{"id":206551,"date":"2017-07-25T06:55:04","date_gmt":"2017-07-25T09:55:04","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=206551"},"modified":"2017-07-25T06:55:04","modified_gmt":"2017-07-25T09:55:04","slug":"festas-de-casamento-sao-formas-de-sequestro-para-os-convidados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/festas-de-casamento-sao-formas-de-sequestro-para-os-convidados\/","title":{"rendered":"Festas de casamento s\u00e3o formas de sequestro para os convidados"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1><\/h1>\n<table class=\"articleGraphic rs_skip\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"articleGraphicSpace rs_skip\" rowspan=\"3\"><\/td>\n<td class=\"articleGraphicCredit rs_skip\">Angelo Abu\/Editoria de Arte\/Folhapress<\/td>\n<td class=\"articleGraphicSpace rs_skip\" rowspan=\"3\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"articleGraphicImage rs_skip\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/f.i.uol.com.br\/folha\/cartum\/images\/17205317.jpeg\" alt=\"Ilustra Coutinho de 25.jul.2017.\" width=\"620\" height=\"266\" border=\"0\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"articleGraphicCaption rs_skip\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<div class=\"author\"><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"content\">\n<p>Acontece com frequ\u00eancia: um casal amigo decide se casar. Telefonam, d\u00e3o a boa not\u00edcia e depois acrescentam: &#8220;Tranquilo: n\u00e3o est\u00e1s convidado&#8221;.<\/p>\n<p>Tenho l\u00e1grima f\u00e1cil, eu sei, mas choro sempre com intensidade redobrada. N\u00e3o de despeito. De gratid\u00e3o. Desejo felicidades aos noivos e, nos dias seguintes, procuro o melhor presente de casamento que sou capaz de imaginar.<\/p>\n<p>J\u00e1 cometi loucuras, aut\u00eanticas loucuras que levaram o noivo a suspeitar das minhas inten\u00e7\u00f5es face \u00e0 noiva. Sou inocente, sempre inocente: quando os amigos me dizem que v\u00e3o se casar, mas poupam-me \u00e0s festividades, a minha generosidade \u00e9 t\u00e3o grande que meus herdeiros j\u00e1 pensaram em interditar-me por via judicial. &#8220;Ele \u00e9 demente, Excel\u00eancia, n\u00e3o sabe o que faz.&#8221;<\/p>\n<p>Consegui esse estatuto a duras penas. Antigamente, quando trilhava o caminho vergonhoso da mentira, as festas de casamento dos outros eram sempre dias de doen\u00e7a para mim. Falo de &#8220;doen\u00e7a&#8221; em sentido pseudoliteral: no dia do enlace, eu estava no bloco operat\u00f3rio para uma cirurgia de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Assim de cabe\u00e7a, sei que j\u00e1 removi o ap\u00eandice uma tr\u00eas vezes, como se o desgra\u00e7ado voltasse a crescer com a simples amea\u00e7a do repique dos sinos. E, em mat\u00e9ria de pedras nos rins, digamos apenas isso: a minha produ\u00e7\u00e3o de calhaus, sempre em dias festivos, daria para construir duas ou tr\u00eas pir\u00e2mides eg\u00edpcias.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a mentira tem perna curta, como diz o meu povo. E os amigos, que t\u00eam o h\u00e1bito desagrad\u00e1vel de falar entre eles, come\u00e7aram a fazer as contas: &#8220;Mas afinal quantos ap\u00eandices tem um ser humano?&#8221;<\/p>\n<p>Vieram as f\u00farias. E, com as f\u00farias, os coment\u00e1rios plenos de desprezo: &#8220;Jo\u00e3o, vamos casar, mas sabemos que vais ter apendicite&#8221;. Cansei. Ganhei coragem e gritei com as m\u00e3os erguidas: &#8220;Eu n\u00e3o quero ser sequestrado! Eu n\u00e3o quero ser sequestrado!&#8221;.<\/p>\n<p>Pois \u00e9. Festas de casamento s\u00e3o formas de sequestro dos convidados. Entendo que os noivos n\u00e3o pensem da mesma forma. Para eles, os convidados est\u00e3o t\u00e3o felizes que nem se importam de serem aprisionados um dia inteiro, sujeitos aos caprichos dos esponsais.<\/p>\n<p>O leitor dir\u00e1 que exagero. N\u00e3o creio. As semelhan\u00e7as s\u00e3o arrepiantes. No sequestro, somos levados contra a nossa vontade. Na festa matrimonial, nunca conheci ningu\u00e9m, com a exce\u00e7\u00e3o dos noivos, que l\u00e1 estivesse de corpo e alma. E, mesmo entre os noivos, h\u00e1 casos e casos.<\/p>\n<p>No sequestro, somos confinados a um determinado espa\u00e7o de onde \u00e9 dif\u00edcil fugir. Nas festas matrimoniais, fugir tamb\u00e9m \u00e9 uma hip\u00f3tese arriscada. Quando muito, podemos tentar \u2013mas apenas quando os vigilantes j\u00e1 dormem ou est\u00e3o perdidamente embriagados.<\/p>\n<p>E que dizer da comida? No sequestro, comemos o que nos d\u00e3o. Nas festas matrimoniais, o card\u00e1pio tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 da nossa responsabilidade.<\/p>\n<p>De resto, h\u00e1 tortura abundante porque somos obrigados a testemunhar viol\u00eancias desumanas. Por mim falo: os anos passam e ainda n\u00e3o consegui esquecer a imagem de alguns familiares a dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Finalmente, existe a quest\u00e3o do resgate: se os criminosos pedem dinheiro, as festas matrimoniais pedem um \u00faltimo vexame. As nossas bocas. Sim, bocas abertas para o bolo de casamento, que \u00e9 sempre inaugurado quando j\u00e1 perdemos todas as esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Quando frequentava esses festins, e os noivos, em plena madrugada, cortavam finalmente o bolo, eu j\u00e1 n\u00e3o tinha for\u00e7as para festejar. As l\u00e1grimas falavam por mim e todo mundo ficava impressionado: &#8220;Vejam s\u00f3: n\u00e3o \u00e9 rom\u00e2ntico esse rapaz?&#8221;.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o as portas do cativeiro se abriam e os prisioneiros se arrastavam para fora dali. &#8220;Arrastar&#8221; \u00e9 o termo, sobretudo entre as donzelas: um dia inteiro de salto alto e compreendemos como \u00e9 dif\u00edcil conjugar os verbos &#8220;caminhar&#8221; e &#8220;gangrenar&#8221;.<\/p>\n<p>Hoje, vivo em paz. E sei que alguns amigos \u2013os divorciados\u2013 j\u00e1 me perdoaram. &#8220;Eu deveria ter seguido o teu exemplo&#8221;, dizem eles, lembrando o dia em que estiveram l\u00e1 \u2013e eu, doente, no hospital imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Aconselho calma. E depois, em homenagem \u00e0s velhas mentiras, arrisco s\u00f3 mais uma: &#8220;Queres saber a verdade? Eu n\u00e3o fui porque sempre soube que ele n\u00e3o era a pessoa certa para ti&#8221;.<\/p>\n<p>Ouvem-se suspiros de al\u00edvio e eu sei o que passa pelas cabe\u00e7as deles: &#8220;Quem diria, afinal, que o Jo\u00e3o era s\u00e3o?&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Angelo Abu\/Editoria de Arte\/Folhapress Acontece com frequ\u00eancia: um casal amigo decide se casar. Telefonam, d\u00e3o a boa not\u00edcia e depois acrescentam: &#8220;Tranquilo: n\u00e3o est\u00e1s convidado&#8221;. Tenho l\u00e1grima f\u00e1cil, eu sei, mas choro sempre com intensidade redobrada. N\u00e3o de despeito. 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