{"id":215139,"date":"2017-09-08T13:44:29","date_gmt":"2017-09-08T16:44:29","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=215139"},"modified":"2017-09-08T13:44:29","modified_gmt":"2017-09-08T16:44:29","slug":"rachel-irina-monica-as-identidades-que-me-fizeram-sobreviver-ao-holocausto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/rachel-irina-monica-as-identidades-que-me-fizeram-sobreviver-ao-holocausto\/","title":{"rendered":"Rachel, Irina, M\u00f3nica: &#8216;as identidades que me fizeram sobreviver ao Holocausto&#8217;"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Marcia Carmo<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\"><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/3706\/production\/_97668041_img_3655.jpg\" alt=\"Um passaporte de Rachel quando crian\u00e7a\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Nascida Rachel, M\u00f3nica n\u00e3o sabe at\u00e9 hoje a data de seu nascimento | Foto: Arquivo pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">M\u00f3nica Dawidowicz era Rachel quando nasceu em um campo de concentra\u00e7\u00e3o em Lida, na Bielorr\u00fassia (hoje Belarus), em 1941. Poucos meses antes de seu nascimento, a cidade havia sido invadida pelos nazistas &#8211; fato que mudaria para sempre n\u00e3o s\u00f3 seu nome, como seu destino e o da fam\u00edlia, judia. Confira seu relato \u00e0 BBC Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tinha 14 anos de idade e j\u00e1 morava aqui em Buenos Aires quando desconfiei da minha hist\u00f3ria. Alguns fatos alimentavam minhas d\u00favidas. Por exemplo, quando as pessoas perguntavam aos meus supostos pais se eu era a &#8216;menina que tinha chegado da Europa&#8217;. Encontrei cartas e documentos que confirmavam que minhas incertezas sobre minhas origens faziam sentido.<\/p>\n<p>Perguntei abertamente aos meus supostos pais qual era a minha verdadeira hist\u00f3ria. E n\u00f3s tr\u00eas acabamos chorando muito. Eles eram meus tios, e n\u00e3o meus pais. Meus pais, uma irm\u00e3 pequena e outros familiares tinham sido mortos no Holocausto.<\/p>\n<p>Meu primeiro nome tinha sido Rojele (Rachel), como queriam meus pais e era o nome da minha tia, quem at\u00e9 aquele dia eu pensava que fosse a minha m\u00e3e. Mas tamb\u00e9m fui Irina e depois M\u00f3nica. At\u00e9 hoje n\u00e3o sei a data exata do meu nascimento e continuo vasculhando arquivos, investigando para entender tudo o que aconteceu.<\/p>\n<p>Minha hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 minha, j\u00e1 que eu fui um dos casos de sobreviventes do Holocausto. E por isso conto e vou continuar contando, em palestras para crian\u00e7as e para professores, porque s\u00f3 assim a hist\u00f3ria n\u00e3o se repetir\u00e1, apesar de na realidade percebermos que, infelizmente, ela vive se repetindo. Vou contar do in\u00edcio.<\/p>\n<p>A minha m\u00e3e estava gr\u00e1vida de mim quando foi levada pelos nazistas de casa, em Lida, em Belarus, com meu pai e minhas duas irm\u00e3s. Lida tinha sido invadida em 1939 pelo Ex\u00e9rcito Vermelho (sovi\u00e9tico) e em 1941 pelo ex\u00e9rcito nazista.<\/p>\n<p>At\u00e9 1939, pelo que me contou minha irm\u00e3 sobrevivente, a vida era bela em Lida. A fam\u00edlia vivia numa casa grande, com meus pais, minhas duas irm\u00e3s e minha av\u00f3, e as f\u00e9rias eram numa casa de veraneio. Mas tudo mudou para sempre.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Gueto<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/8526\/production\/_97668043_img_3671.jpg\" alt=\"Os pais de M\u00f3nica\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Os pais de M\u00f3nica entregaram filhas na tentativa de salv\u00e1-las; uma delas n\u00e3o escapou da morte no campo de concentra\u00e7\u00e3o | Foto: Arquivo pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>A invas\u00e3o nazista foi em junho de 1941. Em agosto daquele ano, minha fam\u00edlia e eu, na barriga da minha m\u00e3e, fomos levados para um gueto, o Gueto de Lida. Minha irm\u00e3 mais velha, Ester, tinha dez anos, e Neja, oito.<\/p>\n<p>Eu nasci no gueto em alguma data no fim de 1941. E, quando tinha tr\u00eas meses, meu pai aproveitou uma distra\u00e7\u00e3o da vigil\u00e2ncia, me passou por um buraco e me levou at\u00e9 um carro onde uma mulher nos esperava. Sei de tudo isso porque Ester me contou. E hoje, como m\u00e3e e av\u00f3, estreme\u00e7o a cada vez que penso na situa\u00e7\u00e3o que meu pai e minha m\u00e3e viveram.<\/p>\n<p>Logo depois a mulher me entregou a um casal, o casal Shipula, que n\u00e3o tinha filhos e me batizou como Irina Shipula. Meu primeiro nome, Rojele Mowszowicz, tinha sido apagado. Fiquei com essa fam\u00edlia at\u00e9 o fim da Segunda Guerra, em 1945. Mas naquele per\u00edodo, tios e primos meus tentaram escapar e n\u00e3o sobreviveram \u00e0 pior tormenta que abalou a Humanidade.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D346\/production\/_97668045_img_3646.jpg\" alt=\"A mala vermelha com a qual M\u00f3nica chegou ao Uruguai\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">M\u00f3nica chegou ao Uruguai com uma malinha vermelha e um livro sobre menina que, como ela, nasceu em condi\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias | Foto: Arquivo pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Um dia, quando meus pais estavam com minhas irm\u00e3s, minha av\u00f3 e um primo no gueto, os nazistas pediram que fossem formadas duas filas. Os da fila da direita foram levados para uma fossa comum e metralhados. Os da esquerda sobreviveram algumas horas mais. Meus pais e minhas irm\u00e3s estavam na fila da esquerda. Minha av\u00f3, tr\u00eas tios e meu primo, junto com outros 5,6 mil judeus, foram para a fila da direita.<\/p>\n<p>Depois daquele dia, meus pais entenderam que deveriam salvar tamb\u00e9m as minhas irm\u00e3s. Ap\u00f3s muito sufoco, eles conseguiram entreg\u00e1-las a fam\u00edlias n\u00e3o judias.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Insuport\u00e1vel&#8217;<\/h2>\n<p>Primeiro foi Ester. Meu pai a entregou a dois homens poloneses. Ele deu a eles dinheiro e endere\u00e7os de familiares nossos na Argentina e nos Estados Unidos, esperando que assim as tr\u00eas filhas um dia se encontrassem.<\/p>\n<p>Ester, que tinha dez anos, entendeu que na nova casa n\u00e3o podia falar em idish e nem chorar. Mas para Neja, que tinha oito anos, a situa\u00e7\u00e3o foi muito mais dif\u00edcil. Ela chorava pedindo para ver nossos pais. A fam\u00edlia que a tinha acolhido acabou levando-a de volta ao gueto.<\/p>\n<p>O \u00faltimo destino da minha irm\u00e3zinha Neja e dos meus pais foi o Campo de Exterminio de Majdanek, a poucos quil\u00f4metros da cidade polonesa de Lublin, perto da fronteira com a Ucr\u00e2nia. O gueto de Jaludna, em Lida, foi eliminado em 1943.<\/p>\n<p>Nunca saberei se meus pais e Neja morreram no transporte que os levou ao campo de exterm\u00ednio, nas c\u00e2maras de g\u00e1s ou nas fossas comuns. Ainda hoje, quando penso, sinto que qualquer que seja a resposta me parece insuport\u00e1vel.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12166\/production\/_97668047_img_3669.jpg\" alt=\"Neja e Ester, irm\u00e3s de M\u00f3nica\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">As irm\u00e3s de M\u00f3nica: Neja (\u00e0 esq.) n\u00e3o sobreviveu ao campo de concentra\u00e7\u00e3o; j\u00e1 Ester (\u00e0 dir.) mora hoje em Israel<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m claro para mim que logo depois do fim da Segunda Guerra e do Holocausto, n\u00f3s judeus \u00e9ramos nada, e seres sem destino. E este foi meu caso tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Fui levada por meus parentes da casa da fam\u00edlia que tinha me protegido, os Shipula. E passei por um p\u00e9riplo que me levou da Pol\u00f4nia \u00e0 Su\u00e9cia, onde fiquei quatro meses num orfanato da Cruz Vermelha, e dali para a casa de parentes no Uruguai &#8211; que me entregaram aos cinco anos de idade aos tios que me criaram aqui na Argentina.<\/p>\n<p>Foi no orfanato na Su\u00e9cia que passaram a me chamar de M\u00f3nica. Da Pol\u00f4nia, eu tinha sa\u00eddo com um documento com nome de Rachela Mowszowicz e uma data de nascimento inventada, 20 de junho de 1941, quando na verdade eu ainda estava na barriga da minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Vim para a Am\u00e9rica do Sul porque outros tios que me esperavam nos Estados Unidos n\u00e3o puderam me receber &#8211; eles foram informados que a cota de judeus recebidos no pa\u00eds j\u00e1 tinha sido atendida.<\/p>\n<p>Cheguei a Montevid\u00e9u com uma malinha vermelha, com poucas roupas, um cavalinho de madeira, uma boneca e um livro editado em 1941, quando nasci, chamado\u00a0<i>Tummelisa<\/i><i>(A Polegarzinha<\/i>)<i>,\u00a0<\/i>de Hans Christian Andersen, escrito em sueco, que fala sobre uma menina que, como eu, nasceu em condi\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Guardo tudo at\u00e9 hoje.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16F86\/production\/_97668049_img_3667.jpg\" alt=\"M\u00f3nica quando era chamada de Irina Shipula\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">At\u00e9 o fim da Segunda Guerra Mundial, M\u00f3nica foi Irina Shipula | Foto: Arquivo pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Passado e presente<\/h2>\n<p>Em 1947, eu j\u00e1 estava aqui em Buenos Aires com meus pais que me criaram, Jaime e Raquel, que n\u00e3o tinham filhos. Eles conseguiram documentos atestando que nasci na Argentina e que era filha deles. Mas para n\u00e3o contrariar as tradi\u00e7\u00f5es judias do\u00a0<i>ashkenazim<\/i>, que indica que n\u00e3o se deve colocar na crian\u00e7a o nome de algu\u00e9m vivo da mesma fam\u00edlia, voltaram a me chamar de M\u00f3nica.<\/p>\n<p>A minha vida inteira tive que dar explica\u00e7\u00f5es sobre a minha identidade. E acabei escrevendo um livro (lan\u00e7ado em 2016 e chamado\u00a0<i>Todos mis nombres<\/i>\u00a0&#8211; &#8220;Todos os meus nomes&#8221;) sobre o meu caso que, como repito, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 meu.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/AC9A\/production\/_97668144_monica-hoje.jpg\" alt=\"M\u00f3nica visita Lida com filhos e sobrinhos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">M\u00f3nica Dawidowicz (centro) voltou a Lida neste ano, acompanhada de filhos e sobrinhos | Foto: Arquivo pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Como tive tantos pais, dediquei meu livro a eles. Pude saber dos detalhes do que aconteceu porque essa minha busca \u00e9 permanente. Encontrei documentos e fotos nos arquivos na Su\u00e9cia, em Lida e nas conversas com familiares, como a minha av\u00f3 na casa dos Shipula &#8211; meus pais nessa fam\u00edlia morreram cedo.<\/p>\n<p>Em junho passado, viajei com meus filhos e sobrinhos a Lida e sou da comiss\u00e3o diretiva do Museu do Holocausto aqui em Buenos Aires. Levei cinquenta anos para entender que sou sobrevivente do Holocausto.<\/p>\n<p>Hoje vivo feliz. Na minha busca descobri certid\u00f5es que revelam meus nomes, Rachel e Irina. E \u00e0s vezes os dois nomes no mesmo documento. Mas podem me chamar de M\u00f3nica. E o sobrenome que uso atualmente \u00e9 o do meu marido, Dawidowicz.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como tive tantos pais, dediquei meu livro a eles. Pude saber dos detalhes do que aconteceu porque essa minha busca \u00e9 permanente. 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