{"id":227128,"date":"2017-12-09T11:13:30","date_gmt":"2017-12-09T14:13:30","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=227128"},"modified":"2017-12-09T11:13:30","modified_gmt":"2017-12-09T14:13:30","slug":"bernardo-kucisnki-no-brasil-trata-se-dependencia-quimica-como-um-desvio-moral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/bernardo-kucisnki-no-brasil-trata-se-dependencia-quimica-como-um-desvio-moral\/","title":{"rendered":"Bernardo Kucisnki: \u201cNo Brasil, trata-se a depend\u00eancia qu\u00edmica como um desvio moral\u201d"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Escritor lan\u00e7a romance &#8216;Pret\u00e9rito Imperfeito&#8217;, que fala sobre paternidade e depend\u00eancia qu\u00edmica<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<aside id=\"compartir_superior\" class=\"compartir compartir--fijo\">\n<div class=\"compartir__interior\">\n<div class=\"compartir-varios\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/12\/08\/cultura\/1512760155_061847_1512769898_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/12\/08\/cultura\/1512760155_061847_1512769898_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/12\/08\/cultura\/1512760155_061847_1512769898_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/12\/08\/cultura\/1512760155_061847_1512769898_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"O escritor e jornalista Bernardo Kucinski.\" width=\"980\" height=\"524\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">O escritor e jornalista Bernardo Kucinski.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma firma--vertical\">\n<div class=\"autor\">\n<figure class=\"foto\"><\/figure>\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Andr\u00e9 de Oliveira\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/andre_azevedo_de_oliveira\/a\/\">ANDR\u00c9 DE OLIVEIRA<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo-introduccion\" class=\"articulo-introduccion\">\n<p>N\u00e3o h\u00e1, ao menos em portugu\u00eas, uma s\u00f3 palavra no dicion\u00e1rio que designe quem perdeu um filho. A aus\u00eancia do voc\u00e1bulo, lembrada por Bernardo Kucinski em entrevista ao EL PA\u00cdS, \u00e9 simb\u00f3lica da procura liter\u00e1ria que o autor iniciou em meados de 2010. Em\u00a0<em>K<\/em>\u00a0<em>\u2013 Relato de Uma Busca<\/em>, seu livro mais aclamado, publicado em 2012, um pai tenta encontrar o paradeiro de sua filha, uma militante pol\u00edtica desaparecida pela<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dictadura_brasilena\/a\">\u00a0ditadura civil militar brasileira<\/a>. Em\u00a0<em>Pret\u00e9rito Imperfeito<\/em>, o romance que o escritor acaba de publicar pela Companhia das Letras, o narrador faz for\u00e7a para primeiro compreender a natureza da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/drogas\/a\">adic\u00e7\u00e3o narc\u00f3tica<\/a>\u00a0do filho adotivo e, depois, para desvincular sua vida da dele. Caminhos diferentes, at\u00e9 opostos, que tratam dos mesmos temas. Paternidade, aus\u00eancia, procura.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A fic\u00e7\u00e3o \u00e9 algo recente na vida de Kucinski, que tem 80 anos. Seus caminhos profissionais apontaram para diferentes caminhos. Formado em f\u00edsica pela Universidade S\u00e3o Paulo (USP), foi militante estudantil, preso e exilado. Tornou-se jornalista, passando pelos ve\u00edculos mais importantes do Brasil e do mundo, como os ingleses\u00a0<em>BBC<\/em>\u00a0e\u00a0<em>The Guardian<\/em>. Foi fundador de jornais alternativos de resist\u00eancia ao regime militar, como\u00a0<em>Movimento<\/em>. Deu aulas de jornalismo na Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes da USP, publicou uma s\u00e9rie de obras acad\u00eamicas, foi assessor especial da Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o Social (Secom) da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica durante o primeiro mandato do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/luiz_inacio_da_silva\/a\">ex-presidente Lula<\/a>, quando produzia boletins di\u00e1rios sobre a imprensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, j\u00e1 fora do Governo e aposentado da faculdade, deu um passo, de forma totalmente natural, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/literatura\/a\">literatura<\/a>\u00a0\u2013 segundo ele, foi como se o que se preparava para dizer precisasse necessariamente ser ficcionado, j\u00e1 que quase todos os seus livros, como\u00a0<em>K<\/em>,\u00a0<em>Os Visitantes<\/em>\u00a0e agora\u00a0<em>Pret\u00e9rito Imperfeito<\/em>, caminham sobre uma linha t\u00eanue entre fic\u00e7\u00e3o e realidade. A irm\u00e3 do escritor, Ana Kucinski, foi sequestrada e morta, em circunst\u00e2ncias at\u00e9 hoje n\u00e3o de todo esclarecidas, pelos militares, em 1974. A busca do protagonista em\u00a0<em>K<\/em>\u00a0\u00e9, assim, a busca de seu pr\u00f3prio pai. Agora, em\u00a0<em>Pret\u00e9rito Imperfeito<\/em>, a hist\u00f3ria de um filho adotivo e dependente qu\u00edmico \u00e9 tamb\u00e9m comum ao autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0A fic\u00e7\u00e3o \u00e9 o modo como eu encontro de trabalhar essas hist\u00f3rias. Eu me coloco no modo ficcional. Em parte, acho que essa deve ser a \u00fanica forma que algumas pessoas conseguem trabalhar determinados temas reais: no modo ficcional. A carta que abre o texto, por exemplo [em que o pai rejeita o filho] \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Eu nunca escrevi essa carta e o narrador, um cineasta, n\u00e3o sou eu. Mas quase todas as situa\u00e7\u00f5es e loca\u00e7\u00f5es do romance s\u00e3o reais. Acredito que ele tem de ser lido como uma fic\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existiria se n\u00e3o existisse a hist\u00f3ria real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Por que pret\u00e9rito imperfeito?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Porque hist\u00f3rias como essa n\u00e3o t\u00eam fim.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/03\/06\/politica\/1425659621_841339.html\">Seja um alco\u00f3latra, seja um viciado em hero\u00edna<\/a>, \u00e9 necess\u00e1rio estar vigilante a vida inteira. Cinco, dez anos depois. Esse livro \u00e9 um pouco sobre isso e outro tanto sobre um aprendizado que eu tive sobre o tema. Tem muito esse sentido de compartilhar esse aprendizado com outros. Depois de escrito, eu tamb\u00e9m n\u00e3o estava seguro se deveria publicar. Foi um motivo de hesita\u00e7\u00e3o, porque a minha hist\u00f3ria familiar tamb\u00e9m continua em aberto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0E o que voc\u00ea aprendeu de forma mais concreta sobre o assunto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Que ainda est\u00e1 tudo para ser feito, especialmente no Brasil, quando o assunto \u00e9 depend\u00eancia qu\u00edmica. N\u00e3o h\u00e1 um programa nacional para tratar do tema, h\u00e1, isso sim, um senso comum grosseiro, simplificado e moralista. Em vez de se tratar a depend\u00eancia como um estado, ou um tipo espec\u00edfico de doen\u00e7a, trata-se como um desvio moral. Em vez de ajuda, puni\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um dos maiores problemas da nossa sociedade. Veja o que est\u00e1 acontecendo nos Estados Unidos hoje a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/10\/26\/internacional\/1509030646_508688.html\">epidemia dos opioides<\/a>. A overdose dessa subst\u00e2ncia j\u00e1 \u00e9, em determinados Estados e faixas et\u00e1rias, a principal causa de morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0No filme\u00a0<em>De Amor e Trevas<\/em>,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/10\/29\/cultura\/1446136069_265985.html\">que trata da vida do escritor israelense Amos Oz<\/a>, \u00e9 dito que a palavra em hebraico que designa \u201cpais que n\u00e3o t\u00eam filhos\u201d guarda rela\u00e7\u00f5es com a palavra trevas. Lembrei disso, pois voc\u00ea trata em seus livros sobre a perda da paternidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Li algo bem interessante que tem a ver com isso. Aquele que n\u00e3o tem pai e nem m\u00e3e \u00e9 um \u00f3rf\u00e3o, aquele que perde a mulher ou o marido \u00e9 vi\u00favo. E aquele que perde o filho? O que ele \u00e9? N\u00e3o h\u00e1 sequer uma palavra para isso em portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0A falta de palavra remete \u00e0 incomunicabilidade, algo tamb\u00e9m presente em seus livros. A paternidade \u00e9 permeada por coisas n\u00e3o ditas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Eu acho que sim. Acho que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de muita atividade, mas de pouca conversa. Assim como no\u00a0<em>K<\/em>, o pai n\u00e3o fala das agruras que passou na Europa ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/03\/01\/cultura\/1488388189_648943.html\">fugir da persegui\u00e7\u00e3o aos judeus na Pol\u00f4nia<\/a>, eu tamb\u00e9m n\u00e3o passei para os meus filhos o que aconteceu com minha irm\u00e3 Ana, que inspirou o\u00a0<em>K<\/em>. A gente nunca fala sobre o que foi a ditadura, o que ela representou de verdade em nossas vidas. No caso do\u00a0<em>Pret\u00e9rito Imperfeito<\/em>, h\u00e1 ainda mais uma camada. \u00c9 um filho adotivo e essa coisa de pertencimento fica ainda mais distante. Meu pai, meu av\u00f4, n\u00e3o foram, de fato, seus av\u00f3s, bisav\u00f3s. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o que se estabelece nova, l\u00fadica. De qualquer jeito, eu acredito que, em geral, os pais n\u00e3o falam. O teu pai conversava muito com voc\u00ea? De verdade? Sobre sentimentos? Acho que isso \u00e9 muito raro.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/12\/08\/cultura\/1512760155_061847_1512760817_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/12\/08\/cultura\/1512760155_061847_1512760817_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/12\/08\/cultura\/1512760155_061847_1512760817_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"'Pret\u00e9rito Imperfeito', lan\u00e7ado pela Companhia das Letras no \u00faltimo dia 4 de dezembro\" width=\"360\" height=\"540\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">&#8216;Pret\u00e9rito Imperfeito&#8217;, lan\u00e7ado pela Companhia das Letras no \u00faltimo dia 4 de dezembro<\/span><span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0H\u00e1 uma epigrafe do livro que diz que todas as dores podem ser suportadas se voc\u00ea as colocar em uma hist\u00f3ria. Foi por isso que voc\u00ea come\u00e7ou a escrever fic\u00e7\u00e3o depois dos 70 anos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o \u00e9 por isso. O\u00a0<em>K<\/em>\u00a0surgiu quase espontaneamente. Eu comecei a escrever porque subitamente se criou um hiato, um vazio, na minha vida. Eu trabalhei no Governo Lula e quando voltei para a Universidade, veio minha aposentadoria compuls\u00f3ria. Aos 70 anos, eles te mandam embora, nem importa se voc\u00ea est\u00e1 bem ou n\u00e3o. E eu fiquei meio assim: fora do Governo, fora da Universidade. Tamb\u00e9m estava muito desencantado com o jornalismo, at\u00e9 mesmo com o jornalismo alternativo em que eu colaborava. A\u00ed, de repente, baixou o esp\u00edrito e eu escrevi primeiro uma pequena novela policial, que me saiu muito f\u00e1cil. Depois disso, passei a encarar a escrita como meu of\u00edcio. Ainda preciso melhorar minhas defici\u00eancias, mas eu gostaria de ter come\u00e7ado antes, de ter feito essa transi\u00e7\u00e3o do jornalismo para a literatura antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Seu livro\u00a0<em>Jornalistas e Revolucion\u00e1rios<\/em>\u00a0\u00e9 uma refer\u00eancia sobre a hist\u00f3ria da imprensa alternativa no Brasil. Voc\u00ea disse que agora est\u00e1 desiludido. O que se perdeu no caminho?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Primeiro, existe hoje um discurso muito manique\u00edsta, muito preso a frases feitas. Segundo, muito prisioneiro de uma vis\u00e3o de mundo que acabou.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/05\/25\/politica\/1464213018_877456.html\">O mundo da classe oper\u00e1ria n\u00e3o existe mais.<\/a>\u00a0\u00c9 outro mundo. Ainda \u00e9 capitalismo, mas outro capitalismo. Ao mesmo tempo, essa imprensa tem hoje muito pouco recurso. Ela trabalha, at\u00e9 onde sei, com muito discurso e reprodu\u00e7\u00e3o de not\u00edcia, mas com pouca gera\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma, pouca reportagem, que permitiria a ela trabalhar tamb\u00e9m um pensamento mais aut\u00f4nomo. De qualquer forma, acho que h\u00e1 coisas boas: ela foi muito eficaz, por exemplo, em captar novas lutas como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/relaciones_genero\/a\">quest\u00f5es de g\u00eanero<\/a>, raciais, de etnia e ecol\u00f3gicas. Por fim, na \u00e9poca em que eu trabalha na imprensa alternativa, tinha a ditadura, a guerra fria, a guerra do Vietn\u00e3, a revolu\u00e7\u00e3o cubana. As grandes utopias ainda estavam. Hoje onde est\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea foi assessor especial na Secom durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula. Como via o jornalismo brasileiro e como o v\u00ea agora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Eu tenho uma vis\u00e3o cr\u00edtica da imprensa convencional brasileira muito antiga, que \u00e9 at\u00e9 um pouco desagrad\u00e1vel. Eu fui jornalista na \u00e9poca de ouro do jornalismo brasileiro. Aquilo era uma f\u00e9, uma religi\u00e3o para mim. O que vejo agora \u00e9 que, para al\u00e9m do j\u00e1 danoso alinhamento unidirecional exacerbado da m\u00eddia, existe uma \u00e9tica pr\u00f3pria do jornalista brasileiro com a qual eu n\u00e3o concordo. \u00c9 o sujeito que se tornou malandro, que vai fazer um jogo malicioso em entrevistas e reportagens para ganhar destaque. \u00c9 um processo\u00a0<em>pavloviano<\/em>\u00a0em que o jornalismo mais austero, mais s\u00e9rio, ponderado, perdeu espa\u00e7o para a mal\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0O jornalista Cl\u00e1udio Abramo dizia que a \u00e9tica do jornalista deveria ser a mesma \u00e9tica de qualquer trabalhador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Poderia ser algo assim mesmo, porque a \u00e9tica cl\u00e1ssica que se ensina nas escolas de jornalismo e que aprendemos, no fundo, veio dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/estados_unidos\/a\/\">Estados Unidos<\/a>. N\u00e3o \u00e9 brasileira. L\u00e1 \u00e9 que se criou o c\u00f3digo de \u00e9tica. Os princ\u00edpios fundamentais s\u00e3o: a busca da verdade e\u00a0<em>fair play<\/em>. Mas, veja, essa palavra \u00e9 t\u00e3o estranha \u00e0 nossa cultura que n\u00e3o tem tradu\u00e7\u00e3o. Podemos dizer que \u00e9 jogo limpo, mas n\u00e3o \u00e9 exatamente isso. O\u00a0<em>fair play<\/em>\u00a0\u00e9 voc\u00ea ser honesto com o entrevistado, n\u00e3o tentar passar a rasteira nele. E acredito que \u00e9 isso que n\u00e3o sobreviveu no Brasil. Foi outra ideia fora de lugar aqui, porque n\u00e3o existe mais\u00a0<em>fair play<\/em>\u00a0no jornalismo.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote><p>Acho a paternidade que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de muita atividade, mas de pouca conversa<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Falando em\u00a0<em>fair play<\/em>, voc\u00ea acha surpreendente o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/23\/politica\/1511456838_152216.html\">Bolsonaro<\/a>, um admirador do regime militar, estar em segundo nas pesquisas eleitorais para 2018?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0N\u00e3o surpreende, porque sempre houve um processo social das classes dominantes \u2013 desculpe usar o chav\u00e3o \u2013 de n\u00e3o expor as atrocidades da ditadura de forma a criar uma consci\u00eancia cr\u00edtica. Aqui \u00e9 tudo jogado meio debaixo do tapete, a lei de anistia perdoou todos, ningu\u00e9m pode ser processado, ditadores continuam sendo homenageados com os nomes das ruas. \u00c9 uma domina\u00e7\u00e3o pela cultura. Nesse tipo de ambiente, sempre houve admiradores, pessoas que se lembram de parte dela, mas n\u00e3o do todo. Lembram-se do emprego,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/29\/economia\/1506721812_344807.html\">do milagre econ\u00f4mico<\/a>, mas n\u00e3o das atrocidades. E o Bolsonaro surge nesse momento de crise \u00fanica. De fal\u00eancia da pol\u00edtica como atividade, de fal\u00eancia do Estado. Tudo ruiu. Mas acredito que o Bolsonaro \u00e9 um fen\u00f4meno limitado, isso porque ele vai contra a vanguarda que abandonou a grande utopia, mas continua com pequenas utopias: igualdade de g\u00eanero, combate ao machismo, a necessidade de, atrav\u00e9s de pol\u00edticas diretas, compensar os 450 anos de escravatura. Todas essas lutas s\u00e3o muito recentes e ele vai contra isso tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Mas 60% dos poss\u00edveis eleitores dele s\u00e3o jovens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Mas o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/24\/internacional\/1506276160_113753.html\">fascismo da Alemanha<\/a>, por exemplo, vem tamb\u00e9m de jovens, especialmente dos da Berlim Oriental. Em Israel, \u00e9 a mesma coisa. S\u00e3o jovens de 20, 25 anos. N\u00e3o \u00e9 uma coincid\u00eancia, mesmo porque quem mais sofre com os efeitos nefastos do neoliberalismo s\u00e3o os jovens. Eles n\u00e3o t\u00eam emprego, n\u00e3o t\u00eam perspectivas. \u00c9 normal que sejam os mais revoltados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P.<\/strong>\u00a0Voc\u00ea pensa em colocar esse momento do pa\u00eds em algum de seus pr\u00f3ximos livros?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>R.<\/strong>\u00a0Outro dia, eu assisti a um filme chamado\u00a0<em>Retorno a \u00cdtaca<\/em>\u00a0[com roteiro do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/09\/01\/cultura\/1504293392_535816.html\">escritor Leonardo Padura<\/a>], em que um grupo de amigos cubanos se re\u00fane depois de anos para falar sobre suas vidas e sobre o pa\u00eds. Tenho a inten\u00e7\u00e3o de fazer algo semelhante, j\u00e1 que tenho um grupo de amigos bem semelhante. Falamos do passado, mas tamb\u00e9m de todos os ataques que o pa\u00eds est\u00e1 sofrendo depois do que eu considero ter sido golpe institucional. Precisou ser dado um golpe para que houvesse outros ataques, como o teto de gastos e a nova lei trabalhista. O cen\u00e1rio agora mostra o Lula em primeiro lugar e crescendo nas pesquisas, mas acredito que ele n\u00e3o vai ser candidato. Sua elei\u00e7\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com tudo o que aconteceu at\u00e9 agora. Ou v\u00e3o dar um tiro nele, como acontece nos Estados Unidos, ou v\u00e3o torna-lo ineleg\u00edvel. No come\u00e7o, a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/operacion_lava_jato\/a\/\">Lava Jato<\/a>\u00a0tinha um enfoque muito grande no PT, ganhou ades\u00e3o da m\u00eddia e de parte da sociedade por isso, mas depois ela passou a atingir outros alvos. Agora, com a aproxima\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es, o que parece \u00e9 que o PT come\u00e7a, mais uma vez, a ser o foco. Ningu\u00e9m sabe o que vem pela frente, por isso, acho que a frase do momento \u00e9: quem sabe o que vai acontecer \u00e9 porque est\u00e1 muito mal informado.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tenho uma vis\u00e3o cr\u00edtica da imprensa convencional brasileira muito antiga, que \u00e9 at\u00e9 um pouco desagrad\u00e1vel. Eu fui jornalista na \u00e9poca de ouro do jornalismo brasileiro. Aquilo era uma f\u00e9, uma religi\u00e3o para mim. O que vejo agora \u00e9 que, para al\u00e9m do j\u00e1 danoso alinhamento unidirecional exacerbado da m\u00eddia, existe uma \u00e9tica pr\u00f3pria do jornalista brasileiro com a qual eu n\u00e3o concordo. \u00c9 o sujeito que se tornou malandro, que vai fazer um jogo malicioso em entrevistas e reportagens para ganhar desta<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":227129,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[2,6],"tags":[],"class_list":["post-227128","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/escritor.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/227128","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=227128"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/227128\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/227129"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=227128"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=227128"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=227128"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}