{"id":223354,"date":"2017-11-07T06:38:22","date_gmt":"2017-11-07T09:38:22","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=223354"},"modified":"2017-11-07T06:38:22","modified_gmt":"2017-11-07T09:38:22","slug":"uma-vida-com-narcolepsia-o-transtorno-sem-cura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/uma-vida-com-narcolepsia-o-transtorno-sem-cura\/","title":{"rendered":"Uma vida com narcolepsia, o transtorno sem cura"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Por que as v\u00edtimas da narcolepsia, um transtorno exaustivo, ainda esperam um rem\u00e9dio?<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<aside id=\"compartir_superior\" class=\"compartir compartir--fijo\">\n<div class=\"compartir__interior\">\n<div class=\"compartir-varios\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Henry Nicholls\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/mosaic_science\/a\/\">HENRY NICHOLLS<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><a class=\"enlace\" style=\"margin: 0px; padding: 0px; border: none; font-style: inherit; font-variant: inherit; font-weight: inherit; font-stretch: inherit; font-size: inherit; line-height: inherit; font-family: inherit; vertical-align: baseline; box-sizing: border-box; background-color: transparent; text-decoration: none; color: #016ca2; position: relative; display: block;\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/02\/ciencia\/1509617110_076739.html\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/02\/ciencia\/1509617110_076739_1509702444_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/02\/ciencia\/1509617110_076739_1509702444_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/02\/ciencia\/1509617110_076739_1509702444_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/02\/ciencia\/1509617110_076739_1509702444_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Narcolepsia\" width=\"980\" height=\"551\" \/><span class=\"boton_ampliar\">Ampliar foto<\/span><\/a><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Craig Povey, que vive com narcolepsia<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">DANIEL STIER \/ TWENTY TWENTY<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vigiava\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/leones\/a\">le\u00f5es<\/a>\u00a0em um dos meus primeiros trabalhos. H\u00e1 alguns of\u00edcios que n\u00e3o s\u00e3o adequados para algu\u00e9m com narcolepsia n\u00e3o tratada, e provavelmente este \u00e9 um deles. Tinha 22 anos e havia acabado de obter a gradua\u00e7\u00e3o em zoologia estudando os suricatos no deserto de Kalahari, na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sudafrica\/a\">\u00c1frica do Sul<\/a>. Trabalh\u00e1vamos em duplas, um de n\u00f3s a p\u00e9, caminhando com os suricatos, e outro no jipe, observando o horizonte em busca de sinais de perigo pela presen\u00e7a de le\u00f5es. Muitas vezes acordei com as marcas do volante na minha testa, compreendendo que havia perdido de vista os suricatos e o meu companheiro. Posso contar isso porque ningu\u00e9m acabou sendo devorado.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CMizmOiUrNcCFZMLkQodbaUJYg\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/ciencia\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/ciencia\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/ciencia\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem sempre foi assim. Durante meus primeiros 20 anos de vida, mantive uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel com o sono. Pouco depois de completar 21, no entanto, comecei a sofrer sintomas de narcolepsia, um transtorno raro, embora nem tanto assim, que se acredita afetar uma em cada 2.500 pessoas. Se sabemos algo sobre a narcolepsia, \u00e9 que ela provoca frequentes surtos de sonol\u00eancia incontrol\u00e1vel. Contudo, o transtorno \u00e9 muito mais incapacitante porque frequentemente \u00e9 acompanhado de cataplexia (quando uma forte emo\u00e7\u00e3o causa perda de for\u00e7a muscular e te faz cair como uma boneca de pano), sonhos alucinat\u00f3rios, paralisia do sono, alucina\u00e7\u00f5es aterrorizantes e, paradoxalmente, sono noturno fracionado. N\u00e3o h\u00e1 cura. Ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Kalahari, em 1995, eu desconhecia esses sintomas. N\u00e3o tinha ideia do quanto afetaria minha mente, meu corpo e meu esp\u00edrito uma batalha intermin\u00e1vel contra o sono (uma batalha em que a derrota era o resultado inevit\u00e1vel). Poucos m\u00e9dicos de fam\u00edlia haviam ouvido falar do transtorno, e muito menos conhecido um paciente com eles. Alguns\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/neurologia\/a\">neurologistas<\/a>\u00a0sabiam o que procurar, mas muitos, n\u00e3o. Nem mesmo os especialistas do sono sabiam explicar por que de repente este transtorno era desencadeado, com mais frequ\u00eancia a partir dos 15 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 20 anos, muita coisa mudou. Agora, h\u00e1 provas esmagadoras de que a causa mais comum da narcolepsia, de longe, \u00e9 um ataque autoimune no qual o sistema imunol\u00f3gico do corpo interpreta errado uma infec\u00e7\u00e3o das vias respirat\u00f3rias superiores e elimina, equivocadamente, os 30.000 neur\u00f4nios que se calcula situam-se no centro do c\u00e9rebro.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">A narcolepsia afeta uma em cada 2.500 pessoas e provoca surtos de sonol\u00eancia incontrol\u00e1veis<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um \u00f3rg\u00e3o com mais de 100 bilh\u00f5es de c\u00e9lulas, essa perda pode parecer pouco preocupante. Mas n\u00e3o s\u00e3o c\u00e9lulas comuns. Ficam no hipot\u00e1lamo, uma estrutura pequena, antiga do ponto de vista da evolu\u00e7\u00e3o e incrivelmente importante, que ajuda a regular muitas das opera\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas do corpo, como a passagem di\u00e1ria da vig\u00edlia ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sueno\/a\">sono<\/a>. As c\u00e9lulas em quest\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o as \u00fanicas do c\u00e9rebro que expressam as orexinas (tamb\u00e9m conhecidas como hipocretinas). Esses dois pept\u00eddeos &#8211; cadeias curtas de amino\u00e1cidos &#8211; relacionados eram completamente desconhecidos em 1995, quando me foi diagnosticada a doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da sua recente descoberta, que come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1970, \u00e9 um interessante relato de casualidade e sorte, imagina\u00e7\u00e3o e previs\u00e3o, risco e rivalidade, e inclui, para come\u00e7ar, uma col\u00f4nia de cachorros dobermans pinschers narcol\u00e9pticos. E isso poderia ser at\u00e9 mesmo a perfeita ilustra\u00e7\u00e3o de como funciona a ci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, embora haja rem\u00e9dios que podem ajudar a minimizar o pior dos sintomas da narcolepsia, nenhum deles consegue reparar o dano cerebral subjacente. \u00c9 incr\u00edvel que a falta de duas subst\u00e2ncias qu\u00edmicas provoque uma constela\u00e7\u00e3o de sintomas t\u00e3o intrigante. A resposta a meus problemas parece simples: preciso apenas reintroduzir as orexinas (ou algo similar) em meu c\u00e9rebro. Por que, ent\u00e3o, continuo esperando?<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Embora haja rem\u00e9dios que podem ajudar a minimizar o pior dos sintomas da narcolepsia, nenhum deles consegue reparar o dano cerebral subjacente<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em abril de 1972, um canil do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/canada\/a\">Canad\u00e1<\/a>teve uma ninhada de quatro cachorros. Em seguida, houve fam\u00edlias dispostas a adotar os bichinhos, mas um deles, uma f\u00eamea com pelo cinza prateado chamada Monique, desenvolveu o que seus donos descreviam como &#8220;surtos de quedas&#8221; quando tentava brincar. N\u00e3o parecia que estava dormindo; eram principalmente paralisias cerebrais; sua patas traseiras eram debilitadas, seu traseiro ca\u00eda ao ch\u00e3o e os olhos ficavam quietos e vidrados. Em outras ocasi\u00f5es, quando comia, Monique sofria um ataque agudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando os veterin\u00e1rios da Universidade de Saskatchewan observaram Monique, suspeitaram que sofria surtos de cataplexia e, em consequ\u00eancia, pensaram que poderia se tratar de um caso de narcolepsia acompanhada de cataplexia. Por pura sorte, o diagn\u00f3stico de Monique coincidiu com a chegada de uma peculiar circular de William Dement, especialista do sono da Universidade de Stanford, na Calif\u00f3rnia. Buscava cachorros catal\u00e9pticos. Os veterin\u00e1rios de Saskatchewan responderam imediatamente. Depois de convencer os donos de Monique a cederem seu animal, tudo que faltava era providenciar o transporte para a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/california\/a\">Calif\u00f3rnia<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu me reuni com Dement, que agora tem 89 anos, para perguntar o que ele lembra desses primeiros momentos. Aposentou-se h\u00e1 v\u00e1rios anos, mas continua vivendo em um bairro cheio de \u00e1rvores pr\u00f3ximo \u00e0 universidade de Stanford. Seu escrit\u00f3rio \u00e9 uma estrutura grande, como um galp\u00e3o, anexado \u00e0 casa principal e n\u00e3o muito diferente de uma cabana de exploradores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As paredes s\u00e3o forradas de madeira e cobertas por p\u00f4steres emoldurados, fotografias e m\u00faltiplas lembran\u00e7as de uma destacada trajet\u00f3ria na medicina do sono. O escrit\u00f3rio de Dement \u00e9 uma imagem do caos organizado. Em meio a tudo aquilo, h\u00e1 uma pistola de \u00e1gua. Pergunto por qu\u00ea. &#8220;\u00c9 para quando os alunos dormem na aula&#8221;, explica, em refer\u00eancia a uma aula incrivelmente popular sobre o sono e os sonhos que ele mesmo iniciou no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|foto\" class=\"sumario_foto derecha\"><a name=\"sumario_6\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/02\/ciencia\/1509617110_076739_1509702544_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/02\/ciencia\/1509617110_076739_1509702544_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/02\/ciencia\/1509617110_076739_1509702544_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Miles Bryant tamb\u00e9m sofre com este transtorno\" width=\"360\" height=\"225\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Miles Bryant tamb\u00e9m sofre com este transtorno<\/span><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">DANIEL STIER<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1973, Dement entrou em contato com a Western Airlines para descobrir se poderia transferir Monique de Saskatchewan para S\u00e3o Francisco. Havia uma r\u00edgida pol\u00edtica de &#8220;n\u00e3o admiss\u00e3o de cachorros doentes&#8221;. &#8220;N\u00e3o \u00e9 uma cadela doente. \u00c9 uma cadela com anomalia cerebral&#8221;, disse. &#8220;\u00c9 um modelo animal para uma doen\u00e7a importante&#8221;. No fim, com certa press\u00e3o pol\u00edtica, conseguiu convencer a companhia a\u00e9rea a ajud\u00e1-lo. Uma vez em S\u00e3o Francisco, Monique tornou-se rapidamente uma esp\u00e9cie de celebridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Monique tem muitas probabilidades de colapsar quando come algo que gosta especialmente, ou cheira uma nova flor no campo, ou corre&#8221;, comentava o companheiro de Dement, Merrill Mitler, \u00e0 ag\u00eancia Associated Press, para um artigo publicado em dezenas de peri\u00f3dicos americanos. &#8220;Esperamos descobrir com exatid\u00e3o em que parte do c\u00e9rebro est\u00e1 a disfun\u00e7\u00e3o que provoca a narcolepsia&#8221;, havia dito Mitler aos jornais, pouco depois da chegada de Monique a Stanford. &#8220;Pode ser o primeiro passo para o desenvolvimento de um rem\u00e9dio&#8221;.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_5\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">O fato de a narcolepsia parecer mais comum em algumas ra\u00e7as indicava que a doen\u00e7a poderia ter uma base gen\u00e9tica<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mitler, atualmente, \u00e9 perito forense em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/washington\/a\">Washington<\/a>\u00a0DC, especializado em lit\u00edgios derivados de acidentes relacionados \u00e0 fadiga. Pergunto se a hist\u00f3ria da descoberta da narcolepsia \u00e9 t\u00e3o boa quanto parece. &#8220;Em uma palavra, sim&#8221;, responde. &#8220;Na d\u00e9cada de 1970, n\u00e3o sab\u00edamos o que precis\u00e1vamos saber sobre a narcolepsia&#8221;. Simplesmente n\u00e3o havia maneira de prever o que se produziria da pesquisa com Monique e outros cachorros. Nesta fase, admite, o plano era simplesmente usar os animais para fazer autopsias e ver se havia mudan\u00e7as f\u00edsicas evidentes nos seus c\u00e9rebros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A not\u00edcia come\u00e7ou a ser difundida e rapidamente Dement e Mitler estavam cuidando de Monique e de v\u00e1rios outros cachorros narcol\u00e9pticos, entre eles um filhote de chihuahua e terrier, um griffon de aponte de pelo duro, um malamute do Alasca, v\u00e1rios labradores retriever e dobermans pinschers. O fato de a narcolepsia parecer mais comum em algumas ra\u00e7as indicava que a doen\u00e7a poderia ter uma base gen\u00e9tica. Foi produzido um grande avan\u00e7o: uma ninhada com sete cachorros dobermans, todos com narcolepsia e cataplexia. &#8220;Em 24 horas ou menos, vimos como todos eles entraram em colapso, do primeiro ao \u00faltimo da ninhada&#8221;, diz Mitler. &#8220;Est\u00e1vamos juntos, um bom grupo de Stanford, todos deitados no ch\u00e3o, assistindo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos labradores e nos dobermans, o transtorno \u00e9 heredit\u00e1rio. Dement tomou a decis\u00e3o de se concentrar nos dobermans e, no fim da d\u00e9cada de 1970, era o orgulhoso guardi\u00e3o de uma grande col\u00f4nia e havia estabelecido que a narcolepsia nesta ra\u00e7a era causada pela transmiss\u00e3o de um \u00fanico gene recessivo. Na d\u00e9cada de 1980, os m\u00e9todos de an\u00e1lise gen\u00e9tica haviam avan\u00e7ado o suficiente para buscar o gene defeituoso no caso dos dobermans.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca conseguiram reconstruir a combina\u00e7\u00e3o de fatores que conduziu \u00e0 apari\u00e7\u00e3o da minha pr\u00f3pria narcolepsia, mas o cen\u00e1rio foi estabelecido no momento da minha concep\u00e7\u00e3o, em 1972, aproximadamente na \u00e9poca em que Monique nasceu, em Saskatchewan. Meu eu unicelular herdou uma vers\u00e3o determinada de um gene (conhecido como HLA-DQB1*0602) que faz parte de um conjunto que ajuda o sistema imunol\u00f3gico a distinguir amigos de inimigos. O HLA-DQB1*0602 \u00e9 muito comum &#8211; aproximadamente um quarto dos europeus s\u00e3o portadores de uma c\u00f3pia -, mas desempenha fun\u00e7\u00f5es chave em muitos casos de narcolepsia, e est\u00e1 presente em 98% dos pacientes com narcolepsia e cataplexia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m dessa base gen\u00e9tica, a \u00e9poca do ano talvez tamb\u00e9m possa influenciar. Os narcol\u00e9pticos t\u00eam uma probabilidade leve, mas significativamente maior, de nascer em mar\u00e7o (como eu). Este denominado &#8220;efeito nascimento&#8221; \u00e9 observado em outros transtornos autoimunes e provavelmente \u00e9 explicado pela infec\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel pelas esta\u00e7\u00f5es do ano em um momento determinado do desenvolvimento. No caso da narcolepsia, parece que as pessoas que nascem em mar\u00e7o s\u00e3o um pouquinho mais vulner\u00e1veis que as outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora seja poss\u00edvel que tenham influenciado outras infec\u00e7\u00f5es da minha inf\u00e2ncia, as flutua\u00e7\u00f5es hormonais e o estresse emocional, foi no final de 1993 quando provavelmente eu me encontrei com um patog\u00eanico chave, talvez um v\u00edrus da gripe ou um estreptococos. Foi isso que me levou ao ponto de inflex\u00e3o autoimune que provocou uma r\u00e1pida desmontagem do meu sistema orexin\u00e9rgico. Em resumo, na maioria dos casos, a narcolepsia provavelmente \u00e9 resultado de uma infeliz combina\u00e7\u00e3o de acontecimentos que cria uma tormenta imunol\u00f3gica perfeita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproximadamente por aquela \u00e9poca, o projeto Doberman de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/universidad_standford\/a\">Stanford<\/a>\u00a0estava prestes a revelar a base gen\u00e9tica da narcolepsia nesta ninhada. O homem encarregado de buscar a muta\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel foi Emmanuel Mignot, que posteriormente sucedeu Dement como diretor do Centro de Ci\u00eancias e Medicina do Sono de Stanford. N\u00f3s nos reunimos em seu escrit\u00f3rio na universidade, acompanhados por Watson, um Chihuahua narcol\u00e9ptico que ele adotou h\u00e1 alguns anos. &#8220;\u00c9 uma ra\u00e7a muito tonta&#8221;, diz, baixando as orelhas de Watson para impedir que fiquem quentes, deixando-o, em seguida, no ch\u00e3o. &#8220;Eu nunca a teria escolhido&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No come\u00e7o, Watson desconfia de mim, mant\u00e9m dist\u00e2ncia e resmunga. Quando me coloco \u00e0 sua altura, late e se lan\u00e7a contra mim, e depois se afasta, fingindo ser mais feroz do que realmente \u00e9. Posso ter empatia com ele, apesar do abismo que separa sua esp\u00e9cie da minha. Sei o que \u00e9 estar sonolento demais durante o dia. Conhe\u00e7o a cataplexia, o que se sente quando as emo\u00e7\u00f5es cortam um circuito neurol\u00f3gico do tronco cerebral e causam um colapso muscular (como acontece na fase de movimento r\u00e1pido dos olhos, REM, quando a maioria do sono se produz). Eu me pergunto se Watson sofre o terror total da paralisia do sono e as alucina\u00e7\u00f5es sobrenaturais que frequentemente me acompanham.<\/p>\n<section id=\"sumario_7|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_7\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Criar dobermans narcol\u00e9pticos \u00e9 mais dif\u00edcil do que parece porque os afetados tendem a entrar em colapso durante o coito<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto me devolve o olhar, as p\u00e1lpebras se fecham e se abrem com uma tontura que reconhe\u00e7o. Ele se vira, sobre cuidadosamente em sua cesta e se enrola durante o resto da entrevista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na d\u00e9cada de 1980, a ideia de localizar o gene da narcolepsia canina era desproporcionalmente ambiciosa. Criar dobermans narcol\u00e9pticos \u00e9 mais dif\u00edcil do que parece porque os afetados tendem a entrar em colapso durante o coito, temporariamente paralisados por um estremecimento catapl\u00e9tico (a chamada &#8220;organolepsia&#8221;, que pode acontecer tamb\u00e9m em humanos). Deixando de lado esta dificuldade, existia tamb\u00e9m a tarefa de localizar um gene cuja sequ\u00eancia era desconhecida, em um genoma que era, naquela \u00e9poca, territ\u00f3rio desconhecido. &#8220;Diziam que eu estava louco&#8221;, conta Mignot. Em certo sentido, tinham raz\u00e3o, porque ele levou mais de uma d\u00e9cada, centenas de cachorros e mais de 1 milh\u00e3o de reais. E esteve a ponto de n\u00e3o ser o primeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em janeiro de 1998, depois de mais de uma d\u00e9cada de mapeamento minucioso, e quando a equipe de Mignot estava se aproximando do gene, um jovem neurocientista chamado Luis de Lecea, trabalhador do Instituto de Investiga\u00e7\u00e3o Scripps de San Diego, e seus companheiros publicaram um artigo em que descreviam dois novos pept\u00eddeos cerebrais. Chamaram-nos de &#8220;hipocretinas&#8221;: elis\u00e3o do hipot\u00e1lamo (o lugar onde foram encontrados) e secretina (horm\u00f4nio intestinal de estrutura similar). Pareciam ser mensageiros qu\u00edmicos que atuavam exclusivamente dentro do c\u00e9rebro.<\/p>\n<section id=\"sumario_8|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_8\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote><p>As hipcocretinas s\u00e3o neurotransmissores importantes para modular o sono e abre o caminho a novos enfoques terap\u00eauticos para os pacientes narcol\u00e9pticos<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucas semanas depois, Masashi Yanagisawa e sua equipe da Universidade do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/texas\/a\">Texas<\/a>\u00a0descreveram, separadamente, exatamente os mesmos dois pept\u00eddeos, embora os tenham chamado de &#8220;orexinas&#8221; e acrescentaram a estrutura dos seus receptores. Consideravam que a intera\u00e7\u00e3o dessas prote\u00ednas com seus receptores poderia estar relacionada com a regula\u00e7\u00e3o da conduta alimentar. &#8220;Nem mesmo pensamos no sono&#8221;, admite Yanagisawa, agora diretor do Instituto Internacional de Medicina Integral do Sono na Universidade de Tsukuba, no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Stanford, Mignot ouviu falar dos dois artigos, mas n\u00e3o havia raz\u00e3o alguma para imaginar que essa nova trajet\u00f3ria tivesse algo a ver com a narcolepsia ou com o sono. No entanto, na primavera de 1999, ele e sua equipe haviam descoberto dois genes nos quais a muta\u00e7\u00e3o recessiva poderia ser localizada. Um se expressava no prep\u00facio. &#8220;N\u00e3o parecia um candidato para a narcolepsia&#8221;, afirma Mignot. Logo, a apostava estava no outro gene, que codificava um dos receptores de orexina. Quando chegaram not\u00edcias de que Yanagisawa havia projetado camundongos desprovidos de orexinas que dormiam de forma caracter\u00edstica da narcolepsia, come\u00e7ou a corrida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao fim de poucas semanas, Mignot e sua equipe haviam enviado \u00e0 revista Cell um artigo que revelava um defeito no gene que codifica um dos receptores de orexinas. &#8220;Este resultado determina que as hipcocretinas [orexinas] s\u00e3o neurotransmissores importantes para modular o sono e abre o caminho a novos enfoques terap\u00eauticos para os pacientes narcol\u00e9pticos&#8221;, escreviam. Kahlua &#8211; um dos cachorros da ninhada de dobermans, todos com nomes de bebidas alco\u00f3licas &#8211; aparecia esparramado na capa da edi\u00e7\u00e3o. Yanagisawa e seus colaboradores acrescentaram suas provas experimentais \u00e0 mistura apenas duas semanas depois, tamb\u00e9m na Cell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em circunst\u00e2ncias normais, um mensageiro qu\u00edmico e seu receptor funcionam como uma chave e uma fechadura. Uma chave (o mensageiro) encaixa em uma fechadura (seu receptor) para abrir uma porta (causar uma mudan\u00e7a dentro da c\u00e9lula desejada). No caso dos dobermans de Mignot, uma muta\u00e7\u00e3o maci\u00e7a havia destru\u00eddo o receptor de orexina, tornando-o in\u00fatil.<\/p>\n<section id=\"sumario_9|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_9\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">As orexinas atuam de maneira mais parecida com os horm\u00f4nios, trabalhando em lugares mais distantes do c\u00e9rebro<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se forem as fechaduras que n\u00e3o funcionam, como neste caso, ou as chaves, como nos camundongos de Yanagisawa, o resultado \u00e9 o mesmo. A porta n\u00e3o se abre. O sistema orexin\u00e9rgico \u00e9 rompido. Na narcolepsia humana, h\u00e1 muitas formas de romper o sistema orexin\u00e9rgico. Algumas vezes, um tumor cerebral ou traumatismo craniano bastam para provocar o dano. Na maioria dos casos, no entanto, a narcolepsia \u00e9 causada pela s\u00e9rie de infelizes acontecimentos que j\u00e1 descrevemos em linhas gerais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os neur\u00f4nios orexin\u00e9rgicos s\u00e3o coisas s\u00e9rias, e n\u00e3o apenas para quem, como eu, j\u00e1 os perdeu. Presentes nas classes principais dos vertebrados, precisam fazer algo realmente importante. Quando De Lecea descreveu pela primeira vez as orexinas, em 1998, tinha aproximadamente 25 anos e havia acabado de se transferir de Barcelona a San Diego. Em 2006, mudou-se de l\u00e1 para Stanford para estar mais pr\u00f3ximo da a\u00e7\u00e3o do campo do sono. &#8220;Sinceramente, acreditava que, a esta altura, entender\u00edamos o tema muito melhor do que entendemos&#8221;, admite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas descobrimos muitas coisas, especialmente gra\u00e7as \u00e0 optogen\u00e9tica, uma t\u00e9cnica que De Lecea ajudou a criar. Colocando um v\u00edrus, um promotor e um gene encontrado em algas azul-esverdeadas, \u00e9 poss\u00edvel fazer com que uma determinada popula\u00e7\u00e3o de neur\u00f4nios seja sens\u00edvel \u00e0 luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ilustrar essa maravilha, De Lecea me mostra um v\u00eddeo em seu laptop. Em uma jaula, h\u00e1 um camundongo projetado para que seus neur\u00f4nios orexin\u00e9rgicos sejam ativados em resposta \u00e0 luz. Tem instalado um fino cabo de fibra \u00f3ptica em seu c\u00e9rebro. &#8220;O rato est\u00e1 dormindo&#8221;, explica; as ondas de atividade el\u00e9trica caracter\u00edsticas do sono profundo movimentam-se em um v\u00eddeo na parte superior da tela. O cabo \u00f3ptico ganha for\u00e7a, um pulso de luz azulada pisca exatamente durante dez segundos. Os neur\u00f4nios orexin\u00e9rgicos sens\u00edveis \u00e0 luz liberam seus neuropepit\u00eddeos e, de repente, o rato acorda. Quando a luz se apaga, dorme com a mesma rapidez com que despertou.<\/p>\n<section id=\"sumario_11|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_11\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/02\/ciencia\/1509617110_076739_1509702656_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/02\/ciencia\/1509617110_076739_1509702656_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2017\/11\/02\/ciencia\/1509617110_076739_1509702656_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Lucy Tonge, durante um de seus surtos\" width=\"360\" height=\"225\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Lucy Tonge, durante um de seus surtos<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">DANIEL STIER<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucas ilustra\u00e7\u00f5es do poder das orexinas podem ser mais assombrosas do que esta. De maneira completamente inesperada, sinto meus olhos enchendo-se de l\u00e1grimas e, durante uma fra\u00e7\u00e3o de segundo, quase invejo o camundongo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mediante t\u00e9cnicas de optogen\u00e9tica e de outros tipos, De Lecea conseguiu demonstrar que as orexinas t\u00eam um efeito potente em muitas redes neurol\u00f3gicas importantes. Em alguns ambientes, atuam como neurotransmissores, cruzando lacunas em neur\u00f4nios para ativar os neur\u00f4nios escolhidos, que liberam uma subst\u00e2ncia chamada norepinefrina por todo o c\u00f3rtex cerebral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outras situa\u00e7\u00f5es, as orexinas atuam de maneira mais parecida com os horm\u00f4nios, trabalhando em lugares mais distantes do c\u00e9rebro. Assim \u00e9 como influenciam outras subst\u00e2ncias qu\u00edmicas cerebrais, como a dopamina (essencial para a elabora\u00e7\u00e3o da recompensa, o planejamento e a motiva\u00e7\u00e3o), a serotonina (fortemente relacionada com o estado de \u00e2nimo e envolvida na depress\u00e3o) e a histamina (um importante sinal de alerta).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na maioria das redes neurais, h\u00e1 v\u00e1rias camadas de seguran\u00e7a paralelas&#8221;, explica De Lecea, de modo que, se algo n\u00e3o funciona adequadamente, outros sistemas podem solucionar o problema. No caso das orexinas, no entanto, parece que h\u00e1 pouco ou nenhum apoio. Por isso, a manipula\u00e7\u00e3o desse sistema produz o tipo de resposta n\u00edtida com a qual os cientistas podem trabalhar. &#8220;\u00c9 um modelo magn\u00edfico para entender as redes neurais, em termos mais gerais&#8221;, diz.<\/p>\n<section id=\"sumario_10|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_10\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">A perda de apenas algumas dezenas de milhares de c\u00e9lulas pode causar um transtorno incapacitante e multissintom\u00e1tico como a narcolepsia<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que sabemos das orexinas permite explicar tamb\u00e9m por que a perda de apenas algumas dezenas de milhares de c\u00e9lulas pode causar um transtorno incapacitante e multissintom\u00e1tico como a narcolepsia, que influencia na vig\u00edlia e no sono, na temperatura corporal, no metabolismo, na alimenta\u00e7\u00e3o, na motiva\u00e7\u00e3o e no humor. Essas prote\u00ednas nos oferecem um conhecimento privilegiado de como o c\u00e9rebro faz o que faz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso faz com que a hist\u00f3ria da orexina soe como a t\u00edpica hist\u00f3ria da descoberta cient\u00edfica, como a da h\u00e9lice dupla, a ilustra\u00e7\u00e3o perfeita de como funciona a ci\u00eancia. H\u00e1 um enigma subjacente (a narcolepsia), um relato original (Monique), a previs\u00e3o (Dement), ambi\u00e7\u00e3o (Mignot), avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos (gen\u00e9tica), um animal fotog\u00eanico (os dobermans), uma corrida (com Yanisawa), parece ci\u00eancia (optogen\u00e9tica) e um prop\u00f3sito ainda maior (o sono e o c\u00e9rebro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o elementos como esses que podem transformar os acontecimentos cient\u00edficos cotidianos em um atraente relato cultural, afirma Stephen Casper, historiador da neurologia na Universidade de Clarkson, em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/nueva_york\/a\">Nova York<\/a>. &#8220;Tem todos os ingredientes de algo que, na minha opini\u00e3o, os fisiologistas e neurologistas da primeira parte do s\u00e9culo XX buscavam e esperavam encontrar, algo que reunisse heran\u00e7a, bioqu\u00edmica, biof\u00edsica, neurologia e psicologia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 um padr\u00e3o em pesquisa biom\u00e9dica de transtornos raros que abrem promissoras vias de investiga\u00e7\u00e3o que nunca acabam ajudando os pr\u00f3prios pacientes, acrescenta Casper. H\u00e1 algo faltando ao relato da narcolepsia, afirma: &#8220;Uma boa hist\u00f3ria deveria ter um claro final feliz&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguimos esperando esse final feliz. Mesmo que eu tenha em m\u00e3os um frasco de orexina-A ou de orexina-B, como vou introduzi-las no meu c\u00e9rebro? Se forem ingeridas, as enzimas intestinais as destruiriam, quebrando os amino\u00e1cidos como contas de um colar. Injetadas via m\u00fasculo ou veias, parte suficiente delas n\u00e3o penetraria a barreira hematoencef\u00e1lica. Foram realizados experimentos de administra\u00e7\u00e3o nasal, com a ideia de que inalar as orexinas poderia ser uma forma de introduzi-las no hipot\u00e1lamo por meio do nervo olfativo, mas houve pouco investimento nesse m\u00e9todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o significa que a ind\u00fastria farmac\u00eautica tenha ignorado as descobertas da via orexin\u00e9rgica. N\u00e3o mesmo. Apenas 15 anos depois de Mignot e seus colaboradores publicarem na Cell o artigo que relacionava a orexina \u00e0 narcolepsia, Merck recebeu a aprova\u00e7\u00e3o da FDA, o organismo americano que regula alimentos e rem\u00e9dios, para o suvorexant (ou Belsomra, seu nome comercial), uma pequena mol\u00e9cula capaz de atravessar a barreira hematoencef\u00e1lica e bloquear os receptores de orexina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um rem\u00e9dio que provoca sonol\u00eancia n\u00e3o era a aplica\u00e7\u00e3o que a maior parte dos afetados pela narcolepsia esperavam. Ao impedir que as orexinas se unam aos seus receptores, o Belsomra cria um caso de narcolepsia aguda, mas no qual a neblina, idealmente, come\u00e7aria a ser levantada pela manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os son\u00edferos empregados habitualmente para tratar a ins\u00f4nia funcionam, em geral, deprimindo todo o sistema nervoso central, explica Paul Coleman, qu\u00edmico farmac\u00eautico que trabalha nos laborat\u00f3rios da Merck, em West Point, Filad\u00e9lfia, e que foi um dos principais criadores do Belsomra. &#8220;O interessante do Belsomra \u00e9 que \u00e9 muito seletivo no bloqueio da vig\u00edlia, de modo que n\u00e3o afeta os sistemas que controlam o equil\u00edbrio, a mem\u00f3ria e o sistema cognitivo&#8221;, afirma.<\/p>\n<section id=\"sumario_13|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_13\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Os son\u00edferos empregados habitualmente para tratar a ins\u00f4nia funcionam, em geral, deprimindo todo o sistema nervoso central<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo de sua vida profissional, Coleman desenvolveu rem\u00e9dios para tratar diferentes infec\u00e7\u00f5es, doen\u00e7as e transtornos, mas o sistema da orexina \u00e9 o mais destacado. &#8220;A narcolepsia nos deu um fio do qual podemos tirar muito conhecimento sobre aspectos dos sistemas que regem a vig\u00edlia e o sono&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A vig\u00edlia \u00e9 um processo fundamental para todos, seja para uma pessoa saud\u00e1vel, seja para um paciente que padece de narcolepsia ou ins\u00f4nia. \u00c9 o mais interessante com que j\u00e1 tive a oportunidade de trabalhar&#8221;. As aplica\u00e7\u00f5es do Belsomra podem ser ainda mais amplas, e ajudar trabalhadores noturnos a dormirem de dia, melhorar o sono dos pacientes com Alzheimer, ajudar a quem sofre de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico, combater a depend\u00eancia de drogas e aliviar o transtorno de p\u00e2nico em seres humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fico encantado por esses avan\u00e7os, mas as milh\u00f5es de pessoas que sofrem com narcolepsia continuam esperando um rem\u00e9dio que possa funcionar no c\u00e9rebro e ativar o sistema orexin\u00e9rgico, em vez de silenci\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u00e9 um dos projetos que h\u00e1 tempos est\u00e1 nas m\u00e3os de Masahi Yanagisawa, que h\u00e1 20 anos participou da corrida para relacionar as orexinas \u00e0 narcolepsia. Mas projetar e sintetizar um composto que atravesse intacto o intestino, que tenha o necess\u00e1rio para passar do sangue ao c\u00e9rebro, e que alcance a configura\u00e7\u00e3o perfeita para ativar um ou os dois receptores de orexina \u00e9 um &#8220;desafio, muito, muito grande&#8221;, afirma, &#8220;significativamente&#8221; maior do que encontrar um composto que interfira com o receptor, como faz o Belsomra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No come\u00e7o do ano, Yanagisawa e seus colaboradores publicaram dados sobre o composto desse tipo mais potente at\u00e9 ent\u00e3o, uma pequena mol\u00e9cula chamada YNT-185. As inje\u00e7\u00f5es dessa mol\u00e9cula em ratos narcol\u00e9pticos melhoram significativamente sua vig\u00edlia e sua cataplexia, e reduzem a abund\u00e2ncia de fases REM, as fases em que mais se sonha (uma das caracter\u00edsticas da narcolepsia). Isso, afirma Yanagisawa, \u00e9 uma &#8220;demonstra\u00e7\u00e3o de conceito&#8221;. Embora a afinidade da YNT-185 (a for\u00e7a com a qual se liga ao receptor de orexina) n\u00e3o seja suficiente para obter permiss\u00e3o para testes cl\u00ednicos, a equipe de Yanagisawa encontrou outros poss\u00edveis candidatos. &#8220;O melhor \u00e9 quase 1.000 vezes mais potente que a YNT-185&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora os sintomas da narcolepsia possam variar enormemente de uma pessoa para a outra, a patologia subjacente &#8211; aus\u00eancia de orexinas &#8211; \u00e9 a mesma. &#8220;Se este composto funcionar, servir\u00e1 para todos os pacientes&#8221;, afirma. &#8220;Nesse sentido, \u00e9 um ensaio cl\u00ednico relativamente simples em compara\u00e7\u00e3o com muitos outros transtornos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um caminho ainda mais futurista \u00e9 o das c\u00e9lulas-tronco. Sergiu Pa\u015fca tem seu escrit\u00f3rio ao lado do de Emmanuel Mignot em Stanford e, em 2015, ele e seus colaboradores desenvolveram uma maneira de tornar c\u00e9lulas-tronco pluripotentes induzidas (obtidas de c\u00e9lulas epiteliais) e lhes dar uma nova vida em forma de c\u00e9lulas cerebrais. &#8220;Esse sistema pode ser utilizado para derivar v\u00e1rias regi\u00f5es cerebrais e, como em um Lego, reuni-las para que formem circuitos em uma placa&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, seu laborat\u00f3rio desenvolveu m\u00e9todos para fazer algo parecido em pessoas com narcolepsia, come\u00e7ando com uma c\u00e9lula cut\u00e2nea e acabando com um neur\u00f4nio orexin\u00e9rgico completamente funcional. Em teoria, deveria ser poss\u00edvel transplant\u00e1-lo para o c\u00e9rebro de pessoas narcol\u00e9pticas e restaurar parte da fun\u00e7\u00e3o. Isso, no entanto, \u00e9 algo que deve ser levado a s\u00e9rio. Para come\u00e7ar, n\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que as c\u00e9lulas em si sejam exatamente iguais \u00e0s c\u00e9lulas orexin\u00e9rgicas, inserir uma agulha no c\u00e9rebro n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio livre de riscos, e sempre h\u00e1 a possibilidade de que o sistema imunol\u00f3gico efetue outro ataque \u00e0s c\u00e9lulas transplantadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algum dia o conto das orexinas ter\u00e1 um final feliz? A transi\u00e7\u00e3o da pesquisa b\u00e1sica para a pr\u00e1tica cl\u00ednica \u00e9 notavelmente dif\u00edcil e cara, afirma Casper. (O custo do melhor tratamento atual contra a narcolepsia &#8211; oxibato de s\u00f3dio ou Xyrem &#8211; \u00e9 t\u00e3o grande que nem sempre est\u00e1 dispon\u00edvel para adultos na Inglaterra, apesar de poder transformar a vida de muitas pessoas).<\/p>\n<section id=\"sumario_14|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_14\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">O custo do melhor tratamento atual contra a narcolepsia \u00e9 t\u00e3o grande que nem sempre est\u00e1 dispon\u00edvel para adultos na Inglaterra<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o ampla de que a narcolepsia \u00e9 um transtorno raro, com um mercado pequeno, de modo que seria improv\u00e1vel que a pesquisa e o desenvolvimento farmac\u00eautico neste campo consigam uma significativa rentabilidade. Este argumento n\u00e3o leva em conta a probabilidade de que a narcolepsia n\u00e3o esteja diagnosticada em muitas pessoas e que algu\u00e9m que desenvolva narcolepsia na adolesc\u00eancia e viva at\u00e9 superar os 80 anos necessitar\u00e1 de 25.000 doses ao longo da sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja mais convincente o fato de que a fun\u00e7\u00e3o organizadora que as orexinas desempenham no c\u00e9rebro d\u00e1 a entender que o mercado deste rem\u00e9dio pode ir muito al\u00e9m da narcolepsia. Alto que ativasse as orexinas seria \u00fatil para qualquer condi\u00e7\u00e3o em que sonol\u00eancia excessiva durante o dia seja um problema, para n\u00e3o mencionar as m\u00faltiplas situa\u00e7\u00f5es para as quais talvez influenciem os baixos n\u00edveis desses mensageiros, como a obesidade, a depress\u00e3o, o transtorno do estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico e a dem\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, acredito, outra raz\u00e3o para que esta hist\u00f3ria ainda n\u00e3o tenha chegado ao fim. Durante muito tempo, o sono foi subvalorizado e considerado como uma inc\u00f4moda distra\u00e7\u00e3o da vig\u00edlia. Com esse ponto de vista, a pesquisa na neuroci\u00eancia do sono n\u00e3o parece ser muito priorit\u00e1ria. Nada mais distante da verdade. Agora, temos provas abundantes de que dormir mal pode ter consequ\u00eancias devastadores para a sa\u00fade f\u00edsica, mental e psicol\u00f3gica. O sono n\u00e3o \u00e9 algo secund\u00e1rio. \u00c9 fundamental, uma grave quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica. Investir na pesquisa do sono n\u00e3o afeta apenas alguns pacientes com transtornos demonstr\u00e1veis. Afeta todos.<\/p>\n<p class=\"nota_pie\" style=\"text-align: justify;\">Henry Nicholls estudou zoologia em Cambridge e passou um ano vivendo com suricatos em Kalahari, antes de reunir uma das maiores cole\u00e7\u00f5es de ejaculados de aves para sua tese de doutorado. Depois, decidiu que era momento de mudar sua trajet\u00f3ria profissional, e em 2003, tornou-se jornalista cient\u00edfico, especializando-se em evolu\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria da ci\u00eancia. Escreveu quatro livros: &#8216;Lonesome George&#8217;, &#8216;The Way of the Panda&#8217;, &#8216;The Galapagos&#8217; e &#8216;Sleepyhead&#8217;. Vive em Londres com sua mulher e seus dois filhos.<\/p>\n<p class=\"nota_pie\" style=\"text-align: justify;\">A Profile Books publicar\u00e1, em mar\u00e7o de 2018, um livro de Henry chamado &#8216;Sleepyhead&#8217;: Neuroscience, Narcolepsy and the search for a good night&#8217; [Cabe\u00e7a sonolenta: a neuroci\u00eancia, a narcolepsia e a busca por uma boa noite].<\/p>\n<p class=\"nota_pie\" style=\"text-align: justify;\">Este artigo apareceu primeiro no Mosaic e \u00e9 publicado aqui gra\u00e7as a uma licen\u00e7a Creative Commons.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que as v\u00edtimas da narcolepsia, um transtorno exaustivo, ainda esperam um rem\u00e9dio?<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":223355,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,12],"tags":[],"class_list":["post-223354","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/transtorno.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/223354","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=223354"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/223354\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/223355"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=223354"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=223354"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=223354"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}