{"id":213736,"date":"2017-08-31T11:31:03","date_gmt":"2017-08-31T14:31:03","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=213736"},"modified":"2017-08-31T11:31:03","modified_gmt":"2017-08-31T14:31:03","slug":"luta-de-tres-irmas-que-tentam-manter-vivo-idioma-que-so-elas-sabem-falar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/luta-de-tres-irmas-que-tentam-manter-vivo-idioma-que-so-elas-sabem-falar\/","title":{"rendered":"A luta de tr\u00eas irm\u00e3s que tentam manter vivo idioma que s\u00f3 elas sabem falar"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body\">\n<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Pumza Fihlani<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\"><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/EFF3\/production\/_96072416_img_1272.jpg\" alt=\"Aula de Katrina Esau\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Katrina Esau conseguiu criar forma escrita do N|uu para poder ensin\u00e1-lo aos mais jovens<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Katrina Esau luta para salvar a vida de sua l\u00edngua materna.<\/p>\n<p>A idosa sul-africana, de 84 anos, \u00e9 apenas uma de tr\u00eas pessoas no mundo capazes de falar fluentemente o N|uu, uma das l\u00ednguas faladas pela comunidade San, tamb\u00e9m conhecida como Bushmen. Todas as pessoas pertencem \u00e0 mesma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O N|uu \u00e9 considerado a l\u00edngua original do sul da \u00c1frica, mas est\u00e1 em uma lista da ONU de idiomas considerados &#8220;sob risco de extin\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Quando era pequena, s\u00f3 falava N|uu e ouvia um monte de gente falando-a tamb\u00e9m. Mas agora isso mudou&#8221;, diz Esau, que vive na cidade de Upington, na prov\u00edncia sul-africana de Northern Cape.<\/p>\n<p>Por s\u00e9culos, os San circularam livremente pela regi\u00e3o vivendo da ca\u00e7a e da coleta de vegetais. Hoje, por\u00e9m, as pr\u00e1ticas desapareceram. Seus descendentes dizem que a l\u00edngua \u00e9 uma das \u00faltimas liga\u00e7\u00f5es entre eles e a hist\u00f3ria de seu povo.<\/p>\n<p>Em uma pequena casa de madeira, Esau d\u00e1 aulas de N|uu. Ensina para crian\u00e7as da comunidade os 112 sons da l\u00edngua, incluindo os 45 &#8220;estalos&#8221; (cliques).<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o quero que o idioma desapare\u00e7a quando eu morrer&#8221;, diz a idosa, que come\u00e7ou a dar aulas de N|uu h\u00e1 10 anos.<\/p>\n<p>&#8220;Quero passar o m\u00e1ximo que puder, mas tenho plena no\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 muito tempo&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A1D3\/production\/_96072414_img_1276.jpg\" alt=\"As irm\u00e3s Hanna Koper, Katrina Esau e Griet Seekoei s\u00e3o as \u00faltimas falantes no mundo de N||uu\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">As irm\u00e3s Hanna Koper, Katrina Esau e Griet Seekoei s\u00e3o as \u00faltimas falantes no mundo de N||uu<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em Upington, as pessoas hoje em dia falam principalmente o afrikaans, o idioma que evoluiu do holand\u00eas levado \u00e0 \u00c1frica do Sul pelos colonizadores do pa\u00eds europeu, no s\u00e9culo 17.<\/p>\n<p>&#8220;O homem branco nos batia se nos visse falando nossa l\u00edngua. Abandonamos o N|uu e aprendemos a falar afrikaans, embora n\u00e3o sejamos brancos. Isso afetou nossa identidade&#8221;, diz Esau.<\/p>\n<p>As outras \u00fanicas pessoas que falam o idioma s\u00e3o as irm\u00e3s de Esau, Hanna Koper e Griet Seekoei, ambas com mais de 90 anos.<\/p>\n<p>Apelida pelos alunos de &#8220;Vov\u00f3 Pintinho&#8221;, a idosa diz ter esperan\u00e7as de vencer a resist\u00eancia da comunidade a falar o N|uu.<\/p>\n<p>Assim como muitas l\u00ednguas africanas, o N|uu foi transmitido de forma oral, mas essa tradi\u00e7\u00e3o amea\u00e7a sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>At\u00e9 bem recentemente, n\u00e3o havia forma escrita da l\u00edngua.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16523\/production\/_96072419_img_1266.jpg\" alt=\"Grupo de crian\u00e7as em aula de N|uu\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Crian\u00e7as de Upington falam principalmente o idioma de origem europeia afrikaans, mas Esau espera mudar isso<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Isso fez com que Esau precisasse da ajuda de linguistas. Sheena Shah, da Escola de Estudos Orientais e Africanos (Soas), em Londres, e Matthias Brezinger, do Centro para a Diversidade Lingu\u00edstica Africana, em Cidade do Cabo (\u00c1frica do Sul), a ajudaram a criar um alfabeto e regras b\u00e1sicas de gram\u00e1tica para fins did\u00e1ticos.<\/p>\n<p>&#8220;Essas comunidades veem a l\u00edngua como uma importante marca de sua identidade&#8221;, diz Shah.<\/p>\n<p>&#8220;Quando analisamos l\u00ednguas africanas, aprendemos que elas comunicam diferentes perspectivas de vida, relacionamentos, espiritualidade e humanidade&#8221;, acrescenta Brezinger.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uma riqueza de conhecimento passado de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o em comunidades ind\u00edgenas e sobre a qual o Ocidente sabe muito pouco. Quando essas l\u00ednguas morrem, esse conhecimento \u00fanico se perde&#8221;.<\/p>\n<p>Na sala de aula de Esau est\u00e3o cerca de 20 crian\u00e7as, a maior parte delas menores de 10 anos, e alguns adolescentes. Mary-Ann Prins, de anos 16, \u00e9 a melhor aluna e espera um dia assumir o lugar da idosa.<\/p>\n<p>&#8220;Adoro aprender essa l\u00edngua. Isso faz com que eu me sinta parte de alguma coisa, como se estivesse conectada a meus bisav\u00f4s. Eles falavam N|uu e hoje posso tamb\u00e9m ser parte disso&#8221;, diz a menina, com um sorriso.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Desaparecimento<\/h2>\n<p>O N|uu n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica l\u00edngua sob o risco de desparecer na \u00c1frica do Sul. Na cidade de Springbok, tamb\u00e9m na prov\u00edncia de Northern Cape, falantes do Nama fazem lobby junto ao governo para que a l\u00edngua ganhe status oficial no pa\u00eds.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/308B\/production\/_96072421_img_1132.jpg\" alt=\"Dan\u00e7a tradicional em Springbok\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Falantes do Nama querem que a l\u00edngua se torne o 12o idioma oficial da \u00c1frica do Sul<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Apesar de amplamente falado na \u00c1frica do Sul ao longo da hist\u00f3ria, o Nama n\u00e3o \u00e9 reconhecido como uma das 11 l\u00ednguas oficiais da chamada &#8220;Na\u00e7\u00e3o do Arco-\u00cdris&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 muito triste que nossas crian\u00e7as n\u00e3o possam aprender Nama e que jamais poder\u00e3o se comunicar com os mais velhos em sua pr\u00f3pria l\u00edngua&#8221;, diz Maria Damara, de 95 anos, uma das poucas pessoas que falam Nama na cidade.<\/p>\n<p>&#8220;Qual ser\u00e1 o futuro de nossa cultura?&#8221;<\/p>\n<hr class=\"story-body__line\" \/>\n<p><strong>As l\u00ednguas mais faladas da \u00c1frica do Sul (em percentual da popula\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<ul class=\"story-body__unordered-list\">\n<li class=\"story-body__list-item\">Zulu:\u00a0<strong>22.7%<\/strong>, Xhosa:\u00a0<strong>16%<\/strong>, Afrikaans:\u00a0<strong>13.5%<\/strong>, Ingl\u00eas,\u00a0<strong>9.6%<\/strong>, Setswana,\u00a0<strong>8%<\/strong>, Sesotho:\u00a0<strong>7.6%<\/strong><\/li>\n<li class=\"story-body__list-item\">O pa\u00eds tem\u00a0<strong>ONZE\u00a0<\/strong>l\u00ednguas oficiais.<\/li>\n<li class=\"story-body__list-item\">O ingl\u00eas \u00e9 a linguagem comum mais falada e \u00e9 usada oficialmente e nos neg\u00f3cios<\/li>\n<\/ul>\n<p><i>Fonte: SA.info\/Censo de 2011<\/i><\/p>\n<hr class=\"story-body__line\" \/>\n<p>O l\u00edder comunit\u00e1rio Wiela Beker, de 56 anos, concorda:<\/p>\n<p>&#8220;Se voc\u00ea n\u00e3o tem uma l\u00edngua, voc\u00ea n\u00e3o tem coisa alguma. Estou conversando em ingl\u00eas com voc\u00ea, mas n\u00e3o sou ingl\u00eas. Quero falar Nama porque isso \u00e9 o que sou.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A n\u00e3o ser que fa\u00e7amos alguma coisa, nossa cultura vai morrer. Lutamos por nossa cultura quando lutamos por nossa l\u00edngua&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>Beker diz que, sem a ajuda do governo, n\u00e3o vai demorar muito para que o Nama se encontre na mesma situa\u00e7\u00e3o do N|uu &#8211; \u00e0 beira da extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A n\u00e3o ser que fa\u00e7amos alguma coisa, nossa cultura vai morrer. 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