{"id":193516,"date":"2017-05-15T06:36:32","date_gmt":"2017-05-15T09:36:32","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=193516"},"modified":"2017-05-15T06:36:32","modified_gmt":"2017-05-15T09:36:32","slug":"tango-amor-e-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/tango-amor-e-odio\/","title":{"rendered":"Tango, amor e \u00f3dio"},"content":{"rendered":"<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Mar\u00eda Nieves Rego, que agora ganha um filme sobre sua vida, dan\u00e7ou a vida ao lado de Juan Carlos Copes<\/em><\/h2>\n<p><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Leila Guerriero\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/leila_guerriero\/a\/\">LEILA GUERRIERO<\/a><\/p>\n<p>Recolhe o prato do jantar, vai at\u00e9 a cozinha e o lavabo. Retorna \u00e0 pequena mesa que est\u00e1 grudada \u00e0 parede no vest\u00edbulo e reexamina as caixas de rem\u00e9dios para ver se se esqueceu de tomar algum (embora tenha perdido a f\u00e9 em que os medicamentos sirvam para alguma coisa). Senta-se no sof\u00e1 da sala, as costas contra as almofadas impec\u00e1veis, como tamb\u00e9m est\u00e1 impec\u00e1vel o m\u00f3vel da televis\u00e3o e o pequeno banheiro impec\u00e1vel e o impec\u00e1vel quarto em que dorme e no qual, sobre uma c\u00f4moda, h\u00e1 retratos dela mesma, imponente e empertigada, o cabelo curt\u00edssimo, os olhos solares, fumando com piteira; e tamb\u00e9m est\u00e3o impec\u00e1veis o quarto onde guarda os vestidos de baile dos \u00faltimos anos \u2013 pretos, com brilhos e decotes colossais \u2013 e o pequeno p\u00e1tio impec\u00e1vel com o varal de estender a roupa que lava \u00e0 m\u00e3o porque n\u00e3o tem m\u00e1quina de lavar roupas. Talvez d\u00ea algumas pitadas no <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/05\/09\/ciencia\/1462789880_002775.html\">cigarro eletr\u00f4nico<\/a>. Talvez, agora que desligou o r\u00e1dio que permanecia ligado desde a manh\u00e3, veja um programa no <a href=\"http:\/\/natgeotv.com\/\">NatGeo<\/a>. Talvez revise as coisas que tem de fazer no dia seguinte: ir ao supermercado, telefonar para algu\u00e9m. A persiana do apartamento \u2013 num andar t\u00e9rreo que d\u00e1 para a rua num bairro de <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/buenos_aires\/a\">Buenos Aires<\/a> perto de Palermo \u2013 est\u00e1 abaixada, mas sempre est\u00e1 abaixada: de dia, de noite. S\u00e3o oito horas. Em breve ir\u00e1 dormir. Essa \u00e9 a vida agora? Essa \u00e9 a vida agora?<\/p>\n<p>No princ\u00edpio \u00e9 a voz. Uma voz ao telefone que soa \u00e1spera, inquieta, que diz \u201cAl\u00f4\u201d como quem pergunta \u201cQuem est\u00e1 me incomodando?\u201d, e que s\u00f3 depois se lan\u00e7a em uma conversa irritadi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Agora nem me maquio. Para qu\u00ea? Se j\u00e1 deixei de dan\u00e7ar. Depois do filme, disse: \u201cVou descansar\u201d, e desabei. As art\u00e9rias entupiram e n\u00e3o posso dan\u00e7ar. O m\u00e9dico me disse que, se for operada, fico pior. Desde os 11 eu fumava quarenta ou cinquenta cigarros por dia, menina. Agora tenho dor quando caminho, come\u00e7o a mancar, e n\u00e3o gosto que as pessoas me vejam assim. Jurei a mim mesma que ningu\u00e9m iria me ver decadente. Sempre fui reticente \u00e0 imprensa. Agora, como j\u00e1 tenho minha biografia e um <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt4937156\/\">filme<\/a>, digo que quem quiser saber algo que veja isso. Mas se voc\u00ea quiser, venha e conversamos. Ligue-me um dia antes, para o caso de eu me esquecer.<\/p>\n<\/div>\n<figure id=\"attachment_193517\" aria-describedby=\"caption-attachment-193517\" style=\"width: 720px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/tango-amor-e-odio\/tango\/\" rel=\"attachment wp-att-193517\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-193517 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"1082\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango.jpg 720w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-200x300.jpg 200w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-333x500.jpg 333w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-160x240.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-640x962.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-193517\" class=\"wp-caption-text\">Com Juan Carlos Copes em um est\u00fadio de TV, nos anos 1970. ARQUIVO PESSOAL<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, no dia anterior \u00e0 entrevista, Mar\u00eda Nieves Rego (82 anos, a bailarina de tango mais emblem\u00e1tica da <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/argentina\/a\">Argentina<\/a>, ao lado de Juan Carlos Copes \u2013 seu parceiro de dan\u00e7a durante mais de quatro d\u00e9cadas, seu par de tudo o mais durante per\u00edodos intermitentes nunca muito claros \u2013 formou a dupla de tango de palco mais reconhecida de todos os tempos, dan\u00e7ando no programa de Ed Sullivan e na Casa Branca, girando por meio mundo) n\u00e3o se esqueceu. Nesse dia o telefone toca poucas vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ah, menina. Claro, estou te esperando. Mas n\u00e3o sei do que vamos falar, pois j\u00e1 tenho a biografia, e o filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A biografia <a href=\"http:\/\/www.planetadelibros.com.ar\/soy-tango-libro-171386.html\">se intitula <em>Soy Tango<\/em><\/a>, sua autora \u00e9 a jornalista Mar\u00eda Oliva, e foi publicada pela Planeta em 2014. O filme \u00e9 <em>O \u00daltimo Tango<\/em>, seu diretor \u00e9 o argentino radicado na Alemanha Germ\u00e1n Kral, tem dire\u00e7\u00e3o executiva de Wim Wenders e \u00e9 de 2015. Ela considera que essas duas formas de exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica s\u00e3o suficientes para que se conhe\u00e7am sua vida e obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o me v\u00e1 tomar um dia inteiro, hein. Nem dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A campainha soa com tanta for\u00e7a dentro do apartamento que d\u00e1 para ouvir da rua. Segundos depois, Mar\u00eda Nieves cruza o <em>hall<\/em> do edif\u00edcio com passo el\u00e1stico. Tem o cabelo curto e um sorriso de palco: genu\u00edno e, ao mesmo tempo, uma grande constru\u00e7\u00e3o pensada para se projetar at\u00e9 a \u00faltima fila da plateia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Oi, menina, entre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No apartamento h\u00e1 um r\u00e1dio ligado em volume discreto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sente-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No vest\u00edbulo, sobre uma mesa pequena, entre caixas com <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/medicamentos\/a\">rem\u00e9dios<\/a>, h\u00e1 um pacote de cigarros e um cigarro eletr\u00f4nico. O piso de madeira brilha como cada objeto de decora\u00e7\u00e3o, como cada m\u00f3vel. Tudo est\u00e1 mergulhado na luz de uma l\u00e2mpada de baixo consumo, mas ainda nessa semi-penumbra se pode ver que \u00e9 uma casa refrat\u00e1ria ao caos, um lugar onde as coisas est\u00e3o polidas at\u00e9 a medula, como se tudo \u2013 as paredes, o piso, os enfeites \u2013 tivesse acabado de ser mergulhado em um enorme tanque de l\u00edquido de limpeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Agora est\u00e1 tudo desse jeito. Quando eu estava bem, voc\u00ea n\u00e3o imagina como eu limpava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem dedos compridos e unhas fortes que brilhavam quando posava, at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, em fotos nas quais aparece fumando com piteira, o corte do vestido expondo a perna at\u00e9 a virilha.<\/p>\n<figure id=\"attachment_193518\" aria-describedby=\"caption-attachment-193518\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/tango-amor-e-odio\/maria-boa\/\" rel=\"attachment wp-att-193518\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-193518 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-boa-620x318.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-boa-620x318.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-boa-300x154.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-boa-160x82.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-boa-640x328.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-boa.jpg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-193518\" class=\"wp-caption-text\">Mar\u00eda Nieves em imagem recente e em 1959, em Nova York.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Comprei este cigarro eletr\u00f4nico h\u00e1 um ano. Tenho que me controlar. Pelas art\u00e9rias. Depois do filme elas entupiram, desculpe, at\u00e9 o rabo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Usa um fraseado <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/teatro\/a\">teatral<\/a>, modulado, fazendo pausas dram\u00e1ticas, com frases recheadas de grosserias leves e uma g\u00edria descarada \u2013 como <em>bac\u00e1n<\/em> (pessoa que gosta de ostentar), <em>yeite<\/em> (sacada), <em>cajetilla<\/em> (metida a fina) \u2013 que viajou com ela desde o s\u00e9culo passado, como tantas outras coisas viajaram com ela: as pernas compridas, o v\u00edcio na lasc\u00edvia do <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/tango\/a\">tango<\/a>, o olhar malicioso que j\u00e1 tinha em fotos que a mostram, nos anos cinquenta, autoconsciente de uma beleza v\u00e2ndala, libidinosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea vai se assustar com o quanto sou mal-educada. Jamais imaginei que um filme desse tanto trabalho. E o diretor queria a briga com o Copes. Eu n\u00e3o quero nem falar no nome do Copes. Reconhe\u00e7o que foi o melhor dan\u00e7arino de tango. Mas como sujeito, n\u00e3o. Eu j\u00e1 quero apagar a minha hist\u00f3ria. N\u00e3o quero que me encham mais. N\u00e3o posso mais fazer o que fiz a minha vida inteira, que \u00e9 <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/danza\/a\">dan\u00e7ar<\/a>. Ent\u00e3o, falar n\u00e3o me interessa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Our Last Tango - Trailer 2016 - Juan Carlos Copes, Mar\u00eda Nieves Rego - Documentary\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6BXWjKFt3Vo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um manejo excelso das inflex\u00f5es de voz faz com que, em certos momentos, pare\u00e7a uma mulher de mansid\u00e3o absoluta e, em outros, um drag\u00e3o surpreendido em c\u00f3lera deslumbrante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Bom, vamos come\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Rego Rico. Entregador de leite. Galego chegado \u00e0 <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/argentina\/a\">Argentina<\/a> num ano indetermin\u00e1vel do s\u00e9culo XX. Marido de Josefa Freire P\u00e9rtega, galega chegada a Argentina num ano indetermin\u00e1vel do s\u00e9culo XX. Pais de cinco filhos. Dois mais velhos \u2013 Alfredo, \u00d1ata \u2013 e dois mais novos: Cristina (<em>Pirucha<\/em>) e Cacho. No meio, dividindo as \u00e1guas, nove anos de diferen\u00e7a com Cristina, Mar\u00eda Nieves, vinda ao mundo em 6 de setembro de 1934 num hospital p\u00fablico e rapidamente transferida para o corti\u00e7o do bairro de Saavedra onde a fam\u00edlia vivia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Minha m\u00e3e, coitada, uma submissa total. Nem falava. Meu pai, um filho da puta, um abusador. N\u00e3o a deixava falar \u00e0 mesa. \u201cCale a boca\u201d, dizia-lhe, e <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/violencia_genero\/a\">lhe dava uma bofetada.<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida da Mar\u00eda Nieves parece, desde o come\u00e7o, um tango detest\u00e1vel: <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/violencia_genero\/a\">um pai brutal, uma m\u00e3e analfabeta e submissa<\/a> que inculcava em seus filhos o pudor e a virtude do perd\u00e3o, a vida em corti\u00e7os sem banheiro, a vida sem dinheiro, a vida sem comida nem roupa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu n\u00e3o tinha brinquedos, por isso brincava com um sif\u00e3o de \u00e1gua. Punha um paninho no bico e era a cabecinha. Dava beijinhos e dizia: \u201cVou te levar no m\u00e9dico\u201d. Ao lado vivia minha madrinha. Quando ela me convidava para comer eu queria comer at\u00e9 a panela. A <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/hambre\/a\">fome<\/a> \u00e9 uma coisa feia. E o desejo. Querer beber dessa garrafa e n\u00e3o poder e desej\u00e1-la. \u00c9 feio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 E quando terminou tudo isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quando comecei a trabalhar de <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/trabajo_domestico\/a\/\">empregada<\/a>. De faxineira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia se mudou muitas vezes. Em 1943 viviam num corti\u00e7o da rua Pinto com mais tr\u00eas fam\u00edlias e um s\u00f3 banheiro. Poucos meses depois de ter chegado ali, seu pai morreu de tuberculose e sua m\u00e3e ficou, aos 45 anos, vi\u00fava e com cinco filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quando meu pai morreu, eu chorava porque via minha m\u00e3e chorar. Mas depois fiquei contente. Preocupava-me, porque pensava: \u201cAgora v\u00e3o nos expulsar daqui porque n\u00e3o temos dinheiro\u201d. Por isso os mais velhos fomos trabalhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_193519\" aria-describedby=\"caption-attachment-193519\" style=\"width: 1960px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/tango-amor-e-odio\/tango-vestuario\/\" rel=\"attachment wp-att-193519\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-193519 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-vestuario.jpg\" alt=\"\" width=\"1960\" height=\"1456\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-vestuario.jpg 1960w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-vestuario-300x223.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-vestuario-768x571.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-vestuario-620x461.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-vestuario-80x60.jpg 80w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-vestuario-118x88.jpg 118w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-vestuario-160x119.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-vestuario-640x475.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 1960px) 100vw, 1960px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-193519\" class=\"wp-caption-text\">Mar\u00eda Nieves desenhava seu pr\u00f3prio vestu\u00e1rio<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua m\u00e3e come\u00e7ou a limpar casas. Sua irm\u00e3 \u00d1ata e ela, que abandonou a escola, fizeram o mesmo. <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/explotacion_infantil\/a\">Tinha nove anos e foram trabalhar<\/a> numa casa de dois andares em San Isidro, um bairro elegante nos arredores de Buenos Aires. A propriet\u00e1ria da casa batia nela porque n\u00e3o sabia limpar, porque tinha vergonha de sair \u00e0 rua com o avental de empregada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu queria voltar para a mis\u00e9ria. Porque era livre. A nossa hist\u00f3ria foi dura, mas ao mesmo tempo bonita, porque te ensina a viver na boa e na pior. Por isso vivo humildemente. Agora a luz est\u00e1 acesa porque voc\u00ea est\u00e1 aqui. Se n\u00e3o, fico no escuro. Sabem quanto eu ganhava na primeira turn\u00ea que fizemos com Copes pelos <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estados_unidos\/a\">Estados Unidos<\/a>? Cinquenta d\u00f3lares por m\u00eas. Foram direto para o Pinto y N\u00fa\u00f1ez, o corti\u00e7o onde minha mam\u00e3e morava. Porque n\u00e3o queria mais que ela fosse faxineira. E consegui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 11 anos era uma empregada teimosa que queria se casar, ter filhos e uma casa. Ent\u00e3o come\u00e7ou a frequentar a milonga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/08\/27\/cultura\/1472296862_931892.html?id_externo_rsoc=fb_BR_CM\">milonga \u00e9 um ritmo musical<\/a>, mas \u00e9 tamb\u00e9m o nome que designa <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/08\/19\/elviajero\/1439991442_952857.html\">os locais onde se dan\u00e7a o tango em Buenos Aires<\/a>. Nos anos 1940, o tango atravessava um momento dourado, mas n\u00e3o havia nada parecido com a dan\u00e7a de palco, s\u00f3 milongas que funcionavam em clubes ou associa\u00e7\u00f5es de bairro frequentadas pelas classes mais populares, mulheres e homens que se provocavam por um olhar, uma trai\u00e7\u00e3o ou um passo mal dado em pistas onde se dan\u00e7ava sem adornos. \u00d1ata ia a uma milonga no lube Atlanta. Mar\u00eda Nieves, que trabalhava limpando uma casa no outro lado da cidade, no bairro da Boca, come\u00e7ou a pedir a sua irm\u00e3 que a levasse com ela. \u00d1ata concordou, mas no in\u00edcio n\u00e3o a deixou dan\u00e7ar. O dinheiro mal dava para pagar a entrada, mas ia todos os fins de semana com sua \u00fanica saia, com seus \u00fanicos sapatos furados cheios de papel. Quando o papel rasgava, pintava o p\u00e9 para que o buraco n\u00e3o aparecesse. Em 1947, quando numa <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/08\/27\/cultura\/1472296862_931892.html?id_externo_rsoc=fb_BR_CM\">milonga<\/a> chamada Estrella de Maldonado viu entrar um moreno que lhe cravou os olhos, tinha 13 anos e ainda n\u00e3o havia dan\u00e7ado uma vez sequer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Era boa pinta. Mas era um <em>carrito<\/em>, como cham\u00e1vamos os que dan\u00e7avam mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele se chamava Juan Carlos Copes e a convidou \u00e0 pista com uma leve inclina\u00e7\u00e3o da cabe\u00e7a. Ela baixou o olhar, em sinal de \u201cn\u00e3o, obrigado\u201d, mas pensou nele naquela noite, e em muitas das que se seguiram, apesar de n\u00e3o voltar a v\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sumiu por um ano e depois reapareceu no Atlanta. Ali j\u00e1 sabia andar, abra\u00e7ar bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Copes tinha se transformado num <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/01\/26\/cultura\/1485386051_862520.html\">bailarino de respeito<\/a>. Ela j\u00e1 era experiente na pista e havia incorporado tudo o que seria depois: os olhos carregados de vivacidade, os seios altivos ondeando sobre quadris suaves. Quando Copes a viu foi para cima e, desta vez, ela aceitou. No livro <em>Soy Tango<\/em>, Mar\u00eda Nieves diz que, quando estavam dan\u00e7ando, \u201cele aproximou sua boca da minha orelha e me sussurrou umas palavras que me fizeram vibrar: \u2018Como vamos nos amar\u2019\u201d. Agora encolhe os ombros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Muitos lhe diziam frases assim. Era um <em>yeite<\/em>, um truque da milonga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ent\u00e3o voc\u00ea nunca ligou para essa frase.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de alguns meses, Copes pediu permiss\u00e3o a \u00d1ata para namorar Mar\u00eda Nieves. Um ano mais tarde, dormiram juntos pela primeira vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juan Carlos Copes n\u00e3o s\u00f3 se revelou um bailarino excepcional como tamb\u00e9m o dono de uma ambi\u00e7\u00e3o desmedida: numa \u00e9poca em que ningu\u00e9m imaginava que podia <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/tango\/a\">levar o tango dan\u00e7ado para um teatro<\/a>, ele j\u00e1 tinha inten\u00e7\u00e3o de faz\u00ea-lo. Mar\u00eda Nieves foi uma c\u00famplice perfeita: tinha talento, beleza e muita devo\u00e7\u00e3o por ele. Al\u00e9m de dan\u00e7ar na milonga, come\u00e7aram a apresentar-se em concursos e competi\u00e7\u00f5es. Copes convocou outros bailarinos, empenhado em montar um espet\u00e1culo na avenida Corrientes, onde est\u00e3o os teatros mais importantes da cidade. Um dia foi ao Nacional, cujo dono, Carlos A. Petit, era dono tamb\u00e9m de um cabar\u00e9 hist\u00f3rico, o Tabar\u00eds. Copes lhe falou de seu projeto. Petit se interessou e assim, em 1955, estrearam no Nacional e no Tabar\u00eds. Faziam um n\u00famero de tango entre vedetes e alguns comediantes, e apesar de ganharem apenas para pagar a viagem e ela continuar limpando casas, foi o in\u00edcio de algo que n\u00e3o parou mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Copes come\u00e7ou a dizer: \u201cN\u00e3o paro enquanto n\u00e3o chegar a <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/nueva_york\/a\">Nova York<\/a>\u201d. Eu, por mim, n\u00e3o teria feito nada. Qual \u00e9 o sonho de uma mulher? Ter um filho. Ter marido. Estou falando da minha \u00e9poca. Agora \u00e9 diferente.<\/p>\n<figure id=\"attachment_193520\" aria-describedby=\"caption-attachment-193520\" style=\"width: 720px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/tango-amor-e-odio\/rego\/\" rel=\"attachment wp-att-193520\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-193520 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/rego.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"969\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/rego.jpg 720w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/rego-223x300.jpg 223w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/rego-372x500.jpg 372w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/rego-160x215.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/rego-640x861.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-193520\" class=\"wp-caption-text\">Rego y Copes no anivers\u00e1rio de Ronald Reagan em 1986.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o queria viver do tango.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o. N\u00e3o foi uma voca\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Meu sonho era ter uma fam\u00edlia. E a\u00ed deu merda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viajaram por Porto Rico, <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cuba\/a\">Cuba<\/a>, M\u00e9xico. Em 1959, finalmente, chegaram a Nova York e fizeram, no Waldorf Astoria, um show chamado <em>Evening in Buenos Aires<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea quando deixou de trabalhar como\u2026?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Como empregada? N\u00e3o sei. Acho que tinha uns 18 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na parede do corredor que divide os quartos da sala h\u00e1 um espelho ovalado, antigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Que espelho lindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Me riscaram todo ele com a c\u00e2mera quando vieram filmar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Acha que <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt4937156\/\">o filme ficou bom<\/a>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o, uma merda. Eu passei um ano de frio, de madrugadas. Quando terminou o filme disse: \u201cBom, vou descansar um pouco\u201d. E quando quis voltar a dan\u00e7ar notei uma dor no quadril. Me disseram que tenho as art\u00e9rias obstru\u00eddas e que n\u00e3o se pode fazer nada. Isso me d\u00e1 uma <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/depresion\/a\">depress\u00e3o<\/a> tremenda. <em>Merrrda<\/em>, por que n\u00e3o foram as minhas m\u00e3os que ficaram cagadas? Em vez das pernas. Por isso n\u00e3o saio. Sair na rua andando como uma velhinha, n\u00e3o. Eu tenho 82 anos, mas n\u00e3o me sinto uma velhinha. Porque, quando o Copes me tirou da companhia de dan\u00e7a, eu disse para mim mesma: \u201cSou uma velha\u201d. E acreditei nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma cena do filme de Kral, enquanto fala sobre Copes, ela para e diz ao diretor: \u201cN\u00e3o tenho por que falar disso. J\u00e1 te disse que n\u00e3o quero falar mais (\u2026). N\u00e3o falo mais. E n\u00e3o falo mais. E voc\u00ea j\u00e1 me fez dizer o nome dele\u201d. Fica em sil\u00eancio, como uma onda brutal que retrocede para tomar impulso: \u201cCopes, Copes, Copes! J\u00e1 estou at\u00e9 aqui de Copes!\u201d. E, como um condor que se lan\u00e7a para destro\u00e7ar sua presa, grita, com ira mortal: \u201cQuem \u00e9 Copes, porra!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 ELA TINHA que me contar sua hist\u00f3ria com Juan Carlos \u2013 diz, de Munique, <a href=\"http:\/\/www.imdb.com\/name\/nm0469378\/?ref_=tt_ov_dr\">Germ\u00e1n Kral, o diretor de <em>Un Tango M\u00e1s<\/em><\/a>. E em certo momento explodiu e me mandou \u00e0 merda. Mas nunca disse: \u201cSaiam da minha casa\u201d. Isso \u00e9 parte do seu profissionalismo. Eu a acho completamente contradit\u00f3ria, e isso \u00e9 que \u00e9 fascinante. Eles n\u00e3o se falavam, e dan\u00e7avam como deuses. Queriam se matar no palco. E desse \u00f3dio surgiu uma beleza que transformava a dan\u00e7a em pura arte. Minha sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que eles amavam mais o tango que um ao outro. E foi isso que lhes permitiu continuar dan\u00e7ando quando n\u00e3o eram mais um casal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira cena do filme, Mar\u00eda Nieves e Copes se encontram num palco. Olham-se nos olhos. Ele ergue o bra\u00e7o esquerdo. Ela pousa sua m\u00e3o na dele. Copes faz um movimento quase impercept\u00edvel com a mand\u00edbula, como se mordesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquela apresenta\u00e7\u00e3o no Waldorf Astoria teve consequ\u00eancias. Foram convidados para o <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/The_Arthur_Murray_Party\"><em>Arthur Murray Show<\/em>, um programa da CBS<\/a>, e isso lhes rendeu um contrato no teatro Chateau Madrid, de Nova York, e uma proposta, em 1961, de se apresentar no <em>New Faces<\/em>, um programa de televis\u00e3o que procurava novos talentos, e um convite para o programa de Ed Sullivan. Mas a rela\u00e7\u00e3o entre eles n\u00e3o era f\u00e1cil: ele vivia rodeado de mulheres e queria continuar crescendo; ela s\u00f3 queria voltar para Buenos Aires e ficar perto da m\u00e3e. Apesar de tudo, em 1965, em <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/las_vegas\/a\">Las Vegas<\/a>, casaram-se. Quando retornaram ao pa\u00eds, compraram uma casa e ela levou a m\u00e3e para morar com eles. \u201cDisse a ela: \u2018Aqui est\u00e3o\u2019\u201d, conta Copes em <em>Qui\u00e9n Me Quita Lo Bailado<\/em>, a biografia escrita por Mariano del Mazo e Adri\u00e1n D\u2019Amore, \u201cseu bairro, sua casa, sua m\u00e3e, sua certid\u00e3o de casamento. Agora n\u00e3o me enche mais o saco. Eu sigo sozinho\u201d. Saiu em turn\u00ea por ano. Ela conheceu Jos\u00e9, um homem que vendia roupas em domic\u00edlio. Ele queria se casar, ter filhos, mas quando Copes voltou, ela voltou com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Disse: \u201cA \u00fanica coisa que sei fazer \u00e9 dan\u00e7ar tango\u201d. Pensei que se n\u00e3o tivesse Copes n\u00e3o poderia dan\u00e7ar com outro. Burra. Entre um e outro, escolhi o tango. Fiquei com Copes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mudaram-se para uma casa em Olivos, uma zona remediada nos sub\u00farbios de Buenos Aires. Apesar de dan\u00e7arem juntos e dividirem o mesmo teto (ela e sua m\u00e3e viviam no andar de baixo, ele no de cima), brigavam por tudo: por uma mulher, por um passo de dan\u00e7a. Foram contratados pelo Ca\u00f1o 14, um clube noturno frequentado por empres\u00e1rios e pol\u00edticos onde se montava um espet\u00e1culo com o melhor do tango de ent\u00e3o: <a href=\"http:\/\/elpais.com\/diario\/1995\/07\/27\/cultura\/806796004_850215.html\">Osvaldo Pugliese, o <em>Polaco<\/em>Goyeneche<\/a>. Dan\u00e7avam tamb\u00e9m em lugares como o Karim, onde mulheres de categoria cobravam por bebidas refinadas, e por todo o resto. Fora do palco n\u00e3o se falavam, mas sobre ele transformavam a ira em precis\u00e3o, o rancor em virtuosismo. Em 1971 come\u00e7aram a trabalhar no Karina, outra casa noturna. Em 1972, uma mo\u00e7a de 18 anos chamada Myriam Albuernez foi ver o espet\u00e1culo. Copes a viu e ficou vidrado. Seguiu-se um romance sem muitos planos, e ele decidiu deixar a casa que compartilhava com Mar\u00eda Nieves e se mudar para um apartamento no centro. Anos depois, Myriam ficou gr\u00e1vida, e em 1976 nasceu a primeira filha de ambos, Geraldine. Mar\u00eda Nieves diz que, durante todo esse tempo, n\u00e3o soube da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Soube da filha porque algu\u00e9m me disse: \u201cMar\u00eda, sabia que fulana\u2026\u201d. Tamb\u00e9m superei isso. Foi o orgulho que sofreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Mas voc\u00eas n\u00e3o eram mais um casal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu n\u00e3o o amava mais. E comecei a viver a vida que n\u00e3o vivi quando mo\u00e7a. N\u00e3o poupei ningu\u00e9m. Entrava na milonga e era a rainha. Mas chega. N\u00e3o quero contar isso. N\u00e3o. Estamos falando da minha hist\u00f3ria de amor. N\u00e3o falo mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_193521\" aria-describedby=\"caption-attachment-193521\" style=\"width: 720px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/tango-amor-e-odio\/tango-charme\/\" rel=\"attachment wp-att-193521\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-193521 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-charme.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"1082\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-charme.jpg 720w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-charme-200x300.jpg 200w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-charme-333x500.jpg 333w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-charme-160x240.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/tango-charme-640x962.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-193521\" class=\"wp-caption-text\">O charme do tango nos anos 1970<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Continuaram dan\u00e7ando juntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu te diria que foi nosso melhor momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos oitenta, o diretor Claudio Segovia montou um espet\u00e1culo chamado <em>Tango Argentino<\/em>. Al\u00e9m de m\u00fasicos e cantores, convocou as melhores duplas de tango dan\u00e7ado, entre as quais estavam Mar\u00eda Nieves e Juan Carlos Copes. O espet\u00e1culo deu ao tango, desde sua estreia em 10 de novembro de 1983, no teatro Ch\u00e2telet de <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/paris\/a\">Paris<\/a>, uma relev\u00e2ncia internacional que jamais havia alcan\u00e7ado. Em 1984 desembarcaram no City Center, em Nova York, e em 1985 migraram para o teatro Mark Hellinger, da Broadway. Haviam planejado ficar cinco semanas, mas passaram seis meses em cartaz. No final do ano, o <a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/1985\/10\/15\/arts\/it-takes-two-who-tango.html\"><em>New York Times<\/em> destacou Copes e Mar\u00eda Nieves<\/a> como os melhores na categoria Dan\u00e7a, e ele esteve perto de ganhar um Pr\u00eamio Tony, mas perdeu para Bob Fosse. Em 1986, os dois foram convidados a dan\u00e7ar para <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ronald_reagan\/a\">Ronald Reagan na Casa Branca<\/a>, e a filha de Gene Kelly foi v\u00ea-los durante uma apresenta\u00e7\u00e3o em Los Angeles para lev\u00e1-los \u00e0 casa do seu pai, que queria conhec\u00ea-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pedimos a ele para tirar uma foto conosco, mas n\u00e3o aceitou. Deu-nos uma foto autografada. Acho \u00f3timo. Como se voc\u00ea agora me dissesse que quer tirar uma foto minha, e eu dissesse que n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1987, por desaven\u00e7as com o elenco, deixaram <em>Tango Argentino<\/em> e retornaram ao seu pa\u00eds. Continuaram dan\u00e7ando em casas noturnas e teatros, com \u00e9pocas boas e m\u00e1s. Em 1993, a m\u00e3e de Mar\u00eda Nieves morreu, aos 92 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Morreu antes de tudo o que aconteceu depois. Por sorte. Assim n\u00e3o viu nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1996, ela e Copes excursionaram pelo <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/japon\/a\">Jap\u00e3o<\/a>, e os organizadores de uma das apresenta\u00e7\u00f5es lhes pediram que, ao final, eles dissessem algumas palavras. Dan\u00e7aram e, depois, se aproximaram do microfone. Enquanto ele secava o suor da testa com um len\u00e7o, ela disse: \u201cA dan\u00e7a do tango tem algo muito especial, que \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o no casal. Por isso ao dan\u00e7\u00e1-lo sentimos um sem-fim de emo\u00e7\u00f5es. Que pode ser o amor, mas tamb\u00e9m o \u00f3dio\u201d. No v\u00eddeo que registra esse momento, observa-se que, quando ela diz \u201cmas tamb\u00e9m o \u00f3dio\u201d, Copes a olha, quase surpreso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Mas n\u00e3o disse isso com rancor. E sa\u00ed caminhando. Essa caminhada minha\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levanta-se e percorre a sala, as pernas como duas on\u00e7as que sabem o que devem fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sou felina, viu? Mas isso \u00e9 porque voc\u00ea sente o aplauso do p\u00fablico e come\u00e7a a caminhar, e olha para o homem e \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o que te transporta. A\u00ed eu j\u00e1 n\u00e3o sou mais a Mar\u00eda Nieves. Sou outra coisa. Colocam o que for na minha frente e eu engulo. <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/08\/27\/cultura\/1472296862_931892.html\">O tango \u00e9 como um ato de amor.<\/a> Porque voc\u00ea come\u00e7a caminhando, fazendo <em>firuletitos<\/em> com as pernas do homem, e terminam com os <em>ganchos<\/em>, menina, que \u00e9 uma trepada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/japon\/a\">Antes daquela turn\u00ea pelo Jap\u00e3o<\/a>, Myriam Albuernez havia dado um ultimato ao seu marido: \u201cEu disse ao Juan: \u2018Acho que a etapa com Nieves terminou\u201d, conta Albuernez no filme de Kral. \u201cPense bem. Se voc\u00eas voltarem para casa, n\u00e3o existe mais Nieves como parceira de dan\u00e7a. Se voc\u00ea continuar dan\u00e7ando com Nieves, nem volte para casa&#8217;. E ele voltou para casa.\u201d Assim, certo dia, em 1996, Mar\u00eda Nieves recebeu a visita do diretor Manuel Gonz\u00e1lez Gil, que lhe comunicou que estava preparando com Copes um espet\u00e1culo chamado <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/08\/27\/cultura\/1472296862_931892.html\"><em>Entre Borges y Piazzolla<\/em><\/a>. E que ela n\u00e3o estava no elenco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013Senti que me cravavam uma adaga no cora\u00e7\u00e3o. Que merda, por que ele n\u00e3o me mandou embora antes, quando eu tinha 50 anos. Mas eu tinha 62. E achei que o tango tinha acabado para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013O que voc\u00ea fez?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Nada. Fiquei em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram quase dois anos de isolamento, de n\u00e3o saber o que fazer. At\u00e9 que, em 1998, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TMCzPVQurI0\">Luis Pereyra, um bailarino<\/a> que havia integrado a companhia de Copes, lhe ofereceu uma vaga no elenco de <em>Tango, La Danza del Fuego<\/em>. No dia da estreia, entrou no palco temerosa. Mas, antes que pudesse dar um passo, a plateia explodiu em ova\u00e7\u00e3o. Pensou, incr\u00e9dula: \u201cSer\u00e1 que est\u00e3o me aplaudindo por pena?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00c9 que eu sempre achei que ele era o importante da dupla. Nunca tinham me aplaudido desse jeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1999, Claudio Segovia reestreou <em>Tango Argentino<\/em> na <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/broadway\/a\">Broadway<\/a> e a convocou para, novamente, dan\u00e7ar com Copes. Ela aceitou por dinheiro, segundo diz. Passaram 10 semanas dan\u00e7ando como duas espadas, sem trocar uma palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Dancei com raiva. Mas sou uma profissional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2001, foi convidada a participar de uma vers\u00e3o de <em>Tanguera<\/em>, com a bailarina Mora Godoy, e voltou a fazer turn\u00eas pela Europa, \u00c1sia e Estados Unidos. Aos 65, aos 79 anos, Mar\u00eda Nieves dan\u00e7ava com colegas que eram d\u00e9cadas mais novos \u2013 Pancho Martinez Pey, Junior Cervila \u2013, recebia homenagens, arrancava verdadeiras ova\u00e7\u00f5es, oferecia-se ao frenesi de um p\u00fablico que n\u00e3o tinha imaginado. Ent\u00e3o, mais uma vez, tudo acabou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Porque se formaram co\u00e1gulos nas minhas art\u00e9rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Qual foi a \u00faltima vez que viu Copes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 No dia que o filme terminou. O diretor queira que dan\u00e7\u00e1ssemos, mas eu lhe disse: \u201cN\u00e3o, com o Copes eu n\u00e3o dan\u00e7a mais!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Gostou de v\u00ea-lo ali?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o, nem um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Nunca pensou em ter filhos com ele, em&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sem coment\u00e1rios. Sem coment\u00e1rios. Bem, j\u00e1 estou ficando cansada, menina. N\u00e3o gosto de falar. Fico irritada. Porque n\u00e3o quero mais falar sobre a minha vida. Fico irritada porque, por dentro, eu me pergunto: \u201cpor que voc\u00ea aceitou isso?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 porta, na rua, despedindo-se, ela sorri e diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Obrigada. E n\u00e3o diga a ningu\u00e9m onde eu moro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_193522\" aria-describedby=\"caption-attachment-193522\" style=\"width: 1960px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/tango-amor-e-odio\/maria-nieves\/\" rel=\"attachment wp-att-193522\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-193522 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-nieves.jpg\" alt=\"\" width=\"1960\" height=\"1264\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-nieves.jpg 1960w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-nieves-300x193.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-nieves-768x495.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-nieves-620x400.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-nieves-70x45.jpg 70w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-nieves-160x103.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-nieves-310x200.jpg 310w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-nieves-640x413.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 1960px) 100vw, 1960px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-193522\" class=\"wp-caption-text\">Mar\u00eda Nieves (\u00e0 esquerda) junto com sua m\u00e3e na festa de casamento de sua irm\u00e3, em 1954<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Al\u00f4, Mar\u00eda?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quem fala?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 A jornalista. Queria combinar com a senhora para a fot\u00f3grafa ir \u00e0 sua casa para fazer reprodu\u00e7\u00f5es das fotos do seu \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente, ela diz que nesta semana n\u00e3o poderia, depois que poderia ser na quinta-feira, depois que n\u00e3o pode na quinta-feira de manh\u00e3, depois que sim, pode.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 J\u00e1 avisei a ela que a senhora n\u00e3o quer fazer fotos de agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu? N\u00e3o! Nada de fotografias! Que tivessem se lembrado antes! Sabe por que querem fazer fotos de mim agora? Para dizer: \u201cVeja s\u00f3 a velha\u201d. Que tivessem se lembrado antes!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na quinta-feira, \u00e0s duas da tarde, Mar\u00eda Nieves atravessa o hall de seu edif\u00edcio vestida com uma blusa florida com os ombros e o pesco\u00e7o \u00e0 mostra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ol\u00e1, menina. Entre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 A casa est\u00e1 do mesmo jeito que duas semanas antes: impec\u00e1vel, quase no escuro, com o r\u00e1dio ligado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 A fot\u00f3grafa veio esta manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sim. Ela me contou que a senhora a deixou fazer uns retratos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sabe o que acontece? Eu tinha em mente que n\u00e3o iam fazer fotos minhas. Mas depois pensei: \u201cPorra, voc\u00ea parece uma amadora\u201d. Eu tinha de ter cuidado de toda a minha vida art\u00edstica como pretendo cuidar agora. Mas agora j\u00e1 n\u00e3o vale a pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vai at\u00e9 a cozinha e esquenta a espiriteira para o mate. Ao voltar, diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea sabe que eu queria adotar um cachorro? Mas n\u00e3o querem me dar nenhum, porque estou velha, e temem que ele acabe sozinho. Me sinto bem com a minha idade. E sempre digo: \u201cSe vivesse tudo de novo, faria a mesma coisa\u201d. A mis\u00e9ria. Tudo, Menos Copes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Mas o que a senhora ganhou com a mis\u00e9ria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Felicidade. Nascemos na mis\u00e9ria, e ela uma coisa normal para n\u00f3s. Gra\u00e7as a Deus, aprendi com minha m\u00e3e a n\u00e3o ser mentirosa, a n\u00e3o ter inveja e a saber perdoar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ela conseguiu perdoar seu pai?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Certamente. Se n\u00e3o, n\u00e3o teria chorado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 E a senhora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o. Nunca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 E a Juan?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ah, sim. Eu perdoei Juan. Gostaria de ser amiga dele. Eu era empregada, e poderia ter continuado como empregada, mas o tango me deu muita coisa. Sempre digo \u00e0s dan\u00e7arinas mais jovens que, se querem ter um filho, n\u00e3o devem deixar o tempo passar. O tango pode esperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Teria trocado o tango por uma fam\u00edlia, por&#8230;?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sim. Sem d\u00favida. Sim, sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Subitamente, ela se cala. Exibe uma express\u00e3o tem\u00edvel, o rosto de uma pessoa que se lan\u00e7a sobre o que lhe pesa mais fundo para p\u00f4r um fim a isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Est\u00e1 desligado? \u2013pergunta olhando para o gravador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Desligue-o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Por que?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Porque vou lhe contar um segredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tarde se aproxima do fim quando ela me acompanha at\u00e9 a porta e, com um sorriso humilde, diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Obrigada por se interessar por mim, menina.<\/p>\n<p class=\"nota_pie\" style=\"text-align: justify;\">Por Leila Guerriero<\/p>\n<p class=\"nota_pie\" style=\"text-align: justify;\">Jornalista com textos publicados em v\u00e1rios jornais da Am\u00e9rica Latina e da Europa. \u00c9 colunista do EL PA\u00cdS e autoria dos livros \u2018Los suicidas del mundo\u2019, \u2018Frutos extra\u00f1os\u2019, \u2018Plano americano\u2019, \u2018Uma historia sencilla\u2019 e \u2018Zona de obras\u2019. Em 2010, sua obra \u2018El rastro en los huesos\u2019 recebeu o pr\u00eamio Cemex-FNPI.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a menina que apanhava do pai virou a bailarina de tango mais emblem\u00e1tica do mundo<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":193522,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-193516","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maria-nieves.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/193516","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=193516"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/193516\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/193522"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=193516"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=193516"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=193516"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}