{"id":226368,"date":"2017-12-03T09:52:41","date_gmt":"2017-12-03T12:52:41","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=226368"},"modified":"2017-12-03T09:52:41","modified_gmt":"2017-12-03T12:52:41","slug":"ha-30-anos-era-uma-vila-de-pescadores-e-hoje-e-o-vale-do-silicio-da-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ha-30-anos-era-uma-vila-de-pescadores-e-hoje-e-o-vale-do-silicio-da-china\/","title":{"rendered":"H\u00e1 30 anos era uma vila de pescadores e hoje \u00e9 o Vale do Sil\u00edcio da China"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Uma megacidade na qual nasceram gigantes como Huawei e Tencent. Jovem, super-r\u00e1pida e competitiva<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<aside id=\"compartir_superior\" class=\"compartir compartir--fijo\">\n<div class=\"compartir__interior\">\n<div class=\"compartir-varios\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Guillermo Abril\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/guillermo_abril\/a\/\">GUILLERMO ABRIL<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511978867_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511978867_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511978867_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511978867_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"O bairro de Baishizhou, em Shenzhen\" width=\"980\" height=\"551\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">O bairro de Baishizhou, em Shenzhen<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">JAMES RAJOTTE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<section id=\"sumario_1|apoyos\" class=\"sumario_apoyos derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\"><\/div>\n<\/section>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">1. A efici\u00eancia \u00e9 vida<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Shenzhen est\u00e1 muito bem&#8221;, diz Eric Hu. \u201cSe voc\u00ea consegue sobreviver a ela\u201d. Fala r\u00e1pido. Pensa r\u00e1pido. Tem o cabelo esvoa\u00e7ante, camiseta surrada, t\u00eanis. Olha seu celular com frequ\u00eancia, um Huawei, marca chinesa, e com orgulho: \u201cO\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/iphone\/a\">iPhone<\/a>\u201d, diz, \u201c\u00e9 um lixo\u201d. \u00c9 noite neste lado do mundo e ele dirige seu Audi Q5, em cujo retrovisor dan\u00e7am dois bichinhos de pel\u00facia Hello Kitty. Quer mostrar algo no centro desta cidade enorme, s\u00edmbolo do capitalismo asi\u00e1tico, uma esp\u00e9cie de Eldorado tecnol\u00f3gico onde os rec\u00e9m-chegados buscam imitar os fundadores das grandes empresas do pa\u00eds. Aqui nasceram gigantes como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/huawei_technologies\/a\">Huawei<\/a>, segunda produtora mundial de telefones inteligentes e l\u00edder em redes de telecomunica\u00e7\u00f5es, e Tencent, uma das maiores empresas de Internet do planeta, criadora do WeChat, o WhatsApp chin\u00eas, com 1 bilh\u00e3o de usu\u00e1rios. Mas h\u00e1 outras 8.000 empresas de alta tecnologia. O setor contribui com 40% da economia da cidade. E esse PIB \u00e9 monstruoso: o de Shenzhen disputa com o da Irlanda; o da regi\u00e3o, conhecida como o Delta do Rio da P\u00e9rola, que inclui outros oito centros urbanos da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/china\/a\">China<\/a>\u00a0e as regi\u00f5es especiais de Hong Kong e Macau, \u00e9 equipar\u00e1vel ao de toda a R\u00fassia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre guinadas no volante, Hu vai enviando mensagens de voz atrav\u00e9s do WeChat (o \u201c<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/whatsapp\/a\">WhatsApp<\/a>\u00a0\u00e9 outro lixo\u201d). Fundou h\u00e1 tr\u00eas anos uma\u00a0<em>start-up<\/em>\u00a0de drones resistentes \u00e0 \u00e1gua chamada\u00a0<a href=\"https:\/\/www.swellpro.com\/\">Swellpro<\/a>. Cria\u00e7\u00f5es de engenharia com oito patentes pr\u00f3prias e uma c\u00e2mera 4K para gravar cenas mar\u00edtimas. S\u00e3o vendidas pelo equivalente a 6.140 reais. A maioria acaba no Ocidente. Muitas, em m\u00e3os de pessoas endinheiradas com barcos ou iates. Mas nascem em uma zona poeirenta, nos arredores, onde passam caminh\u00f5es, os oper\u00e1rios muito jovens dormem em apartamentos ao lado das f\u00e1bricas e encontramos, ao caminhar por suas ruelas, todo tipo de neg\u00f3cios de manufaturas tecnol\u00f3gicas. Shenzhen, conta, \u00e9 o melhor lugar para a inova\u00e7\u00e3o. Com uma rede de fornecedores de componentes eletr\u00f4nicos inigual\u00e1vel. \u201cAtrai pessoas jovens, educadas, en\u00e9rgicas\u201d, diz Hu. \u201cVai a toda a velocidade. A concorr\u00eancia \u00e9 alt\u00edssima.\u201d Os arranha-c\u00e9us brilham atrav\u00e9s da janela. \u201cEste foi erguido h\u00e1 dois anos\u201d, aponta. Atravessa uma \u00e1rea de livre com\u00e9rcio rec\u00e9m-aberta pelo Governo. Vias engarrafadas. Carros caros. E, no fim, para. Desce e aponta a inscri\u00e7\u00e3o em algumas pedras. Em caracteres chineses se l\u00ea a filosofia que define a cidade: \u201cTempo \u00e9 dinheiro. A efici\u00eancia \u00e9 a vida\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984158_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984159_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984158_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"O \u00f3culos emite uma vibra\u00e7\u00e3o que, em contato com um osso de seu cr\u00e2nio, faz com que a escute dentro da cabe\u00e7a\" width=\"360\" height=\"473\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">O \u00f3culos emite uma vibra\u00e7\u00e3o que, em contato com um osso de seu cr\u00e2nio, faz com que a escute dentro da cabe\u00e7a<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">JAMES RAJOTTE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hu nasceu em 1980, ano em que Deng Xiaoping transformou Shenzhen na primeira zona econ\u00f4mica especial do pa\u00eds. Uma porta aberta ao liberalismo, \u00e0 iniciativa privada. Um experimento da China do futuro. A cidade era uma vila de pescadores com 30.000 habitantes. Hoje, no censo oficial beira os 12 milh\u00f5es; no extraoficial alcan\u00e7a 20. Uma locomotiva \u00e0 qual chegam centenas de milhares de trabalhadores arrojados todo o ano. Engenheiros altamente qualificados, legi\u00f5es de oper\u00e1rios. N\u00e3o se v\u00ea um rosto velho na rua. A idade m\u00e9dia ronda os 28. Em Shenzhen quase ningu\u00e9m \u00e9 de Shenzhen. Ele cresceu em uma zona rural da prov\u00edncia, entre galinhas e planta\u00e7\u00f5es de arroz. Estudou engenharia, trabalhou em uma f\u00e1brica de celulares da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/samsung\/a\">Samsung<\/a>\u00a0(na regi\u00e3o est\u00e3o muitas das megaf\u00e1bricas do mundo) e em 2005 se mudou para a cidade para tentar a sorte. Lapidou o ingl\u00eas vendendo USB e c\u00e2meras. Depois passou a trabalhar por conta pr\u00f3pria. Seu neg\u00f3cio, explica, consiste em \u201cdesenvolver produtos: n\u00e3o algo barato, mas inovador, alta tecnologia\u201d. Esbo\u00e7a ideias: seus engenheiros projetam e montam at\u00e9 chegar a um prot\u00f3tipo. Seu \u00faltimo invento \u00e9 um projetor port\u00e1til do tamanho de um punho. Shenzhen, explica, \u00e9 o para\u00edso do hardware. O f\u00edsico, o artefato. Com um ecossistema superveloz onde a passagem da ideia \u00e0 produ\u00e7\u00e3o em s\u00e9rie ocorre em um suspiro e quase na mesma quadra. E enquanto sonha em dar a grande tacada, lembra com nostalgia de seu primeiro apartamento dividido, em um bairro do qual hoje n\u00e3o resta sen\u00e3o o templo budista. Ali agora se erguem os arranha-c\u00e9us do parque tecnol\u00f3gico, com cerca de 1.300 empresas; uma centena delas cotada em Bolsa.<\/p>\n<h3 class=\"textogrande\" style=\"text-align: justify;\">2. O gigante tecnol\u00f3gico<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Yu Chengdond entra na sala de reuni\u00f5es sem gravata e seguido por uma secret\u00e1ria com saltos altos e brinquedos de pel\u00facia pendurados do celular. Cumprimenta em espanhol. Fala um ingl\u00eas duro. \u00c9 o executivo-chefe de uma das tr\u00eas ramifica\u00e7\u00f5es da Huawei, a divis\u00e3o de telefones e outros produtos de consumo. Representa um ter\u00e7o da receita da multinacional, cujo faturamento beira os 250 bilh\u00f5es de reais, conta com 180.000 funcion\u00e1rios em 170 pa\u00edses e lidera o mercado de celulares na China. Na Espanha disputa ferrenhamente com a Samsung o primeiro lugar. No mundo, o ombro a ombro \u00e9 contra a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/apple_computer\/a\">Apple<\/a>, ambas atr\u00e1s da Samsung. O CEO afirma que a empresa n\u00e3o teria existido se n\u00e3o tivesse nascido em Shenzhen: \u201cH\u00e1 30 anos, quando a China n\u00e3o era t\u00e3o aberta, se transformou em uma cidade de acolhida. Capitalista no econ\u00f4mico, n\u00e3o no pol\u00edtico. De estilo ocidental. Onde se podia desenvolver uma gest\u00e3o moderna\u201d. Ele, engenheiro da Universidade de TsingHua, \u201co MIT chin\u00eas\u201d, se uniu \u00e0 empresa em 1993, quando come\u00e7ava a desenvolver infraestrutura telef\u00f4nica. A Huawei foi fundada em 1987 pelo ex-militar Ren Zhengfei com apenas 19.000 reais. Uma empresa privada cuja primeira sede ficava entre planta\u00e7\u00f5es. Hoje se transferiram para um campus tecnol\u00f3gico de 200 hectares nos arredores da cidade, com universidade pr\u00f3pria, apartamentos para trabalhadores, jardins zen e vans que transportam os funcion\u00e1rios de um edif\u00edcio a outro com o ar condicionado no m\u00e1ximo. Mas n\u00e3o est\u00e3o satisfeitos. \u201cPodemos fazer melhor\u201d, disse Yu. E para mostrar que se empenham nisso convidaram \u00e0 sua sede cinquenta\u00a0<em>instagramers<\/em>,\u00a0<em>youtubers<\/em>\u00a0e jornalistas ocidentais (entre os quais o EL PA\u00cdS). Segundo o CEO, \u201cnosso problema n\u00e3o \u00e9 a inova\u00e7\u00e3o. Nisso somos fortes. O grande desafio \u00e9 que n\u00e3o somos uma marca conhecida. Ningu\u00e9m a conhece\u201d. O marketing, a grande trag\u00e9dia chinesa. Uma luta contra si mesmos para passar de sin\u00f4nimo de produto barato ao de artigo de alta qualidade.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|foto\" class=\"sumario_foto derecha\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984263_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984263_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984263_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Os europeus Kristina Cahojova e Hynek Jemelik, inventores de um medidor de fertilidade feminina, criaram seus produtos na aceleradora de \u2018start-ups\u2019 HAX, Shenzhen\" width=\"360\" height=\"542\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Os europeus Kristina Cahojova e Hynek Jemelik, inventores de um medidor de fertilidade feminina, criaram seus produtos na aceleradora de \u2018start-ups\u2019 HAX, Shenzhen<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">JAMES RAJOTTE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante dois dias de confer\u00eancias e\u00a0<em>powerpoints<\/em>\u00a0no interior de um moderno bloco envidra\u00e7ado que, visto em panor\u00e2mica, tem a forma de uma chave, diretores desfiam detalhes de seu pr\u00f3ximo lan\u00e7amento, o celular Mate 10, cujo chip Kirin 970, afirmam, imita o c\u00e9rebro humano: \u201cUnidade de processamento neuronal\u201d, o chamam. O telefone, prestes a ser lan\u00e7ado (foi colocado \u00e0 venda em outubro), est\u00e1 trancado em uma maleta com tr\u00eas fechaduras (num\u00e9rica, de chave e bluetooth), colocam luvas brancas para tocar nele, pedem a assinatura de contratos de confidencialidade antes que se possa dar uma olhada. E em cada pausa projetam an\u00fancios nos quais uma voz sensual de mulher sussurra sonhos eletr\u00f4nicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m decidiram abrir suas portas para mostrar uma face transparente, din\u00e2mica, que lembre as concorrentes norte-americanas. Percorremos laborat\u00f3rios onde engenheiros com avental de trabalho trituram equipamentos e terminais para medir sua resist\u00eancia. Nas instala\u00e7\u00f5es h\u00e1 cartazes que avisam: \u201cPrestem aten\u00e7\u00e3o \u00e0s informa\u00e7\u00f5es sobre seguran\u00e7a para proteger nossas patentes\u201d. Uma visita r\u00e1pida atravessando corredores intermin\u00e1veis e desertos de m\u00e1rmore. Nunca oficinas com trabalhadores. \u00c9 proibido tirar fotos na maioria das salas. E, ao contr\u00e1rio do mundo que se imagina, digamos, no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/google\/a\">Google<\/a>, veem-se mesas de pingue-pongue, mas sem rede. Piscinas paradis\u00edacas com hor\u00e1rios estritos. Mesas de bilhar cobertas. Para quem \u00e9 de fora n\u00e3o \u00e9 permitido conversar com funcion\u00e1rios de forma espont\u00e2nea. E o engenheiro autorizado a falar, sob o olhar de seus chefes, responde assim sobre suas aspira\u00e7\u00f5es pessoais: \u201cS\u00e3o parecidas com o slogan da empresa: construir um mundo mais conectado\u201d. O controle \u00e9 f\u00e9rreo. \u201c\u00c9 uma empresa militar\u201d, ironiza um financista que conhece o setor, referindo-se aos anos de juventude de seu fundador no Ex\u00e9rcito Popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o quer falar sem barreiras com um funcion\u00e1rio da Huawei, melhor ir a uma Pizza Hut mais pr\u00f3xima do campus. Em uma mesa h\u00e1 quatro\u00a0<em>profissionais de telecomunica\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0estrangeiros. \u201cSomos a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/onu_organizacion_naciones_unidas\/a\">ONU<\/a>\u201d, brincam. V\u00eam de Brunei, Sri Lanka, Egito e Costa do Marfim. Especialistas em redes, vieram passar por um treinamento na sede. Suspiram porque desde que aterrissaram n\u00e3o puderam olhar o Facebook, e o WhatsApp funciona s\u00f3 por breves momentos: esqueceram-se de instalar no celular, antes de viajar, uma VPN (rede privada virtual), com a qual os usu\u00e1rios contornam diariamente a grande muralha chinesa da Internet e t\u00eam acesso ao outro lado da censura. N\u00e3o se deve esquecer onde estamos. Nem a proximidade nesses dias do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/10\/18\/internacional\/1508305396_956050.html\">XIX Congresso Nacional do Partido Comunista da China<\/a>: a imprensa regional fala na necessidade de \u201cerradicar rumores pol\u00edticos\u00a0<em>online<\/em>\u201d. Durante a refei\u00e7\u00e3o, quando por fim conseguem se conectar com o\u00a0<em>outro lado<\/em>, o eg\u00edpcio exclama: \u201cSou livre!\u201d. O grito soa estranho na boca dos criadores do sistema. Mas esta \u00e9 uma cidade de contradi\u00e7\u00f5es, onde convivem as multinacionais de\u00a0<em>fast food<\/em>\u00a0e as bandeiras comunistas em cada avenida.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984292_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984292_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984292_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Uma funcion\u00e1ria da Tencent, criadora do WeChat e uma das maiores empresas de Internet do mundo, fundada em Shenzhen\" width=\"360\" height=\"504\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Uma funcion\u00e1ria da Tencent, criadora do WeChat e uma das maiores empresas de Internet do mundo, fundada em Shenzhen<\/span><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">JAMES RAJOTTE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">3. Os inventores<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se no\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/silicon_valley\/a\">Vale do Sil\u00edcio<\/a>\u00a0se sonha nas garagens, muitos dos rec\u00e9m-chegados a Shenzhen com pretens\u00f5es digitais se acomodam em apartamentos de Baishizhou, um bairro labir\u00edntico, de estrutura medieval e com algazarra da rua, e com velhos edif\u00edcios de pouca altura de cujas janelas se pode dar a m\u00e3o ao vizinho do bloco ao lado. Conta com cerca de 150.000 habitantes, 20 vezes a densidade da popula\u00e7\u00e3o do resto da cidade. E em seus meandros se misturam jogadores de\u00a0<em>mahjong<\/em>, vendedores de lichia e de peixes vivos, depenadores de patos, emaranhado de cabos que pendem at\u00e9 o ch\u00e3o como trepadeiras e jovens\u00a0<em>hipsters<\/em>\u00a0que voltam da pr\u00e1tica de esportes no meio da tarde. A \u00e1rea ficou cercada por arranha-c\u00e9us. E j\u00e1 existe um plano para derrub\u00e1-la e erguer sobre seus escombros torres de vidro e a\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Shenzhen \u00e9 o centro urbano que mais depressa se transformou em uma megal\u00f3pole na hist\u00f3ria, segundo Juan Du, professora de arquitetura na Universidade de Hong Kong. Em 1979 nem sequer contava com o status de cidade. Hoje possui 49 edif\u00edcios que superam os 200 metros de altura, incluindo o segundo mais alto do pa\u00eds, de quase 600 metros. E h\u00e1 outros 48 a caminho. O fervor imobili\u00e1rio a transformou na bolha mais cara da China: o metro quadrado custa 21.000 reais em m\u00e9dia. E as\u00a0<em>chengzhongcun<\/em>\u00a0(\u201caldeias no meio da cidade\u201d) ficaram como testemunhas an\u00e3s da era em que tudo come\u00e7ou. Nelas, os alugu\u00e9is ainda s\u00e3o aceit\u00e1veis e atraem pessoas como Eli MacKinnon, de 28 anos, um nova-iorquino que trabalha na Insta360, uma\u00a0<em>start-up<\/em>\u00a0local que fabrica c\u00e2meras de realidade virtual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MacKinnon fala chin\u00eas com flu\u00eancia, se arranja com seu porte atl\u00e9tico, mas ficou velho: o fundador da empresa, JK Liu, tem 26 anos. E a idade m\u00e9dia entre seus 250 funcion\u00e1rios \u00e9 de 24. O ambiente de trabalho na sede impressiona: jovens, quase adolescentes, teclam concentrados, sentados em fileiras em uma sala com enormes janelas atrav\u00e9s das quais se veem edif\u00edcios no meio da obra. Muitos t\u00eam grandes objetos de pel\u00facia ao lado do teclado: Explica-se: s\u00e3o almofadas. Na hora da refei\u00e7\u00e3o, as luzes s\u00e3o apagadas, colocam a almofada sobre a mesa de trabalho e tiram uma soneca. Depois continuam trabalhando.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_5\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984353_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984353_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984353_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984353_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"A inscri\u00e7\u00e3o define a filosofia da cidade: \u201cTempo \u00e9 dinheiro. A efici\u00eancia \u00e9 a vida\u201d\" width=\"980\" height=\"654\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">A inscri\u00e7\u00e3o define a filosofia da cidade: \u201cTempo \u00e9 dinheiro. A efici\u00eancia \u00e9 a vida\u201d<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">JAMES RAJOTTE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">A empresa nasceu em 2014 e a hist\u00f3ria de seu fundador j\u00e1 apareceu na\u00a0<em>Forbes<\/em>: JK Liu se mudou para Shenzhen com colegas da Universidade de Nanjing, convenceram uma empresa de capital de risco a investir neles e acabaram criando c\u00e2meras port\u00e1teis, acess\u00edveis, que se acoplam ao celular e captam o mundo em 360 graus. Depois de um per\u00edodo em sua sede, entre \u00f3culos de realidade virtual e bolas futuristas com vis\u00e3o de peixe, d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que as imagens governar\u00e3o o planeta em breve. MacKinnon nos guia atrav\u00e9s de um terra\u00e7o, na unidade 29, para mostrar as maravilhas que podem ser feitas com os inventos: registrar cenas tipo\u00a0<em>Matrix<\/em>, mas quais o retratado fica congelado. Selfies em que a pessoa parece contida em uma esfera. Do alto se escutam as perfura\u00e7\u00f5es incessantes das obras. Um som envolvente, tamb\u00e9m em 360 graus. Quando se fecha os olhos, parece que o ch\u00e3o treme sob os p\u00e9s. A cidade em estado febril, grunhindo como uma crian\u00e7a em pico de crescimento. Talvez seja o som do capitalismo, o dos imp\u00e9rios em seu apogeu. \u201cQuem chega a Shenzhen vem com a ideia de que pode criar algo por si mesmo\u201d, diz MasKinnon. \u201cDe que n\u00e3o h\u00e1 barreiras que n\u00e3o possa saltar. Representa uma verdadeira mudan\u00e7a na mentalidade chinesa.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jason Gui representa essa nova China. Tem 26 anos e usa uns \u00f3culos que de longe parecem de desenho. Imprimiu-os com uma m\u00e1quina 3D. Toca com o dedo uma haste e come\u00e7am a emitir a m\u00fasica de seu celular, ou isso ele diz, porque n\u00e3o se ouve nada: s\u00f3 vibra uma protuber\u00e2ncia nas varetas, e essa vibra\u00e7\u00e3o, em contato com um osso de seu cr\u00e2nio, faz com que a escute dentro da cabe\u00e7a. Batizou-as \u00e0 francesa, Vue, mas ele nasceu em Shenzhen. Sua fam\u00edlia se mudou do interior da China. Deram-se bem, aproveitaram anos de boom imobili\u00e1rio e ele estudou na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/australia\/a\">Austr\u00e1lia<\/a>, Nova Zel\u00e2ndia e Estados Unidos. Passa metade do ano em San Francisco, onde se encontra o ramo de marketing e design de sua empresa, e a outra em Shenzhen, onde tem a parte de P+D neste espa\u00e7o chamado Hax, uma aceleradora de\u00a0<em>start-ups<\/em>\u00a0com capital norte-americano, para cuja sede acorrem empreendedores de meio mundo para aperfei\u00e7oar prot\u00f3tipos em suas oficinas repletas de cabos. Entre telas, levanta o rosto uma dupla de taiwaneses, magrinhos e de apar\u00eancia infantil, inventores de uma m\u00e1quina para se jogar pingue-pongue sozinho; ou o grego George Kalligeros, engenheiro de 24 anos, com experi\u00eancia na Tesla e Bentley, criador de um dispositivo que converte \u201cem minutos\u201d qualquer bicicleta em uma el\u00e9trica. Aqui n\u00e3o vale o et\u00e9reo. A t\u00f4nica \u00e9 o hardware, produtos f\u00edsicos que s\u00e3o melhorados at\u00e9 se encontrar o design perfeito. Os criadores mostram seus inventos rec\u00e9m-sa\u00eddos do forno, como esta esp\u00e9cie de fruto da cor do c\u00e9u, \u201cpequeno e sexy\u201d, diz sua autora, a checa Kristina Cahojova, de 28 anos, que chegou h\u00e1 um m\u00eas, e em 10 dias tinha pronto seu medidor da fertilidade feminina. D\u00e1 muito que pensar o potencial de um aparelho semelhante conectado ao celular, \u00e0 Internet: \u201cQue tipo de compras o Google vai te sugerir em dias f\u00e9rteis? Que m\u00fasica? Que restaurantes? No fundo, \u00e9 disso que trata o neg\u00f3cio. De milh\u00f5es de dispositivos conectados, gerando informa\u00e7\u00e3o sobre padr\u00f5es de vida. Os especialistas chamam de IoT, a Internet das coisas, na sigla em ingl\u00eas.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|foto\" class=\"sumario_foto derecha\"><a name=\"sumario_6\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984388_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984388_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984388_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Bay McLaughlin, cofundador da BRINC, uma aceleradora de 'start-ups' tecnol\u00f3gicas com sede em Hong Kong. Trabalhou 10 anos no Vale do Sil\u00edcio at\u00e9 que percebeu que a revolu\u00e7\u00e3o seguinte, a do hardware, aconteceria no sul da China\" width=\"360\" height=\"520\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Bay McLaughlin, cofundador da BRINC, uma aceleradora de &#8216;start-ups&#8217; tecnol\u00f3gicas com sede em Hong Kong. Trabalhou 10 anos no Vale do Sil\u00edcio at\u00e9 que percebeu que a revolu\u00e7\u00e3o seguinte, a do hardware, aconteceria no sul da China<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">JAMES RAJOTTE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">4. Hong Kong<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Iot entende bastante Bay McLaughlin, norte-americano de 34 anos, bon\u00e9 de sufista e olhar messi\u00e2nico, que trabalhou 10 anos no Vale do Sil\u00edcio, 6 deles na Apple, at\u00e9 que se deu conta de que vivia no dia da marmota: \u201cDeixou de haver inova\u00e7\u00e3o. Repetiam-se os mesmos\u00a0<em>pitches<\/em>, as mesmas ideias, modelos, investidores. Ent\u00e3o surgiu uma nova tend\u00eancia: o\u00a0<em>hardware<\/em>. E vi claramente. Se quisesse participar da revolu\u00e7\u00e3o seguinte, precisava vir ao sul da China. Porque n\u00e3o vai acontecer no Vale do Sil\u00edcio. Tudo o que tiver impacto vir\u00e1 da \u00c1sia. E a China vai ser a locomotiva\u201d. Mas n\u00e3o se instalou em Shenzhen, e sim na cidade vizinha, j\u00e1 quase a mesma, a 30 quil\u00f4metros em linha reta, e separada por uma fronteira que 80 milh\u00f5es de pessoas cruzam por ano:\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/hong_kong\/a\">Hong Kong<\/a>, \u201ca face ocidental da China\u201d, assim a chama, uma das pra\u00e7as financeiras mais poderosas, em cujas ruas se misturam as ra\u00e7as, os dialetos, os investimentos; a regi\u00e3o administrativa especial, democr\u00e1tica, futurista, onde se dirige pela m\u00e3o esquerda, vigora uma lei baseada na\u00a0<em>common law<\/em>\u00a0e se completam 20 anos desde que foi devolvida pelo Reino Unido. Hoje faz parte do plano mestre de Pequim para o Delta do Rio da P\u00e9rola, esse conglomerado de cidades que desembocam no Mar do Sul, ao qual tamb\u00e9m pertence Shenzhen. Juntas somam 66 milh\u00f5es de habitantes e pouco a pouco v\u00e3o se unindo com trens de alta velocidade, pontes quilom\u00e9tricas e acordos de livre com\u00e9rcio, formando a maior megacidade do planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">McLaughlin \u00e9 cofundador de uma aceleradora de\u00a0<em>start-ups<\/em>\u00a0no estilo da HAX. A sua se chama\u00a0<a href=\"https:\/\/brinc.io\/\">BRINC<\/a>\u00a0e tem a vantagem, diz, de estar deste lado da censura chinesa, com a propriedade intelectual bem protegida, e a um passinho de Shezhen, o para\u00edso de componentes eletr\u00f4nicos ao qual os rec\u00e9m-chegados acodem para montar seus prot\u00f3tipos. \u00c9 o que conta Florian Simmendinger, alem\u00e3o de 28 anos, cofundador da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.soundbrenner.com\/\">Soundbrenner<\/a>, uma empresa que desenvolveu metr\u00f4nomos digitais em forma de rel\u00f3gio de pulso. O artefato vibra e marca o ritmo no pulso, um engenho interessante para grupos de m\u00fasica: seu\u00a0<em>tam-tam<\/em>\u00a0sincroniza todos os membros. A ideia come\u00e7ou em Berlim; desenvolveram prot\u00f3tipos de forma prec\u00e1ria. O primeiro, que abre em uma mesa, \u00e9 grande e feio. Parece um aparelho para medir a press\u00e3o sangu\u00ednea. Para aperfei\u00e7o\u00e1-lo, precisavam de melhores motores de vibra\u00e7\u00e3o. \u201cNa maior loja de eletr\u00f4nicos de Berlim encontramos apenas um modelo. Come\u00e7amos a encomend\u00e1-los no eBay, mas chegavam tr\u00eas semanas depois\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O BRINC os selecionou para seu programa, o que envolve um investimento e uma transfer\u00eancia para Hong Kong, onde fazem cursos, recebem ajuda e um espa\u00e7o para desenvolver o neg\u00f3cio. Assim que aterrissaram, atravessaram Shenzhen e entraram no epicentro do ecossistema de componentes eletr\u00f4nicos, o mercado Huaqiangbei. O lugar lembra um formigueiro, do qual entram e saem vendedores e clientes v\u00e3o e vem empurrando carrinhos com sacos de chips, placas, interruptores. Tem um aspecto que est\u00e1 entre uma loja de departamentos e um mercado atacadista de verduras, mas com andares dedicados a \u00e1udio, leds, telefonia, inform\u00e1tica. Dentro, se ouve constantemente o ru\u00eddo da fita adesiva fechando embalagens, porque tudo parece ser vendido em caixas, a granel; \u00e9 poss\u00edvel fazer uma r\u00e9plica quase exata do iPhone procurando pe\u00e7as nas bancas. O alem\u00e3o ficou impressionado: \u201cUma velhinha me ofereceu 300 motores de vibra\u00e7\u00e3o diferentes em um carrinho. Pensei: \u201cViemos ao lugar certo\u201d. Na semana, visitaram o fabricante dos motores e pediram um sob medida. \u201cE em dois meses n\u00f3s o transformamos nisso\u201d. Deixa sobre a mesa essa esp\u00e9cie de rel\u00f3gio de pulso que vibra e acompanha com seu\u00a0<em>tam-tam<\/em>\u00a0as bandas ao redor do mundo: venderam cerca de 40.000 unidades.<\/p>\n<section id=\"sumario_7|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_7\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984432_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984432_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984432_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984432_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Yu Chengdong, CEO da Huawei\" width=\"980\" height=\"679\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Yu Chengdong, CEO da Huawei<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">JAMES RAJOTTE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ritmo. Sobre isso tamb\u00e9m gosta de falar o surfista McLaughlin, cujo discurso augura um futuro estilo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/21\/cultura\/1505996708_514266.html\"><em>Blade Runner<\/em><\/a>, em que o tempo, claro, \u00e9 dinheiro e a efici\u00eancia \u00e9 a vida: \u201cO Ocidente n\u00e3o percebe isso. As pessoas aqui est\u00e3o trabalhando muito duro. Bem-vindos \u00e0 nova norma. Voc\u00ea acha que a Su\u00e9cia \u00e9 o mundo real? Est\u00e3o fodidos. N\u00e3o \u00e9 que os europeus n\u00e3o gostem de trabalhar. L\u00e1 foi doutrinado que o equil\u00edbrio \u00e9 mais importante do que a produtividade. E \u00e9 muito bom se o mundo vai nesse ritmo. Mas, adivinhe, ele mudou. Agora \u00e9 global. E a Europa nem aparece no gr\u00e1fico\u201d. Nesse mundo que vislumbra, cujo magma est\u00e1 sob seus p\u00e9s, marcado por hor\u00e1rios diferentes, cruzamentos de idiomas e o encontro entre Leste e Oeste, o\u00a0<em>hardware<\/em>, diz ele, \u00e9 a chave. A Internet das coisas. E os dados que geram essas coisas. No momento, existe cerca de 1 bilh\u00e3o de objetos conectados \u00e0 Internet. Os c\u00e1lculos mais exagerados apontam que haver\u00e1 100 bilh\u00f5es em 2020. Um \u201csuperorganismo\u201d diz um relat\u00f3rio da OCDE, que formar\u00e1 um \u201csistema nervoso digital global\u201d. Com impulsos de informa\u00e7\u00e3o individual atualizados a cada segundo. \u201cA maior revolu\u00e7\u00e3o desde a Internet\u201d, segundo McLaughlin. Na opini\u00e3o dele, \u201co\u00a0<em>software<\/em>\u00a0nos torna leves. Porque significa que voc\u00ea pode criar o Instagram enquanto est\u00e1 sentado em um por\u00e3o. Mas tampouco \u00e9 o mundo real. O mundo real \u00e9 f\u00edsico. Todos falam de\u00a0<em>big data<\/em>\u00a0e intelig\u00eancia artificial. Bem, como coletamos os dados dos objetos f\u00edsicos? \u00c9 por isso que no BRINC come\u00e7amos onde come\u00e7a o valor. Com o\u00a0<em>hardware<\/em>. Precisamos introduzir mais\u00a0<em>wearables<\/em>, mais sensores, mais produtos dom\u00e9sticos inteligentes. Para extrair os dados e entreg\u00e1-los aos especialistas em algoritmos para que possam explor\u00e1-los\u201d.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">5. O novo ouro<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dados, hoje, s\u00e3o mais valiosos do que o ouro\u201d, sorri David Chang, diretor da MindWorks, empresa de capital de risco com sede em Hong Kong e focada nas\u00a0<em>start-ups<\/em>\u00a0da China. Chang tamb\u00e9m migrou de Silicon Valley para esta terra. Sua fam\u00edlia era dona do banco Kwong on em Hong Kong (eles o venderam para a DBS). Seu pai foi um investidor destacado nos Estados Unidos, disc\u00edpulo de Arthur Rock, a quem se atribui ter cunhado o termo\u00a0<em>venture capital<\/em>\u00a0e apostado em uma das primeiras empresas de semicondutores de sil\u00edcio na Calif\u00f3rnia nos anos cinquenta, aquelas que moldaram o nome Silicon Valley. Chang, de 34 anos, nasceu em Mountain View. Frequentou a mesma escola que Steve Jobs. Voltou para casa porque daqui, garante, em um raio de tr\u00eas horas de avi\u00e3o, se tem acesso a 2,2 bilh\u00f5es de pessoas. \u201c\u00c9 30% da humanidade. Deixo voc\u00eas por um momento para que meditem sobre isso\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_8|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_8\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984488_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984488_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984488_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/11\/29\/eps\/1511978385_781857_1511984488_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Mercado de eletr\u00f4nicos no bairro de Huaqiangbei, em Shenzhen\" width=\"980\" height=\"653\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Mercado de eletr\u00f4nicos no bairro de Huaqiangbei, em Shenzhen<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">JAMES RAJOTTE<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da pausa dram\u00e1tica, acrescenta que 70% dessa popula\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o possui Internet. E que na pr\u00f3xima d\u00e9cada, 1,3 bilh\u00e3o de pessoas se conectar\u00e1 \u00e0 Rede. \u201cUma loucura, como se toda a China se conectasse de repente\u201d. Ele chama isso de \u201ca pr\u00f3xima grande onda\u201d. E quer surf\u00e1-la. Gerencia um fundo de 70 milh\u00f5es de euros. Investiu em diferentes\u00a0<em>start-ups<\/em>, como LaLa Move, um servi\u00e7o de compartilhamento de carros tipo\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/uber\/a\">Uber<\/a>, mas para mercadorias. Passar uma tarde com ele \u00e9 como abrir um z\u00edper e enfiar o nariz numa dimens\u00e3o futura em que o eixo do mundo gravita em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1sia. Fala sobre o\u00a0<em>guanxi<\/em>, as rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a necess\u00e1rias para entrar nos investimentos chineses (e que ele conquistou nas filiais locais do Morgan Stanley e do Credit Suisse). Sobre a maneira como se deve lidar com o Governo. Sobre a diferen\u00e7a entre investir em\u00a0<em>software<\/em>\u00a0e em\u00a0<em>hardware<\/em>\u00a0(prefere o\u00a0<em>soft<\/em>: custos fixos, maior retorno e em menos tempo). E por que muitos servi\u00e7os de Internet n\u00e3o custam um tost\u00e3o: \u201cSe te oferecem algo de gra\u00e7a \u00e9 porque voc\u00ea \u00e9 o produto. Se voc\u00ea usa o Facebook ou o WeChat, voc\u00ea \u00e9 o produto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o ele nos convida para ir ao China Club, na cobertura da antiga sede do Banco da China. Pede um dedo de whisky e, entre pequenos goles, instalado em uma poltrona de brocado e cercado por uma decora\u00e7\u00e3o tipo Shanghai anos quarenta, se define como um \u201cglocal\u201d, fala do pre\u00e7o estratosf\u00e9rico do mercado imobili\u00e1rio e de arrisca que, no caso de um apocalipse nuclear estilo Kim Jong-un, apenas as bitcoins sobreviver\u00e3o. Aconselha a comprar. Define essa regi\u00e3o como \u201co centro do com\u00e9rcio mundial\u201d e Shenzhen como uma cidade \u201ccrua, o\u00a0<em>wild wild West<\/em>\u201d. E a cobertura parece estar a anos-luz das f\u00e1bricas empoeiradas de Shenzhen, onde tudo come\u00e7a e faz girar a roda. Na sa\u00edda, um cartaz de propaganda comunista, que o dono do lugar coleciona e hoje custa uma fortuna, lembra essa origem. No desenho, um homem chin\u00eas com um chap\u00e9u de palha diante de uma f\u00e1brica. E um lema: \u201cRompamos com as conven\u00e7\u00f5es estrangeiras. Tracemos o nosso pr\u00f3prio caminho para o desenvolvimento industrial\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre guinadas no volante, Hu vai enviando mensagens de voz atrav\u00e9s do WeChat (o \u201cWhatsApp\u00a0\u00e9 outro lixo\u201d). Fundou h\u00e1 tr\u00eas anos uma\u00a0start-up\u00a0de drones resistentes \u00e0 \u00e1gua chamada\u00a0Swellpro. Cria\u00e7\u00f5es de engenharia com oito patentes pr\u00f3prias e uma c\u00e2mera 4K para gravar cenas mar\u00edtimas. S\u00e3o vendidas pelo equivalente a 6.140 re<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":226369,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[2,6],"tags":[],"class_list":["post-226368","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/silicio.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226368","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=226368"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226368\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/226369"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=226368"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=226368"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=226368"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}