{"id":220530,"date":"2017-10-13T06:10:32","date_gmt":"2017-10-13T09:10:32","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=220530"},"modified":"2017-10-13T06:10:32","modified_gmt":"2017-10-13T09:10:32","slug":"os-cristaos-que-nero-nunca-matou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-cristaos-que-nero-nunca-matou\/","title":{"rendered":"Os crist\u00e3os que Nero nunca matou"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Uma nova investiga\u00e7\u00e3o confirma que o imperador romano n\u00e3o ordenou persegui\u00e7\u00f5es de crist\u00e3os depois do inc\u00eandio de Roma<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<aside id=\"compartir_superior\" class=\"compartir compartir--fijo\">\n<div class=\"compartir__interior\">\n<div class=\"compartir-varios\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Guillermo Altares\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/guillermo_altares\/a\/\">GUILLERMO ALTARES<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w560\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2015\/12\/11\/actualidad\/1449837567_576654_1449854753_noticia_normal.jpg\" alt=\"Nero, eternizado pela interpreta\u00e7\u00e3o de Peter Ustinov em Quo Vadis (1951), filme dirigido por Mervyn LeRoy.\" width=\"560\" height=\"389\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Nero, eternizado pela interpreta\u00e7\u00e3o de Peter Ustinov em Quo Vadis (1951), filme dirigido por Mervyn LeRoy.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos momentos mais universalmente famosos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/antigua_roma\/a\/\">da hist\u00f3ria romana<\/a>, os crist\u00e3os sendo devorados pelas feras no Coliseu, acusados de haver provocado o inc\u00eandio que devastou Roma no ano 64, perante o deleite das massas e os aplausos de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/neron\/a\/\">Nero<\/a>, nunca aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O anfiteatro foi constru\u00eddo depois do reinado do \u00faltimo imperador da linhagem de Augusto, que governou durante 14 anos, entre 54 e 68, e que se suicidou diante da certeza de que ia ser assassinado aos 31 anos de idade. Mas, al\u00e9m disso, cada vez se acumulam mais ind\u00edcios de que, na realidade, Nero nunca perseguiu os crist\u00e3os. Um\u00a0<a href=\"http:\/\/journals.cambridge.org\/action\/displayAbstract?fromPage=online&amp;aid=9995690&amp;fulltextType=RA&amp;fileId=S0075435815000982\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo<\/a>\u00a0que acaba de ser publicado pelo\u00a0<em><a href=\"http:\/\/journals.cambridge.org\/action\/displayJournal?jid=JRS\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Journal of Roman Studies<\/a>,<\/em>\u00a0da Universidade de Cambridge, oferece uma contundente s\u00e9rie de argumentos que demonstram que aquela primeira repress\u00e3o, na qual, em teoria, foram assassinados os ap\u00f3stolos Pedro e Paulo, e que estabelece as bases do mart\u00edrio crist\u00e3o, \u00e9 um mito. Seu autor \u00e9 um catedr\u00e1tico de estudos cl\u00e1ssicos da Universidade de Princeton,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.princeton.edu\/classics\/people\/data\/b\/bshaw\/CV.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Brent D. Shaw.<\/a>\u00a0Ele n\u00e3o \u00e9 o primeiro erudito que p\u00f5e em d\u00favida uma das muitas lendas que rodeiam Nero, mas o assunto n\u00e3o tinha sido analisado com tanta min\u00facia at\u00e9 agora.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"texto_grande\">O artigo de Shaw \u201cpode alterar, de forma dram\u00e1tica, a vis\u00e3o dos primeiros crist\u00e3os\u201d, defende um especialista em hist\u00f3ria romana<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o \u00e9 t\u00e3o estranho\u201d, explica Shaw por e-mail sobre como \u00e9 poss\u00edvel que um fato t\u00e3o relevante e t\u00e3o citado seja falso. \u201cAo longo da minha carreira como historiador, me deparei muitas vezes com eventos da hist\u00f3ria romana que s\u00e3o aceitos sem serem investigados a fundo. Dado que esse acontecimento faz parte da hist\u00f3ria can\u00f4nica crist\u00e3, a Igreja tamb\u00e9m n\u00e3o tinha muito interesse em analis\u00e1-lo desde um ponto de vista cr\u00edtico\u201d. A pesquisa de Shaw teve certo impacto, e inclusive aqueles que n\u00e3o concordam totalmente com suas conclus\u00f5es defendem a solidez de seus argumentos. G.W.Bowersock, professor em\u00e9rito de Hist\u00f3ria Antiga de Princeton,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nybooks.com\/articles\/2015\/12\/17\/rome-inside-emperors-clothes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escreveu na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da The New York Review of Books<\/a>\u00a0que o artigo de Shaw est\u00e1 \u201ccuidadosamente raciocinado\u201d e sustenta que \u201cpode alterar de forma dram\u00e1tica a vis\u00e3o dos primeiros crist\u00e3os\u201d. No entanto, da mesma forma que bi\u00f3grafos de Nero, como Edward Champlin e Donatien Grau, Bowersock acredita que ocorreram assassinatos de crist\u00e3os ap\u00f3s o inc\u00eandio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os argumentos de Shaw, autor de ensaios como\u00a0<em>Sacred Violence: African Christians and Sectarian Hatred in the Age of Augustine (2011<\/em>) (Viol\u00eancia Sagrada: Crist\u00e3os Africanos e \u00d3dio Sect\u00e1rio na Era de Augusto), se baseiam, sobretudo, em uma an\u00e1lise do par\u00e1grafo do historiador romano T\u00e1cito que descreve as persegui\u00e7\u00f5es, o \u00fanico documento que fala delas, \u00e0 parte de uma breve refer\u00eancia de Suetonio. Em seus Anais, escritos 60 anos depois do inc\u00eandio de Roma, T\u00e1cito escreve: \u201cNero buscou rapidamente um culpado e infligiu as mais excelentes torturas sobre um grupo odiado por suas abomina\u00e7\u00f5es que o povo chama de crist\u00e3os. Cristo, de quem tomam o nome, foi condenado \u00e0 pena de morte durante o principado de Tib\u00e9rio, pelas m\u00e3os de um de nossos procuradores, P\u00f4ncio Pilatos, e essa daninha supersti\u00e7\u00e3o ressurgiu n\u00e3o s\u00f3 na Jud\u00e9ia, fonte origin\u00e1ria do mal, mas tamb\u00e9m em Roma, onde todos os v\u00edcios e males do mundo encontram seu centro e se tornam populares. Por conseguinte, se deteve, primeiramente, a todos aqueles que se declararam culpados; ent\u00e3o, com a informa\u00e7\u00e3o que deram, uma imensa multid\u00e3o foi presa, n\u00e3o s\u00f3 pelo crime de haver incendiado a cidade mas por seu \u00f3dio contra a humanidade. Todos os tipos de chacotas acompanharam as suas execu\u00e7\u00f5es. Cobertos com peles de animais, foram despeda\u00e7ados por cachorros e pereceram, ou foram crucificados, ou condenados \u00e0 fogueira e queimados para servir de ilumina\u00e7\u00e3o noturna ao fim do dia\u201d (Tradu\u00e7\u00e3o livre da feita ao espanhol por Crescente L\u00f3pez de Juan). Richard Holland define esse texto, em\u00a0<em>Nero: The man behind the myth (Nero: O Homem por tr\u00e1s do Mito)<\/em>, como \u201co documento secular da antiguidade examinado com maior profundidade\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"texto_grande\">&#8220;Nero era muito famoso e amado pelo povo, mas, por outro lado, era odiado pelo senado e por outras elites de Roma, que o descreviam como um ser maligno&#8221;, explica Shaw<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Shaw defende que se trata de \u201cum completo anacronismo\u201d, que na realidade T\u00e1cito falava mais de sua \u00e9poca que da de Nero, na qual os crist\u00e3os ainda eram muito minorit\u00e1rios em Roma, e \u00e9 muito poss\u00edvel que nem sequer fossem conhecidos por esse nome. Se as acusa\u00e7\u00f5es tiveram tamanha magnitude, \u00e9 ins\u00f3lito que nenhum outro autor fale delas, e que n\u00e3o exista nenhum documento que as descreva. Para Shaw, sem d\u00favidas, houve persegui\u00e7\u00f5es depois do inc\u00eandio, dado que Nero precisava encontrar bodes expiat\u00f3rios, mas n\u00e3o poderiam ter sido direcionadas aos crist\u00e3os, que, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o estavam definidos como praticantes de um culto pernicioso. \u201cA conex\u00e3o espec\u00edfica dos crist\u00e3os com o grande inc\u00eandio de Roma se desenvolveu mais tarde. A maioria das fontes que chegaram at\u00e9 n\u00f3s indicam que em torno do ano 100\u201d, escreveu Shaw.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seus argumentos v\u00e3o al\u00e9m de T\u00e1cito e estuda o pouco que se conhece da morte de Pedro e de Paulo. Sobre o primeiro, quase n\u00e3o se tem informa\u00e7\u00f5es, nem sequer se foi executado e se isso teria acontecido em Roma ou Jerusal\u00e9m. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que tenha morrido por volta dos 50 anos de idade. J\u00e1 Paulo \u2014 um ap\u00f3stolo cuja vida foi analisada por Emmanuel Carr\u00e8re em seu \u00faltimo livro\u00a0<em>Le Royaume<\/em>\u00a0(O Reino) \u2014, foi executado em Roma, em torno do ano 60, mas a acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha nada a ver com o fato de ser crist\u00e3o, mas por incitar a desordem. \u201cNero era muito famoso e amado pelo povo, mas, por outro lado, era odiado pelo senado e pelas outras elites de Roma, que o descreviam como um ser maligno\u201d, explica Shaw. \u201cAo construir sua historiografia, autores crist\u00e3os, como Eus\u00e9bio, acharam muito f\u00e1cil retomar esses argumentos. Marco Aur\u00e9lio perseguia os crist\u00e3os, mas sempre foi definido, por essas mesmas elites, como um grande governante\u201d. A grande historiadora Mary Beard o coloca de outra maneira: \u201cNunca saberemos se imperadores como Nero foram depostos porque eram maus ou se foram definidos como maus precisamente porque foram depostos\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma nova investiga\u00e7\u00e3o confirma que o imperador romano n\u00e3o ordenou persegui\u00e7\u00f5es de crist\u00e3os depois do inc\u00eandio de Roma<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":220531,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-220530","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/nero.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220530","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=220530"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220530\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/220531"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=220530"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=220530"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=220530"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}