{"id":212360,"date":"2017-08-24T07:30:58","date_gmt":"2017-08-24T10:30:58","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=212360"},"modified":"2017-08-24T07:30:58","modified_gmt":"2017-08-24T10:30:58","slug":"sinto-saudade-de-ser-crianca-em-uma-decada-gravidez-de-meninas-de-10-14-anos-nao-diminui-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/sinto-saudade-de-ser-crianca-em-uma-decada-gravidez-de-meninas-de-10-14-anos-nao-diminui-no-brasil\/","title":{"rendered":"&#8216;Sinto saudade de ser crian\u00e7a&#8217;: em uma d\u00e9cada, gravidez de meninas de 10 a 14 anos n\u00e3o diminui no Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Mariana Schreiber<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\"><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/16A8A\/production\/_97501829_menina.jpg\" alt=\"Maria, que foi m\u00e3e aos 13 anos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Maria, que engravidou aos 13 anos: &#8216;Quando entendi que estava gr\u00e1vida, senti muito nervosismo. Pensei: n\u00e3o vou ser mais crian\u00e7a, agora eu vou cuidar de outra crian\u00e7a&#8217;<\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Aos 13 anos de idade, Maria entendia pouco sobre seu pr\u00f3prio corpo. Demorou quatro meses para descobrir que esperava um filho &#8211; fruto da primeira rela\u00e7\u00e3o sexual que teve na vida, com um homem de 21 anos. At\u00e9 receber a not\u00edcia da gravidez, Maria n\u00e3o sabia como ocorre uma gesta\u00e7\u00e3o &#8211; jamais tinha recebido qualquer orienta\u00e7\u00e3o em casa ou na escola. Tampouco sabia que a lei brasileira configura situa\u00e7\u00f5es como a dela como estupro de vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>No posto de sa\u00fade de Autazes (AM), munic\u00edpio a quatro horas de dist\u00e2ncia de lancha e carro de Manaus, Maria recebeu um \u00fanico atendimento psicol\u00f3gico. O objetivo do profissional, conta ela, foi explicar o que era ser m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8220;Quando entendi que estava gr\u00e1vida, senti muito nervosismo. Pensei: n\u00e3o vou ser mais crian\u00e7a, agora eu vou cuidar de outra crian\u00e7a&#8221;, lembra ela, com a fala t\u00edmida, enquanto o filho, hoje com tr\u00eas anos, circula pela casa simples onde moram.<\/p>\n<p>Maria e a crian\u00e7a s\u00e3o sustentadas pelos minguados rendimentos que a m\u00e3e dela recebe com bicos em servi\u00e7os dom\u00e9sticos e o Bolsa Fam\u00edlia. Sua condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o na cidade de Altazes onde, segundo o IBGE, quase metade dos domic\u00edlios tem renda total de no m\u00e1ximo um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Maria teve que deixar a escola &#8211; perguntada sobre o que far\u00e1 no futuro, respondeu que n\u00e3o sabe.<\/p>\n<p>Sente saudade de ser crian\u00e7a? &#8220;Sinto. Eu jogava bola na rua, bola de gude&#8221;. E agora? &#8220;N\u00e3o\u2026. Fico em casa e vou \u00e0 igreja&#8221;, diz, enquanto rev\u00ea na televis\u00e3o o filme\u00a0<i>Esqueceram de Mim 3.<\/i><\/p>\n<p>Dois anos ap\u00f3s o primeiro parto, aos 13, ela sofreu um aborto e, hoje, aos 16, acaba de dar \u00e0 luz uma menina, que mama em seus bra\u00e7os. Depois do \u00faltimo parto, quis fazer uma laqueadura, mas o procedimento n\u00e3o \u00e9 permitido para mulheres t\u00e3o jovens.<\/p>\n<p>Hoje, cria os filhos sozinha. O pai da primeira crian\u00e7a morreu assassinado. O da rec\u00e9m-nascida, de 23 anos, mora em uma comunidade afastada do centro de Autazes e s\u00f3 soube que seria pai quando a gravidez estava no sexto m\u00eas. Os dois j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o juntos &#8211; Maria diz que ele ajuda a comprar fraldas ou talco, mas n\u00e3o costuma cuidar da filha. &#8220;O que pedir, ele d\u00e1, mas tem medo de pegar porque ela \u00e9 muito pequenininha&#8221;.<\/p>\n<p>Maria &#8211; cujo nome verdadeiro foi preservado para n\u00e3o exp\u00f4-la, assim como o das demais entrevistadas &#8211; \u00e9 uma das quase 305 mil brasileiras de 10 a 14 anos que tiveram filhos entre 2005 e 2015, segundo o Datasus (banco de dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade), que re\u00fane os registros de maternidades e cart\u00f3rios.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros mostram que a gravidez entre meninas dessa idade ocorre em todo o pa\u00eds, principalmente nas \u00e1reas mais pobres, alcan\u00e7ando os piores \u00edndices na regi\u00e3o Norte. O mais grave \u00e9 que a taxa de natalidade entre garotas nessa faixa et\u00e1ria n\u00e3o tem ca\u00eddo, ao contr\u00e1rio da tend\u00eancia geral do pa\u00eds, que observa redu\u00e7\u00e3o da fertilidade tanto entre adolescentes (mulheres de 15 a 19 anos) como entre adultas (a partir de 20 anos).<\/p>\n<p>Com a ajuda da dem\u00f3grafa Suzana Cavenaghi, a BBC Brasil calculou que o n\u00famero de nascidos vivos a cada mil mulheres entre 15 e 49 anos caiu de 58,9 beb\u00eas em 2005 para 53,6 em 2015. Enquanto isso, a taxa para meninas entre 10 e 14 anos ficou em 3,2 beb\u00eas nos mesmos anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um banco de dados que permita ampla compara\u00e7\u00e3o internacional para gravidez entre meninas dessa idade. No caso dos Estados Unidos, por exemplo, a gesta\u00e7\u00e3o nesse grupo et\u00e1rio \u00e9 bem mais baixa e est\u00e1 em cont\u00ednua queda: segundo o relat\u00f3rio mais recente do Departamento de Sa\u00fade americano, a taxa de nascimentos por mil garotas de 10 a 14 anos caiu de 0,6 em 2007 para 0,2 em 2015. Em 1991, era de 1,4.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Retrocesso na educa\u00e7\u00e3o sexual<\/h2>\n<p>Ouvidos pela BBC Brasil, especialistas das \u00e1reas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e direito que acompanham o tema apontam para diversos fatores que podem explicar a persist\u00eancia desse quadro, com destaque para a falta de orienta\u00e7\u00e3o sexual em casa e nas escolas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5D02\/production\/_97501832_img_8646.jpg\" alt=\"L\u00facia\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Gr\u00e1vida aos 14 anos em uma comunidade pobre amazonense, L\u00facia sofreu repres\u00e1lias na escola e na igreja<\/span><\/figure>\n<p>Segundo a Unesco, o ensino sobre os temas sexualidade e preven\u00e7\u00e3o \u00e0 gravidez sofreu enorme retrocesso no Brasil desde 2011, quando a pol\u00eamica envolvendo o material educativo\u00a0<i>Escola sem Homofobia<\/i>\u00a0(que ficou tachado de &#8220;kit gay&#8221;) acabou levando ao recolhimento de todo o suporte did\u00e1tico para educa\u00e7\u00e3o sexual, que era distribu\u00eddo desde 2003 para crian\u00e7as a partir dos 12 anos, no \u00e2mbito do Programa Sa\u00fade na Escola.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje, nessa faixa et\u00e1ria de 10 a 14, nada tem sido feito no campo das pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o e sexualidade. N\u00e3o existe uma diretriz nacional. Isso acaba virando um tabu e, como consequ\u00eancia, temos as crian\u00e7as engravidando&#8221;, critica Rebeca Otero, coordenadora de Educa\u00e7\u00e3o da Unesco no Brasil.<\/p>\n<p>Para o \u00f3rg\u00e3o da ONU, a educa\u00e7\u00e3o sobre sexualidade e g\u00eanero deve come\u00e7ar desde os cinco anos, para meninas e meninos. Isso nunca foi implementado no Brasil, diz Otero.<\/p>\n<p>&#8220;A orienta\u00e7\u00e3o da Unesco \u00e9 que os assuntos sejam adaptados a cada faixa et\u00e1ria: o conhecimento do corpo, por que sente o desejo, o que \u00e9 abuso sexual. Tendo essa informa\u00e7\u00e3o, a crian\u00e7a vai saber como se proteger de uma gravidez, como postergar sua vida sexual, caso queira&#8221;.<\/p>\n<p>Sem orienta\u00e7\u00e3o, as meninas de menor renda s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis, nota Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, especializado em sexualidade.<\/p>\n<p>&#8220;Muitas vezes, nas casas mais pobres, a fam\u00edlia inteira \u00e9 obrigada a viver num mesmo ambiente. Ent\u00e3o, pais fazem sexo e elas n\u00e3o s\u00f3 assistem, como passa a ser algo muito natural ainda cedo&#8221;, observa.<\/p>\n<p>&#8220;E hoje h\u00e1 tamb\u00e9m muito mais m\u00e3es e pais separados, em busca de novos parceiros. Essas meninas convivem em ambiente muito mais sensualizado do que antigamente. Mas, ao mesmo tempo em que vivem num mundo social com muita liberdade, h\u00e1 um despreparo da escola, da fam\u00edlia, para encarar que elas j\u00e1 podem ser sexualmente ativas. Elas ficam vulner\u00e1veis pela ignor\u00e2ncia&#8221;, afirma.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/AB22\/production\/_97501834_img_8656.jpg\" alt=\"L\u00facia e sua beb\u00ea\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Especialistas acreditam que viol\u00eancia sexual e toler\u00e2ncia com rela\u00e7\u00f5es supostamente consentidas entre adultos e menores de idade est\u00e3o por tr\u00e1s da maioria dos casos de gravidez na pr\u00e9-adolesc\u00eancia<\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;J\u00e1 vai abrindo as pernas&#8217;<\/h2>\n<p>E se a escola e a sociedade n\u00e3o educam para evitar a gravidez, em geral tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o preparadas para acolher as meninas gestantes, ressalta Otero.<\/p>\n<p>Gr\u00e1vida aos 14 anos de um namorado de 19 em uma comunidade pobre de Autazes, L\u00facia sofreu repres\u00e1lias na escola e na igreja evang\u00e9lica. &#8220;J\u00e1 vai abrindo as pernas, depois fica sem condi\u00e7\u00e3o&#8221;, disse ter ouvido de um professor.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o queria um filho, mas, religiosa, nem cogitou o aborto. &#8220;Sabia que era uma vida, n\u00e3o podia matar.&#8221;<\/p>\n<p>A filha nasceu h\u00e1 um m\u00eas e agora ela s\u00f3 pode ir \u00e0 igreja se ficar isolada. Foi exclu\u00edda do grupo de jovens, em que participava do coral, sua principal distra\u00e7\u00e3o. O pastor quer que ela case com o pai da crian\u00e7a &#8220;para voltar \u00e0 comunh\u00e3o e participar do grupo de senhoras&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o sou senhora. Tenho que ter responsabilidade por causa dela, mas n\u00e3o tenho que ser senhora. Me senti abandonada, senti revolta&#8221;, contou.<\/p>\n<p>L\u00facia sente saudade do seu corpo. Os seios ficaram bem maiores, a barriga ganhou estrias. Est\u00e1 traumatizada com a gravidez e diz que n\u00e3o quer mais ter filhos. O processo de parto foi dif\u00edcil, com duas hemorragias, e acabou em ces\u00e1rea. &#8220;Achei que tinha morrido. Minha vista escureceu, perdi o movimento do corpo. Dor de parto vai quebrando tudo dentro da gente&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>L\u00facia decidiu ter uma segunda chance na vida: vai se mudar no pr\u00f3ximo ano para Presidente Figueiredo, outra cidade do Amazonas, onde ter\u00e1 o suporte de uma tia. A filha vai ficar com a m\u00e3e de L\u00facia em Autazes &#8211; ela, que tamb\u00e9m teve o primeiro filho aos 14 e foi obrigada ao matrim\u00f4nio, apoia a decis\u00e3o da menina.<\/p>\n<p>&#8220;Casamento cedo tira a liberdade. Eu vou sentir saudades da minha filha, mas l\u00e1 a escola \u00e9 melhor. Quero ser arquiteta, pegar ela quando eu tiver faculdade e condi\u00e7\u00e3o de criar&#8221;, planeja L\u00facia.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Abusos por tr\u00e1s da gravidez<\/h2>\n<p>Especialistas no tema acreditam tamb\u00e9m que a viol\u00eancia sexual e a toler\u00e2ncia com rela\u00e7\u00f5es supostamente consentidas entre adultos e menores de idade est\u00e3o por tr\u00e1s da maioria dos casos de gravidez na pr\u00e9-adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Nem todos os casos nessa faixa s\u00e3o resultado de estupro, mas o que vemos muitas vezes s\u00e3o meninas que sofrem abusos sexuais durante a inf\u00e2ncia e isso acaba estimulando sua sexualidade, levando essas meninas a namorarem mais cedo, o que acaba desembocando nessa gravidez&#8221;, afirma Ana Carolina Ara\u00fajo, conselheira tutelar em Ceil\u00e2ndia, cidade sat\u00e9lite de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia do Distrito Federal registrou 832 estupros de vulner\u00e1veis (menores de 14 anos) em 2016, mas Ara\u00fajo acredita que a maioria dos casos n\u00e3o chega a ser denunciada. Essa \u00e9 a mesma impress\u00e3o da delegada Juliana Tuma, titular da \u00fanica Delegacia Especializada em Prote\u00e7\u00e3o a Crian\u00e7a e ao Adolescente de Manaus. Ela diz que chegam para ser investigados por dia, em m\u00e9dia, de seis a sete suspeitas de estupros de vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>No Amazonas, a quantidade de nascidos vivos de m\u00e3es de 10 a 14 anos cresceu 40% desde 2005 (maior alta entre os Estados), chegando a 1.432 em 2015.<\/p>\n<p>Para o promotor de Autazes, Cl\u00e1udio Sampaio, que j\u00e1 atuou tamb\u00e9m em outras cidades do Estado, a redu\u00e7\u00e3o do problema vir\u00e1 &#8220;somente com projetos sociais, um debate maior da pr\u00f3pria sociedade, que seja incentivado por \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos ou por igrejas, pra poder fortalecer o respeito \u00e0 sexualidade da mulher e o respeito \u00e0 crian\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui no Norte, vejo uma cultura, digo no sentido de h\u00e1bitos que est\u00e3o enraizados na sociedade, de aceita\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sexuais entre crian\u00e7as e adultos. Isso \u00e9 considerado normal, infelizmente, e acontece at\u00e9 no pr\u00f3prio n\u00facleo familiar, com padrastos, com irm\u00e3os, com tios&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Mas essa solu\u00e7\u00e3o proposta pelo promotor esbarra em outro problema que ele pr\u00f3prio identifica: a &#8220;aus\u00eancia do poder p\u00fablico&#8221; em uma regi\u00e3o distante do restante do pa\u00eds, de grande extens\u00e3o e com enormes desafios log\u00edsticos devido \u00e0 floresta.<\/p>\n<p>Ele ressalta a necessidade de maior presen\u00e7a do governo federal, j\u00e1 que \u00e9 comum autoridades locais estarem envolvidas em abusos. O caso mais famoso \u00e9 o de Coari, cujo ex-prefeito Adail Pinheiro chegou a ser condenado a 11 anos e 10 meses de pris\u00e3o por explora\u00e7\u00e3o sexual infantil, mas esse ano recebeu indulto (perd\u00e3o) da pena e foi solto.<\/p>\n<p>&#8220;O governo federal precisa cuidar das pessoas daqui, e isso n\u00e3o \u00e9 propriamente dar dinheiro, dar um Bolsa Floresta. \u00c9 preciso que o poder p\u00fablico venha e capacite as pessoas, para que possam desempenhar profiss\u00f5es, para que entendam a necessidade de respeito \u00e0s mulheres&#8221;, cobra.<\/p>\n<p>As tr\u00eas garotas com quem a BBC Brasil conversou no Amazonas relataram ter sofrido algum tipo de abuso sexual durante suas vidas, casos que seguem sem puni\u00e7\u00e3o. Maria foi estuprada por um comerciante ao 13, quando j\u00e1 estava gr\u00e1vida. L\u00facia teve a coxa acariciada por um funcion\u00e1rio do posto de sa\u00fade aos 12 &#8211; ele depois estuprou a irm\u00e3 dela, que tinha 14.<\/p>\n<p>Em Manaus, Joana, hoje com 17 anos e m\u00e3e de dois filhos, contou que sofreu seu primeiro abuso aos 5. O estuprador foi um vizinho, que pagou R$ 50 a sua m\u00e3e, viciada em drogas. Com muito sangramento, foi parar num hospital. &#8220;Meu \u00fatero saiu do lugar, at\u00e9 hoje sinto dores por isso&#8221;. Nada aconteceu com ele, que a abusou novamente cinco anos depois, dessa vez por R$ 100.<\/p>\n<p>Joana saiu de casa para um abrigo depois de se cortar &#8220;todinha com uma gilete&#8221;. Passou por v\u00e1rios. &#8220;Depois do meu segundo estupro, com 11 anos comecei a ser putinha&#8221;, conta. Sua primeira gravidez, aos 13 anos, foi interrompida com quatro comprimidos de um rem\u00e9dio abortivo. Na segunda, aos 14, decidiu ter o filho. O pai era seu namorado, ent\u00e3o com 21 anos, homem que a explorava sexualmente e a induzia a se drogar junto com sua m\u00e3e.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F942\/production\/_97501836_img_8436.jpg\" alt=\"Joana e sua filha\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Nascimento da filha deu a Joana chance de ser atendida por servi\u00e7o de apoio a v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual<\/span><\/figure>\n<p>&#8220;Passei duas semanas pensando com Deus se abortava. Pensei: vai atrapalhar minha vida, vai acabar minha vida de puta.&#8221;<\/p>\n<p>A gravidez na pr\u00e9-adolesc\u00eancia em geral traz efeitos negativos para as meninas e seus beb\u00eas: estudos mostram maior incid\u00eancia de evas\u00e3o escolar, de depress\u00e3o p\u00f3s-parto e de nascimentos prematuros e com baixo peso. Entre elas, o acompanhamento pr\u00e9-natal e a amamenta\u00e7\u00e3o costumam durar menos tempo do que entre as m\u00e3es adultas. S\u00e3o consequ\u00eancias da pouca maturidade e das condi\u00e7\u00f5es sociais prec\u00e1rias dessas meninas.<\/p>\n<p>No caso de Joana, a gravidez acabou tendo impacto positivo. O acompanhamento pr\u00e9-natal a levou ao Servi\u00e7o de Atendimento \u00e0s V\u00edtimas de Viol\u00eancia Sexual de Manaus, onde recebeu apoio psicol\u00f3gico e conseguiu interromper a venda do seu corpo e, gradualmente, o uso de drogas.<\/p>\n<p>Hoje ela est\u00e1 casada e tem uma boa rela\u00e7\u00e3o com o pai de sua segunda filha, de sete meses. Ele tem 21 anos e trabalha com manuten\u00e7\u00e3o de ar-condicionado &#8211; item onipresente na fervente Manaus.<\/p>\n<p>&#8220;Depois que meus filhos nasceram, veio um amor muito grande. Eu quis deixar a vida velha pra l\u00e1. Mas \u00e0s vezes eu choro, quando meus filhos est\u00e3o dormindo. Fica um reflexo (lembran\u00e7a) na minha cabe\u00e7a. Eu fico lendo a B\u00edblia, fico lendo, fico lendo, e s\u00f3 assim eu acalmo. Se eu for come\u00e7ar a pensar, eu fico doida&#8221;, diz ela, que \u00e9 evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tenho muito sonho de que mato ele (o abusador, que segue morando no bairro da inf\u00e2ncia de Joana). Eu quero matar ele, mas se eu for pra cadeia, o que vai ser dos meus filhos? Eu penso muito nisso.&#8221;<\/p>\n<p>A BBC Brasil questionou os minist\u00e9rios da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade sobre as cr\u00edticas quanto \u00e0 falta de pol\u00edticas p\u00fablicas para enfrentar a gravidez de garotas e saber o que o governo pretende fazer para enfrentar o problema. A pasta da Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se manifestou. J\u00e1 a pasta da Sa\u00fade se limitou a comentar as causas do problema e minimizar sua gravidade, destacando que os nascimentos nesse grupo representam 0,9% do total de nascidos vivos no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;A leve tend\u00eancia de aumento, (da gravidez) na faixa de 10 a 14 anos, pode estar associada a v\u00e1rios fatores tais como viol\u00eancia sexual, aspectos culturais, iniquidades, falta de oportunidades, dentre outros; al\u00e9m disso, esse \u00e9 um percentual muito pequeno, quando considerada todas as faixas et\u00e1rias&#8221;, respondeu o minist\u00e9rio.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria e a crian\u00e7a s\u00e3o sustentadas pelos minguados rendimentos que a m\u00e3e dela recebe com bicos em servi\u00e7os dom\u00e9sticos e o Bolsa Fam\u00edlia. Sua condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o na cidade de Altazes onde, segundo o IBGE, quase metade dos domic\u00edlios tem renda total de<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":212361,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-212360","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/menina-gravida.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212360","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=212360"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212360\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/212361"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=212360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=212360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=212360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}