{"id":226534,"date":"2017-12-04T15:36:58","date_gmt":"2017-12-04T18:36:58","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=226534"},"modified":"2017-12-04T15:36:58","modified_gmt":"2017-12-04T18:36:58","slug":"gordofobia-um-vergonha-nacional-francesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/gordofobia-um-vergonha-nacional-francesa\/","title":{"rendered":"Gordofobia: Um vergonha nacional francesa"},"content":{"rendered":"<div class=\"featured-box featured-box-revista_oasis\">\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"\" src=\"https:\/\/www.brasil247.com\/images\/cache\/1000x357\/crop\/images%7Ccms-image-000569888.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"357\" data-src-a=\"\/images\/cache\/480x240\/crop\/images%7Ccms-image-000569888.jpg\" data-src-b=\"\/images\/cache\/490x280\/crop\/images%7Ccms-image-000569888.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A hist\u00f3ria de Gabrielle Deydier reflete bem a rejei\u00e7\u00e3o das pessoas com excesso\u00a0<\/em><em>de peso na Fran\u00e7a. O seu livro,\u00a0<\/em>On ne nait pas grossa<em>\u00a0(\u201cN\u00e3o se nasce gorda\u201d],\u00a0<\/em><em>narra a luta contra os abusos verbais e a discrimina\u00e7\u00e3o, que quase a levaram\u00a0<\/em><em>ao suic\u00eddio. Gabrielle \u00e9 francesa, mas sua narrativa poderia ter ocorrido em qualquer outro pa\u00eds do mundo.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"sidebar-columns single-page clearfix style-revista_oasis\">\n<section>\n<div class=\"entry\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\"><strong>Por: Stefanie Marsh<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\"><strong>Fonte: Jornal The Observer, Londres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Em agosto de 2015, Gabrielle Deydier foi a uma entrevista de emprego e passou com distin\u00e7\u00e3o. Concorrera ao cargo de professora assistente numa escola para pessoas com necessidades especiais, em Paris, e o grupo de entrevistadores, incluindo o diretor, ficou t\u00e3o bem impressionado que confessou o medo de a perder, caso aparecesse um emprego mais bem pago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">S\u00f3 houve um instante desconfort\u00e1vel. No final da entrevista, quando Gabrielle se dirigia para a porta, o diretor preveniu-a: \u201cA professora com quem ir\u00e1 trabalhar, \u00e0s vezes, e\u2019 muito dif\u00edcil\u201d. Gabrielle quase nem prestou aten\u00e7\u00e3o, porque estava entusiasmad\u00edssima. N\u00e3o demorou a perceber que \u201cdif\u00edcil\u201d era dizer pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\u201cGabrielle Deydier \u00e9 a senhora? N\u00e3o trabalho com gente gorda\u201d, come\u00e7ou por dizer a professora em quest\u00e3o. (Gabrielle tentou sorrir, mas a professora \u201cdif\u00edcil\u201d n\u00e3o ria. \u201cN\u00e3o e\u2019 uma piada\u201d, sublinhou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<div id=\"attachment_8526\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/gordofobia-uma-vergonha-nacional-francesa\/40054468-fat-wallpapers\/\" rel=\"attachment wp-att-8526\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"354717865\" data-slb-internal=\"8526\" data-slb-group=\"8519\" data-wahfont=\"14\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-8526\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.luispellegrini.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/40054468-fat-wallpapers.jpg?resize=600%2C375\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"375\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\" data-wahfont=\"12\"><em>Das muitas cartas de leitores que Gabrielle recebe, raras s\u00e3o\u00a0de pessoas com excesso de peso<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Gabrielle, hoje com 38 anos, tem duas licenciaturas, \u00e9 simp\u00e1tica e comunicativa (mede 1,53 m), e pesa 150 kg. Tamb\u00e9m tem o duplo azar de ser francesa e viver na Fran\u00e7a, porque isso significa que a sua apar\u00eancia f\u00edsica conta para tudo, incluindo as suas possibilidades de encontrar emprego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Na Fran\u00e7a, diz ela (e a sua experi\u00eancia o prova), ser gordo \u00e9 considerado uma doen\u00e7a grotesca auto-infligida. Perto de 80% das francesas fazem dietas regulares. No Sul do pa\u00eds, h\u00e1 uma verdadeira ind\u00fastria ativa de cirurgias g\u00e1stricas (50 mil opera\u00e7\u00f5es ao ano). H\u00e1 tamb\u00e9m uma onda desenfreada de veganismo (dieta que exclui todos os produtos de origem animal) \u2013 uma maneira de as pessoas esconderem os seus dist\u00farbios alimentares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\u201cAs mulheres francesas gabam-se de ser as mais femininas da Europa\u201d, afirma Gabrielle. \u201cExiste a ideia de que as mulheres t\u00eam de ser perfeitas em tudo.\u201d Ser\u00e1, ent\u00e3o, uma surpresa que a publica\u00e7\u00e3o do livro de Gabrielle,\u00a0<em>On ne nait pas grosse<\/em>, (\u201cN\u00e3o se nasce gorda\u201d), em junho, tenha atra\u00eddo um enorme interesse, gerando admira\u00e7\u00e3o e p\u00e2nico moral?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Para Gabrielle, os \u00faltimos 12 meses t\u00eam sido como o despertar de um pesadelo que durou duas d\u00e9cadas. Durante o nosso encontro, n\u00e3o conteve as l\u00e1grimas, mas s\u00e3o l\u00e1grimas de alegria e de f\u00e9. Subitamente, a mulher a quem durante toda a vida adulta disseram que n\u00e3o estava apta para trabalhar, \u00e9 elogiada como hero\u00edna intelectual. A sua hist\u00f3ria apareceu nos di\u00e1rios\u00a0<em>Le Monde e Le Figaro<\/em>, na revista\u00a0<em>Le Point<\/em>\u00a0Tem sido tamb\u00e9m convidada de alguns dos mais importantes programas televisivos franceses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<div id=\"attachment_8529\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/gordofobia-uma-vergonha-nacional-francesa\/depfpzwxsamr21r\/\" rel=\"attachment wp-att-8529\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"665096161\" data-slb-internal=\"8529\" data-slb-group=\"8519\" data-wahfont=\"14\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-8529\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.luispellegrini.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DEpFPzwXsAMR21R.jpg?resize=600%2C600\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"600\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\" data-wahfont=\"12\">Uma docente apresentou Gabrielle a uma turma de seis crian\u00e7as autistas deste\u00a0modo: \u201cAqui est\u00e1 o s\u00e9timo deficiente da sala\u201d<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Na v\u00e9spera de nos encontrarmos, uma vereadora da equipe de Anne Hidalgo, a presidente da C\u00e2mara de Paris, telefonou a Gabrielle para lhe perguntar se estava interessada em organizar, na capital francesa, o primeiro Dia Contra a Gordofobia (uma das formas de body-shaming, isto \u00e9, envergonhar algu\u00e9m pelo seu aspeto f\u00edsico, geralmente excesso de peso). Gabrielle tamb\u00e9m recebeu convites para escrever o argumento de um filme e um romance. A edi\u00e7\u00e3o italiana da Vanity Fair dedicou-lhe um artigo e um editor italiano comprou os direitos do seu livro, n\u00e3o adquiridos ainda para ingl\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\"><strong>Aceitar a pr\u00f3pria imagem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">O que significa ser gordo em Fran\u00e7a est\u00e1, pela primeira vez, em debate no pais. \u201cDecidi escrever este livro porque n\u00e3o queria continuar a pedir desculpa por existir\u201d, explicou Gabrielle. \u201cSim, a obesidade duplicou nos \u00faltimos dez anos (afeta 15% dos adultos franceses, segundo a OCDE), e isso \u00e9 demasiado, mas n\u00e3o significa que devamos insultar ou discriminar os obesos, dizendo-lhes que n\u00e3o podem trabalhar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Gabrielle, que s\u00f3 h\u00e1 seis meses conseguiu olhar para a sua fotografia, preparou-se para o momento presente. \u201cVai aparecer na televis\u00e3o e ser\u00e1 duro\u2019, avisou\u00a0o meu editor. Por isso, com a ajuda de um amigo, fui fotografada numa piscina, para que aceitasse a minha imagem em roupa de banho. (Nas praias da Fran\u00e7a, algumas pessoas, enojadas, costumavam dizer-lhe: \u2018Cubra-se por favor\u2019). Isto fazia sentido, porque eu tinha um objetivo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Combinamos encontrar-nos \u00e0 entrada do restaurante de uma pousada da juventude em Paris, onde Gabrielle vive desde que, com a justifica\u00e7\u00e3o de que lhe faltava empenho por n\u00e3o conseguir emagrecer, perdeu o emprego de professora (e o seu sal\u00e1rio).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\"><a href=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/gordofobia-uma-vergonha-nacional-francesa\/cd1cba8dce3b7bd7767a52a0cab7c84f\/\" rel=\"attachment wp-att-8528\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"922081424\" data-slb-internal=\"8528\" data-slb-group=\"8519\" data-wahfont=\"14\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-8528\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.luispellegrini.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/cd1cba8dce3b7bd7767a52a0cab7c84f.jpg?resize=360%2C600\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"600\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\u00c9 impressionante que uma mulher com a idade dela, inteligente e agora famosa, tenha de viver num alojamento tempor\u00e1rio por n\u00e3o conseguir arrendar um quarto num apartamento em Paris. Sentada numa cadeira sem bra\u00e7os, a sua figura atarracada sugere um peso fora do comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Na semana anterior, recebeu um e-mail: \u201cCara Gabrielle, depois da universidade fui trabalhar para a Dior onde desempenho agora um cargo de chefia. Durante toda a minha vida detestei pessoas como a senhora. A minha m\u00e3e sempre foi gorda. Mas agora est\u00e1 no hospital, morrendo. Ofereceu-me o seu livro, e compreendo, finalmente, o quanto deve ter sofrido. Obrigada!\u201d Gabrielle reage sem grande entusiasmo. \u201cAcho uma loucura que as pessoas precisem de um livro como o meu para aceitar os que t\u00eam excesso de peso. Lamento muito quando recebo mensagens como esta.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">H\u00e1 muitos outros epis\u00f3dios bizarros na sua hist\u00f3ria de vida. Mas voltemos ao seu emprego de professora, e como acabou. A discrimina\u00e7\u00e3o com base na apar\u00eancia f\u00edsica \u00e9 proibida na Fran\u00e7a, mas os patr\u00f5es ignoram a lei. Depois da primeira abordagem, a professora \u201cdif\u00edcil\u201d apresentou Gabrielle a uma turma de seis crian\u00e7as autistas deste modo: \u201cAqui est\u00e1 o s\u00e9timo deficiente da sala\u201d. Tamb\u00e9m acusou Gabrielle de transpirar demasiado, e o diretor tomou partido: \u201cSe ela tem um problema consigo, ent\u00e3o, eu tamb\u00e9m tenho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\u201cDisse-me que, para as crian\u00e7as, era injusto um duplo estigma \u2013 serem portadoras de defici\u00eancia e alvo de bullying, por terem uma professora gorda. \u201d Gabrielle foi aconselhada a \u201crefletir\u201d sobre o seu futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\u201cVamos dar- lhe 30 dias para provar que est\u00e1 motivada.\u201d Motivada? \u201cMotivada a perder peso. Para mostrar que est\u00e1 determinada a manter este emprego.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\"><strong>O medo de recorrer \u00e0 justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\u201cAs crian\u00e7as nunca foram o motivo\u201d, real\u00e7a Gabrielle. \u201cElas eram maravilhosas. Mas, para mim, era duro e complicado lidar com esta situa\u00e7\u00e3o.\u201d Constataram que tinha sido vista \u201ccom dificuldade em respirar, ao subir as escadas para o terceiro andar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Por que n\u00e3o processou judicialmente a escola? \u201cTive medo que n\u00e3o acreditassem em mim\u201d, justifica. Era um cen\u00e1rio prov\u00e1vel. J\u00e1 tinha enfrentado situa\u00e7\u00f5es semelhantes. Um ginecologista que resmungou: \u201cN\u00e3o consigo ver nada aqui com tanta gordura\u201d. Um colega negou t\u00ea-la assediado sexualmente, alegando que a mulher dele tinha melhor aspeto. \u201cPor que haveria de violar uma gorda?\u201d Ainda que compreensiva, a pol\u00edcia avisou-a: \u201cA senhora tem o direito de apresentar queixa, mas n\u00e3o recomendamos, porque nenhum tribunal lhe dar\u00e1 raz\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Estranhamente, nada parecido lhe acontecera na Universidade de Montpellier, onde se formou. \u201cFui muito feliz\u201d, recorda. \u201cTinha muitos amigos. Havia pessoas que tro\u00e7avam de mim, mas sem maldade. N\u00e3o era bem discrimina\u00e7\u00e3o. Eram simplesmente idiotas, n\u00e3o era o sistema. O problema foi quando sa\u00ed \u00e0 procura de emprego.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Ficar obeso pode acontecer a qualquer um, e foi o que aconteceu a Gabrielle, aos 16 anos. Na adolesc\u00eancia, tinha uma apar\u00eancia musculosa e desportiva, com um peso ligeiramente acima do recomendado \u2013 era roli\u00e7a. A m\u00e3e decidiu tomar medidas dr\u00e1sticas quando, depois de uma ida \u00e0s compras, Gabrielle chegou em casa com cal\u00e7as de tamanho 42 em vez do habitual 40. \u201cFicou furiosa: \u2018Voc\u00ea gastou dinheiro apenas porque engordou\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Mas mesmo nessa altura o meu peso n\u00e3o era um grande problema. \u201cTudo mudou quando consultou um m\u00e9dico. Para o m\u00e9dico, era grav\u00edssimo o aumento de peso de Gabrielle, que come\u00e7ou um tratamento hormonal. \u201cA pele ressentiu-se e come\u00e7aram a crescer pelos em todo o corpo. E engordei ainda mais: 30 quilos em apenas tr\u00eas meses.\u201d Novas terapias com horm\u00f4nios foram receitadas, em conjunto com uma dieta alimentar rigorosa, de carne e vegetais cozidos. \u201cAcabei comendo coisas que nunca antes tinha comido, a esconder comida, a roubar dinheiro dos meus pais para comprar comida. A cometer todo tipo de disparates.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<div id=\"attachment_8525\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/gordofobia-uma-vergonha-nacional-francesa\/715f68bbe1dfe93b4083df779f975329-plus-sized-models-plus-size-brands\/\" rel=\"attachment wp-att-8525\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"1441883994\" data-slb-internal=\"8525\" data-slb-group=\"8519\" data-wahfont=\"14\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-8525\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.luispellegrini.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/715f68bbe1dfe93b4083df779f975329-plus-sized-models-plus-size-brands.jpg?resize=412%2C600\" alt=\"\" width=\"412\" height=\"600\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\" data-wahfont=\"12\"><em>\u201cA senhora n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com a imagem que queremos dar da nossa empresa\u201d, ouviu ela, numa entrevista de emprego<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Nessa altura Gabrielle j\u00e1 pesava 120 quilos. \u201cS\u00f3 queria morrer. Todos os dias. Pensava em mim como algu\u00e9m monstruosamente deformado. Os pais, que sempre foram obcecados com a magreza e sentiam vergonha por a filha n\u00e3o saber se controlar, tamb\u00e9m estavam tristes. \u201cFoi um tempo muito, muito penoso.\u201d Gabrielle foi reprovada duas vezes nos exames de admiss\u00e3o ao curso superior. Finalmente conseguiu entrar para a universidade, e isso para ela representou a liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Como foi depois de ter conclu\u00eddo os estudos? Gabrielle ergue-se na cadeira. \u201cVia todos os meus amigos ganharem experi\u00eancia laboral e eu n\u00e3o. N\u00e3o percebia por qu\u00ea. N\u00e3o havia uma raz\u00e3o l\u00f3gica. A mim, s\u00f3 me ofereciam empregos administrativos ou mal pagos. Fazia trabalho de f\u00e1brica.\u201d Um dia, durante uma entrevista de emprego, o respons\u00e1vel pelos recursos humanos decidiu ser sincero: \u201cA senhora n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com a imagem que queremos dar da nossa empresa.\u201d Eu retruquei: \u201cBem, mas n\u00e3o sou est\u00fapida\u201d. E ele comentou: \u201cToda a gente sabe que o QI \u00e9 inversamente proporcional ao peso do corpo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Gabrielle percebeu ent\u00e3o de que havia algo especificamente franc\u00eas na sua experi\u00eancia. \u201cNa Espanha (onde ela viveu um ano no \u00e2mbito do seu curso), n\u00e3o havia qualquer entrave. Se algu\u00e9m comentava o meu aspeto, era para me elogiar. Na Fran\u00e7a, minutos depois de iniciar uma conversa, imediatamente me perguntam: Voc\u00ea \u00e9 gorda por que? \u00c9 uma escolha pessoal? \u00c9 uma doen\u00e7a? Na Espanha, nem sequer era coisa que se discutisse.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\"><strong>A coragem depois do \u00e1lcool<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">A visita ao m\u00e9dico quando Gabrielle tinha 17 anos revela-se o oposto, 20 anos depois. Pela segunda vez o seu mundo foi virado de pernas para o ar, desta vez de um pesadelo para um sonho acordado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\u201cA minha depress\u00e3o era grave. H\u00e1 um ano n\u00e3o falava com a fam\u00edlia. Pensei que me tornaria uma mulher sem-teto. Engordei mais 30 quilos. Estava afundando, assustada. Pensei em dar um tiro na cabe\u00e7a, ou fugir para um lugar long\u00ednquo, mas n\u00e3o sabia para onde. Num desses dias, uns amigos for\u00e7aram-me a ir ao lan\u00e7amento de um livro. N\u00e3o queria ir. Embebedei-me e acabei falando com uns escritores sobre um projeto de investiga\u00e7\u00e3o de um deles, sob disfarce, num matadouro. Perguntei-lhes: Sabem o que \u00e9 a gordofobia? N\u00e3o faziam a m\u00ednima ideia. Descrevi o que se estava acontecendo comigo. Encorajaram -me a passar tudo ao papel, a enviar-lhes rapidamente um email.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<div id=\"attachment_8530\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.luispellegrini.com.br\/gordofobia-uma-vergonha-nacional-francesa\/the-bathers-1918-by-pierre-auguste-renoir-1841-1919-oil-on-canvas-110x60-cm-photo-by-deagostinigetty-images\/\" rel=\"attachment wp-att-8530\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"1159200147\" data-slb-internal=\"8530\" data-slb-group=\"8519\" data-wahfont=\"14\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-8530\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.luispellegrini.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/o-BIG-IS-BEAUTIFUL-facebook.jpg?resize=600%2C300\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\" data-wahfont=\"12\"><em>O quadro As Banhistas, pintado por Renoir em 1918, mostra como eram diferentes os c\u00e2nones est\u00e9ticos naquela \u00e9poca.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">Se Gabrielle n\u00e3o tivesse ainda \u00e1lcool no sangue talvez lhe tivesse faltado a coragem de, na manh\u00e3 seguinte, escrever seis p\u00e1ginas. Tr\u00eamula, pressionou a tecla \u201cEnviar\u201d. No mesmo dia, um editor telefonou-lhe. Quinze dias depois, assinava o contrato para publicar o seu livro. Ergue-se agora na cadeira: \u201cEscrever este livro salvou-me a vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">O livro nos diz muito sobre a Fran\u00e7a e a cultura francesa, devido \u00e0s rea\u00e7\u00f5es que provocou. Especialmente significativas s\u00e3o as cartas de leitores que Gabrielle recebe diariamente (quase nenhuma vindas de pessoas com excesso de peso). \u201cUma mulher contou-me que \u00e9 bul\u00edmica h\u00e1 20 anos porque receia engordar. Tem medo de perder o marido e o emprego. (A bulimia \u00e9 um transtorno alimentar que leva as pessoas a exagerar na ingest\u00e3o de alimentos para depois provocar o v\u00f4mito ou ficar longos per\u00edodos sem comer). Um homem comentou: \u2018O seu livro fez-me compreender como fui um est\u00fapido. Trabalhei durante cinco anos com jovens. Se eles eram gordos, eu os humilhava.\u2019 Pediu-me que o perdoasse, como se eu fosse um padre no Confession\u00e1rio.\u201d N\u00e3o era essa a inten\u00e7\u00e3o da autora, esclarece ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" data-wahfont=\"14\">As cartas confirmam que chegou a vez de a pr\u00f3pria Fran\u00e7a se sentir como Gabrielle se sentia: envergonhada, fazendo perguntas sobre si pr\u00f3pria. Tudo por causa de um livro. A hist\u00f3ria dela \u00e9 fascinante, her\u00f3ica e continuar\u00e1 com certeza. Gabrielle Deydier: Este \u00e9 o seu ano.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro nos diz muito sobre a Fran\u00e7a e a cultura francesa, devido \u00e0s rea\u00e7\u00f5es que provocou. 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