{"id":19183,"date":"2013-09-26T16:00:33","date_gmt":"2013-09-26T19:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=19183"},"modified":"2013-09-26T08:55:15","modified_gmt":"2013-09-26T11:55:15","slug":"sobre-a-palavra-o-figo-o-figado-e-o-sicofanta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/sobre-a-palavra-o-figo-o-figado-e-o-sicofanta\/","title":{"rendered":"Sobre a palavra: O figo, o f\u00edgado e o sicofanta"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-19184\" alt=\"ImageProxy (2)\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/ImageProxy-215.jpg\" width=\"268\" height=\"300\" \/><\/p>\n<div>\n<p>O figo, fruto da figueira, \u00e9 uma palavra derivada do latim\u00a0<i>ficus<\/i>\u00a0e presente em nossa l\u00edngua desde o s\u00e9culo XIII, mas sua simplicidade etimol\u00f3gica termina a\u00ed. Todo o resto que se liga a ele \u00e9 surpreendente.<\/p>\n<p>Seu curioso papel na origem da palavra f\u00edgado \u00e9 um cl\u00e1ssico. O ancestral de f\u00edgado \u00e9 o latim\u00a0<i>ficatum<\/i>\u00a0\u2013 a mesma fonte do espanhol\u00a0<i>h\u00edgado<\/i>, do franc\u00eas\u00a0<i>foie<\/i>\u00a0e do italiano\u00a0<i>fegato<\/i>. Ocorre que\u00a0<i>ficatum<\/i>, antes de significar f\u00edgado, era um adjetivo que queria dizer \u201calimentado com figos\u201d.<\/p>\n<p>Como se passou de um sentido ao outro? \u201cEsta denomina\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o fil\u00f3logo catal\u00e3o Joan Corominas em seu\u00a0<i>Breve diccionario etimol\u00f3gico de la lengua castellana<\/i>, \u201cse explica pelo costume dos antigos de alimentar com figos os animais cujo f\u00edgado comiam.\u201d<\/p>\n<p>Conv\u00e9m explicar. O f\u00edgado de tais animais era chamado em latim\u00a0<i>jecur ficatum<\/i>, isto \u00e9, \u201cf\u00edgado (de animal) engordado com figos\u201d \u2013 locu\u00e7\u00e3o em que era\u00a0<i>jecur<\/i>, e n\u00e3o\u00a0<i>ficatum<\/i>, que queria dizer f\u00edgado.<\/p>\n<p>Num processo lingu\u00edstico que est\u00e1 longe de ser incomum (veja-se, em exemplo atual\u00edsssimo, como \u201cshopping\u201d vem tomando entre n\u00f3s o lugar de \u201cshopping center\u201d), o adjetivo terminou por se substantivar, engolindo o\u00a0<i>jecur<\/i>. De termo coadjuvante,\u00a0<i>ficatum<\/i>\u00a0viu-se promovido ao estrelato, j\u00e1 sem mem\u00f3ria de seu passado bot\u00e2nico.<\/p>\n<p>Volto a recordar a interessante hist\u00f3ria do voc\u00e1bulo f\u00edgado quando esbarro, por puro acaso, em outra travessura aprontada pelo figo no reino das palavras. Sicofanta \u00e9 um substantivo de sabor antiquado que, se soa simpaticamente jocoso hoje em dia, por seu jeit\u00e3o de vov\u00f4, nada tem de leve: suas acep\u00e7\u00f5es principais s\u00e3o as de \u201cdelator\u201d e \u201cpessoa caluniadora, mentirosa\u201d.<\/p>\n<p>E o que o figo tem a ver com isso? Bom, consta que sicofanta veio do grego\u00a0<i>sykoph\u00e1ntes<\/i>, que tinha o complicado sentido de \u201cdenunciador dos que exportavam figos em contrabando ou dos que roubavam os frutos das figueiras sagradas\u201d, nas palavras do Houaiss. O dicion\u00e1rio brasileiro registra que h\u00e1 entre os etimologistas quem encare tal tese com alguma desconfian\u00e7a, por lhe faltar documenta\u00e7\u00e3o, mas o referencial Corominas, por exemplo, lhe d\u00e1 cr\u00e9dito. (Veja)<\/p>\n<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O figo, fruto da figueira, \u00e9 uma palavra derivada do latim\u00a0ficus\u00a0e presente em nossa l\u00edngua desde o s\u00e9culo XIII, mas sua simplicidade etimol\u00f3gica termina a\u00ed. Todo o resto que se liga a ele \u00e9 surpreendente. Seu curioso papel na origem da palavra f\u00edgado \u00e9 um cl\u00e1ssico. 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