{"id":227088,"date":"2017-12-09T09:31:15","date_gmt":"2017-12-09T12:31:15","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=227088"},"modified":"2017-12-09T09:31:15","modified_gmt":"2017-12-09T12:31:15","slug":"de-testes-com-caes-medo-de-deixar-cair-as-historias-por-tras-do-1o-transplante-de-coracao-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/de-testes-com-caes-medo-de-deixar-cair-as-historias-por-tras-do-1o-transplante-de-coracao-no-brasil\/","title":{"rendered":"De testes com c\u00e3es a &#8216;medo de deixar cair&#8217;, as hist\u00f3rias por tr\u00e1s do 1\u00ba transplante de cora\u00e7\u00e3o no Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Camilla Costa\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/13C38\/production\/_99025908_prof.euclydesmarques_incor_transplantes-16.jpg\" alt=\"Euclydes Marques\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Para Euclydes Marques, brasileiros poderiam ter sido primeiros do mundo em transplante, com mais \u201cvontade de transgredir\u201d | Foto: Divulga\u00e7\u00e3o Incor<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>*ATEN\u00c7\u00c3O: Esta p\u00e1gina pode conter imagens fortes<\/i><\/p>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Quantos cachorros o senhor j\u00e1 operou?&#8221;, perguntou o cardiologista Luiz D\u00e9court, diretor cl\u00ednico do Hospital das Cl\u00ednicas, em S\u00e3o Paulo, ao jovem cirurgi\u00e3o Euclydes Marques, em 1967. A pergunta faria com que o primeiro transplante de cora\u00e7\u00e3o realizado no Brasil, por pouco, n\u00e3o fosse tamb\u00e9m o primeiro do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu disse que t\u00ednhamos condi\u00e7\u00f5es de fazer o procedimento em um ser humano durante uma reuni\u00e3o da Cl\u00ednica M\u00e9dica. Foi aquele &#8216;uuuh&#8217; na sala&#8221;, relembra Marques, de 82 anos, em uma sala do Incor, o Instituto do Cora\u00e7\u00e3o, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele aceitou discutir a proposta, mas quando eu contei que j\u00e1 tinha operado uns 200 cachorros, mas nenhum tinha ficado vivo, ele me disse que n\u00e3o poder\u00edamos fazer o procedimento ainda aquela altura.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Poucas semanas depois, o sul-africano fez o primeiro transplante.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marques fazia parte da equipe do cirurgi\u00e3o card\u00edaco Euryclides de Jesus Zerbini e foi o respons\u00e1vel pela pesquisa e pelos experimentos que culminariam no transplante brasileiro em maio de 1968 &#8211; apenas cinco meses depois do realizado pelo m\u00e9dico sul-africano Christiaan Barnard.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca, conta Marques, diversas equipes em todo o mundo, principalmente na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, estudavam m\u00e9todos para conseguir retirar o cora\u00e7\u00e3o de um doador e implant\u00e1-lo em um paciente com grave insufici\u00eancia card\u00edaca com sucesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior parte dos experimentos eram feitos em c\u00e3es, pela facilidade de conseguir os animais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nunca tivemos inten\u00e7\u00e3o de tirar um animal vivo desse experimento. O sucesso era quando a circula\u00e7\u00e3o do sangue voltava, o cora\u00e7\u00e3o batia, o animal acordava e andava, mesmo morrendo depois&#8221;, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Hoje n\u00e3o faria, n\u00e3o gosto de experi\u00eancias com animais. Mas na \u00e9poca est\u00e1vamos entusiasmados pelo transplante. E minha justificativa \u00e9tica \u00e9 que aqueles c\u00e3es seriam sacrificados pela prefeitura numa c\u00e2mara a v\u00e1cuo. Morrer anestesiado era melhor.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9FF8\/production\/_99025904_coracao1.jpg\" alt=\"Transplante card\u00edaco de Jo\u00e3o Ferreira da Cunha\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Transplante precisava ser realizado com pacientes doador e receptor pr\u00f3ximos, porque n\u00e3o havia como preservar \u00f3rg\u00e3o fora do corpo | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Acervo Noedir Stolf<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Corrida pelo pioneirismo<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como outros m\u00e9dicos que faziam parte da equipe comandada por Zerbini, Marques diz que o time brasileiro estava apto a aplicar a t\u00e9cnica aperfei\u00e7oada pelo americano Norman Shumway, em Stanford, que seria o verdadeiro &#8220;injusti\u00e7ado&#8221; na competi\u00e7\u00e3o para ser o pioneiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Shumway era o verdadeiro pai do transplante, mas cometeu um erro estrat\u00e9gico&#8221;, relembra o m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela \u00e9poca, o cora\u00e7\u00e3o tinha que sair de um e entrar no outro. N\u00e3o havia como preserv\u00e1-lo fora do corpo. Por isso, era preciso ter o doador e o receptor do \u00f3rg\u00e3o o mais perto poss\u00edvel. De prefer\u00eancia, ao mesmo tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A\u00ed, ele anunciou que esperaria o momento em que um paciente precisando de transplante estivesse no hospital, usando uma bomba de circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea, e aparecesse um doador com morte cerebral. Ele estaria esperando essa coincid\u00eancia at\u00e9 hoje&#8221;, ironiza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Barnard, cirurgi\u00e3o sul-africano que havia estudado com Shumway, decidiu selecionar pacientes que pudessem esperar algum tempo pelo \u00f3rg\u00e3o. E conseguiu criar a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Aqui tamb\u00e9m est\u00e1vamos fazendo o mesmo. Cerca de dez doentes graves escolhidos para o transplante morreram antes que aparecesse um doador. Foi a\u00ed que perdemos a oportunidade de sermos os primeiros&#8221;, diz Marques.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tivemos uma reuni\u00e3o no dia seguinte \u00e0 not\u00edcia sobre Barnard. O professor Zerbini me disse: &#8216;seu m*rda! O sul-africano fez o transplante! Agora vamos fazer&#8217;. Foi quando ele finalmente comprou a briga.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por causa da competi\u00e7\u00e3o, o pioneirismo de Barnard foi questionado por parte da comunidade cient\u00edfica, que o considerou &#8220;oportunista&#8221;. O m\u00e9dico brasileiro, no entanto, acha que o sul-africano apenas aceitou correr os riscos.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/EE18\/production\/_99025906_img_2504.jpg\" alt=\"Membros de equipe de transplante no Hospital das Cl\u00ednicas\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Opera\u00e7\u00f5es-teste eram realizadas em cachorros em uma pequena sala do Hospital das Cl\u00ednicas, por uma equipe de estudantes de Euclydes Marques (canto inferior direito da foto) | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Acervo Incor<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na ci\u00eancia tem muito dessas espertezas. Aqui eram todos catedr\u00e1ticos, professores. Foi zelo pelos pacientes, sem d\u00favida, mas tamb\u00e9m pela carreira deles. Eu era um moleque, tinha muito a ganhar e nada a perder&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Respeito muito a atitude que eles tiveram, mas faltou um pouquinho de vontade de transgredir. Para progredir \u00e9 preciso transgredir.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Um morto na UTI<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A &#8220;vontade de transgredir&#8221; da equipe de cirurgi\u00f5es come\u00e7ou j\u00e1 na fase de experimentos, num per\u00edodo em que a verba para a pesquisa era ainda mais escassa nas universidades do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O professor Zerbini conseguiu uma salinha vazia no Hospital das Cl\u00ednicas para operarmos os cachorros. Aquela sala, na verdade, \u00e9 onde nasceu o Incor&#8221;, diz Marques.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas na \u00e9poca, tinha que fazer com o que a gente tinha na m\u00e3o. No hospital, n\u00e3o iam me dar nem uma tesoura se eu pedisse. Ent\u00e3o eu e meus estudantes roubamos tudo. And\u00e1vamos com pin\u00e7a dentro da camisa, empurr\u00e1vamos carrinho \u00e0 noite no t\u00fanel usado para transportar os cad\u00e1veres. Demorou menos de um m\u00eas.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pequeno centro cir\u00fargico dos c\u00e3es logo se tornou conhecido, e cobi\u00e7ado, por ser mais bem equipado do que o destinado a humanos. Zerbini fez vista grossa \u00e0 ousadia dos estudantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Livre para contar as hist\u00f3rias ap\u00f3s o falecimento da maioria dos ex-chefes, Marques diz que os corredores do hospital tamb\u00e9m testemunharam outras manobras arriscadas que contribu\u00edram para o avan\u00e7o da medicina no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu fui instru\u00eddo por Zerbini a esperar a meia-noite, para n\u00e3o dar na vista, pegar o cora\u00e7\u00e3o de um paciente doador morto, tir\u00e1-lo do corpo e deix\u00e1-lo batendo artificialmente, com a ajuda da m\u00e1quina, por uma hora. Precis\u00e1vamos saber o que acontecia com o tecido card\u00edaco quando faz\u00edamos isso por algum tempo&#8221;, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fiz o procedimento algumas vezes, mas, na \u00faltima delas, o cora\u00e7\u00e3o sustentou bem a circula\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, resolvi coloc\u00e1-lo de volta no paciente e fechar tudo. O paciente tinha morte cerebral, mas eu o levei de volta para a UTI, sem ningu\u00e9m saber.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/51D8\/production\/_99025902_medicos_barnard.jpg\" alt=\"M\u00e9dicos brasileiros da equipe de Euriclydes Zerbini com Christian Barnard\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Equipe chefiada por Zerbini (canto inferior esquerdo da foto) foi a quinta a fazer um transplante de cora\u00e7\u00e3o no mundo, meses ap\u00f3s o sul-africano Christiaan Barnard (canto inferior direito) | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Acervo Noedir Stolf<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na manh\u00e3 seguinte, Marques mostrou a Zerbini o resultado da experi\u00eancia. &#8220;O professor teve um siricotico, mas eu argumentei que a fam\u00edlia j\u00e1 tinha cedido os \u00f3rg\u00e3os do paciente. A\u00ed ele chamou outro m\u00e9dico e disse: &#8216;olha a\u00ed \u00f3, esse cora\u00e7\u00e3o foi colocado de novo, rapaz, e est\u00e1 batendo! Vamos fazer logo esse transplante!&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma semana depois, seria a vez de Jo\u00e3o Ferreira da Cunha, conhecido como Jo\u00e3o Boiadeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 28 de maio de 1968, \u00e0s 04h50 da manh\u00e3, funcion\u00e1rios do Hospital das Cl\u00ednicas preparavam o corpo de um homem de 30 anos morto em um atropelamento para a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os. \u00c0s 06h25, seu cora\u00e7\u00e3o era retirado. \u00c0s 10h25, o \u00f3rg\u00e3o j\u00e1 estava no corpo do boiadeiro Jo\u00e3o Ferreira da Cunha, de acordo com jornais da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Horas depois, o ent\u00e3o governador de S\u00e3o Paulo, Roberto Sodr\u00e9, cumprimentou a equipe. Pouco depois, assinou o decreto que viabilizaria o Instituto do Cora\u00e7\u00e3o (Incor) &#8211; que \u00e9 hoje o primeiro em n\u00famero de transplantes card\u00edacos no pa\u00eds, e o 7\u00ba do mundo em n\u00famero de opera\u00e7\u00f5es do tipo em adultos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Zerbini batalhava pelo Instituto do Cora\u00e7\u00e3o h\u00e1 pelo menos 10 anos, mas n\u00e3o sa\u00eda. Coincidentemente, quando fizemos o transplante, saiu a libera\u00e7\u00e3o da verba.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1B28\/production\/_99025960_coracao3.jpg\" alt=\"Transplante card\u00edaco de Jo\u00e3o Ferreira da Cunha\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Sucesso de opera\u00e7\u00e3o estimulou libera\u00e7\u00e3o de verba para cria\u00e7\u00e3o de Instituto do Cora\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Acervo Noedir Stolf<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8216;Fora de moda<\/strong><strong>&#8216;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jornais e revistas da \u00e9poca cobriram exaustivamente o passo a passo do transplante &#8211; um cinegrafista e um fot\u00f3grafo estavam presentes na opera\u00e7\u00e3o, que foi feita em duas salas cont\u00edguas. Uma para a equipe do doador, e outra para a equipe do receptor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Todo mundo ficava ansioso, todo o povo acompanhou. Mas quando acabamos o transplante, Zerbini e eu fomos para o vesti\u00e1rio trocar a roupa e ele disse pra mim: &#8216;Euclydes, eu nunca me diverti tanto'&#8221;, conta Marques, emocionado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meio \u00e0 ansiedade, os m\u00e9dicos tamb\u00e9m encontraram espa\u00e7o para piadas. Um deles, encarregado de levar o \u00f3rg\u00e3o em uma bandeja at\u00e9 sala onde ele seria transplantado, disparou: &#8220;Ai, e se esse neg\u00f3cio cai?&#8221;. Todos riram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Muita gente queria assistir a opera\u00e7\u00e3o, entravam e sa\u00edam da sala&#8221;, relembra Noedir Stolf, cirurgi\u00e3o e pesquisador s\u00eanior do Incor, que era aluno de Euclydes Marques e tamb\u00e9m estava presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Alguns de n\u00f3s at\u00e9 ficamos meio espremidos.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6948\/production\/_99025962_img_2510.jpg\" alt=\"Membros de equipe de transplante no Hospital das Cl\u00ednicas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Ap\u00f3s \u201ceuforia\u201d inicial e tr\u00eas transplantes, procedimento deixou de ser feito no pa\u00eds, e retornaria nos anos 1980 | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Acervo Incor<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Boiadeiro se recuperou bem da cirurgia, mas viveu apenas 28 dias, 10 dias a mais do que o primeiro paciente de Christiaan Barnard, em consequ\u00eancia da rejei\u00e7\u00e3o ao \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A equipe ainda realizou mais dois transplantes nos meses seguintes &#8211; um dos pacientes, Ugo Orlandi, chegou a viver 15 meses, uma surpresa na \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fizemos o segundo transplante, em Ugo Orlandi, na metade de 1968 e eu me casei no in\u00edcio de 1969. Ele foi ao meu casamento&#8221;, relembra o cirurgi\u00e3o Sergio de Almeida, da BP &#8211; A Benefic\u00eancia Portuguesa de S\u00e3o Paulo, que tamb\u00e9m era da equipe de Zerbini.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;E eu lembro que ele foi mais procurado do que o noivo. Era fascinante ver uma pessoa vivendo com um cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era o dela.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diagn\u00f3stico da rejei\u00e7\u00e3o, segundo Almeida, \u00e9 uma das principais mudan\u00e7as no procedimento desde ent\u00e3o. &#8220;Hoje conseguimos fazer com muita precocidade. Na \u00e9poca, a gente tratava o paciente quando a crise j\u00e1 estava manifesta.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A taxa de rejei\u00e7\u00e3o entre os primeiros pacientes era t\u00e3o alta que passou a desencorajar as cirurgias.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/10588\/production\/_99025966_img_2509.jpg\" alt=\"Membros de equipe de transplante no Hospital das Cl\u00ednicas\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Equipe m\u00e9dica do Incor ficou conhecida em todo o Brasil ap\u00f3s transplante | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Acervo Incor<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Noedir Stolf, foram realizados 102 transplantes card\u00edacos a partir de maio de 1968, mas 60% dos pacientes morreram at\u00e9 o fim daquele ano. No ano seguinte, s\u00f3 50 procedimentos foram feitos. E em 1971, apenas 10.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Passou a euforia inicial, que s\u00f3 iria voltar nos anos 1980, depois que surgiram materiais aperfei\u00e7oados e a ciclosporina, um medicamento mais eficiente para combater a rejei\u00e7\u00e3o&#8221;, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Euclydes Marques, o procedimento tamb\u00e9m &#8220;saiu de moda&#8221; entre os m\u00e9dicos, para dar lugar a outra estrela &#8211; o desentupimento das art\u00e9rias coron\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A cirurgia das art\u00e9rias virou a vedete dos cirurgi\u00f5es card\u00edacos porque ela resolvia muito bem o problema e tinha muita gente precisando. Se fosse por mim, eu teria continuado. Deveria ter pedido ao Zerbini: &#8216;n\u00e3o pode deixar s\u00f3 um leito pra irmos fazendo, s\u00f3 pra n\u00e3o parar?&#8217; Mas eu n\u00e3o tive coragem de pedir, era t\u00edmido&#8221;, disse Marques.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Muita organiza\u00e7\u00e3o e poucos recursos<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Transplante de \u00d3rg\u00e3os, o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 o terceiro \u00f3rg\u00e3o mais transplantado no Brasil, ficando atr\u00e1s somente do rim e do f\u00edgado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o Global Observatory on Donation and Transplantation, \u00f3rg\u00e3o ligado \u00e0 OMS, o Brasil se tornou, em 2016, o terceiro pa\u00eds do mundo em n\u00famero absoluto de transplantes card\u00edacos com 357 procedimentos, atr\u00e1s de Estados Unidos e Fran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em n\u00fameros relativos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, no entanto, o pa\u00eds est\u00e1 apenas em 32\u00ba lugar. Os EUA ficam em 2\u00ba e a Fran\u00e7a, em 4\u00b0.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o cirurgi\u00e3o F\u00e1bio Jatene, vice-presidente do Conselho Diretor do Incor, espera-se que o n\u00famero chegue a 370 em 2017, mas ele deveria ser muito maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, segundo Jatene, 33 centros s\u00e3o credenciados para transplantes do tipo, mas apenas cinco conseguem fazer mais do que 20 por ano. O baixo n\u00famero de doadores de \u00f3rg\u00e3os ainda \u00e9 um dos desafios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A conscientiza\u00e7\u00e3o das pessoas sobre a efici\u00eancia do procedimento vem crescendo. E na medida em que os transplantes vem acontecendo, o governo se manifesta oferecendo transporte a\u00e9reo. Mas 42% dos \u00f3rg\u00e3os que poderiam n\u00e3o s\u00e3o doados por recusa da fam\u00edlia&#8221;, diz.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/B768\/production\/_99025964_eletro.jpg\" alt=\"Eletrocardiogramas de Jo\u00e3o Ferreira da Cunha\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Evolu\u00e7\u00e3o de paciente foi acompanhada pela imprensa durante semanas; ele morreu 28 dias ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o, em consequ\u00eancia da rejei\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Acervo Noedir Stolf<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais de 90% dos procedimentos no pa\u00eds, segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, s\u00e3o realizados pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Os cirurgi\u00f5es entrevistados pela reportagem elogiam o modelo brasileiro e a efici\u00eancia do controle de doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os no pa\u00eds, mas dizem que a baixa remunera\u00e7\u00e3o pelas cirurgias impede que mais sejam feitas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O SUS paga cerca de R$ 50 mil pelo procedimento contando o hospital e a equipe. Mas a depender do caso, o custo do tratamento pode ser muito maior, com o uso de dispositivos para manter a circula\u00e7\u00e3o no paciente, por exemplo. Paga-se relativamente pouco para o trabalho que d\u00e1, os centros n\u00e3o ficam motivados&#8221;, diz Noedir Stolf.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Incor consegue fazer muitos procedimentos, mas outros hospitais fazem muito pouco, t\u00eam poucos recursos. A proposta do SUS nesse sentido \u00e9 muito boa e a organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 exemplar. Nos EUA por exemplo, quase n\u00e3o se faz pelo sistema p\u00fablico de sa\u00fade. Quem n\u00e3o tem dinheiro, n\u00e3o faz. Mas aqui n\u00e3o tem recurso para tudo.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Zerbini batalhava pelo Instituto do Cora\u00e7\u00e3o h\u00e1 pelo menos 10 anos, mas n\u00e3o sa\u00eda. 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