{"id":206258,"date":"2017-07-23T11:18:24","date_gmt":"2017-07-23T14:18:24","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=206258"},"modified":"2017-07-23T11:18:24","modified_gmt":"2017-07-23T14:18:24","slug":"pesquisa-constata-discriminacao-racial-recorrente-no-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/pesquisa-constata-discriminacao-racial-recorrente-no-mercado-de-trabalho\/","title":{"rendered":"Pesquisa constata discrimina\u00e7\u00e3o racial recorrente no mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"news-tit margin-top-0 margin-bottom-10\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h3 class=\"news-subtit margin-bottom-20\" style=\"text-align: justify;\"><em>N\u00fameros confirmam o que mostrou a professora vista como faxineira por ter a pele escura: negros enfrentam mais barreiras no acesso a bons empregos, sal\u00e1rios e cargos de chefia<\/em><\/h3>\n<div class=\"details margin-bottom-10\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"small margin-bottom-0\"><i class=\"spr __iat margin-right-10\"><\/i>\u00a0<a href=\"mailto:gerais.em@uai.com.br\">Valquiria Lopes<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"HOTWordsTxt\" class=\"js-body-news body-news clearfix margin-bottom-25\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"news__image center\">\n<figure><img decoding=\"async\" title=\"Tulio Santos\/EM\/ D.A Press\" src=\"http:\/\/imgsapp.em.com.br\/app\/noticia_127983242361\/2017\/07\/23\/885946\/20170723082749363889e.jpeg\" alt=\"Tulio Santos\/EM\/ D.A Press\" \/><figcaption class=\"content-desc-gallery\">&#8220;O que me deixa indignada e entristecida \u00e9 perceber o quanto as pessoas s\u00e3o entorpecidas pela ideologia racista. Sim. A senhora s\u00f3 perguntou se eu fa\u00e7o faxina porque carrego no corpo a pele escura&#8221;, declarou Luana Tolentino, professora e mestranda da Ufop (foto: Tulio Santos\/EM\/ D.A Press)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no olhar de discrimina\u00e7\u00e3o, nas frases que ferem a igualdade racial ou em atitudes desrespeitosas que grupos negros s\u00e3o segregados por sua ra\u00e7a ou cor. O preconceito permeia outras esferas do cotidiano dessa popula\u00e7\u00e3o, que ainda enfrenta dificuldades para ocupar cargos de chefia e comando, ter acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, a posses e a sal\u00e1rios equivalentes aos valores pagos aos brancos. Foi o que ficou evidenciado na semana que se encerrou com um caso emblem\u00e1tico ocorrido na rua, em Belo Horizonte, quando a historiadora e professora Luana Tolentino, que \u00e9 negra, foi v\u00edtima de preconceito racial. Ela foi abordada por uma senhora e questionada se fazia faxina. \u201cAltiva e segura, respondi: N\u00e3o. Fa\u00e7o mestrado. Sou professora\u201d, descreveu Luana em uma rede social.<\/p>\n<div id=\"publicidadeinterna\"><\/div>\n<p>O caso chamou a aten\u00e7\u00e3o para a forma como a discrimina\u00e7\u00e3o racial est\u00e1 atrelada ao mundo do trabalho e estabelece estruturas de hegemonia que vinculam negros a postos de servi\u00e7o subordinados, social e economicamente inferiores. \u00c9 o que explicam especialistas e mostram dados de institutos de pesquisa. Para se ter ideia, os \u00faltimos n\u00fameros da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua (Pnad Cont\u00ednua) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), sobre o quarto trimestre de 2016, revelaram que a taxa de desemprego permanece maior entre negros e pardos, que tamb\u00e9m t\u00eam sal\u00e1rios mais baixos. Na ocasi\u00e3o, a renda m\u00e9dia real recebida pelas pessoas ocupadas no pa\u00eds foi estimada em R$ 2.043. O rendimento dos brancos era de R$ 2.660 (acima da m\u00e9dia nacional), enquanto o dos pardos ficou em apenas R$ 1.480\u00a0 e o dos trabalhadores que se declaram pretos esteve em R$ 1.461.<\/p>\n<p>A taxa de desemprego entre os diferentes grupos tamb\u00e9m confirma o preconceito racial. O \u00edndice entre pessoas que se declararam de cor preta ficou em 14,4% no quarto trimestre de 2016, enquanto a taxa entre a popula\u00e7\u00e3o parda foi de 14,1%. Os resultados s\u00e3o maiores que o da m\u00e9dia nacional, de 12%, e do que o registrado pela popula\u00e7\u00e3o branca, que teve taxa de desemprego de 9,5% no quarto trimestre de 2016.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do soci\u00f3logo Luiz Chateaubriand, da Superintend\u00eancia de Estudos Econ\u00f4micas e Sociais da Bahia, os dados s\u00e3o um resultado da forma como o mercado se estrutura em fun\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es de ra\u00e7a e cor. Tamb\u00e9m analista da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese), o especialista explica que popula\u00e7\u00e3o negra e parda tem mais dificuldade de obter emprego, mesmo quando tem o mesmo n\u00edvel de escolaridade e titula\u00e7\u00e3o. E que, quando consegue, est\u00e1 sub-representada em postos de comando e chefia ou acesso a bens e propriedades, al\u00e9m de ganhar sal\u00e1rios mais baixos do que a popula\u00e7\u00e3o branca.<\/p>\n<p><strong>CAMINHOS<\/strong>\u00a0\u201cO racismo \u00e9 um componente da estrutura\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho. Sob qualquer aspecto que se observe, a ra\u00e7a pesa, \u00e9 um condicionante que influencia o lugar do negro nos postos de trabalho\u201d, afirma o especialista, lembrando ainda como as quest\u00f5es de g\u00eanero tamb\u00e9m interferem. \u201cPara a mulher negra, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda pior\u201d, diz. Para o soci\u00f3logo, mudar essa realidade exige investimento em pelo menos duas medidas: \u201c\u00c9 preciso equalizar as liberdades de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, em qualquer n\u00edvel, que permitam \u00e0s pessoas ingresso independente da ra\u00e7a. No mundo do trabalho, tamb\u00e9m tem que haver um bom sistema de cotas, solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 permanente, mas necess\u00e1ria para se alcan\u00e7arem percentuais melhores, especialmente na esfera privada.<\/p>\n<p>No caso da Luana Tolentino, foi preciso muita persist\u00eancia para chegar ao mestrado na\u00a0 Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Ela contou que sempre batalhou para ajudar nas despesas da casa e, com o fruto do trabalho, conseguiu ingressar na faculdade para alcan\u00e7ar o sonho de se tornar professora. \u201cQuando adolescente, trabalhei como faxineira, mas logo sa\u00ed devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do trabalho. Depois, fui telefonista, mas tamb\u00e9m sa\u00ed ap\u00f3s um epis\u00f3dio de preconceito racial. Voltei \u00e0 faxina para pagar meus estudos, j\u00e1 que \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o existiam Pro-Uni e Fies\u201d, contou. Foi na hist\u00f3ria de vida que Luana se inspirou para sua disserta\u00e7\u00e3o na Ufop, que trata da contribui\u00e7\u00e3o intelectual de mulheres negras \u00e0 ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Sobre o epis\u00f3dio de quinta-feira, Luana descreveu a rea\u00e7\u00e3o da mulher que a abordou na rua: \u201cDa boca dela n\u00e3o ouvi mais nenhuma palavra. Acho que a incredulidade e o constrangimento impediram que ela dissesse qualquer coisa\u201d, contou, no Facebook. A professora afirmou que n\u00e3o se sentiu ofendida por ter sido confundida com uma faxineira, mas incomodada com o preconceito impl\u00edcito na pergunta. \u201cO que me deixa indignada e entristecida \u00e9 perceber o quanto as pessoas s\u00e3o entorpecidas pela ideologia racista. Sim. A senhora s\u00f3 perguntou se eu fa\u00e7o faxina porque carrego no corpo a pele escura\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>Ela lembrou ainda que quando se trata das mulheres negras, espera-se sempre que estas ocupem o lugar da empregada dom\u00e9stica, da faxineira, dos servi\u00e7os gerais, da bab\u00e1, da catadora de papel, entre outros trabalhos bra\u00e7ais e com pouco n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o. \u201cIsso permanece at\u00e9 hoje. Causa muito estranhamento quando um negro se torna m\u00e9dico ou advogado. Ao passo que \u00e9 normal ser faxineira, porteiro ou gar\u00e7om\u201d, disse.<\/p>\n<h3><strong>Cotas no caminho da mudan\u00e7a<\/strong><\/h3>\n<div class=\"news__image left\">\n<figure><img decoding=\"async\" title=\"Arte\/ EM\" src=\"http:\/\/imgsapp.em.com.br\/app\/noticia_127983242361\/2017\/07\/23\/885946\/20170723082950779355e.jpg\" alt=\"Arte\/ EM\" \/><figcaption class=\"content-desc-gallery\">(foto: Arte\/ EM)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Ao passo que avan\u00e7os foram alcan\u00e7ados na pol\u00edtica de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior, com a institui\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica que cria cotas para negros em universidades do pa\u00eds, ainda \u00e9 clara a presen\u00e7a maci\u00e7a de brancos nessas institui\u00e7\u00f5es. Prova disso est\u00e1 na distribui\u00e7\u00e3o de vagas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde 42,11% das cadeiras ainda s\u00e3o ocupadas por pessoas que se autodeclararam brancos, contra 8,45% declarados pretos. No ano passado, a universidade atingiu a cota m\u00e1xima de oferta para pretos, pardos e ind\u00edgenas que estudaram em escolas da rede p\u00fablica, ofertando 50% das vagas para essas categorias.<\/p>\n<p>Ainda assim, ainda h\u00e1 muito o que ser feito na educa\u00e7\u00e3o, de modo geral, como explica a soci\u00f3loga In\u00eas Teixeira, professora titular da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFMG. Segundo ela, \u201cos processos hist\u00f3ricos e o imagin\u00e1rio das pessoas ainda colocam o negro em posi\u00e7\u00f5es permeadas por estere\u00f3tipos de inferioridade que precisam ser combatidos\u201d. Ela conta que \u00e0 \u00e9poca da elabora\u00e7\u00e3o da pesquisa Mem\u00f3rias e percursos de gera\u00e7\u00f5es de professora e estudantes negros da UFMG, da qual participou, h\u00e1 uma d\u00e9cada, havia \u00e1rea da UFMG que n\u00e3o tinha nenhum professor negro. \u201cClaro que essa realidade mudou, mais ainda h\u00e1 muito o que ser feito\u201d, avalia.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que \u201ca mentalidade escravocrata n\u00e3o est\u00e1 eliminada e ainda \u00e9 muito forte no sentido de endere\u00e7ar as pessoas negras para atividades como as dom\u00e9sticas ou outros trabalhos bra\u00e7ais, como ocorria no per\u00edodo da escravid\u00e3o\u201d, afirma a fil\u00f3sofa Shirley Miranda, tamb\u00e9m professora da FAE. Ela tamb\u00e9m comenta o desn\u00edvel identificado na presen\u00e7a de negros e brancos na educa\u00e7\u00e3o, mas ressalta a import\u00e2ncia da pol\u00edtica de cotas e o avan\u00e7o com a recente aprova\u00e7\u00e3o da medida tamb\u00e9m para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da UFMG.<\/p>\n<p>A coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resist\u00eancia Afro-brasileira (Cenarab), Makota C\u00e9lia Gon\u00e7alves, explica como esse preconceito afeta o negro n\u00e3o s\u00f3 no mercado de trabalho e na educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m em esferas pessoais. \u201cIsso fere nossa subjetividade. O racismo brasileiro n\u00e3o tem nada de gentil. Ele \u00e9 perverso. Em um desses casos, uma mo\u00e7a negra teve seu turbante puxado por um senhor quando ia pegar o \u00f4nibus. Em outro, o mesmo ocorreu em um baile de formatura. Estamos vivendo em uma sociedade que alimenta o \u00f3dio por estar incomodada com a perda de privil\u00e9gios hist\u00f3ricos, j\u00e1 que negros v\u00eam disputando vagas e postos de poder antes n\u00e3o ocupados por essa popula\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. Ela diz, no entanto, como ainda h\u00e1 desafios. \u201cO primeiro deles \u00e9 vencer o preconceito. As pessoas precisam parar de nos ver de forma estereotipada, como se o negro s\u00f3 jogasse capoeira, andasse em rodas de samba ou em postos de trabalho inferiores. Estamos alcan\u00e7ando novas possibilidades e isso deve ser respeitado\u201d, cobra.<\/p><\/div>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 margin-bottom-20\" style=\"text-align: justify;\">Tags:\u00a0<a class=\"margin-left-5 margin-right-5\" title=\"portas\">portas<\/a>\u00a0<a class=\"margin-left-5 margin-right-5\" title=\"fechadas\">fechadas<\/a>\u00a0<a class=\"margin-left-5 margin-right-5\" title=\"preconceito\">preconceito<\/a>\u00a0<a class=\"margin-left-5 margin-right-5\" title=\"negros\">negros<\/a>\u00a0<a class=\"margin-left-5 margin-right-5\" title=\"sofrem\">sofrem<\/a>\u00a0<a class=\"margin-left-5 margin-right-5\" title=\"desigualdade\">desigualdade<\/a>\u00a0<a class=\"margin-left-5 margin-right-5\" title=\"mercado\">mercado<\/a>\u00a0<a class=\"margin-left-5 margin-right-5\" title=\"trabalho\">trabal<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00fameros confirmam o que mostrou a professora vista como faxineira por ter a pele escura: negros enfrentam mais barreiras no acesso a bons empregos, sal\u00e1rios e cargos de chefia<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":206259,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,11],"tags":[],"class_list":["post-206258","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-regional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/negra-desempregada.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206258","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=206258"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206258\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/206259"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=206258"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=206258"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=206258"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}