{"id":215297,"date":"2017-09-09T04:59:37","date_gmt":"2017-09-09T07:59:37","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=215297"},"modified":"2017-09-09T04:59:37","modified_gmt":"2017-09-09T07:59:37","slug":"como-uma-imagem-reacendeu-um-debate-historico-sobre-indios-e-religiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-uma-imagem-reacendeu-um-debate-historico-sobre-indios-e-religiao\/","title":{"rendered":"Como uma imagem reacendeu um debate hist\u00f3rico sobre \u00edndios e religi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Vinicius Lemos<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\"><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/14DBC\/production\/_97663458_batismo1.jpg\" alt=\"Isac Santos com xavantes\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Foto publicada por pastor evang\u00e9lico no Facebook viralizou e lhe rendeu muitas cr\u00edticas | Foto: Arquivo Pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Uma fotografia compartilhada pelo pastor evang\u00e9lico Isac Santos no Facebook reacendeu uma discuss\u00e3o que perdura por s\u00e9culos. Na publica\u00e7\u00e3o, feita em 22 de agosto, o religioso aparece acompanhado de diversos xavantes no munic\u00edpio de \u00c1gua Boa, em Mato Grosso, e comemora o fato de ter batizado 38 integrantes da aldeia, entre eles o cacique do grupo.<\/p>\n<p>Na imagem publicada na rede social h\u00e1 homens, mulheres e uma crian\u00e7a, todos integrantes da terra ind\u00edgena de Are\u00f5es. Eles usam roupas brancas. Ao fundo, o pastor abre os bra\u00e7os e sorri.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o viralizou &#8211; eram mais de 16 mil rea\u00e7\u00f5es e 10 mil compartilhamentos at\u00e9 a manh\u00e3 desta segunda-feira &#8211; e teve repercuss\u00e3o, em grande parte, negativa. A maioria dos usu\u00e1rios utilizou o emoji que expressa raiva para classificar a fotografia. A segunda rea\u00e7\u00e3o mais popular foi a de tristeza.<\/p>\n<p>Nos coment\u00e1rios, h\u00e1 diversas cr\u00edticas ao batismo dos ind\u00edgenas. &#8220;Eu pe\u00e7o que Deus ilumine sua cabe\u00e7a e mostre como \u00e9 irracional e at\u00e9 pecado o desrespeito \u00e0 cultura ind\u00edgena. Jesus n\u00e3o \u00e9 isso&#8221;, escreveu uma mulher, em meio a muitas outras pessoas que tamb\u00e9m reprovaram a atitude do pastor. Poucos coment\u00e1rios apoiaram a a\u00e7\u00e3o do religioso.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos mission\u00e1rios, o batismo dos ind\u00edgenas tamb\u00e9m teve a presen\u00e7a da vereadora Aninha Carvalho (SD), do munic\u00edpio de Trindade, em Goi\u00e1s. Em suas redes sociais, a parlamentar publicou imagens dos xavantes e um v\u00eddeo no qual aparece ao lado do pastor cantando m\u00fasicas religiosas para crian\u00e7as ind\u00edgenas. Ela tamb\u00e9m recebeu diversas cr\u00edticas nos coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>O debate sobre a inser\u00e7\u00e3o de religi\u00f5es \u00e0 cultura dos ind\u00edgenas \u00e9 antigo. O assunto existe desde o Brasil Col\u00f4nia, quando os jesu\u00edtas vieram ao pa\u00eds, em 1549, para evangelizar, catequizar e tornar crist\u00e3os os ind\u00edgenas que habitavam as terras brasileiras.<\/p>\n<p>Quase cinco s\u00e9culos depois, o impacto cultural da religi\u00e3o do homem branco nos ind\u00edgenas ainda gera debates e causa pol\u00eamica. Apesar disso, grupos de diversas religi\u00f5es continuam frequentando tribos e conquistando novos fi\u00e9is dentro das aldeias.<\/p>\n<p>Para o antrop\u00f3logo Roque Lara, que h\u00e1 d\u00e9cadas estuda a cultura ind\u00edgena, as incurs\u00f5es religiosas trazem preju\u00edzo hist\u00f3rico para os ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>&#8220;A Constitui\u00e7\u00e3o brasileira garante aos ind\u00edgenas o direito de continuar com suas cren\u00e7as e religi\u00f5es. Como antrop\u00f3logo, h\u00e1 muito tempo tenho me manifestado contra miss\u00f5es. \u00c9 um absurdo que uma pessoa que venha de fora, que n\u00e3o fala a l\u00edngua do grupo, queira mudar a cabe\u00e7a deles e as cren\u00e7as de centenas de anos.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O batismo de \u00c1gua Boa<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1924\/production\/_97663460_batismo2.jpg\" alt=\"Xavantes em rio\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Pastor argumenta que, antes de se converterem \u00e0 sua religi\u00e3o evang\u00e9lica, ind\u00edgenas j\u00e1 haviam adquirido costumes &#8216;brancos&#8217; | Foto: Arquivo Pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>O pastor Isac Santos, da Igreja Tempo de Semear, contou que h\u00e1 mais de um ano conhece o cacique da aldeia onde ocorreu o batismo. Segundo o religioso, os xavantes da regi\u00e3o sempre ficam em sua casa quando v\u00e3o \u00e0 cidade. Ele argumentou que antes de se converterem \u00e0 sua religi\u00e3o, os ind\u00edgenas j\u00e1 haviam adquirido costumes brancos.<\/p>\n<p>&#8220;Eles eram convertidos ao cristianismo. Ao contr\u00e1rio do que os ignorantes pensam, a aldeia deles possui energia e televis\u00e3o. Al\u00e9m disso, os ind\u00edgenas daquela regi\u00e3o t\u00eam conta no banco, t\u00edtulo de eleitor, Bolsa Fam\u00edlia, falam portugu\u00eas e fazem faculdade. Eles n\u00e3o ficam dan\u00e7ando ao redor do fogo o dia todo&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Santos comentou que o batizado foi presenciado por todos os membros da aldeia, incluindo os que n\u00e3o participaram do ato.<\/p>\n<p>A cerim\u00f4nia ocorreu no Rio Borecaia, em \u00c1gua Boa. Os ind\u00edgenas foram ao local com os mission\u00e1rios. Utilizando roupas brancas, eles entraram na \u00e1gua junto com os religiosos. Entoavam canto de sua cultura, em linguagem pr\u00f3pria, enquanto os pastores bradavam &#8220;aleluia, Jesus&#8221; e &#8220;gl\u00f3ria a Deus&#8221;.<\/p>\n<p>Durante o batismo, havia duas duplas de pastores e cada uma delas convidava um ind\u00edgena por vez. Ao ser chamado, cada um era posicionado pelos religiosos. De costas, eles juntavam as palmas das m\u00e3os em sinal de ora\u00e7\u00e3o e eram colocados durante segundos nas \u00e1guas do rio. Posteriormente, eram levantados e recebiam aplausos de quem acompanhava a cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>De acordo com Santos, o batizado \u00e9 essencial para os ind\u00edgenas que queiram seguir a religi\u00e3o evang\u00e9lica. &#8220;Se de fato s\u00e3o crist\u00e3os, essa decis\u00e3o precisa ser selada no batismo. Segundo Jo\u00e3o Batista, isso \u00e9 feito por imers\u00e3o nas \u00e1guas. \u00c9 preciso crer para ser batizado. S\u00f3 dei continuidade ao batismo quando pude testificar, de fato, que eles tinham Jesus como salvador. Caso contr\u00e1rio, o procedimento deles seria inv\u00e1lido.&#8221;<\/p>\n<p>Ele frisou que os ind\u00edgenas de Are\u00f5es foram os \u00fanicos batizados pela equipe mission\u00e1ria da qual faz parte. O religioso tamb\u00e9m salientou que as roupas utilizadas durante a cerim\u00f4nia n\u00e3o foram exig\u00eancias e pertenciam a eles, que teriam comprado as vestes para utiliz\u00e1-las em dias festivos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6744\/production\/_97663462_batismo3.jpg\" alt=\"Isac Santos com xavantes\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Contato entre religiosos e ind\u00edgenas \u00e9 pol\u00eamico | Foto: Arquivo Pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s diversas cr\u00edticas que recebeu, o religioso as classificou como infundadas. Para ele, os coment\u00e1rios contr\u00e1rios ao batismo foram feitos por &#8220;ativistas de teclado&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Fazer dos ind\u00edgenas uma bandeira de ativismo \u00e9 muito bizarro. Os tratam como bichos, como se fossem incapazes. Os ind\u00edgenas dizem que podem tomar suas pr\u00f3prias decis\u00f5es. Eles escolheram a nossa f\u00e9. Parece que \u00e9 crime o fato de eles terem escolhido o cristianismo.&#8221;<\/p>\n<p>Santos comentou que reagiu com naturalidade aos coment\u00e1rios negativos feitos em sua publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;No meu Facebook, comenta quem quer. Na minha caixa de mensagem h\u00e1 todo tipo de amea\u00e7a. Mas n\u00e3o \u00e9 disso que se trata a democracia? Eles xingam quem eles querem, eu batizo quem quiser ser batizado&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>Sobre a presen\u00e7a da vereadora Aninha Carvalho na cerim\u00f4nia, o l\u00edder religioso explicou que a parlamentar estava a passeio. &#8220;Ela foi para pescar com a gente no rio das Mortes. Como descemos para a aldeia, ela nos acompanhou e ainda comprou p\u00e3es para o lanche e docinhos para as crian\u00e7as ind\u00edgenas. Acabou sendo uma b\u00ean\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da vereadora e com a pr\u00f3pria parlamentar, mas n\u00e3o obteve resposta at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o deste texto.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Contato entre tribos e religiosos<\/h2>\n<p>O controle de acesso de grupos religiosos a tribos ind\u00edgenas \u00e9 feito pela Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai).<\/p>\n<p>Por meio de comunicado, a institui\u00e7\u00e3o explicou que a entrada de miss\u00f5es em terras ind\u00edgenas s\u00f3 pode ocorrer com autoriza\u00e7\u00e3o da presid\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o ou em caso de as lideran\u00e7as das aldeias autorizarem a entrada dos grupos.<\/p>\n<p>A Funai informou ainda que n\u00e3o recebeu nenhum tipo de den\u00fancia sobre o caso em \u00c1gua Boa.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) existe uma representa\u00e7\u00e3o contra o batismo que ocorreu na terra ind\u00edgena de Are\u00f5es. Em 28 de agosto, a pedagoga Juliani Caldeira protocolou den\u00fancia sobre o caso ap\u00f3s ver a publica\u00e7\u00e3o feita pelo pastor Isac Santos. O procedimento ainda n\u00e3o entrou em fase de tramita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na den\u00fancia, Caldeira questionou a presen\u00e7a da vereadora Aninha Ara\u00fajo e dos mission\u00e1rios na aldeia. Ela pediu a abertura de investiga\u00e7\u00e3o sobre o caso.<\/p>\n<p>&#8220;Sendo o Estado Laico e sendo a vereadora representante do povo no seu mandato, teria ela o consentimento para entrar em aldeias, levando a sua cultura para um grupo que j\u00e1 possui a sua pr\u00f3pria?&#8221;, questionou a pedagoga, em trecho do documento protocolado no Procuradoria.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Cultura<\/h2>\n<p>Os xavantes comp\u00f5em o maior grupo ind\u00edgena de Mato Grosso. H\u00e1 cerca de 20 mil deles em diversas regi\u00f5es mato-grossenses. Eles possuem dez terras no Estado.<\/p>\n<p>Entre as caracter\u00edsticas culturais deles est\u00e3o rituais que envolvem os processos da vida como nascimento e casamento. Os ind\u00edgenas desse grupo s\u00e3o ligados a quest\u00f5es de espiritualidade e cultivam segredos sobrenaturais. A l\u00edngua deles \u00e9 denominada acuen, do tronco lingu\u00edstico macro-j\u00ea.<\/p>\n<p>Entre seus rituais, destaca-se o\u00a0<i>wai&#8217;a<\/i>, no qual apenas os homens participam e repassam conhecimentos tidos como sobrenaturais, relacionados a quest\u00f5es como a vida e a morte, o bem e o mal, a doen\u00e7a e a cura.<\/p>\n<p>Uma das particularidades dos xavantes \u00e9 a permiss\u00e3o para que os homens possam exercer a poligamia.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, assim como relatado em outras aldeias do pa\u00eds, parte da cultura deles foi suplantada pela religi\u00e3o evang\u00e9lica ou cat\u00f3lica, trazida aos grupos por meio de mission\u00e1rios.<\/p>\n<p>Diversas terras de xavantes deixaram de permitir a poligamia e outros ritos, mantiveram alguns costumes de seus ancestrais e passaram a ser predominantemente cat\u00f3licas ou evang\u00e9licas.<\/p>\n<p>O xavante L\u00facio Waane Terowaa, de 39 anos, que vive na terra ind\u00edgena de S\u00e3o Marcos, teme pela perda cultural de seu povo. Filho de pais que decidiram seguir o catolicismo, ele nunca quis ser batizado e optou por preservar a cultura de seus antepassados.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B564\/production\/_97663464_batismo4.jpg\" alt=\"Ind\u00edgenas em cerim\u00f4nia de batismo em rio\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Indigenista Ivar Busatto diz que a postura de alguns religiosos assusta pessoas que trabalham com a cultura ind\u00edgena | Foto: Arquivo Pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;N\u00f3s acreditamos na espiritualidade ind\u00edgena. Os xavantes creem que existe o mundo espiritual, que nos protege, nos leva a ser pessoas mais tranquilas e faz com que tenhamos conviv\u00eancia harm\u00f4nica. S\u00f3 que essas pessoas que est\u00e3o mais avan\u00e7adas em outras religi\u00f5es est\u00e3o falando mal da nossa. Dizem que a deles est\u00e1 certa. Isso \u00e9 muito triste&#8221;, disse.<\/p>\n<p>&#8220;As nossas cren\u00e7as foram atacadas pela Igreja Cat\u00f3lica e pela evang\u00e9lica. Come\u00e7aram a falar que n\u00e3o \u00e9 certo dar continuidade \u00e0 nossa religi\u00e3o. Isso vem trazendo um grande impacto sociocultural&#8221;, completou.<\/p>\n<p>Segundo ele, apesar de diversos grupos terem adotado religi\u00f5es diferentes, h\u00e1 outros que nunca aceitaram a presen\u00e7a de nenhum tipo de igreja.<\/p>\n<p>&#8220;Ao longo dos anos, algumas aldeias foram convencidas, mas nem todas. Algumas delas n\u00e3o aceitam nenhum mission\u00e1rio e mant\u00eam a tradi\u00e7\u00e3o antiga&#8221;, relatou.<\/p>\n<p>Terowaa contou que quase chegou a ser batizado, mas desistiu. &#8220;Comecei a pesquisar sobre religi\u00e3o, procurei na internet e percebi que havia algo errado que est\u00e1 dominando meu povo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Na minha opini\u00e3o, acho que todas as religi\u00f5es merecem respeito. \u00c9 triste ver que a igreja invadiu nosso territ\u00f3rio para evangelizar os ind\u00edgenas e agora fala mal da nossa cultura. Para mim, n\u00e3o h\u00e1 fundamento para justificar a exist\u00eancia dessas religi\u00f5es nas aldeias.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Incurs\u00f5es religiosas<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10384\/production\/_97663466_batismo5.jpg\" alt=\"Xavantes caminham por trilha\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Com 20 mil integrantes, xavantes formam o maior grupo ind\u00edgena de Mato Grosso<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>As a\u00e7\u00f5es religiosas em terras ind\u00edgenas de Mato Grosso possuem diversas passagens marcantes. Entre elas est\u00e1 a miss\u00e3o jesu\u00edtica de Utiariti, feita por membros da Igreja Cat\u00f3lica no munic\u00edpio de Diamantino entre os anos de 1930 a 1970. O trabalho envolveu os Nambikwara, Irantxe, Paresi, Rikb\u00e1ktsa, Apiak\u00e1 e os Kayabi.<\/p>\n<p>A Utiariti tinha o objetivo de catequizar crian\u00e7as ind\u00edgenas por acreditar que elas seriam o meio mais f\u00e1cil de doutrina\u00e7\u00e3o em um per\u00edodo em que havia disputa de terras entre ind\u00edgenas e seringueiros. Na \u00e9poca, ocorria a reativa\u00e7\u00e3o de seringais de Mato Grosso, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o foi alvo de duras cr\u00edticas de ind\u00edgenas, pois no internato onde as crian\u00e7as ficavam havia distanciamento da cultura nativa delas. No local, os respons\u00e1veis somente conversavam em portugu\u00eas, passavam apenas ensinamentos cat\u00f3licos e eram raras as permiss\u00f5es para que os pequenos ind\u00edgenas pudessem visitar suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>O indigenista Ivar Busatto, coordenador da Opera\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nia Nativa (Opan), comentou que a postura de alguns religiosos assusta pessoas que trabalham com a cultura ind\u00edgena.<\/p>\n<p>&#8220;A gente tem visto na Amaz\u00f4nia, no Sul do Pa\u00eds e em outros lugares, que h\u00e1 uma &#8216;busca&#8217; por essas almas dos nativos, que \u00e9 um pouco estranha e agressiva. Isso tem nos preocupado. Esse ufanismo por conquista de almas \u00e9 estranho e causa perplexidade.&#8221;<\/p>\n<p>Ele relatou que cada ind\u00edgena tem permiss\u00e3o para seguir a religi\u00e3o que preferir, conforme determina a Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988. Por\u00e9m, frisou que \u00e9 importante manter o apre\u00e7o \u00e0 cultura de cada povo.<\/p>\n<p>&#8220;Todo cidad\u00e3o, de qualquer etnia, de qualquer lugar do mundo, tem o direito de fazer suas escolhas de linha religiosa. Mas \u00e9 importante ter respeito \u00e0s cren\u00e7as de cada um&#8221;, observou.<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Roque Lara pontuou que o modo como os mission\u00e1rios agem pode ofender a cultura das aldeias.<\/p>\n<p>&#8220;A Constitui\u00e7\u00e3o diz que a cren\u00e7a dos ind\u00edgenas deve ser respeitada. O ind\u00edgena, individualmente, pode mudar de cren\u00e7a, caso queira. Mas o problema \u00e9 a maneira como as coisas s\u00e3o feitas. Depende do modo como mission\u00e1rio est\u00e1 agindo. Ele pode come\u00e7ar a oferecer bens materiais e o indiv\u00edduo acha que \u00e9 vantagem.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Mas, por princ\u00edpio, os antrop\u00f3logos defendem as cren\u00e7as ind\u00edgenas, da mesma forma que defende que cada um tenha a sua cren\u00e7a e tamb\u00e9m o direito de n\u00e3o ter nenhuma&#8221;, completou.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14A38\/production\/_97663548_batismo-print.jpg\" alt=\"Isac Santos com xavantes\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Funai diz que miss\u00f5es religiosas s\u00f3 entram em terras ind\u00edgenas se autorizadas pelo \u00f3rg\u00e3o ou por lideran\u00e7as das aldeias | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Lara defendeu que os grupos religiosos que comparecem \u00e0s aldeias realizem trabalhos sociais, sem coagir os ind\u00edgenas a seguir determinada cren\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 muitos casos de religiosos que desistiram da catequese e passaram a fazer servi\u00e7o de assist\u00eancia. Conheci mission\u00e1rio muito bem intencionado, que trabalhava bem e cuidou da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Mas acho que \u00e9 importante saber o momento em que ele pode entrar e respeitar&#8221;, destacou.<\/p>\n<p>Uma das entidades religiosas que atua em aldeias ind\u00edgenas do Brasil \u00e9 o Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi), fundado em 1972. A institui\u00e7\u00e3o \u00e9 ligada \u00e0 igreja cat\u00f3lica por meio da Conferencia Nacional Dos Bispos do Brasil (CNBB) e afirma n\u00e3o impor nenhuma cren\u00e7a ao grupo.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio-executivo do Cimi, Cleber Buzzato, esclareceu que o conselho tem o objetivo de auxiliar causas relacionadas aos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>&#8220;Embora sejamos uma entidade de car\u00e1ter religioso, nossa atua\u00e7\u00e3o junto aos povos n\u00e3o tem perfil proselitista. Defendemos termos constitucionais, segundo os quais os povos t\u00eam direito aos seus usos, costumes, tradi\u00e7\u00f5es e terras que ocupam. A gente apoia esses povos nas demandas que eles apresentam ao Estado brasileiro, para que possam ter condi\u00e7\u00f5es mais adequadas de vida&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Ele comentou que a\u00e7\u00f5es religiosas do Cimi s\u00e3o realizadas apenas nas aldeias em caso de os pr\u00f3prios ind\u00edgenas solicitarem.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 casos espec\u00edficos em que os povos passaram por processo de cristianiza\u00e7\u00e3o e que demandam alguns servi\u00e7os eclesiais. Se h\u00e1 solicita\u00e7\u00e3o dos povos e alguns de nossos volunt\u00e1rios t\u00eam a possibilidade de responder a esses pedidos, ent\u00e3o essas demandas s\u00e3o atendidas.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar de acreditar que existam entidades religiosas que possam trazer benef\u00edcios aos ind\u00edgenas e n\u00e3o imponham suas cren\u00e7as ao grupo, o xavante L\u00facio Waane Terowaa fez um apelo.<\/p>\n<p>&#8220;Para que a gente possa viver neste mundo, cada um deve respeitar o outro. Cada raiz \u00e9 diferente. Cada cor \u00e9 diferente. Mas somos todos iguais, somos feitos \u00e0 imagem \u00fanica dos seres s\u00e1bios. Eu preciso que as pessoas ao menos respeitem a gente.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vinicius Lemos Foto publicada por pastor evang\u00e9lico no Facebook viralizou e lhe rendeu muitas cr\u00edticas | Foto: Arquivo Pessoal Uma fotografia compartilhada pelo pastor evang\u00e9lico Isac Santos no Facebook reacendeu uma discuss\u00e3o que perdura por s\u00e9culos. Na publica\u00e7\u00e3o, feita em 22 de agosto, o religioso aparece acompanhado de diversos xavantes no munic\u00edpio de \u00c1gua Boa, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":215298,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-215297","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/indio-crente.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215297","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=215297"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215297\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/215298"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=215297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=215297"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=215297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}