{"id":22376,"date":"2013-10-11T17:00:05","date_gmt":"2013-10-11T20:00:05","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=22376"},"modified":"2013-10-10T19:10:22","modified_gmt":"2013-10-10T22:10:22","slug":"de-palhaco-medico-combate-o-crack","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/de-palhaco-medico-combate-o-crack\/","title":{"rendered":"De palha\u00e7o, m\u00e9dico combate o crack"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22377\" alt=\"FlavioFalcone_FelipeRauEstadao\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/FlavioFalcone_FelipeRauEstadao.jpg\" width=\"292\" height=\"280\" \/><\/p>\n<p>O sol come\u00e7ava a sair de tr\u00e1s das nuvens, por volta das 10h de anteontem, quando o psiquiatra Flavio Falcone, de 33 anos, formado pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), abriu a porta do banheiro da Unidade De Bra\u00e7os Abertos, na Rua Helvetia, no cora\u00e7\u00e3o da Cracol\u00e2ndia, centro de S\u00e3o Paulo. Com um nariz de bola vermelha e o rosto maquiado, usando uma cartola branca, terno de tecido grosso e uma gravata feita com gaze, ele j\u00e1 havia incorporado o palha\u00e7o Fanfarrone.<\/p>\n<p>Pela d\u00e9cima vez nos \u00faltimos dois meses, Falcone repetia o ritual das \u00faltimas sextas-feiras. Fantasiado, aborda os usu\u00e1rios de crack nas ruas lotadas da Cracol\u00e2ndia para ganhar a confian\u00e7a deles e convenc\u00ea-los a iniciar um tratamento que possa livr\u00e1-los de uma das drogas mais consumidas no Pa\u00eds. Um em cada tr\u00eas (35%) consumidores de drogas il\u00edcitas nas capitais do Pa\u00eds usa crack, conforme pesquisa in\u00e9dita da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, divulgada na quinta-feira.<\/p>\n<p>As vestimentas do m\u00e9dico s\u00e3o inspiradas em Z\u00e9 Pelintra, entidade da umbanda que, segundo uma vers\u00e3o sobre sua morte, bebia demais e foi atropelado depois de adormecer na linha de trem. &#8220;O palha\u00e7o ajuda a estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o horizontal, de igual para igual, com o povo daqui. De m\u00e9dico, imediatamente se cria uma hierarquia que eu prefiro desconstruir&#8221;, diz. Depois dos primeiros passeios, um pandeiro tamb\u00e9m passou a fazer parte dos acess\u00f3rios da peregrina\u00e7\u00e3o. Quando os usu\u00e1rios viam o palha\u00e7o, muitos o rodeavam e come\u00e7avam a cantar com ele.<\/p>\n<p>Logo nos primeiros passos, Fanfarrone \u00e9 abordado por uma mulher de cerca de 30 anos, magra, cabelos castanhos, envelhecida pela droga, que vem conversar sobre astrologia. Ela pergunta o signo do palha\u00e7o, que responde ser de escorpi\u00e3o. A mo\u00e7a conta a hist\u00f3ria do marido do mesmo signo, que consome crack com ela. &#8220;Eu fumo para ficar na brisa, para ouvir m\u00fasica, para fazer amor. Ele fuma e fica violento, fala bobagens, me bate. Quando escorpi\u00e3o d\u00e1 para ser ruim, sai de baixo&#8221;, diz a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma lideran\u00e7a da cena local come\u00e7a a acompanhar Fanfarrone, depois de comunicada de que haveria fotos e que o rep\u00f3rter iria junto. Pardal, de 50 anos, foi com um chap\u00e9u verde-amarelo, segurando um acess\u00f3rio de penas coloridas. Usa \u00f3culos sem lentes para &#8220;passar uma imagem de respeito&#8221;, que ele tira durante os bate-bocas com outros frequentadores.<\/p>\n<p>Pardal estava agitado na manh\u00e3 de sexta, sob o efeito da pedra. Contou que a Escola de Samba Tom Maior havia sido criada em sua casa, na zona sul, e depois se emocionou ao falar do filho que foi preso aos 15 anos e s\u00f3 agora havia sa\u00eddo da pris\u00e3o. Assumiu com o palha\u00e7o o compromisso de participar de um grupo de m\u00fasica para o bairro, projeto ainda a ser apresentado ao poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>Fanfarrone segue pela Helvetia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Rua Dino Bueno, onde fica &#8220;o fluxo&#8221;, termo usado para definir o movimento de venda e consumo intenso da pedra. Ganha um boneco de pel\u00facia de presente de uma mo\u00e7a, que pede que ele guarde o bichinho com cuidado. Metros adiante, Fanfarrone perde o boneco, levado de seu bolso por um homem.<\/p>\n<p>A rua est\u00e1 agitada \u00e0s 10h30. Barraquinhas de roupas velhas ficam na cal\u00e7ada, num com\u00e9rcio de objetos sem valor para fazer dinheiro para manter o consumo da pedra. Em outro, s\u00e3o vendidos carrinhos de pl\u00e1stico quebrados e muitos restos de equipamentos eletr\u00f4nicos. Um jovem branco, de cabelos claros e compridos, tenta vender uma bela jaqueta preta, no meio do fluxo, para obter recursos e comprar mais pedra.<\/p>\n<p>Fanfarrone segue decidido, passando em meio \u00e0 multid\u00e3o efervescente. Para a reportagem, ele diz que a escolha do palha\u00e7o n\u00e3o foi gratuita. &#8220;O palha\u00e7o, na verdade, deu sentido para minha vida. Aqui, eu tamb\u00e9m busco a minha cura&#8221;, conta. Criado em Piracicaba, no interior de S\u00e3o Paulo, ele sempre foi uma crian\u00e7a t\u00edmida. Seus pais eram donos de uma escola de bal\u00e9. Desde os 4 anos, ele assistia, discretamente, a quase todas as aulas. Depois, repetia as coreografias escondido.<\/p>\n<p>Sonho. Aos 14 anos, sonhou que estava tratando de dependentes qu\u00edmicos. Foi quando decidiu ser psiquiatra. Sempre teve facilidade com os estudos e ingressou na USP. Junto com a Medicina, passou a fazer aulas de palha\u00e7o e conseguiu se livrar da depress\u00e3o que o perseguia. &#8220;O palha\u00e7o lida com as sombras. Ele revela o lado rid\u00edculo de situa\u00e7\u00f5es que, \u00e0s vezes, levamos muito a s\u00e9rio. Eu sempre fui uma pessoa t\u00edmida. Passei a rir de mim mesmo, o que foi mais eficiente do que qualquer terapia. Parece que, hoje, renasci e vivo em outra encarna\u00e7\u00e3o&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A sombra dos frequentadores da Cracol\u00e2ndia, para o palha\u00e7o, \u00e9 o potencial muitas vezes desperdi\u00e7ado daquelas pessoas. Fanfarrone continua andando no meio da confus\u00e3o, com gente de olhos arregalados por todos os lados, cachimbos de a\u00e7o sendo acesos, discuss\u00f5es e dedos em riste, quando, de repente, um cego de roupa social aparece, tentando passar no meio do fluxo com a ajuda da bengala. Tudo pode parecer muito triste, mas Fanfarrone acredita no poder terap\u00eautico de transformar em riso a mis\u00e9ria humana.<\/p>\n<p>Nos primeiros dois meses de atividade, ele calcula ter conseguido &#8220;construir v\u00ednculos&#8221; com 30 pessoas. Um deles era HIV positivo. Depois de saber que tinha a doen\u00e7a, decidiu &#8220;morrer na Cracol\u00e2ndia&#8221;. Fanfarrone disse que hoje pessoas com aids podem sobreviver por anos, desde que medicadas. Ao saber disso, o jovem come\u00e7ou a se tratar. Mas permanece na Cracol\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Fanfarrone evita arriscar um palpite sobre quanto tempo a regi\u00e3o ainda vai conviver com a cidade. Mas arrisca uma defini\u00e7\u00e3o sobre o local: &#8220;a Cracol\u00e2ndia \u00e9 a sombra da cidade de S\u00e3o Paulo&#8221;. (Estad\u00e3o)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sol come\u00e7ava a sair de tr\u00e1s das nuvens, por volta das 10h de anteontem, quando o psiquiatra Flavio Falcone, de 33 anos, formado pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), abriu a porta do banheiro da Unidade De Bra\u00e7os Abertos, na Rua Helvetia, no cora\u00e7\u00e3o da Cracol\u00e2ndia, centro de S\u00e3o Paulo. 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