{"id":206612,"date":"2017-07-25T09:30:32","date_gmt":"2017-07-25T12:30:32","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=206612"},"modified":"2017-07-25T09:30:32","modified_gmt":"2017-07-25T12:30:32","slug":"martinho-lutero-como-escola-nunca-ensinou-antilatino-e-antissemita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/martinho-lutero-como-escola-nunca-ensinou-antilatino-e-antissemita\/","title":{"rendered":"Martinho Lutero como a escola nunca ensinou: antilatino e antissemita"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Celebra\u00e7\u00f5es do 5\u00ba centen\u00e1rio do cisma luterano evitam aspectos obscuros do legado de Lutero.<\/em><\/h2>\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">O manto religioso encobre um conflito pol\u00edtico e nacionalista<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<aside id=\"compartir_superior\" class=\"compartir compartir--fijo\">\n<div class=\"compartir__interior\">\n<div class=\"compartir-varios\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \">\n<div class=\"firma firma--vertical\">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Mar\u00eda Elvira Roca Barea*\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/el_pais\/a\/\">MAR\u00cdA ELVIRA ROCA BAREA*<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<div id=\"articulo-introduccion\" class=\"articulo-introduccion\">\n<p>Diz a lenda que, em 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Martinho_Lutero\">Martinho Lutero<\/a>\u00a0(1483-1546), escandalizado com o vergonhoso espet\u00e1culo que a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/iglesia_catolica\/a\">Igreja Cat\u00f3lica<\/a>\u00a0oferecia e indignado com a venda de indulg\u00eancias, pregou nas portas da igreja de Wittenberg as 95 teses que desafiavam o poder de Roma. O anivers\u00e1rio de 500 anos desse gesto est\u00e1 sendo celebrado com pompa na Alemanha.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/angela_merkel\/a\">Merkel<\/a>e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/barack_obama\/a\">Obama<\/a>\u00a0prestaram homenagem a Lutero em 25 de maio no Port\u00e3o de Brandemburgo e, por volta da mesma data, foi inaugurada uma espetacular exposi\u00e7\u00e3o em Wittenberg. Esses s\u00e3o s\u00f3 alguns dos eventos mais destacados. Desde o fim da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/segunda_guerra_mundial\/a\">Segunda Guerra Mundial<\/a>, os anivers\u00e1rios luteranos (nascimento, morte, 95 teses, ilumina\u00e7\u00e3o divina durante a tempestade de 1505\u2026) quase n\u00e3o tinham relev\u00e2ncia. Mas agora isso mudou. Por qu\u00ea?<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2017\/07\/21\/actualidad\/1500642089_505462_1500642173_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2017\/07\/21\/actualidad\/1500642089_505462_1500642173_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2017\/07\/21\/actualidad\/1500642089_505462_1500642173_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/internacional\/imagenes\/2017\/07\/21\/actualidad\/1500642089_505462_1500642173_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Igreja Luterana Martinho Lutero\" width=\"980\" height=\"508\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Instala\u00e7\u00e3o do artista alem\u00e3o Ottmar H\u00f6rl feita com 800 imagens de Martinho Lutero e exposta na cidade alem\u00e3 de Wittenberg em agosto de 2010.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">PETER ENDIG<\/span>\u00a0<span class=\"foto-agencia\">AFP \/ GETTY IMAGES<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>O gesto descrito \u00e0s portas da igreja de Wittenberg \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o m\u00edtica e ritual do significado de Martinho Lutero para o chamado\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Sacro_Imp%C3%A9rio_Romano-Germ%C3%A2nico\">Sacro Imp\u00e9rio Romano-Germ\u00e2nico<\/a>. H\u00e1 muito se duvida que ele tenha mesmo pregado suas teses; as men\u00e7\u00f5es ao ato desafiador aparecem muito depois, conforme se vai adornando e mitificando a personagem Lutero e o cisma que ele trouxe consigo. Mas,\u00a0<em>se non \u00e8 vero, \u00e8 ben trovato (ainda que n\u00e3o seja verdade, \u00e9 bem poss\u00edvel).<\/em>\u00a0Seria muito menos heroico mandar o texto de protesto pelo correio \u2013 que \u00e9 o que provavelmente aconteceu \u2013 ao bispo de Mog\u00fancia (Mainz). O gesto simb\u00f3lico conserva hoje toda sua aura teatral, mas era muito mais \u00e9pico naquele tempo, porque o homem do s\u00e9culo XVI sabia que essa era a maneira de divulgar os chamados cartazes de desafio, em que um cavalheiro insultava publicamente outro e o desafiava a um duelo. E era preciso responder, quem n\u00e3o o fazia ficava desonrado para sempre. H\u00e1, na figura de Lutero, um componente de hero\u00edsmo\u00a0<em>a posteriori<\/em>\u00a0muito interessante para compreender seu significado na hist\u00f3ria da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/alemania\/a\">Alemanha<\/a>\u00a0e tamb\u00e9m, n\u00e3o se surpreenda o leitor, na da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/espana\/a\">Espanha<\/a>.<\/p>\n<p>O cisma luterano \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de um problema pol\u00edtico, mas o contexto religioso em que foi mantido turva completamente sua compreens\u00e3o. Atrav\u00e9s dele se expressa o nacionalismo germ\u00e2nico primordial e, por isso, Martinho Lutero \u00e9 celebrado e exaltado na Alemanha cada vez que esse nacionalismo ganha for\u00e7a. Desde a Segunda Guerra Mundial n\u00e3o se comemorava de maneira significativa nenhuma efem\u00e9ride luterana. Em 1983 passou em branco na Alemanha Ocidental o quinto centen\u00e1rio do nascimento de Martinho Lutero, t\u00e3o festejado nos tempos de\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Otto_von_Bismarck\">Bismarck<\/a>. Em 10 de novembro de 1883, por exemplo, o imperador\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Guilherme_I_da_Alemanha\">Guilherme I<\/a>\u00a0liderou o desfile do quarto centen\u00e1rio de nascimento de Lutero em Eisleben.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|apoyos\" class=\"sumario_apoyos izquierda\"><a name=\"sumario_6\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\"><\/div>\n<\/section>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" data-google-query-id=\"CI2pnIG3pNUCFUuCkQodBZcJ9Q\"><\/div>\n<p>Em\u00a0<em>Historia del a\u00f1o 1883<\/em>\u00a0o intelectual e pol\u00edtico espanhol Emilio Castelar escreve: \u201cOs povos protestantes celebraram o quarto centen\u00e1rio de Lutero com j\u00fabilo universal\u201d e ainda, embora \u201cos cat\u00f3licos e os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/protestantismo\/a\">protestantes<\/a>\u00a0da Alemanha n\u00e3o tenham concordado em homenagear o religioso, concordaram em homenagear o patriota\u201d. Mas o mais interessante \u00e9 o expediente: \u201cN\u00f3s, que n\u00e3o pertencemos \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Luteranismo\">religi\u00e3o luterana<\/a>\u00a0nem \u00e0 ra\u00e7a germ\u00e2nica, espanh\u00f3is e cat\u00f3licos de nascimento, podemos celebrar sem receio aquele que, iniciando as liberdades de pensamento e de exame, iniciou as revolu\u00e7\u00f5es modernas, por cuja virtude rompemos nossos grilh\u00f5es de servos e proclamamos a universalidade da justi\u00e7a e do direito\u201d. N\u00e3o precisamos, portanto, ir a Wittenberg para ler os textos que comentam a espetacular exposi\u00e7\u00e3o. O que ali se conta \u00e9 exatamente o mesmo que Castelar nos diz: Lutero, o pai da liberdade religiosa na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/europa\/a\">Europa<\/a>; Lutero, o her\u00f3i por cujo esfor\u00e7o \u00edmpar este continente se livrou das trevas e da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/esclavitud\/a\">escravid\u00e3o<\/a>. Castelar diz que \u201crompemos nossos grilh\u00f5es\u201d. A Lutero devemos nada menos que \u201ca justi\u00e7a e o direito\u201d, porque \u00e9 evidente que os espanh\u00f3is n\u00e3o t\u00ednhamos isso.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\"><i>Lutero foi o grande protetor das oligarquias, o fiador religioso de um feudalismo tardio que manteve a Alemanha no atraso e na pobrez<\/i>a<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>E, claro, se Lutero rompe os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/esclavitud\/a\">grilh\u00f5es<\/a>\u00a0\u00e9 porque havia grilh\u00f5es a romper e algu\u00e9m os tinha colocado. Se traz a liberdade de pensamento \u00e9 porque isso n\u00e3o existia, e quem impedia? Nem \u00e9 preciso dizer com todas as letras, mas est\u00e1 a\u00ed, constantemente presente: o sombrio e sinistro Imp\u00e9rio espanhol e cat\u00f3lico. Para que o her\u00f3i Lutero exista \u00e9 preciso haver um monstro que o antagonize. Sem monstro, n\u00e3o h\u00e1 her\u00f3i. Quem visita Wittenberg ou qualquer das muitas exposi\u00e7\u00f5es e celebra\u00e7\u00f5es na Alemanha hoje, mesmo sendo espanhol e cat\u00f3lico \u2013 e especialmente se for espanhol e cat\u00f3lico \u2013 n\u00e3o v\u00ea o cen\u00e1rio que torna poss\u00edvel o brilho germ\u00e2nico. Quando digo cat\u00f3lico n\u00e3o quero dizer religioso. A f\u00e9 \u00e9 irrelevante neste contexto. Refiro-me a quem nasceu em um pa\u00eds de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/iglesia_catolica\/a\">cultura cat\u00f3lica<\/a>. Porque esse fulgor germ\u00e2nico precisou, s\u00e9culo ap\u00f3s s\u00e9culo, como condi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>sine qua non<\/em>\u00a0para sua exalta\u00e7\u00e3o, que o sul mediterr\u00e2neo fosse obscuro e atrasado, imoral e decadente, indolente e pouco confi\u00e1vel. Foi em tempos de Lutero que o adjetivo\u00a0<em>welsch<\/em>\u00a0\u2013 uma denomina\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica pouco precisa para referir-se ao sul \u2013 passou a significar latino ou rom\u00e2nico, e malvado e imoral ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>A \u201cliberdade luterana\u201d n\u00e3o resiste a um olhar pr\u00f3ximo e livre de preconceitos. Come\u00e7ou provocando uma guerra espantosa que se chamou\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Guerra_dos_Camponeses\">Guerra dos Camponeses<\/a>\u00a0e deixou mais de 100.000 mortos nos campos do Sacro Imp\u00e9rio. Porque os camponeses acreditaram de verdade naquelas exaltadas prega\u00e7\u00f5es da boca de Lutero e de outros que clamavam contra as riquezas acumuladas pelos poderosos da terra com\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/roma\/a\">Roma<\/a>\u00a0como fiadora de tais injusti\u00e7as. Isso provocou uma convuls\u00e3o social como nenhuma outra na Europa at\u00e9 a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/04\/28\/cultura\/1493389536_863123.html\">Revolu\u00e7\u00e3o Francesa<\/a>. Os pr\u00edncipes alem\u00e3es, cujo prop\u00f3sito era basicamente opor-se ao imperador, n\u00e3o pensaram que incentivar aquela efervesc\u00eancia antissistema (Carlos V e o catolicismo) poderia se voltar contra eles, mas tiveram que enfrentar uma revolta de propor\u00e7\u00f5es gigantescas. Alguns cl\u00e9rigos revolucion\u00e1rios como\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Thomas_M%C3%BCntzer\">M\u00fcntzer<\/a>, conhecido como o te\u00f3logo da revolu\u00e7\u00e3o, mantiveram-se fi\u00e9is a seus princ\u00edpios at\u00e9 o final e foram executados, mas Lutero decidiu sobreviver. Desde o in\u00edcio de 1525, depois da morte de\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ulrich_von_Hutten\">Hutten<\/a>\u00a0e Sickingen, os dois l\u00edderes revolucion\u00e1rios que o tinham protegido, Lutero fica servi\u00e7o dos pr\u00edncipes alem\u00e3es e incentiva a viol\u00eancia brutal com que os grandes senhores germ\u00e2nicos sufocaram as rebeli\u00f5es campesinas: \u201cContra as hordas assassinas e saqueadoras molho minha pena em sangue, seus integrantes devem ser estrangulados, aniquilados, apunhalados, em segredo ou publicamente, como se matam os c\u00e3es raivosos\u201d.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o Lutero passa a ser o grande defensor das\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/12\/12\/internacional\/1418416874_501630.html\">oligarquias<\/a>senhoriais, o arrimo teol\u00f3gico de um\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/12\/23\/eps\/1482497513_669815.html\">feudalismo tardio<\/a>\u00a0que manteve a Alemanha em um estado de pobreza e atraso j\u00e1 superado na Espanha e na maior parte do sul. A estagna\u00e7\u00e3o dessas oligarquias pela via religiosa impediu a unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha e possibilitou uma sobreviv\u00eancia an\u00f4mala do sistema feudal nessa parte da Europa. Quase todo mundo sabe que a servid\u00e3o na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rusia\/a\">R\u00fassia<\/a>\u00a0durou at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, mas se ignora que na Alemanha tamb\u00e9m, sobretudo nas regi\u00f5es protestantes. Um dos primeiros estados a abolir as leis de servid\u00e3o foi a cat\u00f3lica Bav\u00e1ria em 1808, mas, na regi\u00e3o oriental, o processo s\u00f3 foi conclu\u00eddo em meados do s\u00e9culo. Bem. Isso no que diz respeito a Lutero como libertador social. Vejamos agora Lutero como libertador do pensamento.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/01\/15\/internacional\/1421338937_061017.html\">Liberdade religiosa<\/a>\u00a0e livre exame s\u00e3o dois \u00edcones lingu\u00edsticos cunhados por Lutero que nunca tiveram um reflexo na realidade, como demonstram primeiro a l\u00f3gica e depois a hist\u00f3ria.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\"><i>Quase uma quarta parte das propriedades do Sacro Imp\u00e9rio mudaram de m\u00e3os. N\u00e3o houve um latroc\u00ednio igual at\u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/i><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Supostamente o livre exame significa que o crist\u00e3o deve se entender diretamente com Deus atrav\u00e9s dos textos sagrados, sem intermedi\u00e1rios onerosos e imorais como \u201cos romanos\u201d (assim Lutero chamava o clero cat\u00f3lico, embora fossem t\u00e3o alem\u00e3es como ele). Se for assim, h\u00e1 uma consequ\u00eancia imediata: o desaparecimento do clero, por desnecess\u00e1rio. Os fatos demonstram que isto jamais aconteceu, porque Lutero n\u00e3o operou a destrui\u00e7\u00e3o das igrejas, apenas criou outra. Nem Lutero deixou de ser cl\u00e9rigo, nem o n\u00famero deles no Sacro Imp\u00e9rio diminuiu. Simplesmente se formou um novo corpo sacerdotal que tamb\u00e9m guiou o rebanho aonde deveria ir. S\u00f3 que agora esse corpo de pastores serve unicamente ao senhor do territ\u00f3rio (e n\u00e3o a um Papa estrangeiro e a um imperador aliado com o mundo\u00a0<em>welsch<\/em>), que \u00e9 quem lhe d\u00e1 de comer. Se lhe servir bem, como fez Lutero, viver\u00e1 bem. Viver\u00e1 inclusive melhor que com os \u201cromanos\u201d, e assim Lutero recebeu do pr\u00edncipe da Sax\u00f4nia, como primeira prova de gratid\u00e3o, aquele que havia sido o seu antigo convento em Wittenberg. \u00c9 um bel\u00edssimo pal\u00e1cio, onde se instalou com sua nova esposa, seus parentes e seus criados. Tinha nascido no seio de uma fam\u00edlia muito humilde e, como monge agostiniano, jamais teria podido se permitir esses luxos. E aqui n\u00e3o tocaremos mais no assunto das cr\u00edticas ferozes aos luxos do clero \u201cromano\u201d.<\/p>\n<p>A liberdade religiosa \u00e9 provavelmente o totem lingu\u00edstico mais afortunado de Martinho Lutero. Foi e \u00e9 ininterruptamente debatido diante das trevas do catolicismo e da sua na\u00e7\u00e3o defensora por princ\u00edpio, a Espanha. Nem \u00e9 preciso pensar muito para ver aonde vai parar a liberdade luterana. Se ela tivesse existido alguma vez, mesmo que teoricamente, tamb\u00e9m os cat\u00f3licos e outras fac\u00e7\u00f5es protestantes teriam tido direito a ela. Se o crist\u00e3o \u00e9 livre para interpretar os textos sagrados, ent\u00e3o tamb\u00e9m a interpreta\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica \u00e9 poss\u00edvel e deve ser aceita. E deveria ter sido respeitada em conson\u00e2ncia com a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/20\/internacional\/1497940076_174344.html\">\u201cliberdade religiosa\u201d<\/a>que Lutero e seus di\u00e1conos pregavam. Se a l\u00f3gica humana n\u00e3o \u00e9 um engodo desde a sua pr\u00f3pria raiz, \u00e9 porque \u00e9 assim mesmo. Mas o fato \u00e9 que o novo clero criou uma vers\u00e3o do cristianismo que foi a \u00fanica aceit\u00e1vel, e todas as demais foram proscritas e perseguidas; a cat\u00f3lica, obviamente, mas tamb\u00e9m os\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Anabatista\">anabatistas<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Calvinismo\">calvinistas<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Menonitas\">menonitas<\/a>\u00a0etc\u00e9tera.<\/p>\n<p><i>Ele \u00e9 apresentado como o paladino da liberdade religiosa, mas o clero luterano perseguiu as demais vers\u00f5es do cristianismo<\/i><\/p>\n<p>Entretanto, s\u00e9culo ap\u00f3s s\u00e9culo, Lutero passeou pela hist\u00f3ria da Europa imune \u00e0 verdade, aos fatos e \u00e0 l\u00f3gica. Basta o leitor digitar a sequ\u00eancia\u00a0<a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/search?q=%E2%80%9CLutero+liberdade+religiosa%E2%80%9D&amp;oq=%E2%80%9CLutero+liberdade+religiosa%E2%80%9D&amp;aqs=chrome..69i57.582j0j4&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8#q=Lutero+liberdade+religiosa\">\u201cLutero liberdade religiosa\u201d<\/a>\u00a0em algum buscador da Internet e ver\u00e1. Se escrever em ingl\u00eas e alem\u00e3o, ficar\u00e1 pasmado. Poder\u00edamos levar um pouco adiante este perverso jogo com as palavras e exasperar os argumentos hist\u00f3ricos habitualmente aceitos. Porque aplicar a \u201cliberdade religiosa\u201d em sentido luterano \u00e9 o que fizeram os\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Reis_Cat%C3%B3licos\">Reis Cat\u00f3licos na Espanha<\/a>, ou seja, que todos os s\u00faditos devem ter a mesma religi\u00e3o que seu senhor terreno. Este \u00e9 o princ\u00edpio conhecido como\u00a0<em>cuius regio, eius religio<\/em>, e deu cobertura legal aos pr\u00edncipes alem\u00e3es para obrigarem as popula\u00e7\u00f5es de seus territ\u00f3rios a se tornarem protestantes, quisessem ou n\u00e3o, e nem sempre gra\u00e7as a serm\u00f5es persuasivos e pac\u00edficos. Mas \u00e9 evidente que os Reis Cat\u00f3licos n\u00e3o podem ser os pais da liberdade religiosa, embora tenham feito exatamente o mesmo, porque, como diz Castelar, n\u00f3s n\u00e3o somos luteranos nem pertencemos \u00e0 ra\u00e7a germ\u00e2nica.<\/p>\n<p>A esta altura voc\u00ea j\u00e1 estar\u00e1 se perguntando: mas por que os\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lista_de_monarcas_da_Alemanha\">pr\u00edncipes alem\u00e3es<\/a>tinham tanto empenho em se tornarem protestantes? N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de explicar, mas para isso, como apontamos acima, \u00e9 preciso sair do terreno religioso, da superioridade moral e das palavras tot\u00eamicas, onde todo o protestantismo diligentemente insistiu em situar aquele sangrento conflito. Quase uma quarta parte dos bens im\u00f3veis do Sacro Imp\u00e9rio mudaram de m\u00e3os, entre confiscos de propriedades eclesi\u00e1sticas e de pessoas que abandonaram os territ\u00f3rios protestantes por se negarem a acatar a convers\u00e3o for\u00e7osa. At\u00e9 a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/01\/27\/cultura\/1485531342_170700.html\">Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/a>, n\u00e3o houve latroc\u00ednio compar\u00e1vel no Ocidente. Mas, claro, n\u00e3o chamamos assim, porque um tinha uma cobertura teol\u00f3gica, e o outro, uma cobertura ideol\u00f3gica. Definitivamente: uma justificativa moral. Isto naturalmente n\u00e3o ser\u00e1 contado ao visitante na magna exposi\u00e7\u00e3o de Wittenberg.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\"><i>Foi furiosamente antissemita e prefigura o programa nazista. A Noite dos Cristais foi feita em homenagem aos seus 450 anos<\/i><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Lutero foi n\u00e3o somente\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/xenofobia\/a\">antilatino<\/a>, mas tamb\u00e9m furiosamente\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/antisemitismo\/a\">antissemita<\/a>. O fil\u00f3sofo alem\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Karl_Jaspers\">Karl Jaspers<\/a>\u00a0escreveu que o programa nazista est\u00e1 prefigurado em Martinho Lutero, que dedicou par\u00e1grafos horripilantes aos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/judios\/a\">judeus<\/a>: \u201cDevemos primeiro atear fogo \u00e0s suas sinagogas e escolas, sepultar e cobrir com lixo o que n\u00e3o incendiarmos, para que nenhum homem volte a ver deles pedra ou cinza\u201d. O primeiro grande\u00a0<em>pogrom<\/em>\u00a0de 1938, a Noite dos Cristais, foi justificado como uma opera\u00e7\u00e3o piedosa em homenagem a Martinho Lutero por seus 450 anos.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/adolf_hitler\/a\">Hitler<\/a>\u00a0disputou as elei\u00e7\u00f5es de 1933 com um soberbo cartaz no qual a imagem de Lutero e a cruz gamada aparecem juntas. As celebra\u00e7\u00f5es luteranas dos nazistas eram espetaculares. Com id\u00eantica ferocidade Lutero estimulou e justificou a queima de bruxas, que deixou nada menos do que 25.000 v\u00edtimas na Alemanha, segundo Henningsen. Acumulamos tantos milhares, milh\u00f5es de mortos com este assunto que \u00e9 melhor nem fazer contas.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 do que se envergonhar. A Alemanha celebra ostensivamente Martinho Lutero porque se sente bem, porque Lutero \u00e9 o pai do nacionalismo alem\u00e3o e de sua Igreja, e tem, portanto\u2026 indulg\u00eancia teol\u00f3gica. Desde a reunifica\u00e7\u00e3o, e depois com a chegada do euro como elixir m\u00e1gico, a Alemanha est\u00e1 em um tempo novo e encara \u00e0s claras uma hegemonia europeia inconteste. A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/reino_unido\/a\">Gr\u00e3-Bretanha<\/a>\u00a0desertou do barco da Uni\u00e3o, e a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/francia\/a\">Fran\u00e7a<\/a>\u00a0n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de confrontar a indiscut\u00edvel supremacia germ\u00e2nica. Nem a Espanha nem a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/italia\/a\">It\u00e1lia<\/a>parecem perceber muito bem como s\u00e3o necess\u00e1rias para compensar esta hegemonia e como andam perdidas, sem conseguir superar o complexo de inferioridade que assumiram h\u00e1 s\u00e9culos. Porque, com tudo isto, chegamos ao grande assunto do qual se trata aqui: o da superioridade moral frente ao\u00a0<em>su\u00edno<\/em>mundo n\u00e3o protestante no qual vivemos, a qual foi t\u00e3o absolutamente assumida que muitos de nossos jornais, como nos tempos de Castelar, se somaram contentes \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o luterana, t\u00e3o cegos e t\u00e3o perdidos hoje no labirinto da sua pr\u00f3pria inferioridade como estavam h\u00e1 100 anos.<\/p>\n<p class=\"nota_pie\"><strong><em>*Mar\u00eda Elvira Rocha Barea<\/em><\/strong>\u00a0<em>\u00e9 fil\u00f3loga e autora de \u2018Imperiofobia e Lenda Negra\u2019 (Siruela).<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celebra\u00e7\u00f5es do 5\u00ba centen\u00e1rio do cisma luterano evitam aspectos obscuros do legado de Lutero.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":206613,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-206612","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/lutero.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206612","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=206612"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206612\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/206613"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=206612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=206612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=206612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}