{"id":203149,"date":"2017-07-08T14:04:55","date_gmt":"2017-07-08T17:04:55","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=203149"},"modified":"2017-07-08T14:04:55","modified_gmt":"2017-07-08T17:04:55","slug":"vargas-llosa-sobre-garcia-marquez-nao-era-um-intelectual-funcionava-mais-como-artista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/vargas-llosa-sobre-garcia-marquez-nao-era-um-intelectual-funcionava-mais-como-artista\/","title":{"rendered":"Vargas Llosa sobre Garc\u00eda M\u00e1rquez: \u201cN\u00e3o era um intelectual, funcionava mais como artista\u201d"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: left;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Nobel peruano analisa as luzes e sombras de um escritor que conhece como poucos<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<aside id=\"compartir_superior\" class=\"compartir compartir--fijo\">\n<div class=\"compartir__interior\">\n<div class=\"compartir-varios\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \">\n<div class=\"articulo-datos\"><time class=\"articulo-actualizado\" datetime=\"2017-07-08T12:37:24-03:00\"><\/time><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499445495_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499445495_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499445495_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499445495_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Mario Vargas Llosa e Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, vistos por Fernando Vicente.\" width=\"980\" height=\"722\" \/><span class=\"foto-texto\">Mario Vargas Llosa e Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, vistos por Fernando Vicente.<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>Na quinta-feira, 6 de julho,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/mario_vargas_llosa\/a\">Mario Vargas Llosa<\/a>\u00a0(1936)\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/07\/06\/cultura\/1499366796_414985.html\">conversou com o ensa\u00edsta colombiano Carlos Gran\u00e9s<\/a>\u00a0em um curso dedicado \u00e0 obra de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/gabriel_garcia_marquez\/a\">Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez<\/a>\u00a0(1927-2014). Durante uma hora, falaram da obra do autor de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/04\/cultura\/1496600143_627064.html\"><em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em><\/a>\u00a0e da amizade que uniu ambos os escritores desde que se conheceram, em 1967, at\u00e9 o rompimento, em 1976. Os trechos a seguir s\u00e3o parte dessa conversa.<\/p>\n<p><strong>Descoberta de um autor<\/strong><\/p>\n<div id=\"sc-3ia8ay\" data-smartplay-instance-id=\"0\">\n<div id=\"sc-3ia8ay-backdrop\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Eu trabalhava em Paris, na R\u00e1dio Televis\u00e3o Francesa; tinha um programa de literatura em que comentava os livros que eram lan\u00e7ados na Fran\u00e7a e que poderiam ter interesse na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/latinoamerica\/a\/\">Am\u00e9rica Latina<\/a>. Em 1966 chegou um livro de um autor colombiano:\u00a0<em>Pas de Lettre pour le Coronel<\/em>. Era\u00a0<em>Ningu\u00e9m Escreve ao Coronel<\/em>. Eu gostei muito pelo realismo t\u00e3o rigoroso, pela descri\u00e7\u00e3o t\u00e3o precisa desse velho coronel que continua pedindo uma aposentadoria que nunca chegar\u00e1. Impressionou-me muito conhecer esse escritor chamado Garc\u00eda M\u00e1rquez.<\/p>\n<p><strong>Romance a quatro m\u00e3os<\/strong><\/p>\n<p>Algu\u00e9m nos colocou em contato, eu n\u00e3o sei se fui eu o primeiro a escrever ou ele, mas tivemos uma correspond\u00eancia bastante intensa com a qual fomos ficando amigos antes de nos conhecermos pessoalmente. Em um momento surgiu o projeto de escrever um romance a quatro m\u00e3os sobre uma guerra que houve entre o Peru e a Col\u00f4mbia na regi\u00e3o amaz\u00f4nica. Garc\u00eda M\u00e1rquez tinha muito mais informa\u00e7\u00e3o do que eu sobre a guerra, em suas cartas me contava muitos detalhes, possivelmente muito exagerados para torn\u00e1-los mais divertidos e pitorescos, mas esse projeto sobre o qual trocamos correspond\u00eancia durante um bom tempo desapareceu. Teria sido muito dif\u00edcil quebrar a intimidade do que cada um escrevia e mostrar isso diante do outro.<\/p>\n<p><strong>Amizade \u00e0 primeira vista<\/strong><\/p>\n<p>Quando nos vimos pela primeira vez, no aeroporto de Caracas, em 1967, j\u00e1 nos conhec\u00edamos e j\u00e1 t\u00ednhamos lido um ao outro, mas o contato foi imediato, a simpatia rec\u00edproca e acho que ao sair de Caracas j\u00e1 \u00e9ramos amigos. E quase, quase diria amigos \u00edntimos. Depois estivemos juntos em Lima, onde fiz uma entrevista p\u00fablica com ele na Universidade de Engenharia, um dos poucos di\u00e1logos p\u00fablicos de Garc\u00eda M\u00e1rquez, que era bastante retra\u00eddo e relutante em enfrentar o p\u00fablico. Detestava entrevistas p\u00fablicas porque, no fundo, tinha uma enorme timidez, uma grande retic\u00eancia a falar de improviso. O oposto do que era na intimidade, um homem extremamente loquaz, divertido, que falava com grande desenvoltura.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499446253_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499446253_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499446253_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez recebe seu Nobel em 1982.\" width=\"360\" height=\"344\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez recebe seu Nobel em 1982.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">BERTIL ERICSON<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">AFP<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>Devotos de Faulkner<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que o que mais contribuiu para a nossa amizade foram as leituras: \u00e9ramos grandes admiradores de Faulkner. Nessa correspond\u00eancia que troc\u00e1vamos fal\u00e1vamos muito de Faulkner, a maneira como nos colocou em contato com a t\u00e9cnica moderna, com uma maneira de contar sem respeitar a cronologia, mudando os pontos de vista&#8230; O denominador comum entre n\u00f3s eram essas leituras. Ele havia tido uma enorme influ\u00eancia de Virginia Woolf. Falava muito dela. Eu, de Sartre, que acho que Garc\u00eda M\u00e1rquez n\u00e3o tinha lido. Ele n\u00e3o tinha maior interesse pelos existencialistas franceses, muito importantes na minha forma\u00e7\u00e3o. Por Camus acho que sim, mas ele tinha lido mais literatura anglo-sax\u00e3.<\/p>\n<p><strong>Ser latino-americanos<\/strong><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, n\u00f3s dois est\u00e1vamos descobrindo que \u00e9ramos escritores latino-americanos, mais do que peruanos ou colombianos, que pertenciam a uma p\u00e1tria comum que at\u00e9 ent\u00e3o conhec\u00edamos pouco, com a qual ainda t\u00ednhamos pouca identifica\u00e7\u00e3o. A consci\u00eancia de que existe hoje na Am\u00e9rica Latina como uma unidade cultural praticamente n\u00e3o existia quando \u00e9ramos jovens. Isso come\u00e7ou a mudar depois da revolu\u00e7\u00e3o cubana, o fato central que despertou a curiosidade do mundo pela Am\u00e9rica Latina. Ao mesmo tempo, essa curiosidade fez com que se descobrisse que havia uma literatura inovadora.<\/p>\n<p><strong>Cuba e o \u2018caso Padilla\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Garc\u00eda M\u00e1rquez j\u00e1 havia passado por um processo semelhante, s\u00f3 que com muito mais sensatez, de certo desencanto com a revolu\u00e7\u00e3o cubana. Ele foi a Cuba para trabalhar na ag\u00eancia Prensa Latina, como Plinio Apuleyo Mendoza, seu grande amigo. Trabalharam l\u00e1 enquanto a Prensa Latina mantinha certa independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao Partido Comunista. Mas o Partido Comunista, de uma maneira que n\u00e3o chegava \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica, colocou-se como objetivo a captura da Prensa Latina. Quando a capturou, tanto Plinio como ele foram expurgados. Para Garc\u00eda M\u00e1rquez isso foi um choque pessoal e pol\u00edtico. Ele manteve uma enorme discri\u00e7\u00e3o sobre esse assunto, mas quando o conheci, eu era um grande entusiasta da revolu\u00e7\u00e3o cubana e ele muito pouco, inclusive adotava uma posi\u00e7\u00e3o um pouco zombeteira, como dizendo: \u201crapazinho, espere, voc\u00ea vai ver!\u201d. Essa era a atitude que ele tinha em privado, n\u00e3o em p\u00fablico. Quando aconteceu o caso Padilla, em 1971, ele j\u00e1 n\u00e3o estava mais em Barcelona, n\u00e3o sei se foi uma sa\u00edda tempor\u00e1ria ou definitiva, n\u00e3o me lembro, mas lembro que quando prenderam Padilla e o levaram preso sob a acusa\u00e7\u00e3o de ser agente da CIA, fizemos uma reuni\u00e3o na minha casa, em Barcelona, com Juan e Luis Goytisolo, Castellet e Hans Magnus Enzensberger para fazer uma carta de protesto pela captura de Padilla. Nessa carta \u2013assinada por muitos intelectuais\u2013 Plinio disse que dev\u00edamos colocar o nome de Garc\u00eda M\u00e1rquez e n\u00f3s dissemos que era preciso consult\u00e1-lo. Eu n\u00e3o podia fazer isso porque n\u00e3o sabia onde ele estava naquele momento, mas Plinio decidiu colocar a assinatura assim mesmo. Pelo que soube, Garc\u00eda M\u00e1rquez protestou energicamente com Pl\u00ednio. Eu n\u00e3o tive mais contato com ele. Depois de Padilla ter sa\u00eddo do calabou\u00e7o, depois de acus\u00e1-lo e todos os que o tinham defendido de serem agentes da CIA \u2013um absurdo\u2013 fizemos uma segunda carta de protesto que ele j\u00e1 n\u00e3o quis assinar. Depois disso a posi\u00e7\u00e3o de Garc\u00eda M\u00e1rquez contra Cuba mudou totalmente: ele se aproximou muito, come\u00e7ou a ir novamente \u2013n\u00e3o tinha retornado desde que o expurgaram\u2013 e a aparecer em fotos com Fidel Castro, a manter essa rela\u00e7\u00e3o \u2013que continuou at\u00e9 o fim\u2013 de grande proximidade com a revolu\u00e7\u00e3o cubana.<\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499446152_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499446152_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499446152_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Vargas Llosa recebe o Nobel em 2010.\" width=\"360\" height=\"541\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Vargas Llosa recebe o Nobel em 2010.<\/span><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">JONATHAN NACKSTRAND<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">AFP<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Amigo de Fidel Castro<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei exatamente o que aconteceu, depois do\u00a0<em>caso Padilla<\/em>\u00a0n\u00e3o tive mais nenhuma conversa com ele. A tese de Plinio \u00e9 que, apesar de saber que muitas coisas iam mal em Cuba, Garc\u00eda M\u00e1rquez achava que a Am\u00e9rica Latina deveria ter um futuro socialista e que, de qualquer modo, mesmo que muitas coisas em Cuba n\u00e3o estivessem funcionando como deveriam, Cuba era uma esp\u00e9cie de ar\u00edete que estava rompendo o imobilismo hist\u00f3rico da Am\u00e9rica Latina, que apoiar a revolu\u00e7\u00e3o cubana era apoiar o futuro socialista da Am\u00e9rica Latina. Eu sou menos otimista. Acredito que Garc\u00eda M\u00e1rquez tinha um sentido muito pr\u00e1tico da vida, que descobriu naquele momento fronteiri\u00e7o, e percebeu que era melhor para um escritor estar com Cuba do que estar contra Cuba. Livrava-se da surra que recebemos todos os que adotamos uma postura cr\u00edtica. Estando do lado de Cuba podia fazer o que quisesse, jamais seria atacado pelo inimigo verdadeiramente perigoso para um escritor, que n\u00e3o \u00e9 a direita, mas a esquerda. A esquerda \u00e9 que tem o grande controle da vida cultural em todo lugar e, de certa forma, antagonizar-se com Cuba, critic\u00e1-la, significava arranjar um inimigo muito poderoso e passar a ter de se explicar a todo o momento, provando que n\u00e3o era agente da CIA, reacion\u00e1rio, ou pr\u00f3-imperialista. Minha impress\u00e3o \u00e9 que, de certa forma, a amizade com Cuba, com Fidel Castro, o vacinou contra todas essas contrariedades.<\/p>\n<p><strong>\u2018Cem Anos de Solid\u00e3o\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Fiquei fascinado com\u00a0<em>Cem Anos de Solid\u00e3o,<\/em>\u00a0tinha gostado de muito suas obras anteriores, mas ler\u00a0<em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>\u00a0foi uma experi\u00eancia fascinante. Achei o romance magn\u00edfico, extraordin\u00e1rio. Assim que terminei de ler, escrevi um artigo com o t\u00edtulo \u201cAmad\u00eds na Am\u00e9rica\u201d. Naquela \u00e9poca, eu era um entusiasta dos romances de cavalaria e achei que, enfim, a Am\u00e9rica Latina tinha encontrado seu grande romance de cavalaria em que prevalecia o elemento imagin\u00e1rio sem que desaparecesse o substrato real, hist\u00f3rico, social, que tinha essa mistura ins\u00f3lita. Essa minha impress\u00e3o foi compartilhada por um p\u00fablico muito grande. Entre outras caracter\u00edsticas,\u00a0<em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>\u00a0tinha o abc de poucas obras-primas, a capacidade de ser um livro cheio de atrativos para um leitor refinado, culto e exigente ou para um leitor absolutamente elementar que s\u00f3 acompanha o enredo e n\u00e3o se interessa nem pela l\u00edngua nem pela estrutura. N\u00e3o s\u00f3 comecei a escrever coment\u00e1rios sobre a obra de Garc\u00eda M\u00e1rquez, mas tamb\u00e9m a ensinar Garc\u00eda M\u00e1rquez. O primeiro curso que dei foi de um semestre em Porto Rico. Depois na Inglaterra e finalmente em Barcelona. Dessa maneira, sem que eu me propusesse a isso, com as anota\u00e7\u00f5es que fiz nesses cursos foi surgindo o material que terminou no livro\u00a0<em>Hist\u00f3ria de um Deic\u00eddio<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Gabito e o ano perdido<\/strong><\/p>\n<p>Garc\u00eda M\u00e1rquez leu\u00a0<em>Hist\u00f3ria de um Deic\u00eddio<\/em>, sim. Disse que seu exemplar estava cheio de anota\u00e7\u00f5es e o enviaria a mim. Nunca enviou. Tenho uma hist\u00f3ria curiosa com esse livro. Os dados biogr\u00e1ficos foram informados por ele e eu acreditei, mas em uma viagem em navio para a Europa parei em um porto colombiano e ali estava toda a fam\u00edlia de Garc\u00eda M\u00e1rquez, entre eles o pai, que me perguntou: \u201cE por que voc\u00ea mudou a idade de Gabito?\u201d \u201cEu n\u00e3o mudei a idade. \u00c9 a que ele me disse\u201d, respondi. \u201cN\u00e3o, voc\u00ea diminuiu um ano, ele nasceu um ano antes\u201d. Quando cheguei a Barcelona contei o que o pai dele me havia dito e se incomodou muito, tanto que mudei de assunto. N\u00e3o podia ser brincadeira de Garc\u00eda M\u00e1rquez.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499446008_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499446008_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499446008_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/07\/07\/babelia\/1499445200_348553_1499446008_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Da esquerda para a direita, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez e Jos\u00e9 Donoso, por volta de 1970.\" width=\"980\" height=\"519\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Da esquerda para a direita, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez e Jos\u00e9 Donoso, por volta de 1970.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>Poeta, n\u00e3o intelectual<\/strong><\/p>\n<p>Era extraordinariamente divertido, um \u00f3timo contador de casos, mas n\u00e3o era um intelectual, funcionava mais como artista, como poeta, n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de explicar intelectualmente o enorme talento que tinha para escrever. Funcionava \u00e0 base de intui\u00e7\u00e3o, instinto, palpite. Essa disposi\u00e7\u00e3o t\u00e3o extraordin\u00e1ria que tinha para acertar tanto com os adjetivos, com os adv\u00e9rbios e sobretudo com a trama e a mat\u00e9ria narrativa n\u00e3o passava pelo conceitual. Naqueles anos em que fomos t\u00e3o amigos eu tinha a sensa\u00e7\u00e3o de que muitas vezes ele n\u00e3o era consciente das coisas m\u00e1gicas, milagrosas que fazia ao compor suas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong>\u2018O Outono do Patriarca\u2019<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o gostei. Talvez seja um pouco exagerado dizer assim, mas achei uma caricatura de Garc\u00eda M\u00e1rquez, como se estivesse imitando a si mesmo. O personagem n\u00e3o me parece nada veross\u00edmil. Os personagens de\u00a0<em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>, ao mesmo tempo que s\u00e3o desenfreados e al\u00e9m do poss\u00edvel, s\u00e3o sempre veross\u00edmeis, o romance tem a capacidade de torn\u00e1-los veross\u00edmeis dentro de seu exagero. Ao contr\u00e1rio, o personagem do ditador me pareceu muito caricatural, um personagem que era como uma caricatura de Garc\u00eda M\u00e1rquez. Al\u00e9m disso, acho que a prosa n\u00e3o funcionou, que nesse romance ele tentou um tipo de linguagem muito diferente da que tinha utilizado nos romances anteriores e n\u00e3o deu certo. N\u00e3o era uma prosa que dava verossimilhan\u00e7a e persuas\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria que contava. De todos os romances que ele escreveu acho esse o mais fraco.<\/p>\n<p><strong>O poder<\/strong><\/p>\n<p>Garc\u00eda M\u00e1rquez tinha um enorme fasc\u00ednio pelos homens poderosos. Seu fasc\u00ednio n\u00e3o s\u00f3 era liter\u00e1rio, mas tamb\u00e9m vital, um homem capaz de mudar as coisas pelo poder que tinha lhe parecia uma figura enormemente atraente, fascinante. Identificava-se muit\u00edssimo com aqueles poderosos que tinham mudado seu entorno gra\u00e7as a seu poder, no bom sentido e no mau sentido. Acho que um personagem como Chapo Guzm\u00e1n teria fascinado Garc\u00eda M\u00e1rquez, tenho certeza de que, para ele, criar um personagem como Chapo Guzm\u00e1n ou Pablo Escobar seria t\u00e3o absolutamente fascinante como Fidel Castro ou Torrijos.<\/p>\n<p><strong>O futuro<\/strong><\/p>\n<p>Garc\u00eda M\u00e1rquez ser\u00e1 lembrado somente por\u00a0<em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>\u00a0ou sobreviver\u00e3o tamb\u00e9m seus outros contos e romances? Isso infelizmente n\u00e3o temos como saber, n\u00e3o sabemos o que vai acontecer dentro de 50 anos com os romances dos escritores latino-americanos, \u00e9 imposs\u00edvel saber, s\u00e3o muitos os fatores que interv\u00eam nas modas liter\u00e1rias. Acredito que o que se pode dizer de\u00a0<em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>\u00a0\u00e9 que vai ficar, pode ser que a obra passe longos per\u00edodos esquecida, mas em algum momento ressuscitar\u00e1 e voltar\u00e1 a ter a vida que os leitores d\u00e3o a um livro liter\u00e1rio. Nessa obra h\u00e1 riqueza suficiente para ter essa seguran\u00e7a. Esse \u00e9 o segredo das obras-primas. Est\u00e3o a\u00ed, podem ficar enterradas, mas s\u00f3 temporariamente porque, em dado momento, algo faz com que essas obras voltem a falar com um p\u00fablico e voltem a enriquec\u00ea-lo com aquilo que enriqueceu seus leitores no passado.<\/p>\n<p><strong>Rompimento<\/strong><\/p>\n<p><em>Voltou a ver Garc\u00eda M\u00e1rquez?<\/em>\u00a0N\u00e3o, nunca&#8230; Estamos entrando em terrenos perigosos, acredito que \u00e9 o momento de p\u00f4r fim a esta conversa [risadas].\u00a0<em>Como recebeu a not\u00edcia da morte de Garc\u00eda M\u00e1rquez?<\/em>\u00a0Com pena certamente. \u00c9 uma \u00e9poca que acaba, como com a morte de Cort\u00e1zar ou a de Carlos Fontes. Eram escritores magn\u00edficos, mas tamb\u00e9m foram grandes amigos, e o foram em um momento no qual a Am\u00e9rica Latina chamou a aten\u00e7\u00e3o do mundo inteiro. Como escritores, vivemos um per\u00edodo em que a literatura latino-americana era uma credencial positiva. Descobrir que, de repente, sou o \u00faltimo sobrevivente dessa gera\u00e7\u00e3o e o \u00faltimo que pode falar em primeira pessoa dessa experi\u00eancia \u00e9 algo triste.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|despiece\" class=\"sumario_despiece centro\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<header class=\"sumario-encabezado\">\n<h4 class=\"sumario-titulo\"><span class=\"sin_enlace\">O MELHOR LEITOR DE GABO<\/span><\/h4>\n<\/header>\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p>Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez publicou\u00a0<i>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/i>\u00a0em 5 de junho de 1967. Pouco depois conheceu Mario Vargas Llosa pessoalmente em Caracas. E ambos mantiveram uma intensa rela\u00e7\u00e3o epistolar que se transformou em amizade. Quatro anos mais tarde, o Nobel peruano publicou\u00a0<i>Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez: Hist\u00f3ria de um Deic\u00eddio<\/i>, uma an\u00e1lise monumental da obra do colombiano, que continua a ser uma refer\u00eancia para estudiosos do Nobel de Aracataca. Nesta semana, a C\u00e1tedra Vargas Llosa dedicou um dos cursos de Ver\u00e3o da Universidade Complutense de Madri para homenagear o criador de Macondo. A conversa entre Carlos Gran\u00e9s e o autor de\u00a0<i>A Cidade e os Cachorros<\/i>, parcialmente reproduzida nestas p\u00e1ginas, fez parte desse curso.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nobel peruano analisa as luzes e sombras de um escritor que conhece como poucos<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":203150,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-203149","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/liosa.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203149","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=203149"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203149\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/203150"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=203149"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=203149"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=203149"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}