{"id":221651,"date":"2017-10-22T12:33:56","date_gmt":"2017-10-22T15:33:56","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=221651"},"modified":"2017-10-22T12:33:56","modified_gmt":"2017-10-22T15:33:56","slug":"os-caminhos-da-nossa-alimentacao-com-camara-cascudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-caminhos-da-nossa-alimentacao-com-camara-cascudo\/","title":{"rendered":"Os caminhos da nossa alimenta\u00e7\u00e3o com C\u00e2mara Cascudo"},"content":{"rendered":"<div class=\"col s12\">\n<section class=\"box-featured full-size header\">\n<h1><\/h1>\n<p>H\u00e1 50 anos, C\u00e2mara Cascudo entregava uma obra que at\u00e9 hoje d\u00e1 sentido aos nossos h\u00e1bitos e prefer\u00eancias alimentares<\/p>\n<div class=\"header-information\">\n<p>Por:\u00a0<strong class=\"responsible\">Edi Souza<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"share-mattler\"><\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"col m6 l6 s12 medium-matler\">\n<figure><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.folhape.com.br\/obj\/49\/238003,475,80,0,0,475,365,0,0,0,0.jpg\" alt=\"H\u00e1 50 anos Cascudo apresentava a origem da nossa alimenta\u00e7\u00e3o\" \/><\/p>\n<div class=\"caption\">H\u00e1 50 anos Cascudo apresentava a origem da nossa alimenta\u00e7\u00e3o<em>Foto: Equipe de ilustra\u00e7\u00e3o da Folha de Pernambuco<\/em><\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<p>Se o historiador C\u00e2mara Cascudo vivesse nos dias de hoje, ele certamente escreveria algo sobre o valor dado \u00e0 pressa. A mesma que impede &#8220;gastar&#8221; uns minutinhos \u00e0 mesa. Tempo roubado. Limitado. Pressionado pelo rel\u00f3gio. O mesmo que, a certa altura do dia, n\u00e3o permite a no\u00e7\u00e3o al\u00e9m do valor nutricional de um ou outro ingrediente capaz de devolver o f\u00f4lego. \u00c9 ato \u00e0s vezes despercebido que faz do seu livro &#8220;Hist\u00f3ria da Alimenta\u00e7\u00e3o no Brasil&#8221;, da editora Global, um cl\u00e1ssico de meio s\u00e9culo que expressa: \u201csim, comida \u00e9 cultura\u201d. Leia-se conhecimento e liberdade de todos os tipos.<\/p>\n<p>A obra, munida de informa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sociol\u00f3gicas, traz os elementos b\u00e1sicos da cozinha brasileira, sem esquecer seus mitos e folclores interligados. &#8220;Espero mostrar a antiguidade de certas predile\u00e7\u00f5es alimentares que os s\u00e9culos fizeram h\u00e1bitos, inexplic\u00e1veis como uma norma de uso, um respeito de heran\u00e7a dos mantimentos de tradi\u00e7\u00e3o&#8221;, diz um trecho entre as primeiras p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>O livro, patrocinado pelo jornalista Assis Chateaubriand, demorou mais de 20 anos para ficar pronto e somar mais de 900 p\u00e1ginas e algumas reedi\u00e7\u00f5es. Ganhou, ent\u00e3o, ares de estudo documentado.<\/p>\n<p>&#8220;O Brasil tem uma sociedade muito elitista e sua literatura tamb\u00e9m \u00e9 muito elitista, basta ver que nese campo da alimenta\u00e7\u00e3o o tema alimenta\u00e7\u00e3o popular s\u00f3 vai aparecer com ele, nos anos 1960. Antes disso n\u00e3o se fala de alimenta\u00e7\u00e3o popular a n\u00e3o ser eventualmente como folclore ou h\u00e1bitos ligados \u00e0 religi\u00e3o&#8221;, defende o soci\u00f3logo Carlos Alberto D\u00f3ria, tamb\u00e9m vice-presidente do Centro de Cultura Culin\u00e1ria C\u00e2mara Cascudo (C5).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que este \u00e9 um nome \u00e0 frente de um grupo que se re\u00fane eventualmente em S\u00e3o Paulo para discutir gastronomia em suas diversas nuances. &#8220;N\u00e3o quer dizer que a obra dele seja objeto, mas, sim, uma homenagem dentro da nossa inten\u00e7\u00e3o de debater a culin\u00e1ria brasileira. E ele \u00e9 o fundador desse conceito na nossa hist\u00f3ria&#8221;, completa.<\/p>\n<p><strong>Raio X: Quem foi C\u00e2mara Cascudo?<\/strong><br \/>\n<em>Nome:<\/em>\u00a0Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo<br \/>\n<em>Nascimento\/Falecimento:<\/em><strong>\u00a0<\/strong>1898-1986<br \/>\n<em>Origem:\u00a0<\/em>Natal, Rio Grande do Norte<br \/>\n<em>Atua\u00e7\u00e3o:<\/em>\u00a0historiador, antrop\u00f3logo, jornalista, advogado e escritor<br \/>\n<em>Curiosidades:\u00a0<\/em>seu primeiro livro foi aos 23 anos: \u201cAlma Patr\u00edcia\u201d, de 1921, um estudo de 18 escritores e poetas do seu Estado; foi professor de Direito Internacional P\u00fablico, na Faculdade de Direito do Recife<br \/>\nAlgumas publica\u00e7\u00f5es: \u201cGeografia dos mitos brasileiros\u201d, de 1947; \u201cOs holandeses no Rio Grande do Norte\u201d, de 1949; \u201cA cozinha africana no Brasil\u201d, de 1964; \u201cPrel\u00fadio da cacha\u00e7a\u201d, de 1968; \u201cAntologia da alimenta\u00e7\u00e3o no Brasil\u201d, de 1977<br \/>\n<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Como ele trata alguns alimentos:<br \/>\n<\/strong>Nos primeiros momentos do livro, a alimenta\u00e7\u00e3o ind\u00edgena passa por sua crescente descoberta. Da rela\u00e7\u00e3o com os europeus at\u00e9 no manuseio prim\u00e1rio do fogo &#8211; este, seu companheiro indispens\u00e1vel. \u201cDeixaram ao brasileiro o conceito universal e milenar da \u2018comida quente \u00e9 que sustenta a gente\u2019. Esfriou, estragou\u201d, relata. A forma de assar, segundo o livro, era sobre tr\u00eas pedras t\u00edpicas que agrupavam as chamas. A mandioca era onipresente. J\u00e1 o milho tinha nas suas planta\u00e7\u00f5es a representa\u00e7\u00e3o de um bom trabalho de plantio, j\u00e1 que ele s\u00f3 se reproduz sendo semeado.<\/p>\n<p><strong>Card\u00e1pio portugu\u00eas:<\/strong><br \/>\nNa chamada ementa portuguesa \u00e9 f\u00e1cil perceber a adapta\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas em terras brasileiras, com contribui\u00e7\u00f5es no dom\u00ednio do paladar. \u00c9 quando ele cita a valoriza\u00e7\u00e3o do sal e do a\u00e7\u00facar. Curioso ainda perceber a rotina, com a mulher portuguesa aproveitando o ovo de galinha, at\u00e9 ent\u00e3o ignorado por negros e ind\u00edgenas. \u201cA m\u00e3o da cozinheira portuguesa deu pre\u00e7o \u00e0s iguarias humildes, cotidianas, vulgares. Fez o beiju mais fino, mais seco, do polvilho, goma de mandioca, e molhou-o com leite\u201d, detalha. Eis que se d\u00e1 a transforma\u00e7\u00e3o das verdadeiras riquezas nacionais. As bananas-da-terra ganharam espa\u00e7o na do\u00e7aria, ao lado dos cajus e oitis.<br \/>\n<strong><br \/>\nCard\u00e1pio africano:\u00a0<\/strong><br \/>\n\u201c\u00c9 verdade que o negro veio para o Brasil mutilado em sua personalidade ps\u00edquica, reduzindo \u00e0 escravatura (&#8230;) Mas, adverta-se, uma boa parte dos escravos era herdeira mental de grandes imp\u00e9rios negros (&#8230;)\u201d justifica Cascudo ao falar sobre o poder de improvisa\u00e7\u00e3o e recria\u00e7\u00e3o visto na parte de gastronomia e nas artes. Surge a ca\u00e7a mostrada como of\u00edcio de orgulho para a carne ser assada ou chamuscada. No card\u00e1pio est\u00e1 o pir\u00e3o, prato que mais se come em Luanda, que leva \u00f3leo de palma, \u00e1gua, sal e peixe &#8211; como o pargo. Mas h\u00e1 refer\u00eancias ainda ao leite de coco e ao cuscuz.<\/p>\n<p><strong>Destaque para as frutas:<br \/>\n<\/strong>Elas t\u00eam um cap\u00edtulo \u00e0 parte, com testemunhos sobre sua aprecia\u00e7\u00e3o ao longo dos s\u00e9culos. \u00c9 contexto que vale a observa\u00e7\u00e3o de que algumas esp\u00e9cies, substitutas por outras rendosas, praticamente desapareceram, e que as esp\u00e9cies mais selvagens s\u00e3o marcadas pela for\u00e7a \u00e1cida e de gosto acre e picante. Eis alguns destaques do seu gloss\u00e1rio:<\/p>\n<p><strong>Banana:\u00a0<\/strong>\u201cRecebemos a banana da \u00c1frica e havia uma variedade nativa brasileira, de nome \u2018pacova\u2019, sendo elas posteriormente confundidas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Caju:\u00a0<\/strong>\u201cA mais popular das frutas brasileiras. Contavam os ind\u00edgenas os anos pela flora\u00e7\u00e3o dos cajueiros, guardando as castanhas. Vinho inebriante para os ind\u00edgenas do litoral \u201d.<\/p>\n<p><strong>Goiaba:\u00a0<\/strong>\u201cN\u00e3o \u00e9 natural desta terra, mas foi trazida da Am\u00e9rica Setentrional e do Peru\u201d.<\/p>\n<p><strong>Jaca:\u00a0<\/strong>\u201cNa \u00cdndia, onde \u00e9 nativa e vulgar, comem as sementes cozidas ou assadas, e muito pouco a polpa adocicada, porque \u00e9 de dif\u00edcil digest\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Manga:\u00a0<\/strong>\u201cNativa da \u00cdndia, todo sul e leste da \u00c1sia, prestando-se a uma infinidade de iguarias, molhos, conservas, \u00e9 de viva participa\u00e7\u00e3o popular contempor\u00e2nea. Encontra-se por toda a \u00c1frica Oriental e Ocidental litoral, e interior, constituindo elemento sens\u00edvel no card\u00e1pio negro\u201d.<\/p>\n<p><strong>Maracuj\u00e1:\u00a0<\/strong>\u201cEntre os ind\u00edgenas tupis era comum ver-se a trepadeira nas vizinhan\u00e7as das malocas. Passou abundantemente \u00e0 \u00c1frica\u201d.<\/p>\n<p><strong>Melancia:\u00a0<\/strong>\u201cNativa e registrada em estado selvagem pela \u00c1frica Austral e Tropical, de onde veio para o Brasil no s\u00e9culo XVI, sendo amplamente plantada e apreciada pelos ind\u00edgenas como era pelos africanos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Defesa da obra:<\/strong><br \/>\n\u201cEmbasamento que Gilberto Freyre antes ensaiava com o livro \u2018A\u00e7\u00facar\u2019. Lembro que fiz um mergulho evolutivo passando a entender a import\u00e2nciadas duas contribui\u00e7\u00f5es\u201d.<br \/>\n<em>Gilberto Freyre Neto<br \/>\n(Soci\u00f3logo e historiador)<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Ele tem um trabalho de folclorista. N\u00e3o que isso seja menos ou ruim, mas \u00e9 um trabalho de registro daquilo que ele via e estudada na inten\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se perdesse&#8221;.<br \/>\n<em>Frederico Toscano<br \/>\n(Historiador e pesquisador sobre alimenta\u00e7\u00e3o)<\/em><\/p>\n<p>&#8220;C\u00e2mara Cascudo, em Hist\u00f3ria da Alimenta\u00e7\u00e3o, nos ensina sobretudo que cada grupo escolhe seus alimentos a partir do ambiente em que vive, e a partir das muitas heran\u00e7as que recebe&#8221;.<br \/>\n<em>Maria Lecticia Cavalcanti<br \/>\n(Escritora e especialista em gastronomia)<\/em><\/p>\n<p>&#8220;Esse \u00e9 um livro pioneiro e que n\u00e3o tem substitutos. Atravessa o tempo e continua um cl\u00e1ssico usado como refer\u00eancia principalmente por quem se interessa no contexto da alimenta\u00e7\u00e3o&#8221;.<br \/>\n<em>Renata do Amaral<br \/>\n(Jornalista e pesquisadora de gastronomia)<\/em><\/p>\n<p><strong>Elementos b\u00e1sicos:<\/strong><br \/>\n\u201cFazer um prato n\u00e3o \u00e9 apenas unir t\u00e9cnica e ingrediente. \u00c9 preciso mais. \u00c9 preciso contexto. E Cascudo lembra a significa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, geogr\u00e1fica e cultural em torno da comida, que devem acompanhar a trajet\u00f3ria de qualquer chef, logo a partir da sua forma\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\n<em>Robson Lustosa<br \/>\n(Chef e professor dos cursos de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de gastronomia)<\/em><\/p>\n<p>\u201cChama aten\u00e7\u00e3o as descobertas de que os h\u00e1bitos pernambucanos est\u00e3o mais voltados para uma cozinha portuguesa do que para a ind\u00edgena e que a influ\u00eancia africana quase n\u00e3o nos afetou diretamente aqui. J\u00e1 no Brasil como um todo, ele mostra que somos uma miscigena\u00e7\u00e3o de doa\u00e7\u00f5es e trocas, que nos fizeram tomar coisas que hoje s\u00e3o nossas, com nossa brasilidade, mas que n\u00e3o nos pertencia anteriormente\u201d.<br \/>\n<em>Claudemir Barros<br \/>\n(Chef de cozinha)<\/em><\/p>\n<p><strong>Mandioca:\u00a0<\/strong>n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que existe um cap\u00edtulo s\u00f3 sobre essa raiz apelidada por Cascudo de \u201cRainha do Brasil\u201d. Popular e indispens\u00e1vel aos ind\u00edgenas e europeus rec\u00e9m-instalados, h\u00e1 neste alimento uma legitimidade funcional: \u201csaboroso, de f\u00e1cil digest\u00e3o e substancial\u201d, segundo o autor, que tamb\u00e9m destaca a farinha como seu subproduto de prest\u00edgio popular. \u00c9 riqueza nas m\u00e3os das sertanejas que da goma, em meio a alguns processos, origina beijus ou tapiocas.<\/p>\n<p><strong>Feijoada:<\/strong>\u00a0uma boa dose de hist\u00f3ria faz o feij\u00e3o ganhar seu m\u00e9rito. Em Portugal ele aparece em documentos do s\u00e9culo 13, levado para a Europa depois do descobrimento da Am\u00e9rica. No livro ele aparece not\u00e1vel por historiadores e pensadores acerca de sua proced\u00eancia. \u201cEm Portugal e na \u00c1frica Ocidental e Oriental o feij\u00e3o n\u00e3o tem a procura, a indispensabilidade, a predile\u00e7\u00e3o com que \u00e9 consumido no Brasil\u201d, pondera sem deixar de lembrar o gosto pelas dobradinhas, da feijoada lusitana e do caldo de carne.<\/p>\n<p><strong>Arroz:\u00a0<\/strong>alimento suplementar comum, mas n\u00e3o indispens\u00e1vel. J\u00e1 parou para pensar nisso? Pois essa \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de Cascudo para a forma como o arroz foi sendo visto ao longo dos anos, \u201ccomo quem sa\u00fada um amigo vulgar no mecanismo da obriga\u00e7\u00e3o di\u00e1ria\u201d, compara. Mas isso n\u00e3o diminui a sua fun\u00e7\u00e3o como sobremesa tipo o arroz-doce, considerada a mais antiga aplica\u00e7\u00e3o no plano da do\u00e7aria que se vulgarizou pela Europa e Am\u00e9rica.<\/p>\n<p><strong>A\u00e7\u00facar:<\/strong>\u00a0base da do\u00e7aria portuguesa, o a\u00e7\u00facar tem boa parte da sua hist\u00f3ria ligada ao dom\u00ednio \u00e1rabe. Por isso, o livro lembra que os bolos de mel e o alfenim, por exemplo, s\u00e3o presen\u00e7as \u00e1rabes em Portugal. \u201cO a\u00e7\u00facar ampliara a do\u00e7aria, fazendo-a variada, determinando as esp\u00e9cies procuradas e provocando voca\u00e7\u00f5es inventivas\u201d, diz um trecho. \u00c9 introdu\u00e7\u00e3o para os \u201cquatro doces hist\u00f3ricos\u201d revelados em um cap\u00edtulo.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se o historiador C\u00e2mara Cascudo vivesse nos dias de hoje, ele certamente escreveria algo sobre o valor dado \u00e0 pressa. 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