{"id":220297,"date":"2017-10-10T18:56:39","date_gmt":"2017-10-10T21:56:39","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=220297"},"modified":"2017-10-10T18:56:39","modified_gmt":"2017-10-10T21:56:39","slug":"nao-estou-triste-por-morrer-mas-por-nao-poder-me-vingar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/nao-estou-triste-por-morrer-mas-por-nao-poder-me-vingar\/","title":{"rendered":"&#8216;N\u00e3o estou triste por morrer, mas por n\u00e3o poder me vingar&#8217;"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"bigtitle\" data-section=\"HIST\u00d3RIA\"><\/h1>\n<p><time class=\"time d-b\" datetime=\"2017-10-10BRT18:10\">Dagmar Breitenbach\u00a0<\/time><\/p>\n<div class=\"subtitle\">Em 1944, prisioneiro judeu escreveu uma s\u00e9rie de textos e os enterrou em Auschwitz; d\u00e9cadas depois, pap\u00e9is foram achados e, hoje restaurados quase na \u00edntegra, comp\u00f5em um dos relatos mais impressionantes do Holocausto<\/div>\n<div class=\"social pc\">\n<\/div>\n<div class=\"descript\">\n<p>Todos os dias, Marcel Nadjari e outros presos de uma unidade de trabalho conhecida como\u00a0<em>Sonderkommando\u00a0<\/em>(comando especial), no campo de exterm\u00ednio de Auschwitz-Birkenau, enfrentavam o pior dos horrores.<\/p>\n<p>&#8220;Todos aqui sofremos coisas que a mente humana n\u00e3o pode imaginar&#8221;, afirma Nadjari.<\/p>\n<p>O relato est\u00e1 num texto que ele escreveu secretamente no final de 1944, colocou dentro de uma garrafa t\u00e9rmica envolta numa bolsa de couro e enterrou perto do Cremat\u00f3rio 3 do campo, que seria libertado no in\u00edcio de 1945.<\/p>\n<p>O texto, tido como um dos mais impressionantes documentos do Holocausto, foi descoberto por um estudante nos anos 1980 e, ap\u00f3s anos de restaura\u00e7\u00e3o, agora pode ser lido quase na \u00edntegra.<\/p>\n<p>&#8220;Debaixo de um jardim, h\u00e1 um por\u00e3o com dois recintos infinitamente grandes: um deles \u00e9 usado para tirar as roupas. O outro \u00e9 uma c\u00e2mara da morte&#8221;, relata Nadjari. &#8220;As pessoas entram nuas e, quando o espa\u00e7o est\u00e1 cheio com cerca de tr\u00eas mil pessoas, ele \u00e9 fechado, e todos s\u00e3o asfixiados com g\u00e1s.&#8221;<\/p>\n<p>O prisioneiro grego descreve, entre outras coisas, como os detentos do campo eram enfiados &#8220;como sardinhas&#8221; na c\u00e2mara, enquanto os alem\u00e3es usavam chicotes para apert\u00e1-los ainda mais dentro do recinto antes de trancar as portas e abrir os dutos de g\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8220;Ap\u00f3s meia hora, abr\u00edamos as portas e come\u00e7\u00e1vamos o nosso trabalho&#8221;, conta Nadjari. Sua ocupa\u00e7\u00e3o: levar os cad\u00e1veres aos fornos de incinera\u00e7\u00e3o, onde &#8220;um ser humano acaba sendo reduzido a cerca de 640 gramas de cinzas&#8221;.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>Sonderkommando<\/em>\u00a0era um grupo de trabalho em Auschwitz composto por prisioneiros judeus do campo de exterm\u00ednio. Os detentos eram obrigados a preparar os assassinatos em massa de outros prisioneiros, saquear seus pertences ap\u00f3s a gaseifica\u00e7\u00e3o e transportar os corpos para os fornos. A hist\u00f3ria \u00e9 bem contada, por exemplo, no filme h\u00fangaro\u00a0<em>O filho de Saul<\/em>\u00a0(2015), vencedor do Oscar de melhor longa estrangeiro.<\/p>\n<p>Os escritos de Nadjari, de raridade e import\u00e2ncia hist\u00f3rica, est\u00e3o agora quase inteiramente leg\u00edveis, ap\u00f3s terem sido descobertos em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de conserva\u00e7\u00e3o. Neste m\u00eas, eles foram publicados pela primeira vez em alem\u00e3o, pelo Instituto de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea (IfZ), com sede em Munique.<\/p>\n<p>picture alliance\/AP Photo<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/35917267_303.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n&#8220;O trabalho liberta&#8221;: o port\u00e3o de entrada do campo Auschwitz 1, na Pol\u00f4nia<\/p>\n<div><\/div>\n<p>De acordo com o historiador russo Pavel Polian, a mensagem de Nadjari, \u00e9 um de nove documentos distintos encontrados enterrados em Auschwitz. O conjunto de textos, escritos por cinco membros do chamado\u00a0<em>Sonderkommando<\/em>, &#8220;s\u00e3o os documentos mais centrais do Holocausto&#8221;, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas d\u00e9cadas enterrados<\/strong><\/p>\n<p>Polian pesquisou o texto por dez anos e publicou suas descobertas no livro\u00a0<em>Scrolls from the ashes\u00a0<\/em>(<em>Pergaminhos das cinzas<\/em>, em tradu\u00e7\u00e3o livre). Mensagens enterradas como a de Nadjari foram encontradas exclusivamente em Auschwitz, diz o historiador, ma a maioria em fevereiro ou mar\u00e7o de 1945, logo depois que o campo foi libertado.<\/p>\n<p>A mensagem de Nadjari foi a \u00faltima a ser encontrada, e Polian acredita ser altamente improv\u00e1vel que haja outras mensagens de membros dos\u00a0<em>Sonderkommando<\/em>\u00a0ainda enterradas.<\/p>\n<p>Cerca de cem dos quase 2 mil prisioneiros de Auschwitz encarregados de se livrar dos milhares de cad\u00e1veres sobreviveram aos horrores do campo de exterm\u00ednio. Dos cinco que escreveram e enterraram suas mensagens, Nadjari foi o \u00fanico sobrevivente.<\/p>\n<p>Em 1980, um estudante que fazia escava\u00e7\u00f5es na floresta pr\u00f3xima \u00e0s ru\u00ednas do Cremat\u00f3rio 3 de Auschwitz-Birkenau desenterrou as notas enroladas dentro da garrafa t\u00e9rmica. Ao contr\u00e1rio das mensagens dos outros prisioneiros, apenas entre 10% e 15% do texto de Nadjari estavam leg\u00edveis.<\/p>\n<p>Os pap\u00e9is, escritos em i\u00eddiche, ficaram enterrados em solo \u00famido por 35 anos no momento da descoberta. Depois, foram encaminhados ao Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau, instalado na Pol\u00f4nia.<\/p>\n<p>Em 2013, um jovem russo especialista em TI passou um ano trabalhando no manuscrito borrado, voltando a tornar os contornos das letras vis\u00edveis com a ajuda de an\u00e1lise de imagens multiespectrais (usando imagens com diferentes comprimentos de ondas eletromagn\u00e9ticas).<\/p>\n<p>&#8220;Atualmente, conseguimos ler de 80 a 90%&#8221;, diz Polian, que iniciou o projeto de avalia\u00e7\u00e3o do manuscrito. Segundo o historiador, o texto est\u00e1 sendo traduzido para o ingl\u00eas e para o grego \u2013 e as tradu\u00e7\u00f5es dever\u00e3o ser publicadas em novembro.<\/p>\n<p><strong>Retorno \u00e0 Gr\u00e9cia<\/strong><\/p>\n<p>Nascido em 1917, Marcel Nadjari era um comerciante grego de Tessal\u00f4nica. Foi deportado para Auschwitz em abril de 1944 e colocado para trabalhar no\u00a0<em>Sonderkommando.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Se voc\u00ea ler sobre as coisas que fizemos, vai dizer: &#8216;Como algu\u00e9m p\u00f4de fazer isso, queimar seus companheiros judeus?'&#8221;, escreveu Nadjari. &#8220;Foi o que eu tamb\u00e9m disse no in\u00edcio, e no que pensei v\u00e1rias vezes&#8221;.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a guerra, Nadjari retornou \u00e0 Gr\u00e9cia. Em 1951, ele, sua esposa e seu filho emigraram para os Estados Unidos, onde ele trabalhou como alfaiate. Nadjari morreu em Nova York em 1971, aos 54 anos de idade.<\/p>\n<p>Apesar de Nadjari, no per\u00edodo em que morou na Gr\u00e9cia, ter escrito suas mem\u00f3rias, parece que ele nunca contou a ningu\u00e9m sobre o manuscrito que enterrara em Auschwitz. Nos escritos, mais de uma vez, Nadjari escreveu que ficava t\u00e3o devastado que pensava em se juntar aos prisioneiros nas c\u00e2maras de g\u00e1s \u2013 mas a perspectiva de vingan\u00e7a sempre o impedia de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 o \u00fanico dos cinco autores do\u00a0<em>Sonderkommando<\/em>\u00a0que escreveu abertamente sobre vingan\u00e7a. Segundo o historiador russo Polian, \u00e9 isso que distingue as anota\u00e7\u00f5es de Nadjari dos outros.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o estou triste por morrer&#8221;, escreve Nadjari, &#8220;mas fico triste por n\u00e3o poder me vingar como eu gostaria.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascido em 1917, Marcel Nadjari era um comerciante grego de Tessal\u00f4nica. 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