{"id":206964,"date":"2017-07-27T06:46:20","date_gmt":"2017-07-27T09:46:20","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=206964"},"modified":"2017-07-27T06:46:20","modified_gmt":"2017-07-27T09:46:20","slug":"morte-misteriosa-de-diplomata-brasileiro-na-europa-durante-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/morte-misteriosa-de-diplomata-brasileiro-na-europa-durante-ditadura\/","title":{"rendered":"A morte misteriosa de diplomata brasileiro na Europa durante a ditadura"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Thiago Guimar\u00e3es\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\"><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/23ED\/production\/_97079190_untitledcollage.jpg\" alt=\"Arquivo pessoal\/Fatos e Fotos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Paulo Dion\u00edsio de Vasconcelos (\u00e0 esq.) e os trabalhos de investigadores no carro em que foi encontrado morto na Holanda; quase 50 anos depois, livro reconta hist\u00f3ria esquecida do regime militar<\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Agosto de 1970. No auge da repress\u00e3o durante a ditadura militar no Brasil, um jovem diplomata que servia na Embaixada do Brasil em Haia, na Holanda, aparece morto na cidade dentro de seu carro, com cortes pequenos no pulso esquerdo e um ferimento profundo no pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>O caso levanta suspeita de motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O mundo vive sob a tens\u00e3o da Guerra Fria. Diplomatas ajudavam a ditadura na vigil\u00e2ncia e at\u00e9 na persegui\u00e7\u00e3o a exilados pol\u00edticos. Outros eram detidos e expulsos sob acusa\u00e7\u00e3o de colaborar com organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, que sequestravam embaixadores estrangeiros para troca por presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Em 24 horas de investiga\u00e7\u00e3o, a pol\u00edcia holandesa conclui que o mineiro Paulo Dion\u00edsio de Vasconcelos cometera suic\u00eddio, pouco antes de completar 35 anos. Respons\u00e1vel pela codifica\u00e7\u00e3o de documentos secretos da embaixada, ele deixava uma beb\u00ea de dois anos e a mulher nos \u00faltimos dias de gravidez da segunda filha.<\/p>\n<p>O inqu\u00e9rito se baseia em duas evid\u00eancias: um inspetor encontrara uma l\u00e2mina de barbear numa po\u00e7a de sangue no carro e testemunhas dizem que o diplomata vinha demonstrando sinais de nervosismo, ansiedade e depress\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 pista de um eventual assassino nem carta de despedida.<\/p>\n<p>\u00d3rg\u00e3os de imprensa, alguns colegas de Itamaraty e a fam\u00edlia levantam d\u00favidas sobre o inqu\u00e9rito. Fatos novos, surgidos nos meses seguintes, aumentam as incertezas, mas autoridades pouco se mexem para desvend\u00e1-los e o epis\u00f3dio acaba caindo no esquecimento da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Quase 50 anos depois, essa morte sob circunst\u00e2ncias misteriosas \u00e9 reconstitu\u00edda pelo jornalista Eumano Silva no livro-reportagem\u00a0<i>A Morte do Diplomata: Um Mist\u00e9rio Arquivado pela Ditadura<\/i>\u00a0(Tema Editorial), que traz informa\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas sobre o caso e os anos de regime militar no Brasil.<\/p>\n<p>Silva cobriu pol\u00edtica por mais de 20 anos em Bras\u00edlia, \u00e9 coautor de\u00a0<i>Opera\u00e7\u00e3o Araguaia: Os Arquivos Secretos da Ditadura<\/i>\u00a0(Gera\u00e7\u00e3o Editorial), pr\u00eamio Jabuti de livro-reportagem em 2005, e foi consultor da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (2012-2014), que apurou viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos cometidas no Brasil entre 1946 a 1988.<\/p>\n<p>Para reconstruir a hist\u00f3ria de Paulo Dion\u00edsio, que narra em estilo de romance policial, ele teve acesso a documentos, fotos e at\u00e9 ao di\u00e1rio pessoal do diplomata produzido durante o per\u00edodo na Holanda &#8211; centenas de p\u00e1ginas com desabafos, resenhas, opini\u00f5es e relatos.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia tamb\u00e9m lhe concedeu uma procura\u00e7\u00e3o para acesso a documentos do Itamaraty sobre o caso.<\/p>\n<p>Nesse trabalho de dois anos, Silva coletou informa\u00e7\u00f5es que expunham o cen\u00e1rio que envolvia a diplomacia brasileira \u00e0 \u00e9poca, inclusive com evid\u00eancias da rede de vigil\u00e2ncia montada para seguir a movimenta\u00e7\u00e3o no exterior do ex-arcebispo de Recife e Olinda d. Helder C\u00e2mara (1909-1999), que denunciava pris\u00f5es e torturas do regime para plateias internacionais.<\/p>\n<p>&#8220;Tentei dar todos os elementos &#8211; os mesmos a que tive acesso &#8211; para que as pessoas pudessem avaliar o caso. \u00c9 muito complicado saber como uma pessoa morreu se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 perto. Como achava que n\u00e3o iria conseguir uma resposta definitiva, achei mais importante colocar todos os elementos. Seria isso suficiente? N\u00e3o sei&#8221;, disse Silva \u00e0 BBC Brasil.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F1E9\/production\/_97092916_b514c6e4-fde3-4bcb-962a-9c4d318a86b4.jpg\" alt=\"Capa do livro da Teia Editorial e Eumano Silva\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Resultado de dois anos de pesquisas, livro de Eumano Silva conheceu teve origem em trabalho de jornalista na Comiss\u00e3o Nacional da Verdade<\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Trajet\u00f3ria<\/h2>\n<p>Natural de S\u00e3o Domingos do Prata, regi\u00e3o central de Minas Gerais, Paulo Dion\u00edsio de Vasconcelos vinha de uma fam\u00edlia de elite. Seu pai, Jos\u00e9 Matheus, era m\u00e9dico e refer\u00eancia pol\u00edtica na regi\u00e3o &#8211; foi prefeito de S\u00e3o Domingos do Prata por dez anos. Cometeu suicidio em 1968, pouco mais de dois anos antes da morte do filho, cravando um bisturi no peito.<\/p>\n<p>Paulo frequentou r\u00edgidos col\u00e9gios internos. Estudioso, ainda na juventude exibia conhecimento do latim aprendido em escolas cat\u00f3licas, montava pe\u00e7as de teatro, mostrava gosto por Filosofia. Conhecido como Paul\u00e3o, tinha mais de 1,90m de altura.<\/p>\n<p>Formou-se advogado pela Universidade Federal de Minas Gerais e ingressou no Itamaraty em fevereiro de 1966. O trabalho na Holanda, onde chegara com a fam\u00edlia em maio de 1969, era seu primeiro posto de relev\u00e2ncia fora do Brasil. Como segundo-secret\u00e1rio, chefiava o setor de promo\u00e7\u00e3o comercial da embaixada.<\/p>\n<p>Por ter feito um est\u00e1gio em criptografia ainda no Brasil, ele acabou tamb\u00e9m sendo encarregado do servi\u00e7o sigiloso &#8211; codificava e decodificava documentos secretos produzidos e recebidos pela representa\u00e7\u00e3o brasileira em Haia.<\/p>\n<p>Os manuscritos do di\u00e1rio, conta o jornalista Eumano Silva, revelam um diplomata aficionado por futebol (ele fazia longa an\u00e1lises t\u00e1ticas sobre jogos europeus), cheio de opini\u00f5es sobre assuntos da atualidade e que desfrutava de uma intensa vida social e cultural ao lado da mulher, Maria Coeli, namorada de adolesc\u00eancia.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Ansiedade e tens\u00e3o<\/h2>\n<p>Por outro lado, as p\u00e1ginas descreviam tamb\u00e9m brigas constantes do casal &#8211; por &#8220;diverg\u00eancias na maneira de agir&#8221;, como descreve o autor do livro -, chatea\u00e7\u00f5es do trabalho diplom\u00e1tico e o clima de desconfian\u00e7a vigente entre funcion\u00e1rios p\u00fablicos naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>&#8220;As persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas levam as pessoas a temer o que fazem e falam&#8221;, relata Eumano Silva no livro, a partir de exemplos do di\u00e1rio do diplomata.<\/p>\n<p>Paulo vinha reclamando, por exemplo, de press\u00f5es que recebia do Itamaraty para acompanhar os movimentos de d. Helder C\u00e2mara em viagens pela Europa &#8211; o diplomata costumava passar noites em claro para transmitir, em criptografias, entrevistas concedidas pelo religioso \u00e0 m\u00eddia europeia.<\/p>\n<p>Certa vez, teve que prestar esclarecimentos a superiores ap\u00f3s ter comentado com colegas &#8211; sem ter informado previamente aos chefes &#8211; que assistira a uma entrevista com o religioso na TV holandesa.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10A65\/production\/_97079186_helder_camara_1981.jpg\" alt=\"Dom Helder C\u00e2mara\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Dom Helder C\u00e2mara em visita a Holanda em 1981; livros mostra como passos de religioso no exterior eram monitorados pela ditadura via Itamaraty<\/span><\/figure>\n<p>Tamb\u00e9m manifestava nervosismo com uma cobran\u00e7a insistente do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores sobre uma conta telef\u00f4nica que havia sido gerada pelo inquilino do apartamento que ele tinha em Bras\u00edlia &#8211; a linha era do Itamaraty, e a burocracia do minist\u00e9rio n\u00e3o aceitava as explica\u00e7\u00f5es do diplomata.<\/p>\n<p>&#8220;Os elementos de ang\u00fastia mais fortes que aparecem no di\u00e1rio est\u00e3o no livro, quando ele fala do pai dele, de fraqueza&#8221;, lembra Eumano Silva.<\/p>\n<p>Poucos dias antes de morrer, Paulo Dion\u00edsio havia tido uma crise de impaci\u00eancia ap\u00f3s esquecer de postar uma carta da embaixada. A mulher o convenceu ent\u00e3o a ir ao m\u00e9dico, que prescreveu um calmante leve.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Morte e fatos sem explica\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>O corpo de Paulo Dion\u00edsio foi encontrado \u00e0 tarde por um casal de estudantes, dentro de seu carro, estacionado ao lado de um bosque em Haia, numa rua paralela \u00e0 praia. Naquele dia, ele dissera \u00e0 mulher que iria \u00e0 cidade vizinha de Utrecht, onde organizava uma feira comercial, passaria na embaixada e voltaria para casa.<\/p>\n<p>Em tr\u00eas horas de buscas no ve\u00edculo e nos arredores, a pol\u00edcia n\u00e3o localizou nenhum objeto capaz de provocar os ferimentos que tinham causado a morte do diplomata. Numa segunda busca, j\u00e1 no final da noite, um inspetor encontrou uma l\u00e2mina de barbear numa espessa po\u00e7a de sangue no tapete do banco da frente.<\/p>\n<p>Em menos de 24 horas, a pol\u00edcia de Haia ouviu v\u00e1rias testemunhas &#8211; como o embaixador do Brasil em Haia, colegas da embaixada, um padre amigo da fam\u00edlia e a vi\u00fava Maria Coeli.<\/p>\n<p>Todos descreveram que Paulo Dion\u00edsio andava muito nervoso e angustiado. Baseado na exist\u00eancia da l\u00e2mina e desses relatos, o inqu\u00e9rito apontou que houve suic\u00eddio, conclus\u00e3o que o pr\u00f3prio embaixador Carlos Eiras refor\u00e7ou \u00e0 imprensa \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Mas a rapidez do inqu\u00e9rito (que n\u00e3o investigou o que Paulo Dion\u00edsio havia feito naquela tarde, por exemplo) e a localiza\u00e7\u00e3o tardia do instrumento do crime n\u00e3o eram as \u00fanicas &#8220;pontas soltas&#8221; do caso a alimentar questionamentos na imprensa, entre colegas de Itamaraty e a pr\u00f3pria fam\u00edlia do diplomata.<\/p>\n<p>Naquelas mesmas semanas de agosto de 1970, Paulo Dion\u00edsio recebera, na embaixada, uma carta em papel timbrado de um suposto escrit\u00f3rio de advocacia brit\u00e2nico, com as palavras &#8220;privada&#8221; e &#8220;confidencial&#8221;.<\/p>\n<p>A correspond\u00eancia detalhava supostas situa\u00e7\u00f5es e atos comprometedores atribu\u00eddos ao diplomata mineiro, como extors\u00f5es e posse de documentos de ve\u00edculos e barcos alheios. Por meio do escrit\u00f3rio de advocacia, um cliente chamado Jean Pierre Goehl cobrava a devolu\u00e7\u00e3o de altas somas de dinheiro e dizia estar preso ap\u00f3s ter sido alvo de &#8220;maldades&#8221;, &#8220;maquina\u00e7\u00f5es&#8221; e &#8220;chantagens&#8221; de Paulo Dion\u00edsio.<\/p>\n<p>&#8220;Ao mesmo tempo que culpa o diplomata, o remetente extorque e amea\u00e7a. Descreve uma situa\u00e7\u00e3o de criminalidade. N\u00e3o explicita que tipo de rela\u00e7\u00e3o pessoal haveria entre o remetente e o destinat\u00e1rio da carta&#8221;, descreve Eumano Silva no livro.<\/p>\n<p>As cartas misteriosas continuaram a chegar nos meses seguintes \u00e0 morte, mas acabaram sem explica\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia holandesa disse que o caso estava encerrado e sugeriu que uma eventual investiga\u00e7\u00e3o ocorresse em Londres. A Embaixada do Brasil na Holanda transferiu o caso \u00e0 representa\u00e7\u00e3o de Londres, que comunicou apenas, segundo mensagem do embaixador em Haia \u00e0 c\u00fapula do Itamaraty, que &#8220;nada&#8221; tinha sido apurado sobre o caso.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe at\u00e9 hoje se a representa\u00e7\u00e3o em Londres chegou a tomar alguma provid\u00eancia concreta nesse sentido.<\/p>\n<aside class=\"quote\">\n<div class=\"quote-inner\">\n<blockquote class=\"quote\"><p>Os \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o eram capazes de absurdos muito maiores do que forjar cartas. N\u00e3o h\u00e1, por\u00e9m, qualquer indica\u00e7\u00e3o de que agentes secretos, brasileiros ou estrangeiros, tenham participado das cartas endere\u00e7adas a Paulo Dion\u00edsio<\/p>\n<footer>Eumano Silva, jornalista<\/footer>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/aside>\n<p>O autor do livro destaca que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 elementos que comprovem a veracidade dos acontecimentos narrados na correspond\u00eancia&#8221;. &#8220;Falta conex\u00e3o entre os epis\u00f3dios descritos e a rotina do diplomata. As refer\u00eancias a vultosas quantias de dinheiro, Mercedes, motor de barco n\u00e3o fazem sentido para os familiares&#8221;, escreve.<\/p>\n<p>As cartas tamb\u00e9m citavam a presen\u00e7a do diplomata em Luxemburgo no ano de 1967, o que parentes dele sempre negaram &#8211; afirmam que, pelo que sabiam, ele havia conhecido a Europa apenas ao se mudar para Haia. Mas nunca foi poss\u00edvel encontrar um passaporte antigo dele para verificar essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eumano Silva menciona duas hip\u00f3teses para a estranha correspond\u00eancia: a\u00e7\u00e3o de golpistas que queriam se aproveitar da fragilidade da fam\u00edlia para pedir dinheiro para abafar um esc\u00e2ndalo inexistente. Ou a a\u00e7\u00e3o de algum servi\u00e7o secreto tentando desestimular a fam\u00edlia a contestar o resultado da investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Qualquer que seja a circunst\u00e2ncia, se realmente aconteceu, as p\u00e1ginas exp\u00f5em uma situa\u00e7\u00e3o extrema. Merecedora de aten\u00e7\u00e3o especial por parte das autoridades brasileiras e holandesas&#8221;, escreve.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Incerteza<\/h2>\n<p>O pol\u00edtico Paulino C\u00edcero de Vasconcellos, irm\u00e3o do diplomata que foi deputado estadual, federal e ministro das Minas e Energia, viajou \u00e0 Inglaterra atr\u00e1s de pistas em 1975 e no come\u00e7o dos anos 1990 pediu apoio do Itamaraty para encerrar as d\u00favidas, mas os documentos fornecidos n\u00e3o trouxeram novidades.<\/p>\n<p>Em 2014, ele entregou documentos \u00e0 filha ca\u00e7ula do irm\u00e3o para que fossem levados \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, mas o material chegou na reta final dos trabalhos do grupo e acabou sem an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Maria Lucia Abbott, jornalista brasileira baseada em Londres que trabalhou com Eumano Silva no livro, foi a campo e em um m\u00eas e meio de trabalho reuniu ind\u00edcios de que um advogado e um escrit\u00f3rio com nomes citados nas cartas misteriosas realmente existiram na Inglaterra dos anos 1970.<\/p>\n<p>&#8220;Quarenta e seis anos depois da morte do diplomata, com alguns contatos e entrevistas, a jornalista descobre pontos de conex\u00e3o das cartas com a realidade na \u00e9poca dos fatos. Ao desprezar a busca de esclarecimentos, o Itamaraty exime-se de desvendar a autoria das cartas. Deixa na mem\u00f3ria da institui\u00e7\u00e3o e da fam\u00edlia Vasconcelos a incerteza quanto aos autores das cartas&#8221;, escreve Eumano no livro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15885\/production\/_97079188_untitled-2.jpg\" alt=\"Kingston upon Thames\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Pesquisa para livro confirmou exist\u00eancia nos anos 1970 de escrit\u00f3rio de advocacia em Kingston upon Thames, na Grande Londres (foto), que assina carta misteriosa para diplomata<\/span><\/figure>\n<p>O jornalista lembra que a documenta\u00e7\u00e3o pesquisada para o livro mostra que &#8220;as embaixadas tinham outras tarefas mais urgentes&#8221; naquele momento, demandadas pela c\u00fapula do Itamaraty e do regime: o monitoramento da imprensa e dos exilados e a propaganda da ditadura.<\/p>\n<p>Nesse sentido, para al\u00e9m da reconstru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do diplomata, a pesquisa feita para o livro acabou trazendo \u00e0 luz fatos hist\u00f3ricos que n\u00e3o eram de conhecimento p\u00fablico.<\/p>\n<p>Como a atua\u00e7\u00e3o do Itamaraty na difus\u00e3o da vers\u00e3o &#8211; considerada falsa pela Comiss\u00e3o da Verdade &#8211; de suic\u00eddio do estudante e sindicalista Olavo Hansen, morto em maio de 1970 ap\u00f3s ser preso pela repress\u00e3o. Ou contatos feitos pela Embaixada do Brasil em Londres com a Scotland Yard, a pol\u00edcia metropolitana da capital brit\u00e2nica, para monitoramento de exilados brasileiros.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria de Paulo Dion\u00edsio, a fam\u00edlia n\u00e3o descarta a hip\u00f3tese de suic\u00eddio &#8211; h\u00e1, por exemplo, a sombra do ato cometido pelo pai dois anos antes e os relatos da pr\u00f3pria mulher sobre o estado mental do diplomata nos meses anteriores \u00e0 morte. Mas a d\u00favida permaneceu, relata o jornalista no livro.<\/p>\n<p>&#8220;Ao procurar um fato citado nas cartas que tenha rela\u00e7\u00e3o com a vida dele, n\u00e3o h\u00e1. Mas por que ent\u00e3o isso n\u00e3o foi dito na \u00e9poca, por que n\u00e3o apuraram, por que preferiram deixar a fam\u00edlia em d\u00favida, realmente n\u00e3o sei&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A BBC Brasil procurou o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores para coment\u00e1rios sobre os fatos expostos no livro de Eumano Silva, mas n\u00e3o houve resposta at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Ao mesmo tempo que culpa o diplomata, o remetente extorque e amea\u00e7a. Descreve uma situa\u00e7\u00e3o de criminalidade. 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