{"id":200869,"date":"2017-06-24T00:22:38","date_gmt":"2017-06-24T03:22:38","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=200869"},"modified":"2017-06-23T17:25:13","modified_gmt":"2017-06-23T20:25:13","slug":"ariana-15-anos-apanhei-enquanto-gritavam-vem-traveco-que-vou-te-matar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ariana-15-anos-apanhei-enquanto-gritavam-vem-traveco-que-vou-te-matar\/","title":{"rendered":"Ariana, 15 anos: \u201cApanhei enquanto gritavam \u2018vem, traveco, que vou te matar!\u201d"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Conhe\u00e7a a hist\u00f3ria desta adolescente, contada por ela mesma<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Beatriz Portinari\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/beatriz_portinari\/a\/\">BEATRIZ PORTINARI<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/06\/23\/ciencia\/1498213050_810838_1498228113_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/06\/23\/ciencia\/1498213050_810838_1498228113_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/06\/23\/ciencia\/1498213050_810838_1498228113_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/06\/23\/ciencia\/1498213050_810838_1498228113_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"mulheres trans\" width=\"980\" height=\"551\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">GETTY<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>A primeira lembran\u00e7a que tenho da minha <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ninos\/a\">inf\u00e2ncia<\/a> \u00e9 quando ia com a minha m\u00e3e para me comprar roupa e sempre procurava as roupas de menina. Minha m\u00e3e me dizia: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o pode usar isso, porque ser\u00e1 mal visto\u201d\u00a0\u2013 embora amasse moda, maquiagem, sapatos, bonecas. Quando fiquei um pouco mais velha, perguntava: \u201cE quando eu crescer e for <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/mujeres\/a\">mulher<\/a>, vou poder usar saltos altos e vestidos?\u201d. \u201cSim, claro\u201d, dizia minha m\u00e3e. Eu esperava que algum dia os seios crescessem. Ela conta que estava convencida de que eu era uma menina desde a gravidez, discordando do ginecologista que dizia que eu seria um menino. Hoje falamos que minha m\u00e3e estava certa desde o in\u00edcio.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" data-google-query-id=\"CKS09_bl1NQCFU4KkQodWsgEag\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/ciencia\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/ciencia\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/ciencia\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-integralas-id-8017730a-5765-e28e-88ec-28749dd47878=\"\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p>Eu sofri muito, muito mesmo. Eu me sentia muito estranha, muito solit\u00e1ria. Quando me insultavam s\u00f3 conseguia pensar: \u201cMas por que isso acontece comigo se sou igual a elas?\u201d Na escola demoraram um tempo para se adaptar, porque dizem que sou o primeiro caso que tiveram em 40 anos. No in\u00edcio havia dois <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/profesorado\/a\">professores<\/a> que me disseram que eu era um menino e continuaram me tratando como um menino, mas depois se acostumaram e sou Ariana para todos. No come\u00e7o, a dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o me deixava entrar no banheiro das meninas, porque isso poderia incomodar os pais das outras meninas e me ofereceram o banheiro dos professores. Mas isso me fez sentir estranha e diferente tamb\u00e9m. Apesar de tudo, foram se adaptando e agora percebo mais o apoio deles.<\/p>\n<p>Por exemplo, quando comecei com os bloqueadores hormonais para fazer a <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/transexualidad\/a\">transi\u00e7\u00e3o<\/a>, no primeiro trimestre entrei como menino e no segundo trimestre, como menina. Bem, logo de manh\u00e3 no primeiro dia da minha transforma\u00e7\u00e3o, quando entrei na sala, um menino me insultou. Mas a coisa j\u00e1 vinha de antes, do bairro. Presumi que os insultos iam continuar, n\u00e3o importava o que acontecesse. Mas a escola expulsou esse menino no mesmo dia e ele n\u00e3o voltou.<\/p>\n<p>Tenho orgulho de abrir o caminho para outros <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/jovenes\/a\">jovens<\/a> que possam se sentir como eu. Minha fam\u00edlia diz que passo o dia todo falando sobre meus direitos e essas coisas, mas se eu n\u00e3o fizer, quem vai fazer por mim? N\u00e3o vou mudar o mundo, mas pelo menos um pedacinho dele. E se um vizinho me apoia, ser\u00e3o dois pedacinhos. Eu me sinto bem quando vejo pessoas que n\u00e3o aceitavam, come\u00e7arem a me aceitar ou pessoas que n\u00e3o me entendiam come\u00e7arem a entender. Mas n\u00e3o foi f\u00e1cil.<\/p>\n<p>O mais duro foi no ano passado. Sempre que andei pela rua mexeram comigo, sabia bem disso, desde pequena ouvia \u201cbicha, traveco!\u201d. Mas no ano passado foram mais longe. Estava voltando de uma viagem a <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sevilla\/a\">Sevilha<\/a> com a minha classe e quando olhei o celular encontrei um monte de mensagens de um n\u00famero desconhecido que me dizia: \u201cBicha, eu vou te fazer menino, tenho que te matar, que se dane voc\u00ea, traveco\u201d. Muitas mensagens assim. Fiquei t\u00e3o assustada que eu o bloqueei.<\/p>\n<p>Mas por essa altura, era maio, um s\u00e1bado \u00e0 tarde, encontrei-me em uma pra\u00e7a com a menina que tinha enviado as mensagens. Eu estava conversando com uma amiga quando a ouvi gritando atr\u00e1s de mim: \u201cBicha, venha aqui, traveco, vou te matar!\u201d Fiquei paralisada, n\u00e3o sabia o que dizer. Minha amiga disse a ela: \u201cEla \u2013 falava de mim \u2013 por acaso te insultou? N\u00e3o? Pois n\u00e3o h\u00e1 nada mais para falar\u201d. Quis me virar para ir embora, mas nesse momento ela me derrubou e come\u00e7ou a me bater e me chutar: ela e tr\u00eas amigas. Elas me deixaram sem f\u00f4lego, bati a coluna, quebrei um dedo. Foi horr\u00edvel. Al\u00e9m disso, era uma tarde de s\u00e1bado em uma pra\u00e7a que est\u00e1 sempre cheia e poucas pessoas intervieram. Os homens ficaram olhando. Apenas algumas fam\u00edlias intervieram para nos separar. Ningu\u00e9m chamou a pol\u00edcia. Sa\u00ed de l\u00e1 como pude, minha amiga chamou minha m\u00e3e, me pegaram no caminho, fomos ao <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/hospitales\/a\">hospital<\/a> e depois fazer a den\u00fancia. Demorou 11 meses para o julgamento e tive que pagar bastante dinheiro. Mas o que eu disse ao juiz e \u00e0 minha advogada: o dano que aquela menina me fez ao me agredir de forma t\u00e3o brutal, na frente de tantas pessoas, sem que ningu\u00e9m me defendesse, n\u00e3o h\u00e1 dinheiro que possa curar. Pedi uma ordem de restri\u00e7\u00e3o, porque continuo encontrando com ela pela rua, mas n\u00e3o deram, porque disseram que \u201cn\u00e3o era para tanto\u201d.<\/p>\n<p>Levei mais de um ano para me recuperar. Nos primeiros dois ou tr\u00eas meses n\u00e3o conseguia nem passar pela pra\u00e7a porque estava morrendo de medo; chorava de medo. Comecei a sofrer muito: me anulava mentalmente e achava que n\u00e3o servia para nada. Cheguei a ter pensamentos muito negativos. Achava que se tomei essa surra ali no meio de todos sem que ningu\u00e9m impedisse \u00e9 porque ningu\u00e9m se importava. O dano que essa menina fez em mim n\u00e3o pode ser pago com dinheiro. E continuo com medo. Recentemente, riscaram o carro da minha <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/familia\/a\">fam\u00edlia<\/a> e furaram os pneus: sabemos e a pol\u00edcia tem certeza de que foram eles novamente. Mas tento n\u00e3o pensar nisso. Se voltarem a me atacar, ser\u00e1 suficiente olhar para ela sem dizer nada: que esse olhar signifique \u201cOlhe onde voc\u00ea est\u00e1 e olhe onde eu estou\u201d. Nada mais. Eu recomendaria que se algu\u00e9m est\u00e1 passando por uma situa\u00e7\u00e3o como essa, que fale, que diga a algu\u00e9m que voc\u00ea confia, que desabafe. Porque se voc\u00ea n\u00e3o desabafar, \u00e9 muito pior. E o mesmo com os maus pensamentos: se voc\u00ea escrev\u00ea-los no papel, se colocar por escrito o que est\u00e1 sofrendo e depois queim\u00e1-lo, pelo menos para mim, \u00e9 como se doesse um pouco menos. Como se esse sofrimento virasse cinzas e voc\u00ea visse como ele desaparece.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o para mim n\u00e3o est\u00e1 sendo f\u00e1cil, mas acho que passar por tudo isso ser\u00e1 por algo que eu escolhi e vai me fazer feliz. Os bloqueadores hormonais s\u00e3o como ter uma menstrua\u00e7\u00e3o: incho, d\u00f3i a \u00e1rea da bexiga, tenho dores de cabe\u00e7a terr\u00edveis, ataques de <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ansiedad\/a\">ansiedade<\/a> e altera\u00e7\u00f5es de humor muito fortes. Sofro, mas penso que \u00e9 para chegar a uma meta ent\u00e3o a dor \u00e9 mais suport\u00e1vel. Nesta sexta-feira vou para C\u00e1diz pegar uma receita de horm\u00f4nios, que se combinam com os bloqueadores. S\u00f3 espero que seja em comprimidos e n\u00e3o tenha que continuar com as inje\u00e7\u00f5es. Depois terei que tomar outros quatro anos de comprimidos at\u00e9 me operar. E depois da opera\u00e7\u00e3o vou ter que continuar tomando outro tipo de comprimido por toda a vida, mas prefiro isso para poder ser quem sou de verdade.<\/p>\n<p>Tenho que esperar para ser maior de idade para fazer a <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/04\/11\/estilo\/1491897231_149176.html\">cirurgia<\/a> e as op\u00e7\u00f5es na Andaluzia s\u00e3o: ou uma lista de espera de cinco anos ou 13.000, 14.000 euros em forma particular. Os m\u00e9dicos me mostraram como \u00e9 a opera\u00e7\u00e3o e durante um m\u00eas estive convencida de que n\u00e3o queria me operar. Que preferia continuar assim porque tinha muito medo da opera\u00e7\u00e3o. Mas se voc\u00ea pensar bem, n\u00e3o vou ficar sabendo de nada. Voc\u00ea vai, fecha os olhos e quando abre \u00e9 feliz para toda a vida. Se algu\u00e9m est\u00e1 na mesma situa\u00e7\u00e3o e est\u00e1 pensando, eu diria que n\u00e3o pense muito, que fa\u00e7a, n\u00e3o tenha medo, porque \u00e9 a sua felicidade. O maior medo das transexuais \u00e9 que depois da opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o possam mais \u201csentir\u201d. Mas acho que a ci\u00eancia pode progredir muito nisso, at\u00e9 mesmo os avan\u00e7os que j\u00e1 existem n\u00e3o t\u00eam nada a ver com o que era h\u00e1 40 anos.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que tenho como um espinho encravado \u00e9 o de ser <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/madres\/a\">m\u00e3e<\/a>, quando vou visitar algu\u00e9m que acaba de dar \u00e0 luz no hospital o meu cora\u00e7\u00e3o encolhe um pouco. Eu falo para minha m\u00e3e: \u201cM\u00e3e, adoraria me ver nessa situa\u00e7\u00e3o algum dia\u201d. E minha m\u00e3e responde: \u201cEspero que a vida me d\u00ea anos e fertilidade para que, se for necess\u00e1rio, carregue no meu ventre o seu filho\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a a hist\u00f3ria desta adolescente, contada por ela mesma<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":200870,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[345,6],"tags":[],"class_list":["post-200869","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entretenimento","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/jovem1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/200869","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=200869"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/200869\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/200870"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=200869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=200869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=200869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}