{"id":22842,"date":"2013-10-14T09:24:02","date_gmt":"2013-10-14T12:24:02","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=22842"},"modified":"2013-10-14T09:24:02","modified_gmt":"2013-10-14T12:24:02","slug":"raio-x-da-matanca-silenciosa-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/raio-x-da-matanca-silenciosa-no-brasil\/","title":{"rendered":"Raio X da matan\u00e7a silenciosa no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>A investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica que apresento neste caderno mostra que a pol\u00edtica brasileira, nas pequenas e grandes cidades, ainda se move pela viol\u00eancia. Pelo menos 1.133 assassinatos ocorreram na base da pir\u00e2mide pol\u00edtica nos \u00faltimos 34 anos &#8211; o que equivale a um crime a cada 11 dias no Pa\u00eds.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-22843\" alt=\"ImageProxy (11)\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/ImageProxy-1110.jpg\" width=\"64\" height=\"64\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/ImageProxy-1110.jpg 64w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/ImageProxy-1110-50x50.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 64px) 100vw, 64px\" \/><\/p>\n<p>Ao longo de 17 meses, fiz o levantamento de homic\u00eddios em Tribunais de Justi\u00e7a dos Estados, nos acervos de entidades de direitos humanos, nos arquivos de Comiss\u00f5es Parlamentares de Inqu\u00e9rito (CPIs), em delegacias de pol\u00edcia e em cart\u00f3rios. Percorri 14 Estados, conversei com fam\u00edlias de v\u00edtimas, advogados, delegados, pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Essa longa reportagem levanta uma lista de crimes provocados pela disputa de poder pol\u00edtico. S\u00e3o assassinatos cometidos para garantir espa\u00e7o na m\u00e1quina p\u00fablica, vingar a morte de um aliado ou liquidar testemunhas. S\u00f3 foram considerados casos sem diverg\u00eancias de vers\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os de investiga\u00e7\u00e3o sobre a autoria e as motiva\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para um raio X da pol\u00edtica que se pratica pelo Brasil afora, comecei a contagem da matan\u00e7a pela manh\u00e3 de 28 de agosto de 1979 &#8211; quando entrou em vigor a Lei da Anistia, que facilitou o acesso \u00e0s institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas &#8211; e analisei casos ocorridos at\u00e9 o final de agosto deste ano. Escolhi a Lei de Anistia como ponto de partida do trabalho por se tratar de um marco de pacifica\u00e7\u00e3o na nossa hist\u00f3ria recente.<\/p>\n<p>J\u00e1 no primeiro dia de vig\u00eancia da lei, o vereador Joaquim Eleut\u00e9rio da Paix\u00e3o, de S\u00e3o Jo\u00e3o do Piau\u00ed (PI), foi morto pelo prefeito Raimundo de Souza, ambos da ent\u00e3o governista Arena, como apontou a pol\u00edcia na \u00e9poca. A 240 quil\u00f4metros dali e tr\u00eas d\u00e9cadas depois, em Pio IX, outra cidade piauiense, um vaqueiro encontrou, em 5 de fevereiro de 2013, uma m\u00e3o para fora da terra. Era o corpo de Em\u00eddio Reis (PMDB), ex-vereador de S\u00e3o Juli\u00e3o enterrado vivo a mando do vice-prefeito Francimar Pereira (PP), segundo a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>As disputas sangrentas pelo poder n\u00e3o se limitam ao Piau\u00ed do ex-ministro da Justi\u00e7a Petr\u00f4nio Portella (1925-1980), um dos redatores da Anistia: atingem todos os atores da pol\u00edtica, de prefeitos a deputados, passando por vereadores, assessores, familiares, amigos e aliados. A barb\u00e1rie atingiu 200 vereadores e at\u00e9 um senador, Olavo Pires (PTB-RO), executado com 40 tiros em 16 de outubro de 1990, ap\u00f3s o 1.\u00ba turno das elei\u00e7\u00f5es para o governo de Rond\u00f4nia, no qual fora o mais votado.<\/p>\n<p><strong>Alerta.<\/strong>\u00a0A viol\u00eancia que prospera \u00e0 sombra da democracia n\u00e3o \u00e9 monitorada. Um relat\u00f3rio da Justi\u00e7a Eleitoral detectou apenas 100 mortes pol\u00edticas desde 1979. No levantamento que fiz, 13 pessoas foram assassinadas em disputas pol\u00edticas s\u00f3 neste ano. Em 2012, foram 91 mortes, recorde em tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Obviamente, a lista aqui apresentada est\u00e1 sujeita a questionamentos. O objetivo jornal\u00edstico, aqui, n\u00e3o \u00e9 compensar a aus\u00eancia de uma lista oficial ou estabelecer crit\u00e9rios para a sua elabora\u00e7\u00e3o. A proposta \u00e9 alertar e levantar um debate p\u00fablico e transparente sobre o tema, como exigem as democracias.<\/p>\n<p><strong>Nem s\u00f3 grot\u00f5es.<\/strong>\u00a0Ao longo de minha apura\u00e7\u00e3o, ouvi parlamentares dizerem, nos corredores do Congresso, que a viol\u00eancia pol\u00edtica se limita aos grot\u00f5es. \u00c9 fato que o \u00faltimo assassinato ocorrido no Parlamento ocorreu no long\u00ednquo 1963, quando o senador alagoano Arnon de Mello &#8211; pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello &#8211; apertou o gatilho contra o conterr\u00e2neo Silvestre P\u00e9ricles e acabou matando Jos\u00e9 Kairala, do Acre, que nada tinha a ver com a rixa. Mas quem analisa os casos de viol\u00eancia envolvendo a disputa pol\u00edtica percebe conex\u00f5es entre os confrontos locais distantes de Bras\u00edlia e o n\u00facleo do poder. N\u00e3o existem dois sistemas sem liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assessores de pol\u00edticos em Bras\u00edlia e nas capitais se irritaram com meus pedidos de esclarecimento sobre crimes cometidos por aliados de seus chefes no interior sob a alega\u00e7\u00e3o de que lideran\u00e7as nacionais e estaduais n\u00e3o t\u00eam responsabilidade por tais fatos. Nas elei\u00e7\u00f5es, no entanto, esses mesmos l\u00edderes n\u00e3o se preocupam em associar sua imagem a figuras pol\u00eamicas e suspeitas de assassinato.<\/p>\n<p>Constatei que a viol\u00eancia prospera diante da cumplicidade da extensa cadeia pol\u00edtica. O esfor\u00e7o para impedir investiga\u00e7\u00f5es abre espa\u00e7o para a impunidade. C\u00fapulas partid\u00e1rias fecham os olhos para desmandos locais. Governadores perseguem, muitas vezes, delegados e promotores, encarregados de formalizar as den\u00fancias.<\/p>\n<p>Apesar de a matan\u00e7a relatada neste caderno ter como causa a disputa pelo poder, curiosamente, o crime pol\u00edtico raramente \u00e9 ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Fonte: Estado de S. Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica que apresento neste caderno mostra que a pol\u00edtica brasileira, nas pequenas e grandes cidades, ainda se move pela viol\u00eancia. Pelo menos 1.133 assassinatos ocorreram na base da pir\u00e2mide pol\u00edtica nos \u00faltimos 34 anos &#8211; o que equivale a um crime a cada 11 dias no Pa\u00eds. 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