{"id":192782,"date":"2017-05-11T11:02:59","date_gmt":"2017-05-11T14:02:59","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=192782"},"modified":"2017-05-11T11:02:59","modified_gmt":"2017-05-11T14:02:59","slug":"ian-mcewan-o-amor-nao-e-sempre-uma-virtude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ian-mcewan-o-amor-nao-e-sempre-uma-virtude\/","title":{"rendered":"Ian McEwan: \u201cO amor n\u00e3o \u00e9 sempre uma virtude\u201d"},"content":{"rendered":"<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">A vida do autor de \u2018Repara\u00e7\u00e3o\u2019 e \u2018Enclausurado\u2019 perpassa todos os seus romances<\/h2>\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Mas sua realidade, sacudida por um segredo familiar, ultrapassa em muito sua fic\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ian-mcewan-o-amor-nao-e-sempre-uma-virtude\/albert\/\" rel=\"attachment wp-att-192783\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-192783\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert-620x366.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert-620x366.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert-300x177.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert-768x454.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert-160x95.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert-640x378.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert.jpg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Anatxu Zabalbeascoa\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/anatxu_zabalbeascoa\/a\/\">ANATXU ZABALBEASCOA<\/a><\/p>\n<p>\u201cENT\u00c3O AQUI ESTOU, de cabe\u00e7a para baixo, dentro de uma mulher.\u201d <em>Enclausurado<\/em> (Companhia das Letras), o \u00faltimo romance de Ian McEwan (Aldershot, Reino Unido, 1948), \u00e9 uma tragicom\u00e9dia shakespeariana narrada por um feto t\u00e3o curioso quanto aterrorizado diante o mundo que o espera. O autor de <a href=\"http:\/\/www.anagrama-ed.es\/libro\/panorama-de-narrativas\/amsterdam\/9788433968906\/PN_430\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Amsterdam<\/em><\/a>, <a href=\"http:\/\/www.anagrama-ed.es\/libro\/panorama-de-narrativas\/sabado\/9788433970763\/PN_615\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>S\u00e1bado<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.anagrama-ed.es\/libro\/compactos\/el-inocente\/9788433914491\/CM_119\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>O Inocente<\/em><\/a> \u00e9 um dos escritores vivos que mais viram seus livros transformados em filmes. <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/keira_knightley\/a\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Keira Knightley<\/a> encarnou a mulher hist\u00e9rica de <em>Repara\u00e7\u00e3o<\/em> (no cinema, <em>Desejo e Repara\u00e7\u00e3o<\/em>), inspirada na doen\u00e7a que sua m\u00e3e sofreu, e Emma Thompson d\u00e1 vida agora \u00e0 ju\u00edza de <em>A Balada de Adam Henry<\/em>, seu pen\u00faltimo trabalho. A vida de McEwan aparece em fragmentos em seus romances, embora \u2013com a descoberta de um irm\u00e3o secreto 50 anos depois de ter sido dado para ado\u00e7\u00e3o durante a II Guerra Mundial\u2013 sua realidade ultrapasse qualquer fic\u00e7\u00e3o. O autor deu uma palestra em Barcelona para 600 pessoas durante o festival Kosmopolis. Horas depois, responde com serenidade \u00e0s perguntas mais pessoais, como se tivesse tudo pensado e delineado. Parece mais preocupado com o que acontece ao seu redor do que com o que gira em seu interior.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" data-google-query-id=\"COuY7uL_59MCFYgPkQodTwcEvg\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/cultura\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-integralas-id-48d1b03f-88b2-f1ca-0c24-da464eff88ac=\"\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Pergunta.<\/strong> Uma mulher quer matar o marido. Gr\u00e1vida de nove meses, bebe at\u00e9 cair. Um homem quer matar o irm\u00e3o. H\u00e1 adult\u00e9rio e um menino que v\u00ea tudo. <em>Enclausurado<\/em> \u00e9 t\u00e3o politicamente incorreto como Hamlet. Precisamos ser intr\u00e9pidos para nos divertirmos?<\/p>\n<p><strong>Resposta.<\/strong> Evidentemente uma pessoa pode se divertir sem ir contra a lei e, obviamente, matar seu marido n\u00e3o \u00e9 nem sequer divertido. Mas acho que Tolstoi se enganava quando dizia que as fam\u00edlias infelizes tinham cada uma sua hist\u00f3ria enquanto as felizes contavam sempre a mesma. H\u00e1 um milh\u00e3o de maneiras de ser feliz. O problema \u00e9 que a frase de Tolstoi \u00e9 t\u00e3o bonita que n\u00e3o nos damos conta de que n\u00e3o \u00e9 correta. Ningu\u00e9m se pergunta se \u00e9 ou n\u00e3o. Tem autoridade, mas nem toda a beleza \u00e9 verdade.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> \u00c9 mais intr\u00e9pido como escritor do que como pessoa?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Igual. O romance, como cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 embara\u00e7osamente revelador. Voc\u00ea mostra a sua natureza mesmo que n\u00e3o escreva sobre si mesmo. Voc\u00ea \u00e9 o seu romance, esse \u00e9 o problema e o fasc\u00ednio. Algu\u00e9m disse que ningu\u00e9m poderia escrever 500 palavras de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Por que decidiu que uma mulher mataria seu marido se na vida real s\u00e3o os maridos violentos os que majoritariamente assassinam suas esposas?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Bem, compartilham a culpa em partes iguais. Mas, sim, os assassinatos a cargo de homens superam amplamente os cometidos por mulheres. \u00c9 a natureza humana. Se uma pessoa analisa as estat\u00edsticas de Moscou, Los Angeles ou Pa\u00eds de Gales, a propor\u00e7\u00e3o entre assassinos e assassinas \u00e9 a mesma: de cada 100, 1 \u00e9 mulher. Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual quando aparece uma assassina ela chama a aten\u00e7\u00e3o. Parece contra a natureza. Nada agrada mais \u00e0 imprensa do que uma mulher malvada.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> D\u00e1 seus livros para serem lidos por leitores de confian\u00e7a?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Para Timothy Garton Ash, porque \u00e9 jornalista, e n\u00e3o romancista, mas tem um grande senso liter\u00e1rio. Tamb\u00e9m tenho a sorte de estar casado com Annalena McAfee, que foi editora liter\u00e1ria de <em>The Guardian<\/em> e do <em>Financial Times<\/em>.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> \u00c9 mais dura como cr\u00edtica desde que est\u00e3o casados?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> N\u00e3o, acho que \u00e9 mais suave. Eu a abrandei com amor.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Tornou-se importante demais para que seus amigos lhe digam a verdade?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Os editores me preocupam. Algu\u00e9m que poderia ser seu filho ou te estudou na universidade n\u00e3o diz que um livro n\u00e3o funciona, e um autor necessita de um pouco de ceticismo. Isso se pode obter da esposa ou de um amigo bem pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> E corajoso&#8230;<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Dei um manuscrito a um amigo, um poeta muito conhecido. Ele me disse que era horr\u00edvel. Eu me aborreci e n\u00e3o falei com ele por dois anos.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> E o publicou?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Sim. Era <em>The Comfort of Strangers<\/em>. Evidentemente eu n\u00e3o tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O senhor est\u00e1 sempre em sua escrita. Embaralha refer\u00eancias pessoais, mas seus narradores podem ser um feto \u2013<em>Enclausurado<\/em>\u2013 ou uma mulher fr\u00edgida \u2013<em>Na Praia<\/em>. Qu\u00e3o real tem de ser o que \u00e9 narrado para interessar ao leitor?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Eu me interesso muito mais pela inven\u00e7\u00e3o que pela autobiografia. Perguntam-me quando escreverei minhas mem\u00f3rias, mas como fazer isso se a dos outros n\u00e3o me interessa?<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Por isso Kafka \u00e9 seu autor favorito?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Sim. O cotidiano transformado por um ato extraordin\u00e1rio de imagina\u00e7\u00e3o. Kafka \u00e9 o escritor que me fez pensar que havia um caminho para que eu entrasse nessa conversa.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O que pede como leitor?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Estamos muito distra\u00eddos. Consultamos o celular uma m\u00e9dia de 120 vezes por dia, e um romance requer tempo. H\u00e1 uma tend\u00eancia a pensar que se voc\u00ea est\u00e1 lendo um livro \u00e9 porque n\u00e3o tem nada para fazer. Como leitor busco autoridade: se voc\u00ea l\u00ea a primeira p\u00e1gina, quase de imediato pode saber se est\u00e1 em boas m\u00e3os. A intelig\u00eancia \u00e9 crucial. N\u00e3o s\u00f3 a imagina\u00e7\u00e3o. Gosto de ler algu\u00e9m preparado para dizer algo sobre o mundo.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O feto narrador teme viver em um bloco de moradias que h\u00e1 ao lado de sua casa. \u00c9 a pior situa\u00e7\u00e3o que pode imaginar?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Um lugar ca\u00f3tico: drogas, televis\u00e3o sem fim e falta de cultura. Minha paix\u00e3o pela biologia me predisp\u00f5e a pensar que uma parte fundamental da personalidade depende dos genes, mas sei por experi\u00eancia que as circunst\u00e2ncias sociais da inf\u00e2ncia, quando falta amor ou educa\u00e7\u00e3o, determinam de modo colossal quem voc\u00ea \u00e9 e se voc\u00ea triunfa ou fracassa. N\u00e3o vou falar da minha fam\u00edlia, mas vi parentes dependerem dos servi\u00e7os sociais e de psiquiatras. Inevitavelmente, quando uma pessoa cai nesse caos, as drogas aparecem. Para minha gera\u00e7\u00e3o eram um s\u00edmbolo de libera\u00e7\u00e3o, mas hoje est\u00e3o enredadas com a pobreza, v\u00e3o de m\u00e3os dadas, como siameses. Para um rico, as drogas podem ser um luxo. Para os pobres s\u00e3o sempre um po\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Sentiu-se amado quando era crian\u00e7a?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Sim. Meu pai era um homem feroz, muito dominador, mas tamb\u00e9m brutalmente amoroso. Apesar de que o amor n\u00e3o \u00e9 sempre uma virtude, pode ser uma ferramenta muito controladora. Nunca estive de acordo com a can\u00e7\u00e3o dos Beatles <em>All You Need Is Love<\/em>. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso de intelig\u00eancia. Amor inteligente.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Como seu pai era militar, o senhor passou sua primeira d\u00e9cada de vida entre \u00c1frica e \u00c1sia. Foi mais marcado pelo exotismo de sua inf\u00e2ncia ou por sua adolesc\u00eancia em um internato ingl\u00eas?<\/p>\n<p><strong>R<\/strong>. Quando cheguei a Suffolk com 11 anos, e com meus pais a 15.000 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, me tornei um menino silencioso. Mas ser introvertido e t\u00edmido me salvou. Os abusadores me deixaram em paz porque eles se fixam nas personalidades marcantes. Quando tinha 15 anos me dei conta de que estava em um dos lugares mais bonitos da Terra. Aquele edif\u00edcio <em>palladiano<\/em> junto a um rio rodeado de florestas me parecia o c\u00e9u. Eu me apaixonei pela paisagem. Comecei a ler poesia, a abrir os olhos, a escutar m\u00fasica e a ter amigos maravilhosos.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Manifestou-se contra o islamismo<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Sou contra qualquer religi\u00e3o. N\u00e3o v\u00e3o desaparecer, mas como institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o demonstrando que n\u00e3o fazem com que as pessoas se comportem melhor. Acho que elas t\u00eam muitas explica\u00e7\u00f5es a dar sobre seu apoio \u00e0 repress\u00e3o sexual, a falta de curiosidade sobre o mundo e o tratamento das crian\u00e7as. Algu\u00e9m que n\u00e3o pode tratar bem as crian\u00e7as est\u00e1 em bancarrota \u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Foi um bom pai?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Estava sempre em casa e desfrutei dos meus filhos.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Por isso ficaram com voc\u00ea quando se divorciou?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ian-mcewan-o-amor-nao-e-sempre-uma-virtude\/albert1\/\" rel=\"attachment wp-att-192784\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-192784\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert1-333x500.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert1-333x500.jpg 333w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert1-200x300.jpg 200w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert1-160x240.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert1-640x961.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert1.jpg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> N\u00e3o falo dessa etapa, mas meus filhos contribu\u00edram com uma riqueza fant\u00e1stica \u00e0 minha vida. E devo dizer que, como muitos homens, n\u00e3o tinha a ambi\u00e7\u00e3o de t\u00ea-los. Por outro lado, minha ex-esposa tinha isso muito claro. Sem sua insist\u00eancia teria ficado sem algo extraordin\u00e1rio. O mais velho, William, tem 32 anos e \u00e9 cientista. Est\u00e1 em um momento crucial. Se n\u00e3o conseguir financiamento para seu projeto ter\u00e1 que trabalhar para outro pesquisador.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Tem netos?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Dois, deste filho e sua esposa. Meu outro filho, Greg, tem uma empresa de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas com a esposa, Sophie, que \u00e9 franco-libanesa. Acho que tamb\u00e9m v\u00e3o querer ter filhos pelo que observei. \u00c0s vezes olho fotos de quando eram pequenos e sinto como se fosse um grande amor que n\u00e3o vai voltar. Na inf\u00e2ncia nada dura. Tudo \u00e9 transi\u00e7\u00e3o. Mas acho que se tivermos filhos nossa morte importa um pouco menos.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Qual \u00e9 o grande romance sobre paternidade?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> N\u00e3o saberia dizer. Nem todos querem matar o pai. Acho que Freud estava errado. Em tudo.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O senhor viveu uma inf\u00e2ncia e quando adulto descobriu outra diferente. Chegou a entender seus pais?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> \u00c9 dif\u00edcil imaginar a exist\u00eancia de seus pais antes de sua chegada. O contexto social decide. Se voc\u00ea cresceu nos anos cinquenta, seus pais n\u00e3o falavam com voc\u00ea, davam ordens. Amavam voc\u00ea, mas n\u00e3o se sentavam para falar de Deus ou biologia. Na d\u00e9cada de sessenta, e esse \u00e9 o benef\u00edcio n\u00e3o analisado daquela d\u00e9cada, as rela\u00e7\u00f5es humanas entre adultos e crian\u00e7as ficaram mais relaxadas. N\u00e3o me lembro de nenhuma conversa transcendente com meus pais at\u00e9 ter 20 ou 30 anos, e fiz algumas perguntas. Saio de f\u00e9rias com meus filhos, mas quando tinha 17 anos tudo que queria era ir embora de casa.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Seus filhos n\u00e3o passaram por isso?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Pouco. Tudo ficou complicado com o div\u00f3rcio, mas, bom, a paternidade \u00e9 um campo inexplorado. Apesar de muitos esfor\u00e7os e problemas, a maioria das pessoas considera ter filhos como uma das experi\u00eancias fundamentais de sua vida. E isso n\u00e3o se reflete na literatura. Falei sobre o orgulho paterno em <em>S\u00e1bado<\/em>. E tendo escrito sobre viol\u00eancia, morte, disfun\u00e7\u00e3o sexual e qualquer mis\u00e9ria humana conceb\u00edvel, quando decidi contar algo feliz os cr\u00edticos se irritaram.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Por isso seus livros t\u00eam tantos assassinatos e finais infelizes?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Para agradar os cr\u00edticos, sim [risos]. Em <em>S\u00e1bado<\/em>, descrevi um homem que acorda e faz amor com sua esposa. Isso fez com que saltassem. Um, n\u00e3o lembro se foi John Banville, escreveu: \u201cMas de manh\u00e3 temos mau h\u00e1lito\u201d. Ah, \u00e9? Fale por voc\u00ea. A felicidade \u00e9 um tema perigoso. As pessoas perguntam como voc\u00ea se atreve a ser feliz da forma como anda o mundo. E, claro, \u00e9 uma boa pergunta.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> \u00c9 mais f\u00e1cil falar sobre sexo do que sobre amor?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> \u00c9 mais f\u00e1cil falar sobre amor. O amor existe ao longo do tempo e um romance pode refletir esse tempo. Escrever sobre sexo \u00e9 dif\u00edcil. Em <em>Enclausurado<\/em> tentei encontrar uma nova perspectiva.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Comicamente nova: o interior do \u00fatero. H\u00e1 desespero e t\u00e9dio sexual em 48 horas.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Tentei fazer um personagem masculino com a terr\u00edvel combina\u00e7\u00e3o entre banalidade e poder sexual. A pior coisa \u00e9 trope\u00e7ar com algu\u00e9m que exerce poder sexual sobre voc\u00ea e \u00e9 completamente est\u00fapido. Acontece com todo mundo. Em <em>Sonho de uma Noite de Ver\u00e3o<\/em> uma mulher se apaixona por um burro. Todos n\u00f3s temos amigos que se apaixonaram por um burro. Mas n\u00e3o podemos falar disso. Os burros s\u00e3o muito bem dotados: t\u00eam um p\u00eanis enorme.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Voc\u00ea diz aos seus amigos o que pensa dos parceiros deles?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Na vida real, o que acontece \u00e9 que cinco anos depois, quando as ru\u00ednas nos rodeiam e h\u00e1 sangue no tapete, teu amigo te diz: \u201cPor que voc\u00ea n\u00e3o me avisou?\u201d. Ele sabe e voc\u00ea sabe que \u00e9 imposs\u00edvel avisar.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Al\u00e9m de assassinatos e sexo, em seus romances h\u00e1 muito adult\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Suponho que sim. Nunca fui ad\u00faltero, devo dizer.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O adult\u00e9rio da sua m\u00e3e foi fundamental em sua vida.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Sim, enormemente. Voltando ao qu\u00e3o dif\u00edcil era conversar com os pais nos anos cinquenta, eu tinha o problema adicional de que meus pais guardavam um segredo: minha m\u00e3e havia tido um filho com o meu pai estando casada com outro homem e o tinha dado para ado\u00e7\u00e3o. Esse segredo atormentou toda a vida dela e quando eu soube entendi muitas coisas. Minha m\u00e3e viveu sob uma nuvem de tristeza e culpa. A grande trag\u00e9dia, de tipo quase shakespeariano, \u00e9 que quando meu irm\u00e3o apareceu a mente da minha m\u00e3e j\u00e1 n\u00e3o estava mais l\u00e1. Ela tinha dem\u00eancia senil. O mais triste \u00e9 que ele a tinha perdoado.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Como seu irm\u00e3o os encontrou?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Ele completou 60 anos e decidiu procurar a fam\u00edlia. O primeiro marido da minha m\u00e3e era um militar, como o meu pai. Em 1941, quando meu irm\u00e3o nasceu, esse marido estava fora, combatendo na Segunda Guerra Mundial. Para um militar, ter um relacionamento com uma mulher casada com outro militar que est\u00e1 lutando significava expuls\u00e3o imediata. Teria sido uma desgra\u00e7a social. Foi meu pai quem decidiu que minha m\u00e3e o desse para ado\u00e7\u00e3o. Vi o an\u00fancio no jornal. \u201cPrecisa-se de casa para beb\u00ea de seis semanas\u201d. E ent\u00e3o as palavras m\u00e1gicas: \u201cEntrega incondicional\u201d. \u00c9 um termo militar. Meu pai escreveu o an\u00fancio.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> A morte de seu pai foi libertadora?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Em 1989 ele sofreu um ataque card\u00edaco e pensei que eu deveria perguntar a ele sobre sua vida e gravar o que dissesse. Est\u00e1vamos conversando e bebendo havia tr\u00eas horas \u2013ele era um grande bebedor\u2013 quando perguntei como tinha conhecido a minha m\u00e3e e ele perdeu a paci\u00eancia: \u201cComo voc\u00ea se atreve a perguntar uma coisa dessas? Desligue esse maldito gravador\u201d. Percebi que tinha tocado em algo sens\u00edvel: ele n\u00e3o tinha conhecido a minha m\u00e3e em 1946. Isso aconteceu em 1941. Tiveram um beb\u00ea e isso se tornou um segredo deles.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Mas o senhor n\u00e3o soube disso naquele momento.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> N\u00e3o. Achei que tinha bebido demais. Minha m\u00e3e confirmou a mentira em lealdade ao meu pai.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> E lealdade para com o senhor?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Minha m\u00e3e tinha dois filhos de seu marido anterior. Sempre me mantiveram longe deles. Ent\u00e3o eu entendi. Reescrevemos nosso passado quando vamos recebendo informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O senhor faz novos amigos depois de se tornar uma figura p\u00fablica?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Voc\u00ea lida com muita gente que n\u00e3o teria conhecido. Mas meus amigos escritores Martin Amis, Julian Barnes, Salman Rushdie, Christopher Hitchens e poetas como James Fenton eu os conheci em 1974, antes de publicar nossos primeiros livros. Hitchens me foi apresentado por Martin. No dia seguinte, minhas costelas do\u00edam de tanto rir, como se tivessem me batido.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Todos eles s\u00e3o grandes bebedores?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> N\u00e3o t\u00e3o grandes. Claro que bebemos vinho, mas temos a sorte de sermos capazes de nos controlar. A bebida pode ser algo muito destrutivo para os escritores, mas n\u00e3o destruiu nenhum de n\u00f3s. Bem, Christopher sim, ao menos em parte.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Em suas mem\u00f3rias, Hitchens percebe o quanto bebe, mas diminui a import\u00e2ncia disso porque \u00e9 capaz de escrever 1.000 palavras por dia.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Quando ele se tornou famoso, cigarros e whisky tornaram-se parte de uma heroica estupidez ao inv\u00e9s de uma depend\u00eancia horr\u00edvel. Ent\u00e3o, quando come\u00e7ou a ser tarde demais, ele quis parar e eu acho que a dor de se ver morrer chegava a ele pelo amor que sentia pela filha. Perceber que n\u00e3o a veria como universit\u00e1ria fez com que todo aquele tabaco e \u00e1lcool fosse desmascarado como algo muito pouco heroico. Perdi muitos amigos escritores por causa do tabaco: Malcolm Bradbury, Ian Hamilton&#8230; \u00c9 t\u00e3o viciante quanto a hero\u00edna.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O senhor j\u00e1 fumou?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Sinto repugn\u00e2ncia. Constru\u00ed uma explica\u00e7\u00e3o freudiana: quando tinha tr\u00eas anos, meu pai ficava fora durante toda a semana e voltava aos s\u00e1bados. De segunda a sexta eu vivia placidamente com minha m\u00e3e. No s\u00e1bado, um homem ruidoso, peludo e rodeado de fuma\u00e7a invadia a casa.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Entre seus amigos escritores, o humor \u00e9 uma arma fundamental. Por que rir \u00e9 sinal de intelig\u00eancia e n\u00e3o sinal de escapismo?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> H\u00e1 uma convic\u00e7\u00e3o entre os intelectuais brit\u00e2nicos que decreta como um dever o fato de ser divertido.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O senhor defendeu a invas\u00e3o do Iraque.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> N\u00e3o. A possibilidade de derrubar Saddam era atraente, mas podia sentir o cheiro do desastre. Essa ideia vem de uma leitura equivocada de <em>S\u00e1bado<\/em>, no qual um personagem faz uma defesa da invas\u00e3o. Eu n\u00e3o a defendi, mas gente como Banville disse que eu o havia feito. Christopher [Hitchens] era a favor. Sua defesa era muito argumentada. E nunca se arrependeu. Nem mesmo antes de morrer: tinha ido longe demais para voltar atr\u00e1s<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O senhor j\u00e1 foi longe demais em algo para n\u00e3o poder voltar atr\u00e1s?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> N\u00e3o. Eu nunca fui t\u00e3o audacioso como Christopher. Ele era capaz de assumir pontos de vista pouco populares. Era brilhante e audacioso de uma maneira que n\u00e3o voltei a ver.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O senhor Escreveu contra a <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/referendum_permanencia_reino_unido_ue\/a\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Brexit<\/a> no <em>The Guardian<\/em> e no <em>The Mail on Sunday<\/em>.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Se alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam o direito de buscar ou apoiar a separa\u00e7\u00e3o, n\u00f3s temos o direito de perseguir a Uni\u00e3o. Mas no momento em que fazem de voc\u00ea um inimigo das pessoas fica mais dif\u00edcil faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Sua esposa era a favor da independ\u00eancia escocesa e o senhor a favor da uni\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> N\u00e3o existem escritores ou poetas brit\u00e2nicos. Existem poetas ingleses e romancistas escoceses. Mesmo estando unidos, pudemos ter imagina\u00e7\u00f5es separadas. Nesse caso, a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante do que a pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O senhor sente falta de viver em outros lugares?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> \u00c9 importante sair e se colocar \u00e0 prova, mas a Inglaterra \u00e9 o meu tema. Se tivesse 22 anos eu iria para Berlim. Vou comer regularmente com Tim Garton Ash e na \u00faltima vez ele me contou que se <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/05\/06\/internacional\/1494093753_455819.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Le Pen<\/a> ganhasse, muitos judeus franceses emigrariam. Quando perguntei aonde iriam, ele me pediu para adivinhar: para a Alemanha. Que guinada da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"nota_pie\">A jornalista e historiadora Anatxu Zabalbeascoa escreve sobre arquitetura e design no EL PA\u00cdS e em livros como \u2018The New Spanish Architecture\u2019, \u2018Las Casas del Siglo\u2019, \u2018Miminimalismos\u2019 e \u2018Vidas Construidas, Biograf\u00edas de Arquitectos\u2019.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida do autor de \u2018Repara\u00e7\u00e3o\u2019 e \u2018Enclausurado\u2019 perpassa todos os seus romances<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":192783,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-192782","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/albert.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192782","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=192782"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192782\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/192783"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=192782"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=192782"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=192782"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}