{"id":223352,"date":"2017-11-07T06:35:14","date_gmt":"2017-11-07T09:35:14","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=223352"},"modified":"2017-11-07T06:35:14","modified_gmt":"2017-11-07T09:35:14","slug":"como-e-que-alguem-se-transforma-em-escritor-ou-e-transformado-em-escritor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-e-que-alguem-se-transforma-em-escritor-ou-e-transformado-em-escritor\/","title":{"rendered":"\u201cComo \u00e9 que algu\u00e9m se transforma em escritor, ou \u00e9 transformado em escritor?\u201d"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">&#8216;Anos de Forma\u00e7\u00e3o: os Di\u00e1rios de Emilio Renzi&#8217;, de Ricardo Piglia, sai no Brasil. Leia trecho<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<aside id=\"compartir_superior\" class=\"compartir compartir--fijo\">\n<div class=\"compartir__interior\">\n<div class=\"compartir-varios\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Ricardo Piglia\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/el_pais\/a\/\">RICARDO PIGLIA<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/06\/cultura\/1510006055_564717_1510007757_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/06\/cultura\/1510006055_564717_1510007757_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/06\/cultura\/1510006055_564717_1510007757_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/06\/cultura\/1510006055_564717_1510007757_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Ricardo Piglia em 2000, em entrevista ao EL PA\u00cdS\" width=\"980\" height=\"550\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Ricardo Piglia em 2000, em entrevista ao EL PA\u00cdS<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">DANIEL MORDZINSKI<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dois anos depois da morte do escritor argentino\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ricardo_piglia\/a\">Ricardo Piglia<\/a>, a editora Todavia lan\u00e7a no Brasil\u00a0<em>Anos de Forma\u00e7\u00e3o: os Di\u00e1rios de Emilio Renzi<\/em>, que percorre a educa\u00e7\u00e3o formal e sentimental de Renzi, esp\u00e9cie de alter-ego de Piglia. Logo no in\u00edcio do livro, o narrador se questiona: &#8220;Como \u00e9 que algu\u00e9m se transforma em escritor, ou \u00e9 transformado em escritor? N\u00e3o \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o, imagine, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o, mais parece uma mania, um h\u00e1bito&#8221;. \u00c9 ao redor do of\u00edcio do escritor, tendo como cen\u00e1rio uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/argentina\/a\">Argentina<\/a>\u00a0art\u00edstica e pol\u00edtica, que o livro se desenvolve.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O lan\u00e7amento da edi\u00e7\u00e3o brasileira acontece em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sao_paulo\/a\">S\u00e3o Paulo<\/a>, nesta ter\u00e7a-feira, \u00e0s 19h, no Instituto Cervantes, onde acontecer\u00e1 uma conversa com o tradutor do livro S\u00e9rgio Molina, o especialista em literatura argentina J\u00falio Pimentel Pinto e o editor da revista liter\u00e1ria Quatro cinco um, Paulo Werneck. Leia abaixo um trecho do primeiro cap\u00edtulo do livro de Piglia.<\/p>\n<hr \/>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na soleira<\/h3>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Desde pequeno repito o que n\u00e3o entendo \u2013 ria Emilio Renzi retrospectivo e radiante naquela tarde, no bar da Arenales com a Riobamba. \u2014 Achamos divertido o que n\u00e3o conhecemos; gostamos do que n\u00e3o sabemos para que serve.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Aos tr\u00eas anos ficava intrigado com a figura do seu av\u00f4 Emilio sentado na poltrona de couro, ausente dentro de um c\u00edrculo de luz, os olhos fixos num misterioso objeto retangular. Im\u00f3vel, parecia indiferente, calado. Emilio, o menino, n\u00e3o entendia muito bem o que estava acontecendo. Era pr\u00e9-l\u00f3gico, pr\u00e9-sint\u00e1tico, era pr\u00e9-narrativo, registrava os gestos, um por um, mas n\u00e3o os encadeava; simplesmente imitava aquilo que via os outros fazerem. Ent\u00e3o, naquela manh\u00e3 subiu numa cadeira e tirou um livro azul de uma das estantes da biblioteca. Depois foi at\u00e9 a porta da rua e se sentou na soleira com o volume aberto no rega\u00e7o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Meu av\u00f4, disse Renzi, abandonou o campo e foi morar conosco em Adrogu\u00e9 quando minha av\u00f3 Rosa morreu. Deixou a folhinha sem arrancar no dia 3 de fevereiro de 1943, como se o tempo tivesse parado na tarde da morte de sua mulher. E o calend\u00e1rio aterrador, com o bloco dos n\u00fameros fixo nessa data, continuou em casa durante anos.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">Mor\u00e1vamos num lugar tranquilo, perto da esta\u00e7\u00e3o de trem, e a cada meia hora passavam pela nossa cal\u00e7ada os passageiros vindos da capital. E l\u00e1 estava eu, na soleira, querendo ser visto, quando de repente uma sombra comprida se inclinou para me dizer que o livro estava de ponta-cabe\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Acho que deve ter sido o Borges, brincava Renzi naquela tarde no bar da Arenales com a Riobamba. Naquela \u00e9poca ele costumava passar o ver\u00e3o no Hotel Las Delicias, e s\u00f3 mesmo o velho Borges para fazer essa advert\u00eancia a uma crian\u00e7a de tr\u00eas anos, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 que algu\u00e9m se transforma em escritor, ou \u00e9 transformado em escritor? N\u00e3o \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o, imagine, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o, mais parece uma mania, um h\u00e1bito, um v\u00edcio, voc\u00ea deixa de fazer isso e se sente mal, mas\u00a0<em>ter<\/em>\u00a0que faz\u00ea-lo \u00e9 rid\u00edculo, e acaba se tornando um modo de viver (como outro qualquer).<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia, ele percebera, \u00e9 uma multiplica\u00e7\u00e3o microsc\u00f3pica de pequenos acontecimentos que se repetem e se expandem, sem conex\u00e3o, dispersos, em fuga. Sua vida, ele compreendera, era dividida em sequ\u00eancias lineares, s\u00e9ries abertas que remontavam ao passado distante: incidentes m\u00ednimos, estar sozinho num quarto de hotel, ver seu rosto num instant\u00e2neo, entrar num t\u00e1xi, beijar uma mulher, levantar os olhos da p\u00e1gina e dirigi-los \u00e0 janela, quantas vezes? Esses gestos formavam uma rede fluida, desenhavam um percurso \u2013 e desenhou um mapa de c\u00edrculos e cruzes num guardanapo \u2013, digamos que o percurso da minha vida seria assim, disse. A insist\u00eancia dos temas, dos lugares, das situa\u00e7\u00f5es \u00e9 o que eu quero \u2013 falando\u00a0<em>figuradamente<\/em>\u00a0\u2013 interpretar. Como um pianista que improvisa, sobre um fr\u00e1gil\u00a0<em>standard<\/em>, varia\u00e7\u00f5es, mudan\u00e7as de ritmo, harmonias de uma m\u00fasica esquecida, disse, e se ajeitou na cadeira.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">Poderia por exemplo contar minha vida a partir da repeti\u00e7\u00e3o das conversas com meus amigos num bar. A confeitaria Tokio, o caf\u00e9 Ambos Mundos, o bar El Rayo, La Modelo, Las Violetas, o Ramos, o caf\u00e9 La \u00d3pera, La Giralda, Los 36 billares\u2026, a mesma cena, os mesmos assuntos. Todas as vezes que me encontrei com meus amigos, uma s\u00e9rie. Se fazemos uma coisa \u2013 abrir uma porta, por exemplo \u2013 e depois pensamos naquilo que fizemos, \u00e9 rid\u00edculo; mas se observarmos sua reprodu\u00e7\u00e3o do alto de um mirante, n\u00e3o \u00e9 preciso nada para obter uma sucess\u00e3o, uma forma comum, at\u00e9 mesmo um sentido.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">Sua vida poderia ser narrada seguindo essa sequ\u00eancia ou qualquer outra parecida. Os filmes a que assistiu, com quem foi ao cinema, o que fez depois; tinha tudo registrado de modo obsessivo, incompreens\u00edvel e idiota, em minuciosas descri\u00e7\u00f5es\u00a0<em>datadas<\/em>, com sua trabalhosa letra manuscrita: estava tudo anotado naquilo que agora decidira chamar de \u201cseus arquivos\u201d, as mulheres com que vivera ou passara uma noite (ou uma semana), as aulas que dera, os telefonemas de longa dist\u00e2ncia, nota\u00e7\u00f5es, sinais, n\u00e3o era inacredit\u00e1vel? Seus h\u00e1bitos, seus v\u00edcios, suas pr\u00f3prias palavras. Nada de vida interior, somente fatos, a\u00e7\u00f5es, lugares, circunst\u00e2ncias que, repetidas, criavam a ilus\u00e3o de uma vida. Uma a\u00e7\u00e3o \u2013 um gesto \u2013 que insiste e reaparece, e diz mais do que tudo o que eu possa dizer de mim mesmo.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">No bar onde ele se instalava ao cair da tarde, El Cervatillo, na mesa do canto, pegada \u00e0 janela, tinha colocado suas fichas, um caderno, um par de livros, o\u00a0<em>Proust<\/em>, de Painter, e\u00a0<em>The Opposing Self<\/em>, de Lionel Trilling, e ao lado um livro de capa preta, um romance, pelo jeito, com frases elogiosas de Stephen King e Richard Ford em letras vermelhas.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><a class=\"enlace\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/06\/cultura\/1510006055_564717_1510007829_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/06\/cultura\/1510006055_564717_1510007829_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/06\/cultura\/1510006055_564717_1510007829_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/06\/cultura\/1510006055_564717_1510007829_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"\u201cComo \u00e9 que algu\u00e9m se transforma em escritor, ou \u00e9 transformado em escritor?\u201d\" width=\"980\" height=\"572\" \/><span class=\"boton_ampliar\">ampliar foto<\/span><\/a><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">Contudo, tinha percebido que devia come\u00e7ar pelos restos, por aquilo que n\u00e3o estava escrito, ir ao encontro do que n\u00e3o estava registrado mas persistia e cintilava na mem\u00f3ria como uma luz morti\u00e7a. Fatos m\u00ednimos que misteriosamente haviam sobrevivido \u00e0 noite do esquecimento. S\u00e3o vis\u00f5es,\u00a0<em>flashes<\/em>\u00a0enviados do passado, imagens que perseveram isoladas, sem moldura, sem contexto, soltas, e\u00a0<em>n\u00e3o podemos esquec\u00ea-las<\/em>, certo? Certo, disse, e olhou para o gar\u00e7om que ia atravessando por entre as mesas. Mais um branco?, perguntou. Pediu um Fendant de Sion\u2026 era o vinho que o Joyce bebia, um vinho seco que o deixou cego. Joyce o chamava de Arquiduquesa, por causa da cor ambarina e porque o bebia como quem pecaminosamente \u2013\u00a0<em>\u00e0 la<\/em>\u00a0Leopold Bloom \u2013 suga o n\u00e9ctar dourado de uma p\u00fabere garota aristocr\u00e1tica que se agacha nua, de c\u00f3coras, sobre uma \u00e1vida cara irlandesa. Renzi frequentava esse bar \u2013 que antes se chamava La Casa Suiza \u2013 porque guardavam ali, nos frescos por\u00f5es, v\u00e1rias caixas do vinho joyciano. E com seu pedantismo habitual citou, em voz baixa, o par\u00e1grafo do\u00a0<em>Finnegans<\/em>\u00a0celebrando aquela ambrosia\u2026<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Era uma radiografia do seu esp\u00edrito, melhor dizendo, da constru\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria do seu esp\u00edrito, disse, e fez uma pausa; n\u00e3o acreditava nessas\u00a0<em>baboseiras<\/em>(frisou), mas gostava de pensar que sua vida interior era feita de pequenos incidentes. Assim, poderia enfim come\u00e7ar a pensar numa autobiografia. Uma cena e depois outra e mais outra, n\u00e3o \u00e9? Seria uma autobiografia seriada, uma vida em s\u00e9rie\u2026 Dessa multiplicidade de fragmentos insensatos, come\u00e7ara seguindo uma linha, reconstruindo a s\u00e9rie dos livros, \u201cOs livros da minha vida\u201d, disse. N\u00e3o os que escrevera, mas os que lera\u2026\u00a0<em>Como li alguns dos meus livros<\/em>poderia ser o t\u00edtulo da minha autobiografia (caso a escrevesse).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Primeiro ponto, portanto, os livros da minha vida, mas nem todos os que li, e sim aqueles dos quais lembro com nitidez a situa\u00e7\u00e3o e o momento em que os lia. Se eu me lembro das circunst\u00e2ncias em que estava com um livro, isso para mim \u00e9 a prova de que ele foi decisivo. N\u00e3o s\u00e3o necessariamente os melhores, nem os que me influenciaram: s\u00e3o os que deixaram uma marca. Vou seguir esse crit\u00e9rio mnem\u00f4nico, como se eu contasse somente com essas imagens para reconstruir minha experi\u00eancia. Um livro na lembran\u00e7a tem uma qualidade \u00edntima somente\u00a0<em>se vejo a mim mesmo lendo.<\/em>\u00a0Estou do lado de fora, distanciado, e me vejo como se eu fosse outra pessoa (sempre mais jovem). Por isso, talvez, penso agora, aquela imagem \u2013 fazer de conta que estou lendo um livro na soleira da casa da minha inf\u00e2ncia \u2013 \u00e9 a primeira de uma s\u00e9rie, e \u00e9 por a\u00ed que vou come\u00e7ar minha autobiografia.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Claro que recordo dessas cenas depois de ter escrito meus livros, por isso poder\u00edamos cham\u00e1-las de pr\u00e9-hist\u00f3ria de uma imagina\u00e7\u00e3o pessoal. Por que nos dedicamos a escrever, afinal?\u00a0<em>Seguimos nessa trilha<\/em>, por qual motivo? Bom, porque antes lemos\u2026 N\u00e3o importa a causa, claro, importam as consequ\u00eancias. Muita gente deve se arrepender disso, a come\u00e7ar por mim, mas em qualquer bar da cidade, em qualquer McDonald\u2019s tem um trouxa que, apesar de tudo, quer escrever\u2026 Na realidade, n\u00e3o \u00e9 que ele queira escrever, quer \u00e9 ser escritor e quer ser lido. Um escritor\u00a0<em>se autonomeia<\/em>\u00a0e se autoprop\u00f5e no mercado persa, mas por que ele resolve assumir essa postura?<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A ilus\u00e3o \u00e9 uma forma perfeita. N\u00e3o \u00e9 um erro, n\u00e3o deve ser confundida com um equ\u00edvoco involunt\u00e1rio. Trata-se de uma constru\u00e7\u00e3o deliberada, pensada para enganar a pr\u00f3pria pessoa que a constr\u00f3i. \u00c9 uma forma pura, talvez a mais pura das formas existentes. A ilus\u00e3o como romance privado, como autobiografia futura.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio, afirmou depois de uma pausa, somos como o Monsieur\u2005Teste de Val\u00e9ry: cultivamos a literatura n\u00e3o emp\u00edrica. \u00c9 uma arte secreta cuja forma exige n\u00e3o ser descoberta. Imaginamos o que pretendemos fazer e vivemos nessa ilus\u00e3o\u2026 Em suma, s\u00e3o as hist\u00f3rias que cada um conta a si mesmo para sobreviver. Impress\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de ser entendidas por estranhos. Mas \u00e9 poss\u00edvel uma fic\u00e7\u00e3o privada? Ou \u00e9 preciso que haja mais de uma pessoa? \u00c0s vezes, os momentos perfeitos s\u00f3 t\u00eam por testemunha a pr\u00f3pria pessoa que os vive. Podemos chamar esse murm\u00fario \u2013 ilus\u00f3rio, ideal, incerto \u2013 de hist\u00f3ria pessoal.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma radiografia do seu esp\u00edrito, melhor dizendo, da constru\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria do seu esp\u00edrito, disse, e fez uma pausa; n\u00e3o acreditava nessas\u00a0baboseiras(frisou), mas gostava de pensar que sua vida interior era feita de pequenos incidentes. Assim, poderia enfim come\u00e7ar a pensar <\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":223353,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-223352","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/escritor.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/223352","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=223352"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/223352\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/223353"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=223352"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=223352"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=223352"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}