{"id":224419,"date":"2017-11-16T09:46:40","date_gmt":"2017-11-16T12:46:40","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=224419"},"modified":"2017-11-16T10:44:15","modified_gmt":"2017-11-16T13:44:15","slug":"documentario-capitalismo-uma-historia-de-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/documentario-capitalismo-uma-historia-de-amor\/","title":{"rendered":"Document\u00e1rio: Capitalismo, uma hist\u00f3ria de amor"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"post-title entry-title\" style=\"text-align: justify;\"><\/h3>\n<div class=\"post-header\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div id=\"post-body-1028981731432728106\" class=\"post-body entry-content\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"separator\"><a href=\"https:\/\/4.bp.blogspot.com\/-j1Yqx5m3Tv0\/WgywXshZ8cI\/AAAAAAAADlo\/BGcMc1EmfWUbPB7rf2kzMUDgPxx35VUBgCLcBGAs\/s1600\/michael_moore05_capitalismo.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/4.bp.blogspot.com\/-j1Yqx5m3Tv0\/WgywXshZ8cI\/AAAAAAAADlo\/BGcMc1EmfWUbPB7rf2kzMUDgPxx35VUBgCLcBGAs\/s1600\/michael_moore05_capitalismo.jpg\" border=\"0\" data-original-height=\"299\" data-original-width=\"202\" \/><\/a><\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Capitalismo: uma hist\u00f3ria de amor<\/i>\u00a0(2009), document\u00e1rio dirigido por Michael Moore, procura tensionar os limites \u00e9ticos e sociais do sistema que forja a no\u00e7\u00e3o de universalidade humana e contrap\u00f5e muros e cercas farpadas para que os condenados da terra n\u00e3o possam se apropriar da riqueza socialmente produzida.<\/div>\n<div><b>Fl\u00e1vio Ricardo Vassoler, via\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=22318&amp;utm_source=emailmanager&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=Boletim_Carta_Maior__06072013\">Carta Maior<\/a><\/b><\/div>\n<div>Que podemos dizer sobre o sistema de (re)produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social mais contradit\u00f3rio com o qual a humanidade j\u00e1 se deparou? Um pensador do s\u00e9culo 19, aos 18 anos, procurou avaliar os movimentos revolucion\u00e1rios do capitalismo:<\/div>\n<blockquote>\n<div>\u201cA burguesia, em seu reinado de apenas um s\u00e9culo, gerou um poder de produ\u00e7\u00e3o mais massivo e colossal do que todas as gera\u00e7\u00f5es anteriores reunidas. Submiss\u00e3o das for\u00e7as da natureza ao homem, maquin\u00e1rio, aplica\u00e7\u00e3o da qu\u00edmica \u00e0 agricultura e \u00e0 ind\u00fastria, navega\u00e7\u00e3o a vapor, ferrovias, telegrafia el\u00e9trica, esvaziamento de continentes inteiros para o cultivo, canaliza\u00e7\u00e3o de rios, popula\u00e7\u00f5es inteiras expulsas de seu habitat \u2013 que s\u00e9culo, antes, p\u00f4de sequer sonhar que esse poder produtivo dormia no seio do trabalho social?\u201d<\/div>\n<\/blockquote>\n<div>O autor do trecho acima, empolgado com o potencial de expans\u00e3o humana fomentado pelo capitalismo, ficou conhecido como um dos maiores inimigos do capital. Estamos diante de um trecho do\u00a0<i>Manifesto Comunista<\/i>, de Karl Marx (e Friedrich Engels). Ora, o jovem Marx estava diante da ascens\u00e3o primordial daquilo que hoje se convencionou chamar de humanidade. Contraditoriamente, foi a expans\u00e3o explorat\u00f3ria do capitalismo que fez com que o mundo se interligasse. Particularismos foram sendo rompidos \u2013 e padronizados em fun\u00e7\u00e3o do chicote do dominador. As grandes navega\u00e7\u00f5es chacinaram africanos e ind\u00edgenas, ao mesmo tempo em que possibilitaram o contato com o outro al\u00e9m-mar. J\u00falio Verne se tornou extempor\u00e2neo quando a sua volta ao mundo em 80 dias passou a ser feita em algumas horas. O computador que utilizo para escrever este texto \u00e9 a resultante de trabalhos espraiados por regi\u00f5es do mundo que o general\u00edssimo J\u00falio C\u00e9sar sequer podia imaginar.<\/div>\n<blockquote>\n<div>\u201cAmar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo.\u201d (Marcos, 12, 31)<\/div>\n<\/blockquote>\n<div>O capitalismo remove o serm\u00e3o de Cristo da montanha e, ao menos como pot\u00eancia, irradia a irmandade para a estepe do mundo. O pr\u00f3ximo j\u00e1 n\u00e3o precisa estar ao alcance do olhar. Afinal, leitores do outro lado do Atl\u00e2ntico n\u00e3o se deparam com este texto escrito em S\u00e3o Paulo?<\/div>\n<div>Mas o capitalismo, como os barbudos alem\u00e3es bem entreviram, traz em seu bojo uma s\u00e9rie de contradi\u00e7\u00f5es.\u00a0<i>Capitalismo: uma hist\u00f3ria de amor<\/i>\u00a0(2009), document\u00e1rio dirigido por Michael Moore, procura tensionar os limites \u00e9ticos e sociais do sistema que forja a no\u00e7\u00e3o de universalidade humana e contrap\u00f5e muros e cercas farpadas para que os condenados da terra n\u00e3o possam se apropriar da riqueza socialmente produzida.<\/div>\n<blockquote>\n<div>\u201cO p\u00e3o nosso de cada dia nos dai hoje.\u201d (Mateus, 6, 11)<\/div>\n<\/blockquote>\n<div>A humanidade n\u00e3o mais deveria orar pela pr\u00f3pria subsist\u00eancia. Quando n\u00e3o havia meios de desenvolvimento efetivo; quando a irracionalidade se configurava como nossa segunda natureza e projetava deuses capazes de realizar o que os homens desconheciam, a escassez de recursos clamava aos deuses e a Deus pela sobreviv\u00eancia. Se n\u00e3o conseguimos revogar tal passagem do Pai Nosso, \u00e9 porque chegamos a um grau de cinismo t\u00e3o refinado que a fome, o desemprego e o desabrigo alheios j\u00e1 fazem parte da fauna urbana \u2013 sim, porque a humanidade capitalista vive sobretudo em cidades. A possibilidade n\u00e3o realizada de distribui\u00e7\u00e3o equitativa das riquezas relega a promessa iluminista de (re)constru\u00e7\u00e3o racional da realidade ao subsolo da hist\u00f3ria. Subsolo inc\u00f4modo e por vezes redivivo, mas, ainda assim \u2013 sentenciam os donos do poder \u2013, subterr\u00e2neo.<\/div>\n<div>Michael Moore arrola v\u00e1rios exemplos que demonstram a plasticidade \u00e9tica do capitalismo. Tudo o que \u00e9 sagrado \u00e9 profanado: se o rim se regenera, por que n\u00e3o trocar uma parte do \u00f3rg\u00e3o por um vale-refei\u00e7\u00e3o? A ind\u00fastria farmac\u00eautica precisa testar os novos rem\u00e9dios que, de acordo com a l\u00f3gica de maximiza\u00e7\u00e3o do capital, talvez devam prolongar a doen\u00e7a ao inv\u00e9s de cur\u00e1-la de uma vez. (A amortiza\u00e7\u00e3o da cura ao inv\u00e9s de sua erradica\u00e7\u00e3o; fundo de capitaliza\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica.) Assim, ratos humanos h\u00e1 muito desempregados acabam se oferecendo como cobaias para os medicamentos cujos efeitos colaterais ser\u00e3o testados in loco mediante um novo vale-refei\u00e7\u00e3o. Se quisermos exemplos grandiloquentes, poderemos invocar o experimento do presidente Harry Truman, que pulverizou Hiroshima e legou aos netos de Nagasaki as sombras fosforescentes de seus av\u00f3s. Os campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas, que bem poderiam render estudos de caso sobre excel\u00eancia administrativa em cursos de MBA capitalismo afora, lan\u00e7aram m\u00e3o do \u00e1pice da racionalidade instrumental para acabar com a fome. Se n\u00e3o h\u00e1 famintos, n\u00e3o h\u00e1 fome, e o c\u00e1lculo utilit\u00e1rio n\u00e3o quer saber se o beb\u00ea escorre pelo ralo junto com a \u00e1gua do banho.<\/div>\n<div>Michael Moore discorre sobre a impossibilidade de o capitalismo erradicar a desigualdade social sem acossar \u2013 e criminalizar \u2013 os miser\u00e1veis. Ent\u00e3o desponta a figura rediviva de Franklin Delano Roosevelt, o pai do New Deal, a pol\u00edtica de interven\u00e7\u00e3o estatal na economia que p\u00f4de retirar os Estados Unidos da profunda depress\u00e3o econ\u00f4mica decorrente da crise de 1929. Roosevelt assenta as bases para a vindoura social-democracia. Que os ricos paguem altos impostos \u2013 afinal, a riqueza n\u00e3o \u00e9 socialmente produzida? Que haja f\u00e9rias e descanso remunerados, que haja pens\u00f5es e aposentadorias, que o acesso \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sejam universais. Metas que apenas a Europa social-democrata conseguiu alcan\u00e7ar durante o per\u00edodo que o historiador Eric Hobsbawm denominou como \u201cidade de ouro\u201d, por conta da imin\u00eancia do espraiamento sovi\u00e9tico ap\u00f3s a Segunda Guerra. A solidariedade utilit\u00e1ria do Plano Marshall injetou dinheiro na Europa que se esgueirava entre os escombros para que a cortina de ferro n\u00e3o chegasse at\u00e9 os Pireneus. Mas, ap\u00f3s o naufr\u00e1gio da amea\u00e7a vermelha, o neoliberalismo p\u00f4de despontar como a retomada dos an\u00e9is que o grande capital outrora aceitara alugar para que seus dedos n\u00e3o fossem decepados. Mesmo a Su\u00e9cia, que historicamente vinha ocupando o cume mundial do \u00cdndice de Desenvolvimento Humano, come\u00e7ou a desmontar sua estrutura de regulamenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica das desigualdades (re)produzidas pelo capitalismo.<\/div>\n<div><i>Capitalismo: uma hist\u00f3ria de amor<\/i>\u00a0contrap\u00f5e a democracia \u00e0 selvageria do capital. Se cada um possui um voto e se a maioria \u00e9 acossada pela plutocracia que insiste em se aferrar a seus privil\u00e9gios, a solu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, segundo Michael Moore, se apresenta como a sa\u00edda a ser radicalizada. Mas seria importante considerar se o sistema pol\u00edtico consegue revolucionar, a partir de suas institui\u00e7\u00f5es, todo um modo de produ\u00e7\u00e3o. E mais: o \u00edmpeto social-democrata do document\u00e1rio que pretende retomar a simbologia do New Deal n\u00e3o historiciza propriamente o debate e nem acompanha a transforma\u00e7\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o do capital. O desmantelamento da social-democracia se deve \u00fanica e exclusivamente \u00e0 rapinagem do grande capital que j\u00e1 n\u00e3o teme o socialismo ou est\u00e1 profundamente relacionado \u00e0 impossibilidade de absor\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de trabalhadores por parte das novas for\u00e7as produtivas em cont\u00ednua revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica? A crescente fal\u00eancia do Estado e do mercado como reguladores econ\u00f4micos n\u00e3o demonstraria a atualidade das teses do velho Marx sobre a contradi\u00e7\u00e3o de um sistema que pressup\u00f5e o trabalho humano objetivo sem poder absorv\u00ea-lo na esteira produtiva? N\u00e3o estar\u00edamos diante de novas contradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas para a reprodu\u00e7\u00e3o do valor socialmente gerido?<\/div>\n<div>Se nos ativermos aos limites da democracia institucional e n\u00e3o nos voltarmos para o cerne das contradi\u00e7\u00f5es do sistema de reprodu\u00e7\u00e3o social, ser\u00e1 invi\u00e1vel explicar como a democracia grega pode conviver com a revoga\u00e7\u00e3o das pens\u00f5es e aposentadorias garantidas constitucionalmente e como os funcion\u00e1rios p\u00fablicos de Portugal t\u00eam que arcar com a redu\u00e7\u00e3o de 40% de seus sal\u00e1rios ap\u00f3s as reformas democr\u00e1ticas condicionadas pelas grandes consultorias financeiras. Se a democracia radicalizada pressup\u00f5e a ocupa\u00e7\u00e3o urbana cont\u00ednua e a percep\u00e7\u00e3o de sua contradi\u00e7\u00e3o basilar em rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo, o pensamento cr\u00edtico precisa expandir suas categorias de an\u00e1lise para al\u00e9m dos conceitos decantados pela guerra-fria.<\/div>\n<div><b>Sugest\u00f5es de leitura<\/b><b><\/b><\/div>\n<div>Gostaria de mencionar duas obras que me parecem seminais para refletirmos sobre os limites da transforma\u00e7\u00e3o reformista do capitalismo \u2013 pensamento a contrapelo da no\u00e7\u00e3o de que a esfera pol\u00edtica pode reproduzir o valor social indefinidamente para al\u00e9m das contradi\u00e7\u00f5es do capital:<\/div>\n<div>(1)\u00a0<i>Manifesto contra o trabalho<\/i>, composto pelo Grupo Krisis:\u00a0<a href=\"http:\/\/o-beco.planetaclix.pt\/mctp.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/o-beco.planetaclix.pt\/mctp.htm<\/a><\/div>\n<div>(2)\u00a0<i>O colapso da moderniza\u00e7\u00e3o<\/i>, de Robert Kurz. S\u00e3o Paulo: Editora Paz e Terra, 1999.<\/div>\n<div><b>Fl\u00e1vio Ricardo Vassoler<\/b>\u00a0\u00e9 escritor, professor universit\u00e1rio, mestre e doutorando em Teoria Liter\u00e1ria e Literatura Comparada pela FFLCH\/USP.<\/div>\n<div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">\u00a0<iframe loading=\"lazy\" class=\"YOUTUBE-iframe-video\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Hc_t1YpR7io?feature=player_embedded\" width=\"320\" height=\"266\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-thumbnail-src=\"https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/Hc_t1YpR7io\/0.jpg\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA burguesia, em seu reinado de apenas um s\u00e9culo, gerou um poder de produ\u00e7\u00e3o mais massivo e colossal do que todas as gera\u00e7\u00f5es anteriores reunid<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":218138,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-224419","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/dinheiro-apreendido2.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=224419"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224419\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/218138"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=224419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=224419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=224419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}