{"id":190801,"date":"2017-05-01T12:44:42","date_gmt":"2017-05-01T15:44:42","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=190801"},"modified":"2017-05-01T12:44:43","modified_gmt":"2017-05-01T15:44:43","slug":"o-caso-padre-pedofilo-que-desafia-o-papa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-caso-padre-pedofilo-que-desafia-o-papa\/","title":{"rendered":"O caso do padre ped\u00f3filo que desafia o Papa"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"articulo-subtitulo\" style=\"text-align: justify;\">Julio Grassi foi o sacerdote mais midi\u00e1tico da Argentina. Est\u00e1 condenado a 15 anos de pris\u00e3o. Bergoglio n\u00e3o o expulsou nem responde \u00e0s cartas das v\u00edtimas<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Buenos Aires<\/p>\n<figure id=\"attachment_190802\" aria-describedby=\"caption-attachment-190802\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-caso-padre-pedofilo-que-desafia-o-papa\/padre-preso\/\" rel=\"attachment wp-att-190802\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-190802 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/padre-preso-620x465.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"465\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/padre-preso-620x465.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/padre-preso-300x225.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/padre-preso-768x576.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/padre-preso-80x60.jpg 80w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/padre-preso-118x88.jpg 118w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/padre-preso-160x120.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/padre-preso-640x480.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/padre-preso.jpg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-190802\" class=\"wp-caption-text\">O sacerdote Julio Grassi chega em agosto de 2008 a um tribunal de Mor\u00f3n, perto de Buenos Aires<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era o padre preferido dos ricos. Um aut\u00eantico astro da m\u00eddia, o religioso mais famoso da <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/argentina\/a\">Argentina.<\/a> Desfilava por todas as televis\u00f5es nos anos noventa, seu grande momento. Com apoio do Governo de Carlos Menem e de algumas das pessoas mais ricas da Argentina, como Amalita Fortabat, Julio Grassise movia c\u00f4modo pelos <em>sets<\/em> de grava\u00e7\u00e3o e arrecadava enormes somas de dinheiro para sua funda\u00e7\u00e3o, Felices los Ni\u00f1os (\u201cfelizes as crian\u00e7as\u201d), que chegou a acolher 6.300 menores de rua. Eram tempos duros de ajuste, quando era comum ver crian\u00e7as sem lar em Buenos Aires. Em 2002, veio o esc\u00e2ndalo. O pa\u00eds parou para ver um programa de investiga\u00e7\u00e3o na TV, o <em>Telenoche<\/em>, no qual tr\u00eas dessas crian\u00e7as carentes, que tinham entre 14 e 16 anos de idade e dependiam de Grassi para tudo, contaram os <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/delitos_sexuales\/a\">abusos sexuais<\/a> aos quais ele os submetia. A Argentina emudeceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele dia come\u00e7ou uma enorme batalha de poder, com todos os ingredientes habituais de um pa\u00eds acostumado \u00e0s opera\u00e7\u00f5es encobertas: espionagem, amea\u00e7as, chantagem. Grassi se defendeu com dureza: recorreu a todos seus contatos para alegar inoc\u00eancia, contratou os melhores advogados, e mesmo quando entrou na pris\u00e3o \u2212 em 2013, 11 anos depois \u2212 obteve um tratamento privilegiado gra\u00e7as a seus contatos e ao dinheiro da funda\u00e7\u00e3o. Mas finalmente a justi\u00e7a o derrotou: a Corte Suprema argentina confirmou em 23 de mar\u00e7o sua senten\u00e7a de 15 anos de cadeia por abuso sexual com agravante e corrup\u00e7\u00e3o de menores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, o caso tem um contorno ainda maior. <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/02\/08\/internacional\/1486572845_075366.html\">Apesar da pol\u00edtica de toler\u00e2ncia zero com os padres ped\u00f3filos impulsionada pelo Vaticano<\/a>, ainda hoje, 15 anos depois da den\u00fancia da TV, Grassi continua sendo padre e usa o colarinho clerical na pris\u00e3o. O sacerdote afirma que a Igreja ainda o apoia e diz ter o respaldo de ningu\u00e9m menos que o <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/francisco_i\/a\">papa Francisco<\/a>, Jorge Mario Bergoglio, que era o chefe da Igreja argentina na \u00e9poca do esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cBergoglio nunca soltou minha m\u00e3o. Falo com ele, ele me apoia muito espiritualmente e acredita em mim\u201d, chegou a dizer. Alguns afirmam at\u00e9 mesmo que Bergoglio era seu confessor. Pessoas ligadas ao Papa desmentem essa vers\u00e3o. Admitem que alguma vez Bergoglio pode ter ouvido a confiss\u00e3o de Grassi, mas garantem que isso n\u00e3o era nada estabelecido e os dois n\u00e3o tinham uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o estreita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papa nunca disse uma palavra sobre o assunto, nem antes nem depois de ser eleito. \u201cN\u00e3o apoiou Grassi, n\u00e3o foi visit\u00e1-lo na pris\u00e3o, mas n\u00e3o falou porque n\u00e3o era seu bispo [pertence a Mor\u00f3n, nos arredores de Buenos Aires] e porque havia muitas d\u00favidas a respeito da culpabilidade. Por tr\u00e1s desse esc\u00e2ndalo houve uma opera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos rivais de Grassi em neg\u00f3cios importantes, n\u00e3o estava claro se era uma opera\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia\u201d, assinala um religioso argentino ligado ao pont\u00edfice. Com rela\u00e7\u00e3o a outros casos, fora da Argentina, Francisco se mostrou mais pr\u00f3ximo das v\u00edtimas. Neste, por\u00e9m, nunca se aproximou delas, apesar de estas terem lhe enviado v\u00e1rias mensagens \u2212 \u00e0s quais n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o da Santa S\u00e9 explicam que Bergoglio nunca quis se intrometer em um assunto que estava judicializado. \u201cA resposta do Papa \u00e9 sempre incisiva: m\u00e1ximo respeito \u00e0 justi\u00e7a civil, toler\u00e2ncia zero com os culpados e apoio absoluto \u00e0s v\u00edtimas\u201d, asseguram. Al\u00e9m disso, em rela\u00e7\u00e3o ao apelo das v\u00edtimas para que Grassi deixe de ser padre e seja convertido em leigo, assinalam que \u201ca Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 est\u00e1, exatamente nestes dias, dando as indica\u00e7\u00f5es precisas e terminando de examinar a situa\u00e7\u00e3o para adotar uma resolu\u00e7\u00e3o definitiva\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA elei\u00e7\u00e3o do papa Francisco foi recebida com expectativas muito boas pelo mundo, a Igreja tomou uma posi\u00e7\u00e3o clara sobre a pedofilia. Mas as v\u00edtimas de Grassi esperam que [o Papa] diga algo. Uma delas lhe enviou uma carta pedindo que o recebesse e o ajudasse a recuperar a f\u00e9 perdida com os abusos desse sacerdote, e solicitando tamb\u00e9m que rebaixasse [Grassi] \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de leigo. N\u00e3o houve resposta\u201d, explica Juan Pablo Gallego, advogado das v\u00edtimas, que ainda hoje mant\u00eam em segredo sua identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEm novembro de 2015, fui ao Vaticano e falei por alguns minutos com o Papa para lhe pedir que tenha um gesto para as v\u00edtimas\u201d, conta Miriam Lewin, a jornalista que revelou o esc\u00e2ndalo em 2002. \u201cEle me escutou e pensei que faria isso, mas nunca telefonou para as v\u00edtimas. <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/10\/01\/internacional\/1412135704_334101.html\">Seu discurso contra a pedofilia \u00e9 muito duro, mas deveria se refletir em fatos concretos neste caso.<\/a> As v\u00edtimas precisam de uma repara\u00e7\u00e3o, um pedido de desculpas. N\u00e3o se entende como Grassi pode continuar sendo padre. Francisco sabe que as feridas nas crian\u00e7as s\u00e3o muito dif\u00edceis de curar, eles dependiam de Grassi para tudo, n\u00e3o tinham fam\u00edlia. Agora algumas v\u00edtimas [de outros casos, como a irlandesa Marie Collins e o brit\u00e2nico Peter Saunders] abandonaram a comiss\u00e3o do Vaticano para a prote\u00e7\u00e3o dos menores. O Papa tem de fazer um gesto importante\u201d, insiste Miriam Lewin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos na Argentina consideram que o pont\u00edfice apoiou tacitamente Grassi porque n\u00e3o acreditava que o sacerdote fosse culpado. De fato, Bergoglio encomendou e pagou ao jurista Mario Sancinetti um trabalho de 2.600 p\u00e1ginas, <em>Estudos sobre o \u2018caso Grassi\u2019<\/em>, no qual se conclu\u00eda que o padre era inocente. Os advogados das v\u00edtimas consideraram isso um mecanismo de press\u00e3o sobre a Justi\u00e7a. Mesmo em 2013, quando Grassi foi para a pris\u00e3o, quatro anos depois da primeira condena\u00e7\u00e3o, o bispado de Mor\u00f3n o defendia: \u201cSurgem d\u00favidas a respeito de sua culpa\u201d, assinalou um comunicado oficial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO n\u00edvel de provas no julgamento foi alt\u00edssimo, foram comprovadas caracter\u00edsticas do \u00f3rg\u00e3o sexual do sacerdote que as v\u00edtimas conheciam. Ganhamos o julgamento contra um dos homens mais poderosos da Argentina. Era como um poder pr\u00f3prio dentro da Igreja. Teve 26 advogados de defesa, os melhores do pa\u00eds, os mais caros, algo nunca visto. Foi Davi contra Golias, e ganhamos porque ele era culpado\u201d, afirma Gallego. O certo \u00e9 que, com press\u00f5es ou sem elas, a Justi\u00e7a argentina sentenciou definitivamente que Grassi abusou dessas crian\u00e7as. E agora todos os olhares se concentram no Vaticano, e em Francisco, que foi incisivo em outros casos internacionais, mas tem um desafio enorme em sua pr\u00f3pria casa, um pa\u00eds que ele continua acompanhando com muita aten\u00e7\u00e3o, mas decidiu n\u00e3o visitar por enquanto, inquieto pelas paix\u00f5es, a favor e contra, que provocam todos seus movimentos.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|despiece\" class=\"sumario_despiece centro\"><a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/04\/29\/internacional\/1493494657_943625.html\" name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<header class=\"sumario-encabezado\">\n<h4 class=\"sumario-titulo\"><span class=\"sin_enlace\">UMA VIDA DE LUXO NA PRIS\u00c3O: INTERNET E BANHO PRIVADO<\/span><\/h4>\n<\/header>\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O padre Julio Grassi mostrou seu poder e seus contatos at\u00e9 mesmo depois de ser encarcerado. Em 2014, outra investiga\u00e7\u00e3o da TV causou um novo esc\u00e2ndalo. O programa de Jorge Lanata, <i>Periodismo para todos<\/i>, mostrou imagens da vida privilegiada do religioso na pris\u00e3o, sempre vestido de padre. Os contatos \u2212 e o dinheiro \u2212 de Grassi tinham permitido que ele tivesse seu pr\u00f3prio escrit\u00f3rio com computador conectado \u00e0 internet, uma cama e banheiro privado. Estava perto da cozinha da pris\u00e3o de Campana, a 80 quil\u00f4metros de Buenos Aires.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha tr\u00eas telefones celulares, algo totalmente proibido, com os quais continuava dirigindo a funda\u00e7\u00e3o Felices los Ni\u00f1os \u2212 que, dos 6.400 menores da \u00e9poca de esplendor, passou a acolher 50 em situa\u00e7\u00e3o especialmente delicada, \u00f3rf\u00e3os ou protegidos de casos de viol\u00eancia familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, em sua cela havia televis\u00e3o e geladeira, algo impens\u00e1vel nas pris\u00f5es argentinas. Mas o que causou mais esc\u00e2ndalo foi a revela\u00e7\u00e3o de que Grassi desviava para a pris\u00e3o em que est\u00e1 encarcerado parte das doa\u00e7\u00f5es feitas \u00e0 funda\u00e7\u00e3o. Ele dividia essa comida entre presos e agentes penitenci\u00e1rios, e com isso obtinha os evidentes privil\u00e9gios que tinha na pris\u00e3o. O esc\u00e2ndalo foi tanto que o diretor do pres\u00eddio foi destitu\u00eddo. O poder de Julio Grassi parece infinito.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julio Grassi foi o sacerdote mais midi\u00e1tico da Argentina. Est\u00e1 condenado a 15 anos de pris\u00e3o. Bergoglio n\u00e3o o expulsou nem responde \u00e0s cartas das v\u00edtimas Buenos Aires Era o padre preferido dos ricos. Um aut\u00eantico astro da m\u00eddia, o religioso mais famoso da Argentina. 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