{"id":193511,"date":"2017-05-15T06:22:44","date_gmt":"2017-05-15T09:22:44","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=193511"},"modified":"2017-05-15T06:22:44","modified_gmt":"2017-05-15T09:22:44","slug":"margaret-atwood-maldita-profecia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/margaret-atwood-maldita-profecia\/","title":{"rendered":"Margaret Atwood: Maldita profecia"},"content":{"rendered":"<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo articulo-titulo--cursiva\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Autora canadense escreve novo pref\u00e1cio para &#8216;O Conto da Aia&#8217;, sobre uma ditadura anti-feminista<\/em><\/h2>\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Texto \u00e9 base de s\u00e9rie com mesmo nome original, &#8216;The Handmaid&#8217;s Tale&#8217;, que ainda n\u00e3o estreou no Brasil<\/h2>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Margaret Atwood\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/el_pais\/a\/\">MARGARET ATWOOD<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_193513\" aria-describedby=\"caption-attachment-193513\" style=\"width: 1960px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/margaret-atwood-maldita-profecia\/freiras-capuchinhas\/\" rel=\"attachment wp-att-193513\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-193513 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freiras-capuchinhas.jpg\" alt=\"\" width=\"1960\" height=\"1108\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freiras-capuchinhas.jpg 1960w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freiras-capuchinhas-300x170.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freiras-capuchinhas-768x434.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freiras-capuchinhas-620x350.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freiras-capuchinhas-160x90.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freiras-capuchinhas-480x270.jpg 480w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freiras-capuchinhas-640x362.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 1960px) 100vw, 1960px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-193513\" class=\"wp-caption-text\">Mulheres vestidas de aias para uma campanha promocional da s\u00e9rie de televis\u00e3o &#8216;The Handmaid&#8217;s Tale&#8217;, que ainda n\u00e3o estreou no Brasil. HUTTON SUPANCIC GETTY<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primavera de 1984 comecei a escrever um romance que inicialmente n\u00e3o ia se chamar <a href=\"http:\/\/www.livrariacultura.com.br\/p\/livros\/literatura-internacional\/contos-e-cronicas\/o-conto-da-aia-1692354\"><em>O Conto da Aia<\/em><\/a>. Escrevi \u00e0 m\u00e3o, quase sempre em uns cadernos amarelos com pauta, e depois transcrevia meus rabiscos quase ileg\u00edveis com uma gigantesca m\u00e1quina de escrever alugada, com teclado alem\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CI2eqLvI8dMCFdeDkQodRwcCTg\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/eps\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/eps\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/eps\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-integralas-id-f56e49a8-57b3-675a-5668-d0e77dc80507=\"\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava h\u00e1 um ou dois anos evitando enfrentar esse livro. Parecia um empreendimento arriscado. Tinha lido a fundo muita <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ciencia_ficcion\/a\">fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/a>, fic\u00e7\u00e3o especulativa, utopias e distopias, desde o tempo da escola, l\u00e1 pelos anos cinquenta, mas nunca tinha escrito um livro desse tipo. Seria capaz?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1984, a premissa principal parecia um tanto excessiva, mesmo para mim. Convenceria os leitores de que nos <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estados_unidos\/a\">Estados Unidos<\/a> tinha ocorrido um golpe de Estado que transformou a democracia liberal at\u00e9 ent\u00e3o existente em uma ditadura teocr\u00e1tica que levava tudo ao p\u00e9 da letra? No livro, a Constitui\u00e7\u00e3o e o Congresso n\u00e3o existem mais; a Rep\u00fablica de Gilead se levanta sobre os fundamentos das ra\u00edzes do puritanismo do s\u00e9culo XVII, que sempre estiveram sob a Am\u00e9rica moderna que pens\u00e1vamos conhecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro, a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 em decl\u00ednio por causa da <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/contaminacion_atmosferica\/a\">polui\u00e7\u00e3o ambiental<\/a> e diminui a capacidade de ter filhos. Como nos <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/totalitarismo\/a\">regimes totalit\u00e1rios<\/a> \u2013 ou em qualquer sociedade radicalmente hierarquizada \u2013, a classe dominante monopoliza tudo que tem algum valor e a elite do regime consegue dividir entre si as f\u00eameas f\u00e9rteis como Aias. Isso tem um <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/la_biblia\/a\">precedente b\u00edblico<\/a> na hist\u00f3ria de Jac\u00f3, suas duas esposas, Raquel e Lia, e as duas empregadas delas. Um homem, quatro mulheres e doze descendentes que as criadas n\u00e3o podiam reivindicar. Pertenciam \u00e0s esposas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dos anos, <em>O Conto da Aia<\/em> adotou muitas formas diferentes. Foi traduzido a 40 l\u00ednguas, ou talvez mais. Em 1989, foi adaptada ao <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/05\/12\/eps\/brasil.elpais.com\/tag\/cine\/a\">cinema<\/a>. Foi uma \u00f3pera e um bal\u00e9. Est\u00e1 sendo feita uma <em>graphic novel.<\/em> E logo vai estrear uma <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/series_tv\/a\">s\u00e9rie de televis\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Participei nas filmagens desta \u00faltima com uma pequena participa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma cena na qual as Aias rec\u00e9m-contratadas s\u00e3o submetidas a uma lavagem cerebral, no estilo praticado pelos Guardas Vermelhos. Devem aprender a renunciar a suas antigas identidades, a assimilar o lugar e as obriga\u00e7\u00f5es que correspondem, a entender que n\u00e3o t\u00eam nenhum direito real, mas que v\u00e3o obter prote\u00e7\u00e3o, at\u00e9 certo ponto, desde que sejam capazes de se conformar e ter baixa estima para aceitar o destino que lhes \u00e9 atribu\u00eddo sem se rebelar ou fugir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As Aias est\u00e3o sentadas em c\u00edrculo, enquanto as Tias, equipadas com suas varas el\u00e9tricas, for\u00e7am todas a participar no que agora \u2013 n\u00e3o em 1984 \u2013 \u00e9 chamado de \u201ca desonra das vagabundas\u201d contra uma delas, Jeanine, que \u00e9 obrigada a relatar o estupro grupal que sofreu na adolesc\u00eancia. \u201cFoi culpa dela, ela provocou\u201d, gritam as outras Aias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora seja apenas uma s\u00e9rie de TV, a cena me produziu um choque horr\u00edvel. Era muito parecido, demais, com a hist\u00f3ria. Sim, as mulheres se unem para atacar outras mulheres. Sim, acusam as outras para se livrarem delas: vemos com absoluta transpar\u00eancia na era das <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/redes_sociales\/a\">redes sociais<\/a>, que tanto favorecem a forma\u00e7\u00e3o de enxames. Sim, aceitam encantadas situa\u00e7\u00f5es que lhes d\u00e3o poder sobre outras mulheres, mesmo \u2013 e talvez especialmente \u2013 em sistemas que no geral concedem escasso poder \u00e0s mulheres: no entanto, todo poder \u00e9 relativo e em tempos dif\u00edceis \u00e9 evidente que ter pouco \u00e9 melhor do que n\u00e3o ter nenhum. Algumas das Tias que exercem o controle s\u00e3o verdadeiras crentes e acham que est\u00e3o fazendo um favor \u00e0s Aias: pelo menos n\u00e3o foram enviadas para limpar res\u00edduos t\u00f3xicos; pelo menos, neste mundo novo feliz, ningu\u00e9m vai viol\u00e1-las, ou n\u00e3o exatamente, ou pelo menos quem as violar n\u00e3o \u00e9 um desconhecido. Entre as Tias algumas s\u00e3o s\u00e1dicas. Outras s\u00e3o oportunistas. E serve para elas pegar algumas das reivindica\u00e7\u00f5es favoritas do feminismo de 1984 \u2013 como as campanhas contra a pornografia e a exig\u00eancia de maior seguran\u00e7a contra os ataques sexuais \u2013 e us\u00e1-los em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Como dizia: a vida real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que me leva \u00e0s tr\u00eas perguntas que me fazem com frequ\u00eancia. A primeira: <em>O Conto da Aia<\/em> \u00e9 um romance <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/feminismo\/a\">feminista<\/a>? Se isso significa que \u00e9 um tratado ideol\u00f3gica no qual todas as <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/mujeres\/a\/\">mulheres<\/a> s\u00e3o anjos ou est\u00e3o vitimizadas e, portanto, perderam a capacidade de escolher moralmente, n\u00e3o. Se quer dizer que \u00e9 um romance no qual as mulheres s\u00e3o seres humanos e al\u00e9m disso s\u00e3o interessantes e importantes, e o que acontece com elas \u00e9 crucial para o tema, a estrutura e o enredo do livro&#8230; Ent\u00e3o, sim. Nesse sentido, muitos livros s\u00e3o \u201cfeministas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_193512\" aria-describedby=\"caption-attachment-193512\" style=\"width: 720px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/margaret-atwood-maldita-profecia\/freira-gravida\/\" rel=\"attachment wp-att-193512\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-193512 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freira-gravida.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"1081\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freira-gravida.jpg 720w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freira-gravida-200x300.jpg 200w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freira-gravida-333x500.jpg 333w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freira-gravida-160x240.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freira-gravida-640x961.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-193512\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Anna e Elena Balbusso para a edi\u00e7\u00e3o de &#8216;O Conto da Aia&#8217; da The Folio Society<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que s\u00e3o interessantes e importantes? Porque na vida real as mulheres s\u00e3o interessantes e importantes. N\u00e3o s\u00e3o um subproduto da natureza, n\u00e3o representam um papel secund\u00e1rio no destino da humanidade, e todas as sociedades souberam disso. Sem mulheres capazes de dar \u00e0 luz, a popula\u00e7\u00e3o humana seria extinta. Por isso as <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/violencia_genero\/a\">viola\u00e7\u00f5es em massa<\/a> e o assassinato de mulheres, garotas e meninas foi uma caracter\u00edstica comum das guerras genocidas, ou de qualquer a\u00e7\u00e3o destinada a subjugar e explorar uma popula\u00e7\u00e3o. O controle das mulheres e seus descendentes foi a base de todo regime repressivo do planeta. Napole\u00e3o e sua \u201cbucha de canh\u00e3o\u201d, a escravid\u00e3o e a mercadoria humana, uma pr\u00e1tica eternamente renovada: ambos se encaixam aqui. Ter\u00edamos que perguntar \u00e0queles que promovem a maternidade for\u00e7ada: <em>Cui bono?<\/em> Quem se beneficia? \u00c0s vezes um setor, \u00e0s vezes, outro. Nunca ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda: <em>O Conto da Aia<\/em> \u00e9 um romance contra a <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/religion\/a\">religi\u00e3o<\/a>? Mais uma vez, depende do que se quer dizer. \u00c9 verdade, um grupo de homens autorit\u00e1rios assume o controle e tenta estabelecer uma vers\u00e3o extrema do patriarcado no qual as mulheres (como os escravos americanos no s\u00e9culo XIX) est\u00e3o proibidos de ler. Mais ainda, n\u00e3o podem ter nenhum controle sobre o dinheiro ou trabalhar fora de casa. O regime usa s\u00edmbolos b\u00edblicos, como, sem d\u00favida, faria qualquer regime autorit\u00e1rio que quisesse dominar os Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As roupas recatadas das mulheres em Gilead v\u00eam da iconografia religiosa ocidental: as Esposas usam o azul da pureza, da Virgem Maria; as Aias usam vermelho pelo sangue do parto, mas tamb\u00e9m por Maria Madalena. Al\u00e9m disso, o vermelho \u00e9 mais f\u00e1cil de ver se voc\u00ea quiser fugir. Muitos regimes totalit\u00e1rios recorreram \u00e0 roupa \u2013 tanto proibindo alguns itens, como obrigando a usar outros \u2013 para identificar e controlar as pessoas \u2013 pensemos nas estrelas amarelas, e no roxo dos <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/antigua_roma\/a\">romanos<\/a> \u2013, e em muitos casos se esconderam atr\u00e1s da religi\u00e3o para governar. Assim \u00e9 muito mais f\u00e1cil apontar os hereges.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro, a <em>religi\u00e3o<\/em> dominante se ocupa de conseguir o controle doutrin\u00e1rio e consegue aniquilar as denomina\u00e7\u00f5es religiosas que s\u00e3o familiares. Como os bolcheviques destru\u00edram os mencheviques para eliminar a concorr\u00eancia pol\u00edtica, e as v\u00e1rias fac\u00e7\u00f5es dos Guardas Vermelhos lutaram entre si at\u00e9 a morte, <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/iglesia_catolica\/a\">cat\u00f3licos<\/a> e batistas se transformam em objeto de identifica\u00e7\u00e3o e aniquila\u00e7\u00e3o. Os quakers passaram para a clandestinidade e montaram uma rota de fuga para o <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/canada\/a\">Canad\u00e1<\/a>. Ent\u00e3o, o livro n\u00e3o \u00e9 contra a religi\u00e3o. \u00c9 contra o uso da religi\u00e3o como uma fachada para a tirania: s\u00e3o coisas muito diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O Conto da Aia<\/em> \u00e9 uma previs\u00e3o? \u00c9 a terceira pergunta que costumam me fazer com mais frequ\u00eancia, \u00e0 medida que certas for\u00e7as da sociedade norte-americana ocupam o poder e aprovam decretos incorporando o que sempre tinham dito que queriam fazer, mesmo em 1984, quando comecei a escrever o romance. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9. Digamos que \u00e9 uma antiprevis\u00e3o: se este futuro pode ser descrito em detalhe, talvez n\u00e3o chegue a ocorrer. Mas n\u00e3o podemos confiar muito nessa ideia bem-intencionada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O Conto da Aia<\/em> baseou-se em muitas facetas diferentes: execu\u00e7\u00f5es grupais, leis suntuosas, <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/inquisicion\/a\">queima de livros<\/a>, o programa Lebensborn da SS e o <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/04\/28\/internacional\/1430220144_394962.html\">roubo de crian\u00e7as na Argentina<\/a> pelos generais, a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o, a hist\u00f3ria da poligamia nos Estados Unidos&#8230; A lista \u00e9 longa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas falta uma forma liter\u00e1ria \u00e0 qual n\u00e3o mencionei: a <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/literatura\/a\">literatura<\/a> testemunhal. Offread registra sua hist\u00f3ria apenas como pode; depois, esconde-a com a confian\u00e7a de que, com o passar dos anos, ser\u00e1 descoberta por algum ser livre, capaz de entender e compartilhar. \u00c9 um ato de esperan\u00e7a: toda hist\u00f3ria pressup\u00f5e um futuro leitor. Robinson Cruso\u00e9 mantinha um di\u00e1rio. Tamb\u00e9m Samuel Pepys, Rom\u00e9o Dallaire e <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ana_frank\/a\">Anne Frank<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois das recentes elei\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos, proliferam medos e ansiedades. D\u00e1 a impress\u00e3o de que as liberdades civis b\u00e1sicas est\u00e3o em perigo, tamb\u00e9m muitos dos direitos conquistados pelas mulheres nas \u00faltimas d\u00e9cadas, mesmo ao longo dos s\u00e9culos passados. Neste clima de divis\u00e3o, em que parece estar crescendo a proje\u00e7\u00e3o de \u00f3dio contra muitos grupos e extremistas de toda denomina\u00e7\u00e3o expressam seu desprezo \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, temos a certeza de que, em algum lugar, algu\u00e9m \u2013 muitas pessoas, ouso dizer \u2013 est\u00e1 anotando tudo o que acontece a partir de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia. Ou talvez recordem e escrevam mais tarde, se puderem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suas mensagens ficar\u00e3o escondidas e reprimidas? V\u00e3o aparecer, s\u00e9culos mais tarde, em uma casa velha, dentro de uma parede Vamos manter a esperan\u00e7a de que n\u00e3o chegaremos a isso. Eu confio que isso n\u00e3o vai acontecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autora canadense escreve novo pref\u00e1cio para &#8216;O Conto da Aia&#8217;, sobre uma ditadura anti-feminista<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":193513,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-193511","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/freiras-capuchinhas.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/193511","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=193511"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/193511\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/193513"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=193511"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=193511"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=193511"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}