{"id":215617,"date":"2017-09-12T05:29:39","date_gmt":"2017-09-12T08:29:39","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=215617"},"modified":"2017-09-12T05:29:39","modified_gmt":"2017-09-12T08:29:39","slug":"reflexoes-de-uma-antropologa-e-mae-o-que-aprendi-com-indios-sobre-educacao-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/reflexoes-de-uma-antropologa-e-mae-o-que-aprendi-com-indios-sobre-educacao-infantil\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es de uma antrop\u00f3loga e m\u00e3e: &#8216;O que aprendi com \u00edndios sobre educa\u00e7\u00e3o infantil&#8217;"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">M\u00f4nica Vasconcelos<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/6C79\/production\/_97696772_dsc_0343.jpg\" alt=\"Martim em aldeia\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Martim passou 20 dias em aldeia ind\u00edgena quando tinha 3 anos | Foto: Camila Gauditano\/Povo Yudj\u00e1<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu e Martim fomos para a beira do rio, de onde havia sa\u00eddo uma canoa com crian\u00e7as bem pequenas &#8211; quatro, cinco, seis anos &#8211; l\u00e1 para o fundo. (Mas) come\u00e7ou uma ventania muito grande, o rio come\u00e7ou a ondular. De repente, vimos a canoa virar no meio do rio. N\u00e3o tinha um adulto, ningu\u00e9m. Subi correndo para avisar os adultos. Quando voltei, j\u00e1 tinha sa\u00eddo uma outra canoa, com outra turma (de crian\u00e7as), resgatado as outras. Elas nadaram, viraram a canoa e voltaram para a beira. Estava tudo bem. Voc\u00ea v\u00ea que dom\u00ednio sobre esse ambiente? \u00c9 demais. Foi na aldeia Deia Tuba-Tuba, do povo Yudj\u00e1. S\u00e3o conhecidos como ex\u00edmios navegadores.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A antrop\u00f3loga brasileira Camila Gauditano de Cerqueira, de 37 anos, teve seu primeiro contato com uma aldeia ind\u00edgena no Brasil em 1992, aos 12 anos de idade. Sua m\u00e3e, a fot\u00f3grafa Rosa Gauditano, especializada em fotografia ind\u00edgena, levou-a consigo em uma visita \u00e0 aldeia Xavante Pimentel Barbosa (Mato Grosso).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, Camila d\u00e1 consultoria sobre educa\u00e7\u00e3o ao Instituto Socioambiental (ISA). E em uma viagem de trabalho \u00e0 terra ind\u00edgena Xingu, seguindo o exemplo da m\u00e3e, levou o filho pequeno, Martim, para visitar tr\u00eas etnias que vivem na regi\u00e3o: os Kis\u00eadj\u00ea, Ikpeng e Yudja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista \u00e0 BBC Brasil, Camila compartilha suas reflex\u00f5es sobre a experi\u00eancia &#8211; e conta as li\u00e7\u00f5es que recebeu dos \u00edndios sobre educa\u00e7\u00e3o infantil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Parque Ind\u00edgena do Xingu (PIX) fica no nordeste do Mato Grosso, na por\u00e7\u00e3o sul da Amaz\u00f4nia brasileira. Xingu \u00e9 o nome do rio que atravessa o territ\u00f3rio, que tem 2.642.003 hectares e onde vivem 16 etnias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Camila foi ao Xingu para conversar com diretores e professores ind\u00edgenas que ensinam nas escolas das aldeias visitadas. Enquanto trabalhava, muitas vezes deixava Martim, na \u00e9poca com tr\u00eas anos, brincando com as crian\u00e7as das tribos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1571F\/production\/_97593878_1991_7692_031a_23.1x72.jpg\" alt=\"Camila aos 16 anos, quando visitou a aldeia Xavante Pimentel Barbosa\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Camila aos 16 anos, quando visitou a aldeia Xavante Pimentel Barbosa com a m\u00e3e; mais tarde, ela repetiu a experi\u00eancia com seu filho de tr\u00eas anos | Cr\u00e9dito: Rosa Gauditano\/Studio R<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele ficava com as crian\u00e7as ou com as fam\u00edlias das crian\u00e7as. Me sentia confiante. Por um lado, me perguntava, &#8216;onde ser\u00e1 que ele est\u00e1, o que est\u00e1 fazendo?&#8217; A\u00ed pensava: &#8216;bem , est\u00e1 com as crian\u00e7as, ent\u00e3o est\u00e1 seguro&#8217;. N\u00e3o fiquei com receio porque s\u00e3o cuidadosos e dominam aquele territ\u00f3rio.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Camila teve v\u00e1rias provas disso.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">O banho<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O epis\u00f3dio da canoa virada no rio foi um entre v\u00e1rios momentos em que se deu conta, maravilhada, de que crian\u00e7as pequenas podem muito mais do que imaginamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o peculiar com a \u00e1gua \u00e9 o que permite tanta desenvoltura da crian\u00e7a ind\u00edgena num ambiente que poderia ser perigoso para as da cidade, explica a antrop\u00f3loga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tudo come\u00e7a com o banho &#8211; algo que ela observou j\u00e1 na primeira aldeia visitada, os Kis\u00eadj\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O banho \u00e9 o momento em que a crian\u00e7a se integra com o ambiente da \u00e1gua. Aprende os limites do pr\u00f3prio corpo, desenvolve suas potencialidades, a pesca, a navega\u00e7\u00e3o. O ambiente \u00e9 preparado pela comunidade para esse fim. Deixam o fundo bem limpinho, tiram o mato da beira do rio, voc\u00ea sabe onde pode ir e onde n\u00e3o pode. Colocam uma estrutura feita com um tronco de madeira onde voc\u00ea pode sentar a crian\u00e7a, ou lavar roupa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Crian\u00e7as menores ficam na beira; as maiores, mais ao fundo; outros mergulham. \u00c9 uma experi\u00eancia do coletivo, das brincadeiras. A crian\u00e7a pequena observa o que \u00e9 poss\u00edvel fazer e realizar nesse lugar, de acordo com suas capacidades, em diferentes fases. Martim ficou encantado&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas e os riscos para as crian\u00e7as?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Uma coisa \u00e9 a gente ter contato esporadicamente (com o rio). Outra coisa \u00e9 o contato di\u00e1rio, duas, tr\u00eas vezes por dia. Voc\u00ea vai se apropriar daqueles desafios, daquele ambiente. H\u00e1 pouco espa\u00e7o para perigo&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Meninos ca\u00e7adores<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na visita aos Kis\u00eadj\u00ea, outros epis\u00f3dios chamaram a aten\u00e7\u00e3o da antrop\u00f3loga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma tarde, Martim convidou um grupo de crian\u00e7as da aldeia para visitar a casa do ISA, onde ele e a m\u00e3e estavam hospedados.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17A01\/production\/_97696769_dsc_0145.jpg\" alt=\"Martim na hora do banho no porto da aldeia\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Martim na hora do banho no porto da aldeia; crian\u00e7as ind\u00edgenas t\u00eam rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com a \u00e1gua | Foto: Camila Gauditano\/Povo Kis\u00eadj\u00ea<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os meninos foram com seus estilingues&#8221;, conta Camila. &#8220;A\u00ed viram que tinha morceguinho na casa e decidiram ca\u00e7\u00e1-los com o estilingue. Foi a primeira experi\u00eancia do Martim de ver o bichinho, de ver a habilidade do ca\u00e7ador, desenvolvida desde pequenininho. Deviam ter cinco ou seis anos e conseguiram ca\u00e7ar o morcego.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Birra<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outra ocasi\u00e3o, na sa\u00edda do banho, Camila observou um jeito diferente de os pais lidarem com birra de crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o sei por que motivo, uma crian\u00e7a come\u00e7ou a chorar muito. Os pais estavam saindo do rio, talvez ele quisesse ficar mais tempo na \u00e1gua\u2026 Os pais simplesmente sa\u00edram andando. A crian\u00e7a foi atr\u00e1s, chorando&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o tem essa bajula\u00e7\u00e3o, de ficar em cima, &#8216;o que foi, o que aconteceu? Se voc\u00ea parar de chorar, te dou isso\u2026&#8217; Tomaram a atitude de n\u00e3o alimentar a birra. Essa \u00e9 uma observa\u00e7\u00e3o muito pessoal, mas acho que o princ\u00edpio \u00e9, quanto menos bola se d\u00e1 para a birra, mais a crian\u00e7a tem condi\u00e7\u00f5es de resolver suas pr\u00f3prias frustra\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Amamenta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, diz a antrop\u00f3loga, n\u00e3o falta aten\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as nas aldeias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As m\u00e3es t\u00eam total disponibilidade para estar com as crian\u00e7as. Enquanto s\u00e3o beb\u00eas, a m\u00e3e n\u00e3o sai para trabalhar na ro\u00e7a. &#8220;A fam\u00edlia faz esse trabalho por ela&#8221;, diz Camila. &#8220;\u00c0s vezes, at\u00e9 o marido tem restri\u00e7\u00f5es para ir \u00e0 ro\u00e7a quando tem beb\u00ea pequeno.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais tarde, se a m\u00e3e vai \u00e0 ro\u00e7a, tem a ajuda dos parentes. &#8220;A crian\u00e7a pequena fica com a tia ou av\u00f3.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 a ang\u00fastia ou a culpa da separa\u00e7\u00e3o que aflige tantas m\u00e3es trabalhadoras nas cidades. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o com a amamenta\u00e7\u00e3o &#8211; ou com o desmame:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;J\u00e1 vi crian\u00e7a de tr\u00eas anos sendo amamentada. L\u00e1 \u00e9 livre demanda, quer mamar, mama. Na m\u00e3e, na tia, na av\u00f3\u2026 \u00e0s vezes, a m\u00e3e saiu mas a av\u00f3 est\u00e1 ali e tem leite. Ela d\u00e1. \u00c9 normal.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/CA9D\/production\/_97696815_dsc_0178.jpg\" alt=\"Martim dormindo na rede, observado por crian\u00e7as\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Crian\u00e7as ind\u00edgenas costumam ter mais autonomia | Foto: Camila Gauditano\/Povo Ikpeng<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crian\u00e7a tem aten\u00e7\u00e3o constante, mas tamb\u00e9m tem liberdade &#8211; se quiser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando a m\u00e3e vai para a ro\u00e7a, a crian\u00e7a, j\u00e1 mais velha, vai com ela. Mas quando a m\u00e3e est\u00e1 em casa, na aldeia, as crian\u00e7as est\u00e3o no p\u00e1tio, indo atr\u00e1s de passarinho, de bichinho, brincando&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A partir de tr\u00eas anos, j\u00e1 s\u00e3o bem mais independentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e (do que as da cidade). Elas t\u00eam circula\u00e7\u00e3o livre na aldeia, mas nunca est\u00e3o sozinhas. Est\u00e3o sempre acompanhadas de crian\u00e7as do mesmo tamanho ou maiores.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na nossa sociedade voc\u00ea n\u00e3o tem esse apoio coletivo que existe no conv\u00edvio de aldeia. N\u00e3o partilhamos a educa\u00e7\u00e3o de nossos filhos com a comunidade.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;Beiju e peixe&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos povos ind\u00edgenas no Brasil hoje incorporam alimentos do homem branco em suas dietas. Comem arroz, feij\u00e3o, a\u00e7\u00facar e farinha. Mas mant\u00eam lavouras tradicionais, como a da mandioca, e praticam a ca\u00e7a, a pesca e a coleta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje com cinco anos de idade, Martim ainda se lembra das del\u00edcias que comeu no Xingu. Questionado pela BBC Brasil sobre o que mais gostou de comer na viagem, ele responde:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Beiju e peixe. \u00c9 gostoso&#8221;, diz. &#8220;Um dia a gente vai voltar l\u00e1. \u00c9 muito gostoso e um dia eu quero voltar l\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Beiju \u00e9 uma tapioca grande que os \u00edndios comem com peixe assado, explica Camila. Na aldeia todos comem juntos. As crian\u00e7as comem o que tem. E desde cedo aprendem a coletar frutos da \u00e9poca. Tamb\u00e9m acompanham o adultos na ca\u00e7a e pesca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Desde cedo, aprendem a pegar seu peixinho.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Pregui\u00e7a e brigas<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta \u00e0 cidade, Camila diz que se esfor\u00e7a para manter a cultura ind\u00edgena viva na imagina\u00e7\u00e3o do filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Um dia desses, o Martim estava com pregui\u00e7a de acordar para ir \u00e0 escola. Ent\u00e3o, contei uma hist\u00f3ria para ele&#8221;, diz a antrop\u00f3loga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tem um povo que mora numa aldeia. De manh\u00e3, quando esse povo acorda, em geral \u00e9 muito frio porque o sol ainda n\u00e3o nasceu.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Geralmente, as crian\u00e7as tamb\u00e9m ficam com pregui\u00e7a. Mas os mais velhos dizem que quem levanta cedo para tomar banho no rio fica saud\u00e1vel, forte e corajoso. Contei para ele como uma motiva\u00e7\u00e3o. No final, expliquei que esse \u00e9 o povo Xavante.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E para ensinar Martim a n\u00e3o brigar por besteira, Camila planeja lev\u00e1-lo \u00e0 terra Xavante para que ele participe de um ritual especial:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na aldeia Xavante, quando as crian\u00e7as ficam brigando sem motivo, os mais velhos decidem em conselho que \u00e9 hora de organizar o ritual Oi\u00b4\u00d3. Os \u00edndios tiram uma raiz da terra que funciona como instrumento de luta. Tem uma regra para se lutar: voc\u00ea (s\u00f3 pode) acertar seu companheiro de luta do ombro para baixo. A ideia \u00e9 que as crian\u00e7as aprendam o que \u00e9 brigar de verdade, sentir dor de verdade. Lutam em duplas, um de cada cl\u00e3 (h\u00e1 dois cl\u00e3s no povo Xavante), enfeitados e pintados, e a aldeia inteira assiste.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O povo Xavante \u00e9 um povo guerreiro, da\u00ed o ritual, explica Camila. Ela n\u00e3o v\u00ea, no entanto, riscos para Martim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fazem isso desde pequenos, desde os dois aninhos de idade at\u00e9 14, 15. As duplas s\u00e3o escolhidas de acordo com o tamanho, t\u00eam o mesmo biotipo. E essa raiz \u00e9 forte, mas n\u00e3o vai cortar ou furar. Vai ser importante para o Martim&#8221;, diz.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Li\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">As hist\u00f3rias sugerem, por exemplo, que a crian\u00e7a a partir dos tr\u00eas anos de idade pode ganhar mais autonomia do que costuma ter na nossa sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela diz, no entanto, que n\u00e3o v\u00ea sentido em tentarmos transpor, de forma literal, para a nossa cultura, o modelo oferecido pelos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o sistemas diferentes que respondem a contextos diferentes, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem deseja aprender com o \u00edndio, &#8220;o ponto de partida \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o de um povo ind\u00edgena com o ambiente em que vive&#8221;. Isso significa integrarmos nossas crian\u00e7as com o ambiente delas: &#8220;O quintal de casa, a terra, as plantas, os parques, as pra\u00e7as, a rua, a comunidade&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Voc\u00ea n\u00e3o precisa estar numa aldeia ind\u00edgena para ter uma rela\u00e7\u00e3o integrada com o seu meio. Pode desligar aparelhos celulares e tablets, ampliar a observa\u00e7\u00e3o, a escuta, as possibilidades que sua pr\u00f3pria realidade traz (para a crian\u00e7a).&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Martim passou 20 dias em conv\u00edvio intenso com modos de vida t\u00e3o diferentes dos dele. O que ter\u00e1 ficado, dessa experi\u00eancia, para um menino t\u00e3o pequeno?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Como foi pouco tempo, o aprendizado foi ampliar a percep\u00e7\u00e3o da realidade. A rela\u00e7\u00e3o com a diferen\u00e7a amplia o conceito de mundo. Voc\u00ea descobre que n\u00e3o h\u00e1 uma verdade absoluta, h\u00e1 muitas maneiras de se ser e de se estar no mundo &#8211; e essa \u00e9 nossa maior riqueza.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para quem deseja aprender com o \u00edndio, &#8220;o ponto de partida \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o de um povo ind\u00edgena com o ambiente em que vive&#8221;. 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