{"id":211687,"date":"2017-08-21T06:07:04","date_gmt":"2017-08-21T09:07:04","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=211687"},"modified":"2017-08-21T06:07:04","modified_gmt":"2017-08-21T09:07:04","slug":"este-deserto-ja-foi-uma-lagoa-do-tamanho-de-10-campos-de-futebol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/este-deserto-ja-foi-uma-lagoa-do-tamanho-de-10-campos-de-futebol\/","title":{"rendered":"Este deserto j\u00e1 foi uma lagoa do tamanho de 10 campos de futebol"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"news-tit margin-top-0 margin-bottom-10\"><\/h1>\n<h3 class=\"news-subtit margin-bottom-20\"><em>No Norte de Minas, a seca est\u00e1 para todo lado. Por causa da estiagem, 151 munic\u00edpios j\u00e1 tiveram o decreto de situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia reconhecido pela Uni\u00e3o<\/em><\/h3>\n<section class=\"docs\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-3 col-sm-2 col-md-2 docs__dv\"><i class=\"spr __irst--m\"><\/i>\u00a0<i class=\"spr __irst--l\"><\/i><\/div>\n<div class=\"hidden-xs hidden-sm col-md-1 docs__dv\"><\/div>\n<div class=\"hidden-xs col-sm-2 col-md-1 \"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div class=\"details margin-bottom-10\">\n<p class=\"small margin-bottom-0\"><i class=\"spr __iat margin-right-10\"><\/i>\u00a0<a href=\"mailto:jornalismo@uiai.com.br\">Luiz Ribeiro\u00a0<\/a>,\u00a0<a href=\"mailto:.\">Renan Damasceno<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"HOTWordsTxt\" class=\"js-body-news body-news clearfix margin-bottom-25\">\n<div class=\"news__image center\">\n<figure><img decoding=\"async\" title=\"Alexandre Guzanshe\/EM\/D.A Press\" src=\"https:\/\/i.em.com.br\/5JOCYNQVL5ZC7R-9RLl7JQr9aZw=\/smart\/imgsapp.em.com.br\/app\/noticia_127983242361\/2017\/08\/20\/893413\/20170820083747303294o.jpg\" alt=\"Alexandre Guzanshe\/EM\/D.A Press\" \/><figcaption class=\"content-desc-gallery\">Entristecido, o agricultor Manoel Pereira dos Santos, de 75 anos, anda a cavalo no terreno esturricado, no mesmo local que no passado era percorrido de barco por pescadores (foto: Alexandre Guzanshe\/EM\/D.A Press)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Na experi\u00eancia dos seus 81 anos, o produtor Antonio Pereira dos Santos caminha pelo ch\u00e3o esturricado. Por ali tamb\u00e9m passam cavalos e vacas. \u00c9 algo que at\u00e9 h\u00e1 alguns anos parecia imposs\u00edvel. Na verdade, o local por onde, hoje, o agricultor anda com aux\u00edlio de cip\u00f3, que substitui uma bengala, sempre foi ocupado pela \u00e1gua, a \u201cLagoa Grande\u201d, que se estendia por uma extens\u00e3o de pelo menos 10 hectares (o equivalente a 10 campos de futebol) e que, pela primeira vez, secou completamente.<\/p>\n<div id=\"publicidadeinterna\"><\/div>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-lg-12\">\n<section class=\"image__bx margin-top-20 margin-bottom-20\">\n<div class=\"video-container\"><center><iframe loading=\"lazy\" id=\"1503306165224_TBOtherPlayer_10\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7-HRiEayNrE?enablejsapi=1\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/center><\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A mudan\u00e7a de cen\u00e1rio descrita acima, registrada na comunidade de Alto S\u00e3o Jo\u00e3o, a quatro quil\u00f4metros do barranco do Rio S\u00e3o Francisco (tamb\u00e9m com volume bastante reduzido), no munic\u00edpio de S\u00e3o Francisco (Norte de Minas), ilustra a destrui\u00e7\u00e3o provocada pela seca no interior de Minas. De acordo com o governo estadual, por causa da estiagem (uma das piores da hist\u00f3ria), 151 munic\u00edpios j\u00e1 tiveram o decreto de situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia reconhecido pela Uni\u00e3o.<\/p><\/div>\n<div class=\"js-body-news body-news clearfix margin-bottom-25\">\nO quadro \u00e9 mais grave no Norte do estado, que acumula os estragos de cinco anos seguidos de falta de chuvas. De 700 rios e c\u00f3rregos da regi\u00e3o, 550 j\u00e1 est\u00e3o completamente vazios ou cortados, segundo relat\u00f3rio da Empresa de Assist\u00eancia T\u00e9cnica e Extens\u00e3o Rural (Emater), divulgado pela Associa\u00e7\u00e3o dos Munic\u00edpios da \u00c1rea Mineira da Sudene (Amams). A associa\u00e7\u00e3o lembra que alguns dos rios maiores da regi\u00e3o j\u00e1 foram perenes \u2013 como o Verde Grande e o Pardo \u2013 e aponta que cerca de 80 mil pessoas em comunidades rurais da regi\u00e3o est\u00e3o sofrendo com a falta d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>Dos 151 munic\u00edpios em estado de emerg\u00eancia, 80 est\u00e3o situados no Norte de Minas, onde, historicamente, os moradores sempre sofreram com as dificuldades clim\u00e1ticas, estando acostumados com ciclos que se repetem a cada ano. No per\u00edodo cr\u00edtico da estiagem (normalmente, de abril a outubro), c\u00f3rregos e rios menores secam, com as grandes lagoas e mananciais mais caudalosos garantindo o abastecimento das fam\u00edlias na fase de seca mais intensa at\u00e9 a chegada do per\u00edodo chuvoso (novembro a mar\u00e7o) \u2013 quando os rios (grandes e pequenos) e demais reservat\u00f3rios s\u00e3o recompostos.<\/p>\n<p>Mas, como nos \u00faltimos cinco anos a regi\u00e3o foi sucessivamente castigada por longas estiagens, n\u00e3o houve o &#8216;reabastecimento&#8217; do per\u00edodo chuvoso. Resultado: as lagoas maiores, que eram perenes, secaram, agravando mais ainda o sofrimento e gerando uma situa\u00e7\u00e3o desesperadora. Foi que ocorreu na Lagoa Grande, que antes garantia o abastecimento de 70 fam\u00edlias da comunidade de Alto S\u00e3o Jo\u00e3o e pela manuten\u00e7\u00e3o dos animais dos pequenos agricultores na zona rural de S\u00e3o Francisco. O munic\u00edpio est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia desde janeiro, devido \u00e0 escassez de chuvas.<\/p>\n<p>\u201cEssa lagoa sempre foi a lagoa-m\u00e3e. A \u00e1gua j\u00e1 diminuiu muito em outros anos, mas nunca secou\u201d, afirma o agricultor Manoel Pereira dos Santos, de 75, lembrando que a lagoa marginal do Velho Chico j\u00e1 teve muito peixe e sempre foi o h\u00e1bitat de aves aqu\u00e1ticas e de capivaras. Hoje, entristecido, Manoel anda a cavalo no terreno esturricado, no mesmo local que no passado era percorrido de barco por pescadores, testemunhando que o manancial, que era fonte de vida e fartura, virou literalmente uma terra morta. A situa\u00e7\u00e3o se repete em outros mananciais da regi\u00e3o, percorrida pela reportagem do\u00a0<strong>Estado de Minas<\/strong>.<\/p>\n<div class=\"news__image center\">\n<figure><img decoding=\"async\" title=\"Alexandre Guzanshe\/EM\/D.A Press\" src=\"https:\/\/i.em.com.br\/s_euDy_E5RFkKrMGIUjn7YkP2H0=\/smart\/imgsapp.em.com.br\/app\/noticia_127983242361\/2017\/08\/20\/893413\/20170820083911273882e.jpg\" alt=\"Alexandre Guzanshe\/EM\/D.A Press\" \/><figcaption class=\"content-desc-gallery\">O vaqueiro Apolin\u00e1rio Gomes da Silva encontrou boi morto devido \u00e0 falta de \u00e1gua (foto: Alexandre Guzanshe\/EM\/D.A Press)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p><strong>Emerg\u00eancia<\/strong><br \/>\nO agricultor Alceb\u00edades da Silva Rocha, l\u00edder comunit\u00e1rio de Alto Jo\u00e3o, conta que, diante do secamento \u201cinesperado\u201d da Lagoa Grande, a Copasa montou um sistema emergencial para as 70 fam\u00edlias da localidade, \u201cpuxando\u201d \u00e1gua tratada (captada no Rio S\u00e3o Francisco) por uma tubula\u00e7\u00e3o do vizinho distrito de Retiro (seis quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia).<\/p>\n<p>Mas, o que fazer para salvar as cria\u00e7\u00f5es? Como medida extrema, diante da situa\u00e7\u00e3o de desespero dos pequenos agricultores da regi\u00e3o, com o uso de um trator, a Prefeitura de S\u00e3o Francisco abriu um \u201ccacimb\u00e3o\u201d (um buraco de 30 metros de extens\u00e3o e 10 de largura e quatro metros de profundidade) no meio do leito esturricado do lago.<\/p>\n<p>A falta de chuvas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica causa do secamento do reservat\u00f3rio. \u201cO que ocorreu foi que, com o desmatamento, a enxurrada foi carregando terra para dentro da lagoa, que foi assoreada\u201d, observa o agricultor Jos\u00e9 Carlos da Rocha, de 68, morador de Alto S\u00e3o Jo\u00e3o. Ele lembra que outras lagoas da regi\u00e3o tamb\u00e9m secaram.<\/p>\n<p>O aposentado Antonio Pereira dos Santos diz que se assusta com o cen\u00e1rio atual do lugar. \u201cEssa lagoa tinha de oito a 10 metros de \u2018fundura\u2019 (profundidade). Em outros anos ela secou, mas n\u00e3o toda como agora\u201d, afirma. \u201cSe Deus quiser, nas pr\u00f3ximas \u2018\u00e1guas\u2019 (per\u00edodo das chuvas) a lagoa vai voltar como era antes. Se n\u00e3o voltar, n\u00f3s todos vamos morrer, porque ela \u00e9 a maior de todas as lagoas da nossa regi\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong>Venda de \u00e1gua<\/strong><br \/>\nA Prefeitura de S\u00e3o Francisco informou que aproximadamente 17 mil pessoas em 90 comunidades da zona rural do munic\u00edpio sofrem com a falta d\u2019\u00e1gua devido \u00e0 falta de chuvas e ao secamento de rios, c\u00f3rregos e lagoas. Os flagelados da seca s\u00e3o abastecidos por sete caminh\u00f5es-pipas, sendo um da prefeitura e seis ve\u00edculos da \u201cOpera\u00e7\u00e3o Pipa\u201d, do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Em comunidades rurais de S\u00e3o Francisco, moradores est\u00e3o sendo obrigados a comprar \u00e1gua. \u00c9 a situa\u00e7\u00e3o vivida pela fam\u00edlia da agricultora Cleonice Aparecida Rodrigues Rocha, da localidade de Ara\u00e7\u00e1. Na \u00faltima quinta-feira, ela pagou R$ 150 por uma pipa de \u00e1gua (12 mil litros). \u201cEsse dinheiro faz falta para outras coisas. Mas, n\u00e3o tem jeito, a gente n\u00e3o pode ficar sem \u00e1gua\u201d, diz Cleonice. Ela conta que os 12 mil litros de \u00e1gua s\u00e3o suficientes para o consumo da casa durante 20 dias, mesmo assim, economizando muito. Os integrantes da fam\u00edlia (quatro pessoas) recorrem ao \u201cbanho de caneca\u201d e as necessidades s\u00e3o feitas no mato mesmo.<\/p>\n<p>A Prefeitura de S\u00e3o Francisco informou que tem dificuldades para levar \u00e1gua para as 156 comunidades rurais do munic\u00edpio castigadas pela seca \u2013 est\u00e3o sendo atendidos 70% da demanda. Revelou tamb\u00e9m que as fam\u00edlias de Ara\u00e7a ainda ser\u00e3o cadastradas para ser abastecidas pela Opera\u00e7\u00e3o Pipa.<\/p>\n<p>A reportagem do\u00a0<strong>Estado de Minas<\/strong>\u00a0percorreu a regi\u00e3o e atravessou dezenas de c\u00f3rregos e rios secos. Na localidade de Tamburil, no munic\u00edpio de Urucuia, repete a cena de um boi morto (por causa da falta de pasto e de \u00e1gua) pr\u00f3ximo ao leito vazio do antigo c\u00f3rrego Bor\u00e1, que parou de correr h\u00e1 anos. \u201c\u00c9 muito triste ver isso. Com a seca os bichos sofrem muito\u201d, lamenta o agricultor Apolin\u00e1rio Gomes da Silva, de 29, cuja fam\u00edlia tem uma pequena propriedade na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo levantamento da Emater-MG, em um per\u00edodo de cinco anos, devido \u00e0s estiagens prolongadas, o rebanho bovino norte-mineiro teve redu\u00e7\u00e3o de 900 mil reses. A regi\u00e3o tinha um rebanho de 3,3 milh\u00f5es de cabe\u00e7as em 2011, reduzido para 2,4 milh\u00f5es em 2016. \u201cMas, com o secamento dos rios e lagoas, o agricultor familiar n\u00e3o consegue mais produzir e o aumentou muito o \u00eaxodo rural. Em algumas regi\u00f5es da zona rural, mais da metade das casas est\u00e3o fechadas\u201d, afirma o secret\u00e1rio-executivo da Amams, Ronaldo Mota Dias.<\/p>\n<p><strong>Caminh\u00f5es-pipas s\u00e3o insuficientes<\/strong><br \/>\nNo Norte de Minas, cerca de 80 mil fam\u00edlias sofrem com a falta de \u00e1gua. Desse total, 25 mil est\u00e3o abastecidos por cerca de 80 caminh\u00f5es-pipas, a grande maioria deles da pr\u00f3pria prefeitura. Por outro lado, a demanda \u00e9 de cerca de 55 mil fam\u00edlias atingidas pela escassez h\u00eddrica, que aguardam o abastecimento. A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 da Associa\u00e7\u00e3o dos Munic\u00edpios da \u00c1rea Mineira da Sudene (Amams), que reclama da falta de apoio do governo federal aos flagelados da seca. O presidente da associa\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Reis, lembrou que os prefeitos j\u00e1 adotaram as medidas legais, ao decretar a situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, \u201cmas que nenhuma a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica foi implantada para atender \u00e0s v\u00edtimas da seca\u201d.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na experi\u00eancia dos seus 81 anos, o produtor Antonio Pereira dos Santos caminha pelo ch\u00e3o esturricado. 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