainda dizia que eu sou contra o trabalhador.\u2019\u201d<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">FRUSTRA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tantas participa\u00e7\u00f5es em governos criaram uma frustra\u00e7\u00e3o crescente em Roberto Campos, que j\u00e1 no fim da vida n\u00e3o escondia a decep\u00e7\u00e3o de ver ideais serem tragados por inefici\u00eancia, politicagem e populismo. Sempre que participava de governos, era no af\u00e3 de buscar a moderniza\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma de suas cria\u00e7\u00f5es, o ICM (que mais tarde virou ICMS), trouxe ao Brasil o conceito de imposto de valor agregado. \u201cHoje o Brasil \u00e9 mercado comum\u201d, disse Campos ao ver sua ideia aprovada, apesar de seu conceito ter sido distorcido ao longo dos anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a na burocracia governamental tamb\u00e9m mostra, segundo a economista pernambucana T\u00e2nia Bacelar, que Roberto Campos n\u00e3o era apenas um te\u00f3rico. \u201cEra um pragm\u00e1tico\u201d, diz T\u00e2nia, que participou de dois governos Miguel Arraes e sempre teve uma inclina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica \u00e0 esquerda. Ela lembra que foi Campos quem criou as terminologias monetaristas e estruturalistas para classificar os economistas. Os primeiros s\u00e3o os ortodoxos como ele. Os outros, aqueles que priorizam o crescimento, como ela. Cepalina cl\u00e1ssica, diante da diverg\u00eancia de ideias, T\u00e2nia j\u00e1 o teria chamado de Bob Fields? Ela sorri abertamente e diz que n\u00e3o. \u201cMinha forma\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente, mas toda minha gera\u00e7\u00e3o estudou com os livros dele. Era brilhante.&#8221; Em 17 de abril de 2001, Campos morreu. Como uma lanterna na popa, deixou uma rota iluminada para os que v\u00eam atr\u00e1s de sua nau. (JC)<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se estivesse vivo, Campos completaria 100 anos em 2017. 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