{"id":226317,"date":"2017-12-02T12:30:00","date_gmt":"2017-12-02T15:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=226317"},"modified":"2017-12-02T12:30:00","modified_gmt":"2017-12-02T15:30:00","slug":"mulheres-vitimas-de-violencia-domestica-buscam-na-arte-uma-forma-de-superar-seus-traumas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/mulheres-vitimas-de-violencia-domestica-buscam-na-arte-uma-forma-de-superar-seus-traumas\/","title":{"rendered":"Mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica buscam na arte uma forma de superar seus traumas"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<\/header>\n<figure class=\"horizontal\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/extra.globo.com\/incoming\/22141274-867-17f\/w640h360-PROP\/xinfochpdpict000073136301.jpg.pagespeed.ic.dAQtlYtd7Z.jpg\" alt=\"Uma das mulheres acolhidas pelo Colcha e Retalhos, em Turia\u00e7u, na Zona Norte do Rio\" width=\"640\" height=\"360\" \/><figcaption><span class=\"credit\">Uma das mulheres acolhidas pelo Colcha e Retalhos, em Turia\u00e7u, na Zona Norte do Rio Foto: Gustavo Miranda<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"story ctx_content\">\n<div class=\"header\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"credits info\"><span class=\"author\">Diego Amorim<\/span><\/div>\n<div class=\"text_size\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSofri viol\u00eancia sexual e psicol\u00f3gica do meu pr\u00f3prio marido. Fui abusada por algu\u00e9m que deveria me proteger. Foram anos convivendo com a inseguran\u00e7a e o medo dentro de casa. Com depress\u00e3o, eu vivia \u00e0 base de rem\u00e9dio. Hoje tenho uma filha de 6 anos que \u00e9 fruto de um desses abusos sexuais\u201d. O relato prova que o drama de Clara (Bianca Bin) na novela \u201cO outro lado do para\u00edso\u201d n\u00e3o est\u00e1 restrito apenas \u00e0 fic\u00e7\u00e3o. Na vida real, muitas mulheres vivem relacionamentos abusivos e sofrem viol\u00eancia dom\u00e9stica todos os dias. Um exemplo \u00e9 o caso de A\u00e7ucena, de 42 anos, dona da hist\u00f3ria relatada acima. Para tentar amenizar essa triste realidade, 75 mulheres participam de um grupo de acolhimento social e empoderamento feminino na Zona Norte do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 um projeto de aceita\u00e7\u00e3o, sem julgamentos. Cada uma divide sua hist\u00f3ria, e, juntas, elas se transformam em l\u00edderes. N\u00f3s as encorajamos e mostramos a elas quais s\u00e3o seus direitos \u2014 comenta a presidente do Movimento Permanente de Mulheres, Thereza Santos, que criou o projeto Colchas e Retalhos em parceria com a f\u00e1brica Piraqu\u00ea, em Turia\u00e7u, na Zona Norte do Rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por meio do artesanato, elas buscam recuperar a autoestima e se tornar empreendedoras, capazes de caminhar sozinhas. Segundo Thereza, al\u00e9m das aulas de artesanato, as mulheres aprendem a fazer avalia\u00e7\u00f5es de estoque, or\u00e7amento e pre\u00e7o dos produtos. S\u00e3o tr\u00eas encontros por semana, nos quais elas compartilham os dramas vividos. Nesta reportagem, os nomes verdadeiros dessas mulheres foram substitu\u00eddos por nomes de flor, como forma de preserv\u00e1-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rosa, de 39 anos, foi abusada sexualmente aos 11 por um assaltante que invadiu sua casa. Ap\u00f3s uma adolesc\u00eancia dif\u00edcil e marcada por problemas psicol\u00f3gicos, ela se casou aos 18, imaginando ter encontrado seu pr\u00edncipe encantado. No entanto, o que parecia um sonho foi se tornando um pesadelo com o passar do tempo. As agress\u00f5es cometidas pelo marido eram tantas que, em meio ao desespero, Rosa chegou a considerar a trai\u00e7\u00e3o do marido algo positivo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Com um caso extraconjugal, ele passava mais tempo na rua, e n\u00e3o em casa. Foi um al\u00edvio dentro daqueles dez anos de intimida\u00e7\u00e3o. Lembro que, quando minha filha nasceu, eu montei todo o enxoval. Num determinado dia, ele jogou tudo no lixo, com a justificativa de que o dinheiro tinha vindo de outro homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bastante emocionada, Rosa lembra com exatid\u00e3o o dia em que sua m\u00e3e chegou sem avisar e ouviu todas as amea\u00e7as feitas pelo marido. Segundo ela, o \u00fanico medo era perder a guarda da filha, caso decidisse abandonar o lar. Por isso, ela foi at\u00e9 a Delegacia da Mulher e prestou queixa contra o agressor, na tentativa de proteger sua integridade. No entanto, quando soube que a m\u00e3e sairia de casa, a adolescente de ent\u00e3o 14 anos fugiu e nunca mais voltou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 At\u00e9 hoje eu tento traz\u00ea-la de volta. Faz tr\u00eas anos que ela vive fora de casa, me culpando por eu ter abandonado seu pai. \u00c9 uma dor muito grande. Fiquei sabendo inclusive que ela j\u00e1 foi agredida por ele durante uma visita, mas mesmo assim ela n\u00e3o aceita a minha decis\u00e3o \u2014 conta Rosa.<\/p>\n<figure style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"inline\" src=\"https:\/\/extra.globo.com\/incoming\/22141275-9ae-996\/w448\/xinfochpdpict000073136345.jpg.pagespeed.ic.80Khdlkq1m.jpg\" alt=\"Mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica se unem em grupo de apoio na Zona Norte do Rio\" \/><figcaption>Mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica se unem em grupo de apoio na Zona Norte do Rio Foto: Gustavo Miranda<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o da culpa \u00e9 algo que perturba grande parte dessas mulheres. Todas contam j\u00e1 ter ouvido frases como \u201cse a mulher soubesse se comportar melhor, haveria menos estupro\u201d. Margarida, de 53 anos, diz que tenta at\u00e9 hoje se livrar desse sentimento. Casada e com um alto padr\u00e3o de vida, ela viu seus sonhos irem por \u00e1gua abaixo ap\u00f3s o casal perder tudo e ela ser considerada a culpada:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ou\u00e7o humilha\u00e7\u00f5es todos os dias, que levam minha estabilidade emocional embora. Tenho um filho de 15 anos e me sujeito a todo esse sofrimento por causa dele. \u00c0s vezes eu vou trabalhar sem \u00e2nimo e com a autoestima muito baixa. Mas, quando chego aqui (ao Colcha e Retalhos), converso com minhas amigas e sinto que n\u00e3o estou sozinha. Precisamos nos dar for\u00e7a e coragem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dados do Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica (ISP) mostram que, no primeiro semestre deste ano, 11.273 mulheres foram agredidas no Rio de Janeiro. Em cerca de 62% dos casos, a agress\u00e3o ocorre dentro das pr\u00f3prias resid\u00eancias. Considerando todo o Brasil, foram feitos no ano passado mais de 140 mil relatos de viol\u00eancia ao Ligue 180, canal de den\u00fancias aberto \u00e0s mulheres. Em 65% desses casos, os crimes foram cometidos por homens com quem as v\u00edtimas t\u00eam ou tiveram algum v\u00ednculo afetivo, como maridos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, os atendimentos registrados revelam que, quando as v\u00edtimas possuem filhos, cerca de 80% deles presenciaram ou sofreram agress\u00f5es. Dentro desse cen\u00e1rio est\u00e1 Violeta. Com 32 anos, ela se casou aos 14 e engravidou logo depois. Nos primeiros momentos de dificuldade financeira ao lado do marido, surgiram as agress\u00f5es f\u00edsicas. Ela conta que apanhava e que tinha a cabe\u00e7a jogada contra a parede quase sempre na frente dos filhos. Mas buscava n\u00e3o demonstrar para a fam\u00edlia e os amigos todas as dores f\u00edsicas e emocionais que enfrentava:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Precisou meu filho chegar e me dizer \u201cM\u00e3e, voc\u00ea n\u00e3o pode mais apanhar do meu pai\u201d. Foram quase 15 anos passando por isso, sendo agredida quase que diariamente. A mulher precisa ter coragem para dar um basta no relacionamento abusivo. Gra\u00e7as a Deus, eu tive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Ligue 180 foi criado pela Secretaria de Pol\u00edticas Para as Mulheres da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica (SPM-PR), em 2005, para servir de canal direto de orienta\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o feminina em todo o pa\u00eds. Al\u00e9m disso, a Lei Maria da Penha estabelece que toda mulher tem direito \u00e0 prote\u00e7\u00e3o social e do Estado, inclusive contra atos de viol\u00eancia sofridos no ambiente privado ou familiar. Viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 crime. Denuncie.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSofri viol\u00eancia sexual e psicol\u00f3gica do meu pr\u00f3prio marido. Fui abusada por algu\u00e9m que deveria me proteger. Foram anos convivendo com a inseguran\u00e7a e o medo dentro de casa. Com depress\u00e3o, eu vivia \u00e0 base de rem\u00e9dio. 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