{"id":210127,"date":"2017-08-12T15:19:54","date_gmt":"2017-08-12T18:19:54","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=210127"},"modified":"2017-08-12T15:20:42","modified_gmt":"2017-08-12T18:20:42","slug":"210127-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/210127-2\/","title":{"rendered":"A brasileira que sequestrou um avi\u00e3o acompanhada de dois filhos pequenos durante a ditadura"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Roberta Jansen<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\"><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/676B\/production\/_97257462_img-4101.jpg\" alt=\"Mar\u00edlia Guimar\u00e3es com os filhos Eduardo e Marcelo ao seu lado em Cuba\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Mar\u00edlia vivia h\u00e1 um ano na clandestinidade com os dois filhos quando participou de sequestro<\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Mar\u00edlia Guimar\u00e3es tinha apenas 22 anos em 1\u00ba de janeiro de 1970, quando adentrou o Aeroporto Internacional de Carrasco, em Montevid\u00e9u, determinada a embarcar no voo 114 da Cruzeiro do Sul com destino ao Rio de Janeiro &#8211; uma viagem que, ela j\u00e1 sabia, mudaria radicalmente sua vida, para o bem ou para o mal.<\/p>\n<p>Acompanhada dos filhos Marcelo e Eduardo, ent\u00e3o com 3 e 2 anos, Mar\u00edlia estava carregada de bolsas com fraldas, mamadeiras e brinquedos, al\u00e9m das bagagens. Por baixo do vestido que trajava, levava ainda, colados ao corpo, seis rev\u00f3lveres.<\/p>\n<p>A jovem professora fazia parte de um grupo de seis guerrilheiros &#8211; ou terroristas, como preferia a ditadura militar vigente &#8211; de um movimento de esquerda radical contr\u00e1rio ao regime. O objetivo dos seis era sequestrar o avi\u00e3o Caravelle e lev\u00e1-lo para Cuba, onde Mar\u00edlia e os dois filhos poderiam viver em liberdade.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ano na clandestinidade com as duas crian\u00e7as pequenas, Mar\u00edlia dormia a cada noite em um lugar diferente para despistar os militares. A captura de uma aeronave era a \u00fanica sa\u00edda que ela conseguia vislumbrar para voltar a ter uma vida normal. Naquele momento, a ideia n\u00e3o parecia mais perigosa do que vagar sem rumo com os meninos sob a amea\u00e7a constante da pris\u00e3o e da tortura.<\/p>\n<p>&#8220;Quando voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 no perigo, tem uma for\u00e7a que nem sabe de onde vem&#8221;, explica. &#8220;\u00c9 como parir: chegou a hora, vai doer, mas n\u00e3o tem outro jeito.&#8221;<\/p>\n<p>A bagun\u00e7a que os meninos faziam no sagu\u00e3o do aeroporto era tanta que acabou concentrando a aten\u00e7\u00e3o de policiais e funcion\u00e1rios do aeroporto. O embarque ocorreu sem nenhum problema &#8211; na \u00e9poca, n\u00e3o havia detector de metais no terminal de Montevid\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8220;Ironicamente, os policiais estavam tomando conta das crian\u00e7as&#8221;, lembra Mar\u00edlia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dela e das duas crian\u00e7as, embarcaram Cl\u00e1udio Galeno de Magalh\u00e3es Linhares, o primeiro marido da ex-presidente Dilma Rousseff, James Allen da Luz, o comandante da a\u00e7\u00e3o, Athos Magno Costa e Silva, Isolde Sommer e Luiz Alberto da Silva.<\/p>\n<p>Enquanto os passageiros ajeitavam as bagagens e se sentavam, Mar\u00edlia distribuiu as armas entre os companheiros. Assim que o avi\u00e3o levantou voo, o sequestro foi anunciado. &#8220;Vamos para Cuba&#8221;, asseverou James, lendo, em seguida, um manifesto pol\u00edtico, em que explicava os motivos da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que os guerrilheiros n\u00e3o sabiam era que aquela aeronave estava com uma turbina defeituosa e s\u00f3 tinha autonomia de combust\u00edvel para duas horas de voo, o que complicaria muito os planos de pousar na ilha de Fidel Castro ainda naquele dia.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;S\u00f3 pensava em Che Guevara&#8217;<\/h2>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/103AB\/production\/_97257466_0fe77d67-c418-4c00-8500-ce0f907e6003.jpg\" alt=\"Reportagem sobre sequestro do Caravelle\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">A\u00e7\u00e3o de guerrilheiros foi not\u00edcia nos principais jornais nacionais e internacionais<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Formada em Letras, Mar\u00edlia era dona de uma escola no bairro de Coelho Neto, no sub\u00farbio do Rio, perto da Favela de Acari. Embora o col\u00e9gio de fato atendesse 800 alunos, entre eles muitos bolsistas da comunidade carente pr\u00f3xima, ele tamb\u00e9m servia de fachada para reuni\u00f5es clandestinas da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR) e para fazer c\u00f3pias de panfletos pol\u00edticos no mime\u00f3grafo.<\/p>\n<p>As coisas come\u00e7aram a fugir do controle quando o equipamento, na \u00e9poca das f\u00e9rias escolares, foi levado para a casa de um companheiro que acabou sendo preso em fevereiro de 1969. Os militares n\u00e3o levaram muito tempo para ligar o mime\u00f3grafo \u00e0 escola, exigindo explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mar\u00edlia chegou a ser presa por 72 horas e interrogada ininterruptamente.<\/p>\n<p>&#8220;Eu s\u00f3 pensava em Che Guevara&#8221;, ela lembra. &#8220;Pedia for\u00e7as a ele para n\u00e3o fraquejar, para n\u00e3o deixar que os militares vissem a verdade nos meus olhos.&#8221;<\/p>\n<p>Acabou sendo liberada. Sozinha, com dois meninos pequenos para criar e correndo o risco de ser presa novamente a qualquer momento, ela decidiu abandonar tudo e cair na clandestinidade.<\/p>\n<p>&#8220;Eu e as crian\u00e7as dorm\u00edamos cada dia em um lugar diferente, dentro de carros, na estrada, na favela, na casa dos outros&#8221;, relembra. &#8220;A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o era sair do pa\u00eds, mas eu sabia que era quase imposs\u00edvel; n\u00e3o tinha documentos, n\u00e3o tinha passaporte, era procurada em tudo o que \u00e9 lugar e era um alvo f\u00e1cil: uma mulher com duas crian\u00e7as.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eles (os guerrilheiros) viviam em desespero pol\u00edtico e psicol\u00f3gico diante tanto das quest\u00f5es pol\u00edticas quanto das humanas, com os companheiros presos, sendo torturados&#8221;, explica o historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<p>&#8220;E a op\u00e7\u00e3o de cair na clandestinidade \u00e9 muito definitiva, voc\u00ea abandona sua casa, seus parentes, pai, m\u00e3e, amigos, e vive na imin\u00eancia de ser preso, \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o muito dram\u00e1tica na vida.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O plano<\/h2>\n<p>Depois de quase um ano, o VPR determinou que era hora de tir\u00e1-la do Brasil a qualquer custo. O plano era, com a ajuda dos tupamaros, um grupo guerrilheiro do Uruguai, sequestrar um avi\u00e3o de passageiros em Montevid\u00e9u e seguir para Cuba.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/407A\/production\/_97260561_9d59d399-e359-40aa-a2b6-e84f6b964fbb.jpg\" alt=\"Reportagem sobre sequestro do Caravelle\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Hist\u00f3ria \u00e9 recontada no livro &#8216;Clandestinidade, sequestro e ex\u00edlio&#8217;<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>O sequestro de avi\u00f5es foi uma arma muito utilizada naquele per\u00edodo de recrudescimento da ditadura, bem como o de diplomatas estrangeiros. O objetivo era for\u00e7ar a liberta\u00e7\u00e3o de companheiros presos e torturados, dar fuga aos perseguidos pol\u00edticos e, claro, chamar a aten\u00e7\u00e3o do mundo para o que acontecia no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;Sequestros de diplomatas e avi\u00f5es foram atitudes desesperadas numa fase em que a pr\u00f3pria luta armada n\u00e3o seria mais vitoriosa; resistia por in\u00e9rcia revolucion\u00e1ria e para libertar seus companheiros&#8221;, explica Carlos Fico.<\/p>\n<p>Vale recuperar o contexto hist\u00f3rico da \u00e9poca, em que uma ditadura violenta, como todas as ditaduras, exercia a tortura como pol\u00edtica de Estado, nas palavras do historiador Daniel Aar\u00e3o Reis, professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/p>\n<p>&#8220;Do outro lado, um pequeno conjunto de guerrilheiros imaginando, equivocadamente, que a sociedade era um barril de p\u00f3lvora e que a eles competia acionar a fa\u00edsca para que a &#8216;pradaria&#8217; (uma met\u00e1fora mao\u00edsta para a sociedade) &#8216;se incendiasse&#8217;. Nessas condi\u00e7\u00f5es, era leg\u00edtimo, sem d\u00favida, disferir a\u00e7\u00f5es armadas contra um poder que se baseava na for\u00e7a bruta&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Nos dias que antecederam ao sequestro, o grupo se reuniu em Porto Alegre, de onde seguiria de carro at\u00e9 o Uruguai. Enquanto os guerrilheiros repassavam os \u00faltimos detalhes do plano, os dois filhos de Mar\u00edlia ficaram aos cuidados de Dilma Rousseff, cujo marido tamb\u00e9m participava da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A Dilma \u00e9 uma mulher muito especial&#8221;, conta Mar\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;Meus filhos, que nunca tinham se separado de mim, passaram 15 dias com ela. E ela era uma mulher muito nova, que, teoricamente, nem sabia lidar com crian\u00e7as. Mas ela deu a eles uma estabilidade emocional t\u00e3o forte, carinho, cuidados, que eles nunca tiveram problemas. As pessoas dizem que ela tem um olhar duro, mas n\u00e3o \u00e9 verdade. Ela \u00e9 uma mulher de uma ternura absurda.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Manchete ao redor do mundo<\/h2>\n<p>Sem autonomia de voo para ir muito longe, o Caravelle teve que fazer seu primeiro pouso de abastecimento em Buenos Aires, ainda que a contragosto das autoridades argentinas que tentaram, sem sucesso, impedir a decolagem do avi\u00e3o. A parada serviu tamb\u00e9m para que a imprensa internacional fosse informada do sequestro e da presen\u00e7a de uma guerrilheira com duas crian\u00e7as a bordo.<\/p>\n<p>&#8220;O mundo todo ficou sabendo que eu estava no avi\u00e3o com duas crian\u00e7as&#8221;, conta Mar\u00edlia. &#8220;Foi o que salvou nossas vidas.&#8221;<\/p>\n<p>Na madrugada de 2 de janeiro, o Caravelle pousou em Antofagasta, no norte do Chile, para o segundo reabastecimento. O clima no pa\u00eds governado pelo socialista Salvador Allende era favor\u00e1vel \u00e0s causas guerrilheiras brasileiras, e os tripulantes puderam abastecer com tranquilidade e ainda receber comida e jornais.<\/p>\n<p>A recep\u00e7\u00e3o seria muito diferente em Lima, no Peru, pr\u00f3xima parada de reabastecimento do Caravelle. Assim que pousou no Aeroporto Jorge Ch\u00e1vez, o avi\u00e3o foi cercado por militares peruanos. A ordem do presidente do pa\u00eds, o general Velasco Alvarado, era de negociar a todo custo uma rendi\u00e7\u00e3o, vencendo os sequestradores pelo cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c0quela altura, no dia 3 de janeiro, a a\u00e7\u00e3o dos brasileiros j\u00e1 era manchete nos principais jornais do mundo, e o aeroporto tamb\u00e9m estava apinhado de jornalistas e pol\u00edticos. O reabastecimento foi autorizado, mas as autoridades tinham uma proposta para os sequestradores: eles dariam asilo pol\u00edtico para Mar\u00edlia e os filhos e, em troca, todos os ref\u00e9ns deveriam ser liberados.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o aceitei, l\u00f3gico&#8221;, diz Mar\u00edlia. &#8220;Eles invadiriam o avi\u00e3o com meus companheiros l\u00e1 dentro.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17512\/production\/_97260559_10218af7-0d6c-49e6-a296-2c84be44dfe5.jpg\" alt=\"Certificados de nacionalidade de Mar\u00edlia e filhos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Fam\u00edlia retornou ao Brasil apenas em 1980 ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da Lei da Anistia<\/span><\/figure>\n<p>Al\u00e9m do embate diplom\u00e1tico, um grave problema t\u00e9cnico amea\u00e7ava a partida do avi\u00e3o para Cuba. Uma pane el\u00e9trica impedia o acionamento da turbina direita e do sistema de refrigera\u00e7\u00e3o. Baterias trazidas da Col\u00f4mbia eram muito velhas e n\u00e3o resolveram o problema do acionamento do motor.<\/p>\n<p>Depois de muita negocia\u00e7\u00e3o e v\u00e1rios momentos de tens\u00e3o, baterias mais modernas foram trazidas do Chile. Finalmente, ap\u00f3s 27 horas em Lima, o avi\u00e3o foi autorizado a seguir viagem para o Panam\u00e1.<\/p>\n<p>&#8220;Eu passava o tempo todo com as crian\u00e7as, contando hist\u00f3rias para elas, tentando distra\u00ed-las&#8221;, relembra Mar\u00edlia. &#8220;De maneira alguma me arrependo de nada, acho que tudo foi feito no momento certo, no lugar certo. E acho que o Cosmos estava torcendo por n\u00f3s.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Mais tens\u00e3o<\/h2>\n<p>A nova parada foi igualmente tensa. Um coronel do Ex\u00e9rcito brasileiro estava no aeroporto panamenho e tentou convencer o tripulante que desembarcou para reabastecer a aeronave a voltar a bordo com uma arma e atirar no primeiro guerrilheiro que visse, criando condi\u00e7\u00f5es para uma invas\u00e3o. A proposta n\u00e3o foi aceita.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi s\u00f3. A turbina direita voltou a dar problema e, mais uma vez, precisou de v\u00e1rias baterias para ser acionada. Como se n\u00e3o bastasse, o Caravelle necessitava de um lubrificante para turbinas que, aparentemente, estava em falta no Panam\u00e1.<\/p>\n<p>Finalmente, depois de cinco horas, o avi\u00e3o partiu para Havana.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/B58B\/production\/_97257464_mariliaguimaraes-fotodedariozalis-5807.jpg\" alt=\"Mar\u00edlia Guimar\u00e3es\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">&#8216;N\u00e3o me arrependo do caminho que escolhi na vida&#8217;, diz a ex-guerrilheira<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>A viagem final durou cerca de duas horas e, por muito pouco, o avi\u00e3o n\u00e3o sofreu uma pane. Sem lubrificante, uma das turbinas amea\u00e7ava parar a qualquer instante. Ainda assim, conseguiu pousar em seguran\u00e7a no Aeroporto Jos\u00e9 Mart\u00ed.<\/p>\n<p>&#8220;Cheguei em Havana quase delirando&#8221;, lembra Mar\u00edlia. &#8220;Passei a maior parte do tempo sem comer nem beber praticamente nada, por medo de envenenamento. Tampouco dormia, por causa das crian\u00e7as.&#8221;<\/p>\n<p>Um grupo de oficiais cubanos logo entrou no Caravelle perguntando quem era a mulher com os dois filhos. Carlos Lamarca, um dos chefes do VPR, tinha mandando uma carta para Fidel Castro pedindo aten\u00e7\u00e3o especial a Mar\u00edlia.<\/p>\n<p>Ela viveria por dez anos em Cuba com os filhos, antes de voltar para o Brasil, em 1980, depois da Lei da Anistia. As hist\u00f3rias est\u00e3o no primeiro livro de Mar\u00edlia lan\u00e7ado no Brasil,\u00a0<i>Habitando o tempo. Clandestinidade, sequestro e ex\u00edlio<\/i>, que chega \u00e0s livrarias nesta semana.<\/p>\n<p>&#8220;O Candombl\u00e9 diz que existem 256 caminhos para a vida. Eu escolhi um deles, e n\u00e3o me arrependo.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A jovem professora fazia parte de um grupo de seis guerrilheiros &#8211; ou terroristas, como preferia a ditadura militar vigente &#8211; de um movimento de esquerda radical contr\u00e1rio ao regime. 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