{"id":226849,"date":"2017-12-07T06:48:08","date_gmt":"2017-12-07T09:48:08","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=226849"},"modified":"2017-12-07T06:48:08","modified_gmt":"2017-12-07T09:48:08","slug":"em-vez-de-remedio-contra-aids-fabrica-financiada-pelo-brasil-em-mocambique-produzira-analgesico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/em-vez-de-remedio-contra-aids-fabrica-financiada-pelo-brasil-em-mocambique-produzira-analgesico\/","title":{"rendered":"Em vez de rem\u00e9dio contra Aids, f\u00e1brica financiada pelo Brasil em Mo\u00e7ambique produzir\u00e1 analg\u00e9sico"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Amanda Rossi<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/6E82\/production\/_99009282_10112010-10112010g00004.jpg\" alt=\"Lula observa trabalhador operando m\u00e1quina que embala medicamentos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Lula durante visita \u00e0s instala\u00e7\u00f5es da f\u00e1brica de antirretrovirais, em 2010 | Foto: Ricardo Stuckert\/Ag. Brasil<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Quem entra na Sociedade Mo\u00e7ambicana de Medicamentos (SMM), a \u00fanica f\u00e1brica de rem\u00e9dios de Mo\u00e7ambique, d\u00e1 de cara com um objeto em exibi\u00e7\u00e3o dentro um cubo de vidro, sobre um pedestal. \u00c9 um frasco de nevirapina 200 mg, componente de um dos tratamentos para a Aids. Pelo r\u00f3tulo, sabemos que foi produzida pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Brasil, e embalada no pa\u00eds africano. Validade: 05\/2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esperava-se que fosse um motivo de orgulho. Mas ali dentro est\u00e3o as esperan\u00e7as, vencidas e frustradas, dos dois pa\u00edses. Faz 14 anos que o Brasil apoia a cria\u00e7\u00e3o dessa f\u00e1brica, destinada a produzir antirretrovirais &#8211; como s\u00e3o chamados os rem\u00e9dios que combatem o v\u00edrus HIV. \u00c9 o mais longo projeto de coopera\u00e7\u00e3o do governo brasileiro na \u00c1frica, e o mais caro, com custo estimado em R$ 40 milh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a iniciativa acaba de passar por uma transforma\u00e7\u00e3o radical. Em vez de antirretrovirais, a f\u00e1brica produzir\u00e1 paracetamol, analg\u00e9sico comumente usado contra dor de cabe\u00e7a e c\u00f3lica. Para isso, contar\u00e1 com apoio t\u00e9cnico da Fiocruz e com um novo repasse de R$ 5 milh\u00f5es do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade brasileiro, aprovado no segundo semestre deste ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Not\u00edcia boa \u00e9 que n\u00e3o \u00e9. \u00c9 triste para n\u00f3s, mas n\u00e3o podemos fazer mais nada&#8221;, desabafa Joaquim Govene, um dos mo\u00e7ambicanos treinados pelo Brasil para produzir medicamentos. &#8220;N\u00f3s n\u00e3o podemos fabricar antirretrovirais, mas pelo menos vamos produzir algo para a popula\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O motivo principal da mudan\u00e7a \u00e9 que a nevirapina, cuja tecnologia de produ\u00e7\u00e3o o Brasil transferiu para Mo\u00e7ambique, ficou ultrapassada. J\u00e1 foi muito importante no combate ao HIV, mas, \u00e0 medida que o projeto da f\u00e1brica de antirretrovirais demorava para sair do papel, foi sendo substitu\u00edda por outras drogas mais modernas e eficazes. Hoje, \u00e9 raramente usada nos dois pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Produzir nevirapina \u00e9 desperdi\u00e7ar material, vai ser farinha&#8221;, diz a m\u00e9dica Sheila Cassamo, respons\u00e1vel pela \u00e1rea de HIV da dire\u00e7\u00e3o de sa\u00fade de Maputo, capital mo\u00e7ambicana. &#8220;Est\u00e1 obsoleta como droga&#8221;, completa Adele Benzaken, diretora do Departamento de Vigil\u00e2ncia, Preven\u00e7\u00e3o e Controle do HIV\/Aids, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jorge Mendon\u00e7a \u00e9 diretor de Farmanguinhos, unidade da Fiocruz respons\u00e1vel pela parceria com a SMM. Ele n\u00e3o participou da concep\u00e7\u00e3o do projeto, mas faz\u00a0<i>mea culpa<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A ind\u00fastria de medicamentos \u00e9 muito agressiva. Um novo medicamento, uma nova abordagem, uma nova descoberta podem mudar o mercado completamente. Se fosse poss\u00edvel voltar atr\u00e1s, talvez poder\u00edamos n\u00e3o ter apostado tantas fichas de que essa seria uma f\u00e1brica para antirretrovirais. Tinha que ser uma f\u00e1brica para atender a sa\u00fade p\u00fablica mo\u00e7ambicana.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da nevirapina, os planos eram que a f\u00e1brica produzisse outros dois antirretrovirais, mas isso n\u00e3o aconteceu. E se tivesse ocorrido, faria pouca diferen\u00e7a. Os dois tamb\u00e9m s\u00e3o pouqu\u00edssimo usados hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mendon\u00e7a advoga pela import\u00e2ncia do Brasil continuar financiando a f\u00e1brica: &#8220;O que est\u00e1 sendo investido l\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nenhuma fortuna, \u00e9 uma pequena contribui\u00e7\u00e3o para terminar esse projeto&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1257C\/production\/_99023157_81971.jpg\" alt=\"Operador da SMM mostra equipamentos em 2013\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Quando f\u00e1brica ficou pronta, medicamento contra a Aids j\u00e1 estava obsoleto | Foto: Amanda Rossi\/BBC Brasil<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">&#8216;\u00c9 um trabalho com muito m\u00e9rito&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, o Brasil n\u00e3o tem tecnologia para produzir os rem\u00e9dios mais modernos usados no tratamento contra a Aids. Por isso, n\u00e3o h\u00e1 como transferir esse conhecimento para Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O paracetamol foi, ent\u00e3o, a alternativa encontrada para que a f\u00e1brica n\u00e3o fechasse, o que desperdi\u00e7aria todo o investimento feito at\u00e9 agora pelos dois pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um medicamento barato, mas com muita sa\u00edda. A ideia, ent\u00e3o, \u00e9 que o analg\u00e9sico d\u00ea sustentabilidade econ\u00f4mica para a SMM e permita a ela fabricar outros produtos, como anti-hipertensivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00e9cnico Govene ainda n\u00e3o contou a ningu\u00e9m sobre a mudan\u00e7a, porque acha que as pessoas n\u00e3o v\u00e3o gostar da not\u00edcia. \u00c9 o que ocorreu com a m\u00e9dica Cassamo: &#8220;Paracetamol? Desculpa, n\u00e9! Se fosse uma f\u00e1brica de antibi\u00f3ticos, de antif\u00fangicos&#8230; Mas paracetamol \u00e9 algo que n\u00f3s temos. Acho que nunca tivemos falta de paracetamol. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente do conselho de administra\u00e7\u00e3o da SMM, Evaristo Madime, defende o projeto. &#8220;N\u00e3o vejo como um fracasso, porque temos resultados concretos. Temos uma f\u00e1brica bem instalada em Mo\u00e7ambique. Temos mo\u00e7ambicanos que sabem produzir medicamentos. Temos um portf\u00f3lio de rem\u00e9dios &#8211; limitado, \u00e9 verdade, mas temos um portf\u00f3lio. N\u00e3o \u00e9 um trabalho que se possa desprezar, tem muito m\u00e9rito.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">De &#8216;revolucion\u00e1rio&#8217; a &#8216;dor de cabe\u00e7a&#8217;<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia brasileira de criar uma f\u00e1brica de antirretrovirais na \u00c1frica surgiu, em 2003, da combina\u00e7\u00e3o de duas realidades. Primeiro, Mo\u00e7ambique era um dos pa\u00edses mais afetados pelo HIV no mundo &#8211; hoje, tem a oitava maior preval\u00eancia do v\u00edrus. Segundo, o Brasil tinha &#8211; e continua a ter &#8211; uma pol\u00edtica de combate ao v\u00edrus que \u00e9 considerada modelo. O projeto propunha, ent\u00e3o, unir necessidade e experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era o in\u00edcio do governo Lula e de uma nova pol\u00edtica externa, orientada para o aumento das rela\u00e7\u00f5es Sul-Sul &#8211; entre Brasil e \u00c1frica, inclusive. Os principais eixos eram incrementar os la\u00e7os econ\u00f4micos, com aumento de exporta\u00e7\u00f5es e expans\u00e3o de empresas brasileiras, e realizar projetos de coopera\u00e7\u00e3o, para auxiliar o desenvolvimento dessas regi\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quando o Brasil criou esse projeto (da f\u00e1brica de antirretrovirais), est\u00e1vamos vivendo um momento muito bom no pa\u00eds. Muita gente concordava que t\u00ednhamos uma d\u00edvida simb\u00f3lica com a \u00c1frica, por causa da escravid\u00e3o, e que naquele momento havia condi\u00e7\u00f5es de pagar&#8221;, afirma Mendon\u00e7a, da Farmanguinhos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/154FA\/production\/_99009278_p1070281.jpg\" alt=\"Mulher mo\u00e7ambicana segura um livreto rosa, onde est\u00e1 escrito: 'Tratamento Antiretroviral e Infec\u00e7\u00f5es Oportunistas'.\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">T\u00e9cnica de medicina Cec\u00edlia Jos\u00e9 Sitoe mostra guia mo\u00e7ambicano que lista terapias usadas contra HIV no pa\u00eds | Foto: Amanda Rossi\/BBC Brasil<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O governo brasileiro propagava que sua presen\u00e7a na \u00c1frica era diferente das rela\u00e7\u00f5es das Norte-Sul, apresentadas como uma parceria entre ex-exploradores (as antigas metr\u00f3poles europeias e os pa\u00edses ricos) e ex-explorados (ex-col\u00f4nias), perpetuando uma din\u00e2mica de depend\u00eancia. J\u00e1 o Brasil seria um parceiro, um irm\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e1brica de antirretrovirais se encaixou perfeitamente nessa disputa simb\u00f3lica. Mo\u00e7ambique recebe os medicamentos antirretrovirais de gra\u00e7a, por meio de doa\u00e7\u00f5es do Norte, via Fundo Global de Combate \u00e0 Aids e do Plano de Emerg\u00eancia para Al\u00edvio da Aids do Presidente dos Estados Unidos (Pepfar). A proposta do projeto brasileiro era se contrapor a esse tipo de coopera\u00e7\u00e3o, que d\u00e1 o peixe. Em vez disso, o Brasil pretendia ensinar a pescar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por um lado, a proposta foi vista como uma ideia revolucion\u00e1ria. Por outro, foi encarada pelo Itamaraty como uma enorme dor de cabe\u00e7a. Se desse errado, poderia manchar a imagem que o Brasil queria construir, de parceiro solid\u00e1rio da \u00c1frica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva foi um entusiasta do projeto. Nas suas visitas ao continente africano &#8211; foram 34 em oito anos de governo -, sempre citava a f\u00e1brica de antirretrovirais como um exemplo da solidariedade brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O fato de n\u00f3s estarmos construindo a primeira f\u00e1brica de medicamento gen\u00e9rico para combater a Aids no continente africano pode ser anunciado quase como uma revolu\u00e7\u00e3o. Esta f\u00e1brica, na hora em que ela estiver produzindo, vai libertar o povo de Mo\u00e7ambique de ficar subordinado a laborat\u00f3rios, normalmente dos pa\u00edses desenvolvidos&#8221;, discursou o ent\u00e3o presidente em visita \u00e0 na\u00e7\u00e3o em 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procurado pela BBC Brasil, o l\u00edder petista n\u00e3o se manifestou.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BCA2\/production\/_99009284_img_4431.jpg\" alt=\"Interior da SMM, um corredor branco e muito limpo, com portas duplas dos dois lados. Ao final, quatro mo\u00e7ambicanos olham um livro.\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Interior da SMM, planejada para ser uma f\u00e1brica de antirretrovirais, mas que agora vai produzir outros tipos de rem\u00e9dio | Foto: Amanda Rossi\/BBC Brasil<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">13% da popula\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique tem HIV<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estima-se que 13% da popula\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique viva com HIV. Para compara\u00e7\u00e3o, no Brasil a incid\u00eancia \u00e9 de 0,4%. Mas apesar do alt\u00edssimo n\u00famero de infectados, o v\u00edrus ainda \u00e9 um tabu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabel tem 45 anos, oito deles guardando o segredo de que \u00e9 soropositiva. Nunca revelou para fam\u00edlia ou amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tenho receio de contar. Acho que algum dia vou falar para os meninos&#8221;, diz, fazendo refer\u00eancia aos filhos j\u00e1 adultos, ambos HIV negativo. Seu verdadeiro nome tamb\u00e9m faz parte do sigilo &#8211; Isabel foi como ela escolheu ser chamada na reportagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mo\u00e7ambicana est\u00e1 em tratamento h\u00e1 cinco anos, desde que a imunidade do seu corpo come\u00e7ou a baixar. \u00c9 na hora das novelas brasileiras, muito populares em Mo\u00e7ambique, que ela toma o rem\u00e9dio, \u00e0s escondidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os meses, ela vai ao Centro de Sa\u00fade Jos\u00e9 Macamo, um dos maiores de Maputo, para buscar os frascos. &#8220;Se n\u00e3o fosse gratuito, eu n\u00e3o teria como pagar a medica\u00e7\u00e3o.&#8221; Faxineira, sua renda mensal \u00e9 de 4 mil meticais (cerca de R$ 200).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, 60% dos soropositivos em Mo\u00e7ambique t\u00eam acesso ao tratamento antirretroviral. Ainda \u00e9 longe da meta de 90% estabelecida pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Mesmo assim, o n\u00famero \u00e9 considerado positivo, j\u00e1 que as terapias s\u00f3 come\u00e7aram a ser oferecidas no pa\u00eds em 2003 &#8211; sempre pagas com dinheiro da doa\u00e7\u00e3o Norte-Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, o desafio para expandir o acesso \u00e9 identificar os pacientes e distribuir a medica\u00e7\u00e3o por todo o pa\u00eds. Rem\u00e9dios antirretrovirais n\u00e3o faltam.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5AF7\/production\/_99078232_gettyimages-887306056.jpg\" alt=\"Homem segura comprimidos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Medicamentos contra o HIV foram evoluindo no decorrer dos tempos<\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Medicamento brasileiro ficou ultrapassado<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Centro de Sa\u00fade Jos\u00e9 Macamo, onde Isabel se trata, tem 6 mil pacientes com HIV.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A equipe respons\u00e1vel pela farm\u00e1cia da unidade de sa\u00fade fez cara feia quando a reportagem da BBC Brasil pediu para ver um frasco de nevirapina. &#8220;Esse medicamento sai muito pouco, vai dar trabalho de encontrar&#8221;. Ali, apenas 5 pacientes, entre todos os 6 mil, tomam o f\u00e1rmaco que o Brasil transferiu para Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No momento em que foi acordada a transfer\u00eancia de tecnologia de produ\u00e7\u00e3o de antirretrovirais, o portf\u00f3lio que o Brasil tinha para transferir se ajustava \u00e0s necessidades de Mo\u00e7ambique. Todavia, a partir de certa altura, Mo\u00e7ambique passou a adotar outra linha de tratamento&#8221;, explica Madime, da SMM.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nevirapina come\u00e7ou a ser produzida no Brasil, pela Fiocruz, em 2001. Foi usada durante 16 anos. Agora, ficou t\u00e3o ultrapassada que sua retirada do SUS est\u00e1 em discuss\u00e3o. \u00c9 tomada por apenas 1% das pessoas em tratamento no Brasil. Entre as desvantagens est\u00e3o efeitos t\u00f3xicos no f\u00edgado e a necessidade de tomar comprimidos duas vezes por dia, na maioria das vezes combinados com outra medica\u00e7\u00e3o, o que dificulta a ades\u00e3o do paciente ao tratamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, a principal droga de combate ao HIV em Mo\u00e7ambique \u00e9 a tripla, um \u00fanico comprimido di\u00e1rio com tr\u00eas componentes, sendo o principal deles o Efavirenz. \u00c9 esse o coquetel usado por Isabel, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m \u00e9 o mais comum no Brasil, com mais de 200 mil pacientes. Mas j\u00e1 est\u00e1 sendo substitu\u00eddo por uma solu\u00e7\u00e3o mais moderna, o Dolutegravir, administrado a 60 mil pessoas. Ambos s\u00e3o importados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Essa \u00e9 a historia natural das drogas. O HIV \u00e9 um v\u00edrus mutante. Com o tempo, cria resist\u00eancia aos antirretrovirais e \u00e9 preciso adotar novos medicamentos&#8221;, explica a brasileira Adele Benzaken. &#8220;Se a droga ficar entre n\u00f3s por dez, 15 anos, j\u00e1 \u00e9 um grande servi\u00e7o.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabel sabe desse risco. &#8220;Eu estou saud\u00e1vel. Mas \u00e9 uma coisa que me preocupa sempre. N\u00e3o sei se vou continuar bem ou se, de repente, n\u00e3o vou mais me levantar da cama. Porque acontece do corpo n\u00e3o aguentar mais o medicamento, n\u00e3o \u00e9 doutora?&#8221;, pergunta para sua m\u00e9dica. &#8220;Quem sabe um dia achem a cura.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2062\/production\/_99009280_p1070273.jpg\" alt=\"Frasco de antirretroviral em balc\u00e3o de distribui\u00e7\u00e3o\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Esse \u00e9 o antirretroviral mais usado em Mo\u00e7ambique, conhecido por &#8216;tripla&#8217;, cujo principal componente \u00e9 o Efavirenz | Foto: Amanda Rossi\/BBC Brasil<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Placebos embalados<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e1brica demorou tanto tempo para ficar pronta que o per\u00edodo da sua cria\u00e7\u00e3o coincide com o in\u00edcio e o fim do ciclo da nevirapina no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2003, durante a primeira viagem de Lula \u00e0 \u00c1frica, foi assinado um protocolo de inten\u00e7\u00f5es. Em 2007, a Fiocruz apresentou um estudo de viabilidade e, em 2009, o Congresso aprovou uma primeira doa\u00e7\u00e3o para a instala\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vontade do petista era inaugur\u00e1-la durante seu mandato. Mas n\u00e3o deu tempo. A f\u00e1brica n\u00e3o ficou pronta. Por isso, no seu \u00faltimo ano de governo, 2010, ele planejou apenas uma visita ao local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema era que ainda n\u00e3o havia o que ver, pois os equipamentos n\u00e3o haviam chegado. A solu\u00e7\u00e3o encontrada foi enviar do Brasil, emprestada, uma m\u00e1quina para embalar comprimidos, em um avi\u00e3o da Aeron\u00e1utica. Como os mo\u00e7ambicanos ainda n\u00e3o estavam treinados para manipular rem\u00e9dios, foram embalados placebos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inaugura\u00e7\u00e3o oficial ocorreu dois anos depois, em 2012, com a presen\u00e7a do ent\u00e3o vice-presidente Michel Temer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde ent\u00e3o, a f\u00e1brica tem operado no modo piloto, treinando pessoal e documentando procedimentos de produ\u00e7\u00e3o e manejo dos f\u00e1rmacos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e1rea de antirretrovirais, o principal resultado foi a embalagem da nevirapina brasileira, em 2014. Tamb\u00e9m houve uma tentativa de produzi-la localmente, em 2015, que n\u00e3o foi conclu\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fabricados, de fato, foram Haloperidol (tratamento de problemas psicol\u00f3gicos), Propranolol e Captopril (press\u00e3o alta). Todos entre 2015 e 2016. Neste ano, n\u00e3o houve nenhuma produ\u00e7\u00e3o. A expectativa \u00e9 que a f\u00e1brica volte a operar em 2018, com o paracetamol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por nota, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade brasileiro informou que considera fundamental a conclus\u00e3o do projeto, &#8220;que contribuir\u00e1 significativamente para o fortalecimento do sistema de sa\u00fade p\u00fablico mo\u00e7ambicano&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00f3rg\u00e3o tamb\u00e9m justificou a troca de medicamentos: &#8220;Devido ao registro de patentes de novos medicamentos, avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e, principalmente, mudan\u00e7as na pol\u00edtica de tratamento adotada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade de Mo\u00e7ambique, o portf\u00f3lio de medicamentos (da f\u00e1brica) sofreu altera\u00e7\u00f5es. O portf\u00f3lio final contemplar\u00e1 a transfer\u00eancia tecnol\u00f3gica e a produ\u00e7\u00e3o de dez medicamentos, incluindo o paracetamol&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa lista de dez, al\u00e9m do paracetamol, tr\u00eas s\u00e3o antirretrovirais j\u00e1 descartados por Mo\u00e7ambique, tr\u00eas s\u00e3o os medicamentos que j\u00e1 foram produzidos na f\u00e1brica, mais um antiviral, um antian\u00eamico e um diur\u00e9tico.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A f\u00e1brica demorou tanto tempo para ficar pronta que o per\u00edodo da sua cria\u00e7\u00e3o coincide com o in\u00edcio e o fim do ciclo da nevirapina no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":226850,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,12],"tags":[],"class_list":["post-226849","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/comprimidos.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226849","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=226849"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226849\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/226850"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=226849"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=226849"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=226849"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}