{"id":213089,"date":"2017-08-28T14:36:57","date_gmt":"2017-08-28T17:36:57","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=213089"},"modified":"2017-08-28T14:36:57","modified_gmt":"2017-08-28T17:36:57","slug":"escravos-brancos-quando-cacadores-de-peles-claras-semeavam-o-terror-na-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/escravos-brancos-quando-cacadores-de-peles-claras-semeavam-o-terror-na-europa\/","title":{"rendered":"Escravos brancos. Quando ca\u00e7adores de peles claras semeavam o terror na Europa"},"content":{"rendered":"<div class=\"featured-box featured-box-revista_oasis\">\n<h2><\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"\" src=\"https:\/\/www.brasil247.com\/images\/cache\/1000x357\/crop\/images%7Ccms-image-000558519.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"357\" data-src-a=\"\/images\/cache\/480x240\/crop\/images%7Ccms-image-000558519.jpg\" data-src-b=\"\/images\/cache\/490x280\/crop\/images%7Ccms-image-000558519.jpg\" \/><em>Escravos europeus, senhores africanos: uma situa\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita que s\u00f3 nos \u00faltimos tempos est\u00e1 sendo objeto de estudos aprofundados pelos historiadores. O quadro que temos daquela \u00e9poca, quando os crist\u00e3os eram chamados de \u201couro branco\u201d nos mercados norte-africanos, ainda est\u00e1 recoberto por uma p\u00e1tina de descri\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"sidebar-columns single-page clearfix style-revista_oasis\">\n<section>\n<div class=\"entry\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"entry-content\">\n<div class=\"at-above-post addthis_tool\" data-url=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/escravos-brancos-quando-cacadores-de-peles-claras-semeavam-o-terror-na-europa\/\"><\/div>\n<p data-wahfont=\"14\"><strong>Por: Equipe O\u00e1sis<\/strong><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Duas naves alongadas se aproximaram da popa da barca\u00e7a Francis. Os homens a bordo da Francis, uma pequena embarca\u00e7\u00e3o de carga que em 1716 ia de G\u00eanova para a Inglaterra, estremeceram de terror: aquelas naves s\u00e3o xebecs, navios de tr\u00eas velas usados pelos ca\u00e7adores de homens brancos. Eles v\u00eam do norte da \u00c1frica, e os marinheiros da Francis sabem bem o que lhes espera: a escravid\u00e3o. Todos perder\u00e3o a liberdade, e muitos a pr\u00f3pria vida. Ser\u00e3o jogados em celas p\u00fatridas, ser\u00e3o torturados e humilhados, maltratados at\u00e9 a morte. Poucos conseguir\u00e3o rever a p\u00e1tria.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">\n<p data-wahfont=\"14\"><a href=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/escravos-brancos-quando-cacadores-de-peles-claras-semeavam-o-terror-na-europa\/top-f-904290-0000_preview-2-630x360\/\" rel=\"attachment wp-att-7703\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"1934655333\" data-slb-internal=\"7703\" data-slb-group=\"7695\" data-wahfont=\"14\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-7703\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.luispellegrini.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/top-f-904290-0000_preview-2.630x360.jpg?resize=600%2C334\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"334\" \/><\/a><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\"><em>O mercado de escravos de Argel em um desenho europeu de 1700. Os prisioneiros europeus eram acorrentados, desvestidos, examinados como aten\u00e7\u00e3o, muitas vezes espancados e depois comprados por mercadores que os revendiam para que executassem trabalhos for\u00e7ados ou como remadores nas gal\u00e9s.<\/em><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\"><strong>Ouro branco\u00a0<\/strong><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Escravos europeus, senhores africanos: uma situa\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita que s\u00f3 nos \u00faltimos tempos est\u00e1 sendo objeto de estudos aprofundados pelos historiadores. O quadro que temos daquela \u00e9poca, quando os crist\u00e3os eram chamados de \u201couro branco\u201d nos mercados norte-africanos, ainda est\u00e1 recoberto por uma p\u00e1tina de descri\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">No s\u00e9culo 19, na Europa, o exotismo oriental estava na moda, sobretudo na pintura e demais artes pl\u00e1sticas (veja o quadro \u201cMulher branca sequestrada e levada ao har\u00e9m\u201d) e obras do g\u00eanero constitu\u00edam um fil\u00e3o muito lucrativo. Esse modismo tamb\u00e9m encontrou resson\u00e2ncia na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria naqueles tempos. Mas os historiadores, curiosamente, nunca levaram o fen\u00f4meno realmente a s\u00e9rio. Hoje, um livro do historiador norte-americano Robert Davis tra\u00e7a um panorama radicalmente diverso.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Segundo Davis, n\u00e3o menos de um milh\u00e3o de europeus foram escravizados e obrigados a servir os seus senhores africanos. Entre 1580 e 1680, em Argel, T\u00fanis, Tr\u00edpoli e em muitas outras localidades do litoral norte-africano, viviam estavelmente cerca de 35 mil escravos brancos.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Procurando calcular quantos homens tinham de ser capturados para manter est\u00e1vel esse n\u00famero, levando-se em conta as fugas (menos de 1%), resgates (4%), mortos pela peste que, na \u00c1frica, se espalhava com espantosa regularidade, Davis estimou que a cada ano fosse preciso capturar pelo menos 8.500 pessoas, ou seja 850 mil indiv\u00edduos no per\u00edodo entre 1580 e 1680.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\"><strong>1,25 milh\u00e3o de escravos brancos<\/strong><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Para toda a \u00e9poca da escravid\u00e3o, de 1500 at\u00e9 1800, Davis estima \u201ccom boa aproxima\u00e7\u00e3o\u201d um n\u00famero total de 1,25 milh\u00e3o de europeus reduzidos \u00e0 escravid\u00e3o. E ele se refere apenas \u00e0s cidadelas dos ca\u00e7adores de escravos no Mediterr\u00e2neo ocidental: Argel, T\u00fanis e Tr\u00edpoli. Mas tamb\u00e9m no Marrocos e no Egito, dezenas de milhares de europeus viviam em escravid\u00e3o, bem como no Imp\u00e9rio Otomano: em Constantinopla, entre os anos 1500 e 1800, havia uma presen\u00e7a est\u00e1vel de 30 mil escravos.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">\n<p data-wahfont=\"14\"><a href=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/escravos-brancos-quando-cacadores-de-peles-claras-semeavam-o-terror-na-europa\/fathers_of_the_redemption\/\" rel=\"attachment wp-att-7700\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"1760445381\" data-slb-internal=\"7700\" data-slb-group=\"7695\" data-wahfont=\"14\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-7700\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.luispellegrini.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/fathers_of_the_redemption.jpg?resize=600%2C515\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"515\" \/><\/a><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\"><em>1,25 europeus deportados para o norte da \u00c1frica entre 1500 e 1800. Mas os africanos negros deportados para as Am\u00e9ricas pelos europeus entre 1451 e 1870 foram cerca de 12 milh\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Os ca\u00e7adores de escravos do Norte da \u00c1frica chegavam at\u00e9 a Gr\u00e3 Bretanha. Ao chegar aos portos brit\u00e2nicos, sa\u00edam das naves e invadiam tavernas e igrejas, vestindo roupas longas e com as cabe\u00e7as completamente raspadas, empunhando cimitarras e arrastando os clientes das tavernas ou os fieis que assistiam \u00e0 missa. Em 1627, um grupo argelino de ca\u00e7adores de homens chegou \u00e0 Isl\u00e2ndia, onde sequestrou cerca de 100 homens, mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\"><strong>Terror na It\u00e1lia\u00a0<\/strong><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Mas foi sobretudo no sul da It\u00e1lia onde esses cors\u00e1rios mais agiram. Em 1543, desembarcaram na pen\u00ednsula cerca de 12 mil cors\u00e1rios, um verdadeiro ex\u00e9rcito que penetrou cerca de 30 quil\u00f4metros no interior das terras. Cerca vez, chegaram a 20 quil\u00f4metros do Vaticano. As mil\u00edcias locais n\u00e3o ousavam atacar os invasores, claramente superiores em n\u00famero e capacidade de combate. A It\u00e1lia, na \u00e9poca, n\u00e3o existia como na\u00e7\u00e3o. O territ\u00f3rio italiano era fragmentado em numerosos pequenos Estados e algumas rep\u00fablicas, e os centros de poder estavam quase sempre situados bem longe das aldeias e pequenas cidades.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Em 1544, os ca\u00e7adores de homens fizeram 7 mil prisioneiros no Golfo de N\u00e1poles. Dez anos depois, em 1554, deportaram 6 mil pessoas residentes em Vieste, na Ap\u00falia. Quando as naves voltavam \u00e0 casa depois dessas incurs\u00f5es e desembarcavam os prisioneiros, contam os testemunhos da \u00e9poca que, nos mercados de escravos do norte da \u00c1frica, \u201cum europeu valia o pre\u00e7o de uma cebola\u201d.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Algumas vezes as expedi\u00e7\u00f5es alcan\u00e7aram um \u00eaxito t\u00e3o grande que as naves cors\u00e1rias n\u00e3o conseguiam transportar todos os passageiros. Estes eram ent\u00e3o vendidos com grandes descontos aos seus pr\u00f3prios parentes. Era o momento em que entravam em a\u00e7\u00e3o os agiotas europeus locais que faziam empr\u00e9stimos a quem n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de pagar o resgate de parentes sequestrados e, como abutres, tiravam proveito da desventura dos seus conterr\u00e2neos. Em situa\u00e7\u00f5es como essa, os parentes do prisioneiro empenhavam a pr\u00f3pria casa e todos os bens que existiam nelas. Assim, em poucas horas poderiam abra\u00e7ar de novo os seus familiares queridos, mas n\u00e3o tinham mais como viver.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">\n<a href=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/escravos-brancos-quando-cacadores-de-peles-claras-semeavam-o-terror-na-europa\/1200px-capture-of-blackbeard\/\" rel=\"attachment wp-att-7698\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"618134849\" data-slb-internal=\"7698\" data-slb-group=\"7695\" data-wahfont=\"14\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-7698\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.luispellegrini.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/1200px-Capture-of-Blackbeard.jpg?resize=600%2C427\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"427\" \/><\/a><em>A escravid\u00e3o foi praticada em toda a parte no mundo inteiro, desde as primeiras grandes civiliza\u00e7\u00f5es como o Egito e a Gr\u00e9cia. Em Roma, os escravos estavam t\u00e3o desesperados que, guiados por Esp\u00e1rtaco, ousaram se rebelar. Com o advento do cristianismo, aos crist\u00e3os foi proibido comprar outros crist\u00e3os escravizados (mas a regra n\u00e3o se aplicava aos fieis de outras religi\u00f5es). Mesmo assim, com essa provid\u00eancia, a escravid\u00e3o na Europa diminuiu. Mas nos tempos coloniais 12 milh\u00f5es de negros africanos foram deportados para a Am\u00e9rica, sobretudo para os Estados Unidos e o Brasil.<\/em><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Ao redor do ano 1600, o alcance desse fen\u00f4meno foi redimensionado. A vigil\u00e2ncia dos litorais melhorou gra\u00e7as \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de fortalezas para a defesa e de torres de vigil\u00e2ncia, ao mesmo tempo em que unidades de cavalaria barravam as estradas aos cors\u00e1rios que voltavam para suas naves carregando o seu botim. A partir da\u00ed, in\u00fameras incurs\u00f5es r\u00e1pidas substitu\u00edram as grandes partidas de ca\u00e7a aos europeus de pele branca. O n\u00famero das v\u00edtimas desses \u201cfurtos de crist\u00e3os\u201d se somava \u00e0quele de pessoas capturadas no decurso de grandes opera\u00e7\u00f5es espetaculares. As popula\u00e7\u00f5es europeias litor\u00e2neas buscaram ref\u00fagio no interior das terras, em aldeias fortificadas cercadas por muralhas, sobre as colinas. As zonas costeiras ficaram despovoadas, as ilhas foram abandonadas. Foi por essas raz\u00f5es que come\u00e7aram os ataques de cors\u00e1rios a navios mercantis. Muitas vezes os ca\u00e7adores se aproximavam de suas v\u00edtimas a bordo de naves j\u00e1 conquistadas, sob falsa bandeira e vestidos com os uniformes das na\u00e7\u00f5es amigas. Entre 1613 e 1621 foram sequestradas e conduzidas a Arg\u00e9lia cerca de mil navios provenientes da Inglaterra, da Fran\u00e7a, dos Pa\u00edses Baixos e da Espanha.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Os europeus capturados eram levados para as cidades do norte da \u00c1frica, arrastados pelas ruas como animais, espancados e cobertos de cuspidas por uma multid\u00e3o que gritava insultos. Eram a seguir levados a c\u00e1rceres subterr\u00e2neos. Aglomerados nesses celas infectas, viviam em meio a excrementos, insetos e parasitas. A luz penetrava atrav\u00e9s de uma abertura gradeada no teto. Para abandonar a pris\u00e3o, os escravos tinham de se agarrar a uma escada de cordas que era jogada do alto.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\"><strong>Leil\u00e3o no mercado<\/strong><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Permaneciam nessas condi\u00e7\u00f5es at\u00e9 o dia do leil\u00e3o no mercado de escravos. L\u00e1, tinham de se exibir saltando, dan\u00e7ando e cantarolando: os clientes queriam ter certeza que a mercadoria estivesse saud\u00e1vel e em bom estado. Os potenciais compradores avaliavam a musculatura, examinavam as m\u00e3os e os p\u00e9s, observavam atentamente os dentes. No mercado se decidia a partida entre a vida ou a morte. O comprador precisava de um animal de trabalho, queria um escravo ou escrava sexual, ou simplesmente se tratava de um investimento especulativo? Apenas nos casos em que o novo propriet\u00e1rio esperasse obter um resgate elevado pela liberta\u00e7\u00e3o do prisioneiro, ele evitaria maltrat\u00e1-lo at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">\n<p data-wahfont=\"14\"><a href=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/escravos-brancos-quando-cacadores-de-peles-claras-semeavam-o-terror-na-europa\/top-f-700086-0000_preview\/\" rel=\"attachment wp-att-7702\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"1230467705\" data-slb-internal=\"7702\" data-slb-group=\"7695\" data-wahfont=\"14\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-7702\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.luispellegrini.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/top-f-700086-0000_preview.jpg?resize=600%2C328\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"328\" \/><\/a><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\"><em>V\u00e1rias torturas infligidas aos escravos: empalados, esquartejados por duas naves, queimados vivos, crucificados, queimados com velas, enterrados vivos, cortados em peda\u00e7os, arrastados por cavalos.<\/em><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\"><strong>Prender um bispo era como ganhar na loteria<\/strong><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Por essa raz\u00e3o, os mais procurados pelos ca\u00e7adores eram os passageiros ricos que viajavam a bordo de navios: comerciantes, sobretudo, com familiares dispostos a pagar elevadas somas pelo seu resgate. Ainda mais que os comerciantes, os bispos da Igreja valiam verdadeiras fortunas. Espalhara-se o boato de que a Igreja pagava regiamente e sem fazer alarde pela devolu\u00e7\u00e3o dos seus dignit\u00e1rios.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">O destino mais ben\u00e9volo tocava geralmente a quem fosse comprado para trabalhar como servi\u00e7al em casas privadas: esvaziar as latrinas, conduzir camelos, talvez tocar m\u00fasica nos jardins e servir o caf\u00e9. Mas aos escravos destinados a trabalhos for\u00e7ados em obras dos governos era reservado um tratamento dur\u00edssimo e impiedoso. Em Argel, tinham de arrastar por quil\u00f4metros blocos de pedra de 20 a 40 toneladas, desde a pedreira de onde tinham sido extra\u00eddos at\u00e9 o cais do porto. E podia ser ainda pior: a forma mais brutal de explora\u00e7\u00e3o do bra\u00e7o escravo era a dos remadores de gal\u00e9s.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">A bordo de uma gal\u00e9, a \u00e1gua de beber era polu\u00edda. Quem n\u00e3o resistia e ca\u00eda doente era simplesmente jogado ao mar. Os homens viviam acorrentados aos remos. N\u00e3o podiam se afastar deles e nem ficar em p\u00e9, e tinham de dormir sentados em filas de 3 a 4 pessoas. Para fazer suas necessidades, tinham de subir sobre os vizinhos at\u00e9 chegar \u00e0 borda. Muitos deles, exaustos, renunciavam a se mover; por isso as gal\u00e9s eram cercadas por um fedor bestial. Nas gal\u00e9s de guerra otomanas, os remadores permaneciam acorrentados at\u00e9 mesmo quando a nave permanecia no porto durante o inverno. E, quando a nave naufragava em batalha, levava os escravos para o fundo.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Muitos escravos acabavam se convertendo ao Isl\u00e3. Para os propriet\u00e1rios, a convers\u00e3o dos escravos era um evento contradit\u00f3rio: \u00fatil para agradar a Al\u00e1, mas negativo para os neg\u00f3cios. Os convertidos n\u00e3o poderiam mais ser tratados de modo desumano. Para quem, por outro lado, se afastava do cristianismo, a passagem ao Isl\u00e3 significava um pacto com o dem\u00f4nio. Para o governo ingl\u00eas esse escravo se tornava um traidor e n\u00e3o podia mais esperar por qualquer resgate. Com frequ\u00eancia segundo relatos, os ex-crist\u00e3os se distinguiam pelo zelo particular como colaboradores do regime: \u201cSuperam inclusive os b\u00e1rbaros em mat\u00e9ria de crueldade e espancam os seus irm\u00e3os sem piedade\u201d.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">\n<p data-wahfont=\"14\"><a href=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/escravos-brancos-quando-cacadores-de-peles-claras-semeavam-o-terror-na-europa\/attachment\/1471377724268\/\" rel=\"attachment wp-att-7705\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"21871856\" data-slb-internal=\"7705\" data-slb-group=\"7695\" data-wahfont=\"14\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-7705\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.luispellegrini.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/1471377724268.jpg?resize=451%2C600\" alt=\"\" width=\"451\" height=\"600\" \/><\/a><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\"><em>Mercadoria para o har\u00e9m. A compra de uma mulher branca nessa ilustra\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\"><strong>A escravid\u00e3o no luxo<\/strong><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Alguns poucos escravos brancos, no entanto, conseguiam se sair muito bem. O veneziano Giacomo Colombin, por exemplo, capturado no mar em 1602, foi cortejado e protegido pelo capit\u00e3o dos cors\u00e1rios porque possu\u00eda s\u00f3lidos conhecimentos de engenharia e arquitetura, o que lhe trouxe grande riqueza: era um escravo, mas morava em um casar\u00e3o luxuoso sobre as colinas de Argel. Depois de 30 anos, usando uma nave que ele mesmo projetara, conseguiu fugir junto a 22 outros prisioneiros.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Tais exemplos mostram que as sociedades escravagistas do norte da \u00c1frica eram bem mais complexas do que podemos imaginar. Novas fontes de informa\u00e7\u00e3o possibilitam uma nova vis\u00e3o da vida social que se desenrolava nos assim chamados \u201cbanhos\u201d de Argel. Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo 18, esses bairros-pris\u00e3o, verdadeiros labirintos de ruelas similares \u00e0s modernas favelas, nos quais vivia uma popula\u00e7\u00e3o de muitos escravos, possu\u00edam algumas capelas para o culto cat\u00f3lico, dirigidas por sacerdotes autorizados pelas autoridades dessas metr\u00f3poles dos cors\u00e1rios. Os mu\u00e7ulmanos apreciavam a ajuda desses padres, tanto no campo pastoral quanto m\u00e9dico. Os religiosos, com o tempo, conquistaram tamb\u00e9m um papel cada vez mais importante como agentes nas tratativas para os resgates. Tais processos, com o tempo, passaram de simples \u201cvendas a varejo\u201d de seres humanos para um com\u00e9rcio no atacado de homens-mercadoria.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">\n<p data-wahfont=\"14\"><a href=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/escravos-brancos-quando-cacadores-de-peles-claras-semeavam-o-terror-na-europa\/maxresdefault-1-12\/\" rel=\"attachment wp-att-7701\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"56151893\" data-slb-internal=\"7701\" data-slb-group=\"7695\" data-wahfont=\"14\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-7701\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.luispellegrini.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/maxresdefault-1-3.jpg?resize=600%2C338\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"338\" \/><\/a><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\"><strong>Em 1816, a aboli\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Os resgates custavam caro: em 646 um emiss\u00e1rio ingl\u00eas pagou 38 esterlinas por escravo, a renda anual de um comerciante ingl\u00eas abastado. A pol\u00edtica europeia em rela\u00e7\u00e3o aos piratas, particularmente a francesa, permaneceu durante muito tempo caracterizada por hesita\u00e7\u00f5es e cinismos t\u00e1ticos: era mais importante um bom acordo comercial do que o destino dos escravos. No final do s\u00e9culo 18, o rei da Dinamarca enviava a cada ano um tributo de armamentos aos ca\u00e7adores de homens para que deixassem suas naves em paz. Mas com o final das guerras napole\u00f4nicas as rela\u00e7\u00f5es mudaram. Durante o congresso de Viena entre 1814 e 1815, sob press\u00e3o do governo ingl\u00eas, foi banido o com\u00e9rcio transatl\u00e2ntico de escravos. Ao mesmo tempo, o almirante ingl\u00eas Sir Sidney Smith, chefe da \u201cSociedade dos Cavaleiros Libertadores de Homens Brancos Escravizados\u201d lan\u00e7ou a ideia de uma interven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria no norte da \u00c1frica.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">Em agosto de 1816, uma esquadra composta por 18 navios de guerra ingleses, alguns dos quais dotados de mais de 100 canh\u00f5es, e com o apoio de naves holandesas, ancorou na ba\u00eda de Argel. Quando se esgotou um ultimato, todas as naves abriram fogo, e sobre a cidade de Argel ca\u00edram cerca de 50 mil balas de canh\u00e3o. A frota dos cors\u00e1rios ancorada no porta foi queimada. O fogo se propagou nas estruturas do porto e dos arsenais, e em pouco tempo se espalhou por toda a cidade. Argel virou uma ru\u00edna. S\u00f3 nesse ponto foi que o comandante chefe dos cors\u00e1rios se rendeu e colocou em liberdade todos os escravos brancos. Logo em seguida, tamb\u00e9m T\u00fanis, Tr\u00edpoli e o Marrocos se apressaram em declarar que a escravid\u00e3o fora abolida.<\/p>\n<p data-wahfont=\"14\">A escravid\u00e3o negra nas Am\u00e9ricas, no entanto, durou muito mais tempo. No Brasil, ela s\u00f3 terminou em 1888, pela pena da Princesa Isabel, Regente do Imp\u00e9rio \u2013 e a press\u00e3o de governos estrangeiros, sobretudo a Inglaterra.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> Ao chegar aos portos brit\u00e2nicos, sa\u00edam das naves e invadiam tavernas e igrejas, vestindo roupas longas e com as cabe\u00e7as completamente raspadas, empunhando cimitarras e arrastando os clientes das tavernas ou os fieis que assistiam \u00e0 missa. Em 1627, um grupo argelino de ca\u00e7adores de homens chegou \u00e0 Isl\u00e2ndia, onde sequestrou cerca de <\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":213090,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-213089","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/escrava-branca.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/213089","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=213089"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/213089\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/213090"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=213089"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=213089"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=213089"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}