{"id":227271,"date":"2017-12-11T14:47:30","date_gmt":"2017-12-11T17:47:30","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=227271"},"modified":"2017-12-11T14:47:30","modified_gmt":"2017-12-11T17:47:30","slug":"um-jornal-negro-contra-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/um-jornal-negro-contra-ditadura\/","title":{"rendered":"Um jornal negro contra a ditadura"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"bigtitle\" data-section=\"MEM\u00d3RIA\"><\/h1>\n<p><time class=\"time d-b\" datetime=\"2017-12-11BRST15:12\">Lucas Estanislau e Tiago Angelo\u00a0<\/time><\/p>\n<div class=\"subtitle\"><em><strong>Discuss\u00f5es trazidas pelo &#8216;\u00c1rvore&#8217; ajudaram a marcar o 20 de novembro &#8211; data da morte de Zumbi dos Palmares &#8211; como Dia da Consci\u00eancia Negra<\/strong><\/em><\/div>\n<div class=\"social pc\">\n<\/div>\n<div class=\"descript\">\n<p>S\u00e3o Paulo, meados da d\u00e9cada de 70. As universidades brasileiras borbulhavam com jornais \u201cnanicos\u201d assinados por estudantes que faziam resist\u00eancia \u00e0 ditadura civil-militar. Nelas, o movimento negro tentava ganhar for\u00e7a em um ambiente que tinha portas fechadas aos que n\u00e3o pertencessem \u00e0s elites do pa\u00eds. A cria\u00e7\u00e3o de jornais independentes foi um dos sinais dessa luta &#8211; e, neste contexto, surgiu\u00a0o &#8220;\u00c1rvore das Palavras&#8221;.<\/p>\n<p>O &#8220;\u00c1rvore&#8221; foi idealizado pelo jornalista e escritor Jamu Minka, que queria criar um canal que ultrapassasse os muros da universidade, atingindo diretamente o povo negro, em uma proposta unificadora. A ideia era inspirada em experi\u00eancias ocorridas em Angola e Mo\u00e7ambique, onde havia a proposta de uma discuss\u00e3o pol\u00edtica levada a cabo em uma linguagem mais simples. O nome alude \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o africana de se reunir sob as \u00e1rvores de baob\u00e1 para ouvir a palavra dos mais velhos.<\/p>\n<p>A imprensa ligada ao movimento negro, de luta por direitos e de combate ao racismo, tem longa tradi\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria brasileira. Entre os t\u00edtulos, destacaram-se na primeira metade do s\u00e9culo XX &#8220;O Clarim d\u2019 Alvorada&#8221;, que circulou de 1924 a 1932, e &#8220;Quilombo&#8221;, fundado em 1948 por Abdias do Nascimento. \u201cUma das coisas que sempre ficou como disposi\u00e7\u00e3o nossa foi de retomar a imprensa negra. Ent\u00e3o o Jamu veio com essa proposta. N\u00f3s come\u00e7amos a fazer esse jornal, como era pr\u00e1tica do movimento estudantil na \u00e9poca. Num primeiro momento, em um mime\u00f3grafo; depois, com aquelas impressoras que permitiam fazer textos em A4\u201d, afirma Rafael Pinto, entao estudante de ci\u00eancias sociais na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e membro da N\u00facleo Negro Socialista.<\/p>\n<p>Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/462_site-jornal-arvore-das-palavras.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nO projeto foi idealizado pelo jornalista e escritor Jamu Minka, que queria criar um canal que ultrapassasse os muros da universidade<\/p>\n<p>Ele conta que, antes de o &#8220;\u00c1rvore&#8221; surgir, a milit\u00e2ncia j\u00e1 havia come\u00e7ado a distribuir materiais. \u201cInicialmente, n\u00f3s fizemos textos de negro para negro e n\u00f3s peg\u00e1vamos temas que ach\u00e1vamos relevantes, rod\u00e1vamos e distribu\u00edamos onde n\u00f3s encontr\u00e1vamos o povo negro\u201d, diz.<\/p>\n<p>Outro membro que estava presente na cria\u00e7\u00e3o do jornal e que permaneceu at\u00e9 o fim de sua circula\u00e7\u00e3o foi o ent\u00e3o estudante de economia Milton Barbosa. Para ele, a elabora\u00e7\u00e3o do jornal se deu por conta da \u201cnecessidade de ter um meio de comunica\u00e7\u00e3o&#8221;. &#8220;N\u00f3s discut\u00edamos a necessidade de criar alguma coisa que levasse nossa mensagem\u201d, diz. O objetivo era o de fazer \u201cdiscuss\u00f5es com os setores de esquerda no Brasil, fal\u00e1vamos com eles da necessidade de falar [dessas] pautas\u201d.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Clandestino da d\u00e9cada de 70&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>O \u201cclandestino da d\u00e9cada de 1970\u201d, como tamb\u00e9m ficou conhecido o jornal, era impresso sob segredo no Centro Acad\u00eamico de Economia da USP, em um per\u00edodo no qual a quest\u00e3o racial era uma pauta censurada pela ditadura. Os fundos para a impress\u00e3o eram angariados coletivamente entre os membros, que participavam de todo o processo de cria\u00e7\u00e3o do peri\u00f3dico , da diagrama\u00e7\u00e3o \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os autores do jornal n\u00e3o recordam exatamente o ano de lan\u00e7amento do primeiro n\u00famero, mas h\u00e1 registros de edi\u00e7\u00f5es a partir de 1974. Tamb\u00e9m n\u00e3o se sabe quantas foram lan\u00e7adas. O jornal n\u00e3o tinha uma periodicidade definida, j\u00e1 que, segundo Pinto, os exemplares iam \u00e0s ruas quando os membros sentiam necessidade para tal.\u00a0O &#8220;\u00c1rvore das Palavras&#8221; circulava\u00a0no viaduto do Ch\u00e1, na pra\u00e7a da Liberdade (ambos na regi\u00e3o central da capital paulista) e nos bailes negros que tamb\u00e9m come\u00e7avam a ser organizados em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nWqP0o2HnnQ\" width=\"900\" height=\"506\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Suas pautas trataram de temas relacionados ao encarceramento, trabalho dom\u00e9stico, quest\u00f5es femininas, cotas e outras. As discuss\u00f5es trazidas pelo &#8220;\u00c1rvore&#8221; ajudaram a marcar o 20 de novembro &#8211; data da morte de Zumbi dos Palmares &#8211; como Dia da Consci\u00eancia Negra.<\/p>\n<p>E, \u00e9 claro, a censura ficava de olho. Segundo o livro<em>\u00a0<a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/Hist%C3%B3rias_do_movimento_negro_no_Brasil.html?id=iRm8AAAAIAAJ&amp;redir_esc=y\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hist\u00f3rias do movimento negro no Brasil: Depoimentos ao CPDOC<\/a><\/em>, organizado por Verena Alberti e Amilcar Araujo Pereira, toda a imprensa negra estava sendo observada pelas institui\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o da ditadura. Al\u00e9m do &#8220;\u00c1rvore&#8221;, outras iniciativas semelhantes tamb\u00e9m eram acompanhadas de perto pelo Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI), \u00f3rg\u00e3o repressivo do governo militar.<\/p>\n<section class=\"noticias-relevantes cf\">\n<h4 class=\"subtitle\"><\/h4>\n<\/section>\n<div><\/div>\n<p>Imprensa PT-SP<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/fb_13112015120017.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nRafael Pinto foi um dos criadores do &#8220;\u00c1rvore das Palavras&#8221;<\/p>\n<p><strong>Cultura independente<\/strong><\/p>\n<p>Barbosa relata que o jornal come\u00e7ou um trabalho \u201cpara discutir essa quest\u00e3o do racismo, da viol\u00eancia policial, a necessidade de ter uma cultura independente, que evitasse comercializa\u00e7\u00e3o, porque j\u00e1 tinha gente querendo ganhar dinheiro com aquela cultura, aquele samba, a dan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Segundo ele, o &#8220;\u00c1rvore das Palavras&#8221; tamb\u00e9m trabalhava \u201carrebanhando pessoas pro processo de luta e de enfrentamento \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o&#8221;. &#8220;Ent\u00e3o, \u00e0s vezes, cham\u00e1vamos pra lugares que estavam tendo atividades, reuni\u00f5es\u201d, conta.<\/p>\n<p>Para Barbosa, os anos de exist\u00eancia do jornal marcam o in\u00edcio de uma luta que j\u00e1 dura mais de 40 anos, muito por conta do di\u00e1logo que o &#8220;\u00c1rvore&#8221; desenvolveu com outros peri\u00f3dicos e entidades de forte concentra\u00e7\u00e3o negra. &#8220;N\u00f3s desenvolvemos isso em escolas de samba, nos terreiros de candombl\u00e9 e umbanda, nos grupos culturais da periferia, grupos de capoeira&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Junto com per\u00edodicos de mesma tem\u00e1tica, como o &#8220;Jornegro&#8221; e &#8220;Ti\u00e7\u00e3o&#8221;, o &#8220;\u00c1rvore das Palavras&#8221; foi respons\u00e1vel pela inaugura\u00e7\u00e3o de debates que geraram unidade ao movimento negro no Brasil e que culminaram na cria\u00e7\u00e3o do Movimento Negro Unificado, \u00a0em 1978, onde Pinto e Barbosa tiveram tamb\u00e9m um papel de destaque. A cria\u00e7\u00e3o do MNU consolidou de vez a for\u00e7a da milit\u00e2ncia negra no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O momento que o jornal parou de circular n\u00e3o \u00e9 preciso. Ocorreu entre o final de 1978 e o come\u00e7o de 1979, quando o movimento negro passou se organizar dentro de grupos mais fortes e com mais autonomia.\u00a0&#8220;Como o &#8216;\u00c1rvore&#8217; foi uma ferramente coletiva, n\u00e3o teve um &#8216;porque ele acabou&#8217;. Surgiram outros instrumentos, outras ferramentas, e ele foi deixado de lado. Aquela forma de fazer j\u00e1 n\u00e3o cabia mais, principalmente com o surgimento do MNU, que quer\u00edamos que fosse uma organiza\u00e7\u00e3o que unificasse todos os movimentos negros&#8221;, diz Rafael Pinto.<\/p>\n<p>Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/1028702-30-06-2016dsc_4107.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nPara Milton Barbosa, a elabora\u00e7\u00e3o do &#8220;\u00c1rvore&#8221; se deu por conta da \u201cnecessidade de se ter um meio de comunica\u00e7\u00e3o&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Discuss\u00f5es trazidas pelo &#8216;\u00c1rvore&#8217; ajudaram a marcar o 20 de novembro &#8211; data da morte de Zumbi dos Palmares &#8211; como Dia da Consci\u00eancia Negra<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":227272,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-227271","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/jornal.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/227271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=227271"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/227271\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/227272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=227271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=227271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=227271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}