{"id":229575,"date":"2018-01-01T11:29:10","date_gmt":"2018-01-01T14:29:10","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=229575"},"modified":"2018-01-01T11:29:10","modified_gmt":"2018-01-01T14:29:10","slug":"frankenstein-200-anos-moderno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/frankenstein-200-anos-moderno\/","title":{"rendered":"Frankenstein, 200 anos moderno"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Em 1 de janeiro de 1818 foi publicada uma modesta edi\u00e7\u00e3o do m\u00edtico romance em que uma precoce Mary W. Shelley moldou os dilemas e avan\u00e7os de sua \u00e9poca<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<aside id=\"compartir_superior\" class=\"compartir compartir--fijo\">\n<div class=\"compartir__interior\">\n<div class=\"compartir-varios\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Tereixa Constenla\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/tereixa_constenla\/a\/\">TEREIXA CONSTENLA<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/12\/29\/cultura\/1514544921_146287_1514811675_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/12\/29\/cultura\/1514544921_146287_1514811675_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/12\/29\/cultura\/1514544921_146287_1514811675_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/12\/29\/cultura\/1514544921_146287_1514811675_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Basil Rathbone em 'O Filho de Frankenstein', de Rowland V. Lee\" width=\"980\" height=\"1236\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Basil Rathbone em &#8216;O Filho de Frankenstein&#8217;, de Rowland V. Lee<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">UNIVERSAL PICTURES \/ ALBUM<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">Frankenstein nasceu de algo mais do que o desafio de Lord Byron ao lado de uma chamin\u00e9 com vista para o lago L\u00e9man no ver\u00e3o mais frio do s\u00e9culo XIX. Tudo o que foi depositado por Mary Wollstonecraft Shelley na narra\u00e7\u00e3o que deu \u00e0 luz um mito universal \u2013 inspirador de quase mil obras entre o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/cine\/a\">cinema<\/a>, o teatro e os quadrinhos \u2013 tem rela\u00e7\u00e3o com as circunst\u00e2ncias extraordin\u00e1rias que a cercaram desde que nasceu em 30 de agosto de 1797 em Londres. Ao seu redor o velho mundo havia se fragmentado ap\u00f3s v\u00e1rias revolu\u00e7\u00f5es. A industrial se encontrava em plena excita\u00e7\u00e3o gra\u00e7as ao aperfei\u00e7oamento da m\u00e1quina a vapor de James Watt. A pol\u00edtica digeria a overdose de guilhotina de Robespierre e companhia abra\u00e7ando a volta da ordem. As ideias e a ci\u00eancia (ainda chamada filosofia natural) estavam igualmente agitadas, com as teorias de Lavoisier que inauguram a qu\u00edmica moderna e as expedi\u00e7\u00f5es aos polos para se aprofundar no magnetismo. E todas aquelas revolu\u00e7\u00f5es tomavam ch\u00e1 em sua casa atra\u00eddas por seu pai, o romancista e fil\u00f3sofo radical William Godwin (1756-1836), partid\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o da propriedade e contr\u00e1rio a toda forma de governo. O primeiro anarquista.<\/p>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">O pr\u00f3prio entorno dom\u00e9stico \u00e9 forjado contr\u00e1rio \u00e0 conven\u00e7\u00e3o. Godwin vivia com sua segunda esposa, Mary Jane Clairmont, e cinco filhos de diferentes origens biol\u00f3gicas no que hoje seria uma moderna fam\u00edlia reconstitu\u00edda. Mary W. Shelley cresce marcada pelo pensamento de sua m\u00e3e, a escritora e fil\u00f3sofa Mary Wollstonecraft (1759-1797), que a convida a formar-se como uma cidad\u00e3 consciente em vez de uma esposa submissa. Uma m\u00e3e ausente, cujo t\u00famulo era um local frequente de leitura. A autora transportar\u00e1 sua experi\u00eancia de orfandade \u00e0 criatura liter\u00e1ria, que espalha dor e morte porque n\u00e3o tem quem a queira.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/12\/29\/babelia\/1514544921_146287_1514552418_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/12\/29\/babelia\/1514544921_146287_1514552418_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/12\/29\/babelia\/1514544921_146287_1514552418_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Boris Karloff em 'O doutor Frankenstein', de James Whale.\" width=\"360\" height=\"443\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Boris Karloff em &#8216;O doutor Frankenstein&#8217;, de James Whale.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">Em 1792, ap\u00f3s o sucesso de um ensaio em defesa da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, Mary Wollstonecraft publicou\u00a0<em>Uma Reivindica\u00e7\u00e3o pelos Direitos da Mulher<\/em>, onde exigia a educa\u00e7\u00e3o \u00e0s meninas: \u201cPara fazer o contrato social verdadeiramente equitativo, e com a finalidade de estender aqueles princ\u00edpios esclarecedores que s\u00f3 podem melhorar o destino do homem, deve permitir-se \u00e0s mulheres encontrar sua virtude no conhecimento, o que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel a menos que sejam educadas mediante as mesmas atividades que os homens\u201d. \u00c9 considerado o primeiro tratado feminista, paralelamente \u00e0\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos da Mulher e da Cidad\u00e3<\/em>\u00a0escrita pela francesa Olympe de Gouges, decapitada em Paris por querer levar os direitos humanos longe demais.<\/p>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">Se o pensamento de Mary Wollstonecraft era transgressor em si mesmo, sua vida encarnou v\u00e1rios mitos rom\u00e2nticos por seus desamores e suas duas tentativas de suic\u00eddio. Entre o epis\u00f3dio do l\u00e1udano e o do rio T\u00e2misa viajou pela Escandin\u00e1via com sua primeira filha, Fanny, e uma bab\u00e1. Da experi\u00eancia sairia um livro de viagens que entusiasmou William Godwin: \u201cSe alguma vez foi escrita uma obra com a inten\u00e7\u00e3o de que um homem se apaixonasse pelo autor, acho que \u00e9 essa\u201d. Os dois escritores se tornam amigos, amantes e, por \u00faltimo, c\u00f4njuges entre chacotas da imprensa conservadora (Godwin havia se manifestado contra o casamento em escritos p\u00fablicos). Na quarta-feira 30 de agosto de 1797 nasce a \u00fanica filha do casal, Mary. A fil\u00f3sofa passou as contra\u00e7\u00f5es lendo em voz alta\u00a0<em>Os Sofrimentos do Jovem Werther<\/em>, de Goethe, com seu marido. O mesmo livro que no futuro ser\u00e1 apreciado por uma criatura de dois metros e meio de altura e l\u00e1bios negros.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\"><b>Filha de dois fil\u00f3sofos radicais, os bi\u00f3grafos sugerem que cresceu com mais pensadores do que afetos<\/b><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">Mary talvez n\u00e3o tenha sido educada como teria desejado sua m\u00e3e, que faleceu 11 dias ap\u00f3s o parto, mas seu pai estimulou seu intelecto desde o come\u00e7o. Os bi\u00f3grafos sugerem que cresceu com mais pensadores do que afetos. \u201cEla frequentemente sentia-se sozinha e carente de um sentimento de identidade familiar\u201d, diz James Lynn, \u201cas rela\u00e7\u00f5es com a segunda esposa de seu pai eram pobres, e mesmo que Godwin tenha lhe dado uma boa educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0s suas necessidades emocionais\u201d.<\/p>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">Mary podia ouvir em sua casa o poete Samuel Taylor Coleridge, o inventor William Nicholson e o qu\u00edmico Humphry Davy. Seu pai a levava em confer\u00eancias sobre eletricidade e para tomar ch\u00e1 com o divulgador do vegetarianismo John Frank Newton. Todo esse magma individual e criativo deixou marcas em Frankenstein: o capit\u00e3o Walton faz refer\u00eancia a um poema de Coleridge (\u2018A Balada do Velho Marinheiro\u2019) e o gigante mata, mas \u00e9 vegetariano. Um velho amigo de Godwin \u00e9 apresentado no come\u00e7o do romance: \u201cNa opini\u00e3o do doutor Darwin, e de alguns fisiologistas da Alemanha, os acontecimentos em que a presente fic\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada n\u00e3o s\u00e3o inteiramente imposs\u00edveis\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|foto\" class=\"sumario_foto izquierda\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/12\/29\/babelia\/1514544921_146287_1514552959_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/12\/29\/babelia\/1514544921_146287_1514552959_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/12\/29\/babelia\/1514544921_146287_1514552959_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Boris Karloff em 'Frankenstein', de James Whale\" width=\"360\" height=\"433\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Boris Karloff em &#8216;Frankenstein&#8217;, de James Whale<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-autor\">GETTY<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">O m\u00e9dico e naturalista Erasmus Darwin, defensor de uma teoria sobre a origem \u00fanica da vida e av\u00f4 do autor de\u00a0<em>A Origem das Esp\u00e9cies<\/em>, tamb\u00e9m ser\u00e1 evocado em Villa Diodati no frio ver\u00e3o de 1816. Horas antes de Mary ter a vis\u00e3o que alimenta\u00a0<em>Frankenstein<\/em>, os poetas Lord Byron e Shelley recordam um de seus supostos testes, como relata a pr\u00f3pria escritora: \u201cAo que parece havia conservado um pouco de massa em um pote de vidro, at\u00e9 que, por algum extraordin\u00e1rio processo, aquilo come\u00e7ou a se agitar com um movimento aut\u00f4nomo. (&#8230;) Talvez um cad\u00e1ver pudesse reviver, o galvanismo deu provas de coisas semelhantes: talvez as partes que comp\u00f5em uma criatura possam ser constru\u00eddas, e depois possam ser reunidas e dotadas de calor vital\u201d. A grande pergunta que se faz Victor Frankenstein \u2013 \u201cOnde estar\u00e1 o princ\u00edpio da vida?\u201d \u2013 era a grande pergunta da \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">Diante da falta de respostas precisas, os substitutos triunfam. A eletricidade vive seu momento de gl\u00f3ria desde meados do s\u00e9culo XVIII. As descobertas cient\u00edficas de Benjamin Franklin, Luigi Galvani e Alessandro Volta convivem com a prestidigita\u00e7\u00e3o ambulante. Em seu ensaio\u00a0<em>Mulheres e Livros<\/em>, o editor Stefan Bollman recria um popular espet\u00e1culo de \u201caparelhos el\u00e9tricos\u201d: \u201cColocavam em funcionamento as rodas de suas m\u00e1quinas eletrost\u00e1ticas e enviavam descargas el\u00e9tricas atrav\u00e9s das m\u00e3os de uma cadeia humana. Suspendiam uma pessoa de tal forma que levitava e faziam com que sua cabe\u00e7a brilhasse\u201d.<\/p>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">At\u00e9 mesmo Percy Bysshe Shelley entrou na onda da eletricidade em Oxford, como detalha Charles E. Robinson, principal especialista na obra de Mary W. Shelley, em sua introdu\u00e7\u00e3o a uma edi\u00e7\u00e3o anotada para cientistas e inventores publicada em comemora\u00e7\u00e3o ao bicenten\u00e1rio da cria\u00e7\u00e3o da obra: \u201cConstruiu sua pr\u00f3pria pipa el\u00e9trica, fez fa\u00edscas saltarem de um aparelho el\u00e9trico e at\u00e9 armazenou o fluido da eletricidade em garrafas de Leyden: esses testes servem de base \u00e0s experi\u00eancias el\u00e9tricas do pai de Victor, Alphonse, em\u00a0<em>Frankenstein<\/em>\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\"><b>Quando \u00e9 publicado anonimamente em 1818 especula-se com a autoria do poeta Percy B. Shelley<\/b><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">O poeta Shelley tamb\u00e9m acabaria frequentando a \u00e1gora dom\u00e9stica de William Godwin, atra\u00eddo pelo pensamento de um fil\u00f3sofo quase mais c\u00e9lebre por controv\u00e9rsias p\u00fablicas como a que manteve com Malthus do que por seus densos tratados pol\u00edticos. Percy tamb\u00e9m era especialista em controv\u00e9rsias: casou-se apesar da oposi\u00e7\u00e3o de sua influente fam\u00edlia e acabava de ser expulso de Oxford por fazer propaganda do ate\u00edsmo. Mary tinha 16 anos quando foge com ele, mas voltam logo por falta de dinheiro. A partir da\u00ed suas biografias alimentam o mito do casal perfeito do romantismo, com uma sucess\u00e3o de sucessos liter\u00e1rios e cad\u00e1veres jovens: s\u00f3 um de seus quatro filhos sobrevive e, aos 29 anos, Percy B. Shelley se afoga na It\u00e1lia. No futuro a escritora se afastar\u00e1 da condi\u00e7\u00e3o de maldita e se preocupar\u00e1 em obter a aprova\u00e7\u00e3o social para ela, seu \u00fanico filho e o poeta morto.<\/p>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">Mas quando Mary W. Shelley escreve seu relato em 1816 para a competi\u00e7\u00e3o sobre hist\u00f3rias de fantasmas, convocada por Lord Byron no ver\u00e3o mais frio do s\u00e9culo, tem somente 18 anos, um beb\u00ea vivo e outro morto, e uma rela\u00e7\u00e3o escandalosa que acabar\u00e1 com o suic\u00eddio da primeira esposa de Shelley. Ignora que est\u00e1 forjando um mito universal e que, naquela fam\u00edlia onde s\u00f3 contavam os que tinham m\u00e9ritos liter\u00e1rios, ultrapassar\u00e1 a popularidade de todos eles.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|foto\" class=\"sumario_foto derecha\"><a name=\"sumario_5\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w360\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/12\/29\/babelia\/1514544921_146287_1514552839_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/12\/29\/babelia\/1514544921_146287_1514552839_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/cultura\/imagenes\/2017\/12\/29\/babelia\/1514544921_146287_1514552839_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Robert de Niro em 'Frankenstein de Mary Shelley', dirigido por Kenneth Branagh\" width=\"360\" height=\"549\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Robert de Niro em &#8216;Frankenstein de Mary Shelley&#8217;, dirigido por Kenneth Branagh<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">Em 1 de janeiro de 1818, quase dois anos depois da estadia no lago L\u00e9man, \u00e9 publicado\u00a0<em>Frankenstein ou o Prometeu Moderno<\/em>\u00a0com uma tiragem de 500 exemplares. N\u00e3o tem assinatura. A m\u00e3o de Percy B. Shelley (que fornece corre\u00e7\u00f5es ao manuscrito) chega a ser especulada. Mas se algum incr\u00e9dulo sobreviveu nesses 200 anos, perdeu a \u00faltima esperan\u00e7a em 2013. Nesse ano foi leiloado por 477.422 euros (1,9 milh\u00e3o de reais) um exemplar da primeira edi\u00e7\u00e3o dedicada a Lord Byron \u201cpelo autor\u201d. A letra foi autentificada como a de Mary W. Shelley.<\/p>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">Na segunda edi\u00e7\u00e3o de 1823 (de tiragem semelhante \u00e0 anterior), a escritora se identifica. Em apenas tr\u00eas anos s\u00e3o feitas 10 adapta\u00e7\u00f5es teatrais diferentes, incluindo finais par\u00f3dicos sobre a morte da criatura, que ir\u00e1 se afastando-se de seu cultivado esp\u00edrito original \u2013 lia Plutarco, Milton e Goethe \u2013 para transformar-se no imagin\u00e1rio coletivo em um monstro de parafuso na cabe\u00e7a e um tanto bobalh\u00e3o. A obra se emancipa da autora. Seus leitores encontram em\u00a0<em>Frankenstein<\/em>\u00a0o que precisam: terror g\u00f3tico, antecipa\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e um dilema \u00e9tico sobre os limites da ci\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">No dia de Halloween de 1831 \u00e9 lan\u00e7ada uma terceira edi\u00e7\u00e3o de 4.020 exemplares. A escritora introduz mudan\u00e7as e cala os c\u00e9ticos: \u201cCertamente, n\u00e3o devo ao meu marido a sugest\u00e3o de nenhum epis\u00f3dio, nem sequer de um guia nas emo\u00e7\u00f5es e, entretanto, se n\u00e3o fosse por seu est\u00edmulo, essa hist\u00f3ria nunca teria adquirido o formato com o qual se apresentou ao mundo\u201d. Assina sua introdu\u00e7\u00e3o como M.W.S., mas a hist\u00f3ria da literatura prescindir\u00e1 do sobrenome materno.<\/p>\n<p class=\"m_-3334514591212096810gmail-MsoNormal\">Mas somente rastreando suas origens familiares e as circunst\u00e2ncias dos primeiros anos de sua vida pode-se responder \u00e0 pergunta que tantas vezes fizeram a Mary W. Shelley: \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel que eu, \u00e0 \u00e9poca uma jovenzinha, pudesse conceber e desenvolver uma ideia t\u00e3o horrorosa?\u201d.<\/p>\n<p class=\"nota_pie\"><em>Frankenstein<\/em>. Mary W. Shelley. Edi\u00e7\u00e3o de 1818, revisada e corrigida por Charles E. Robinson. Anotada para cientistas, inventores e curiosos em geral. Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 C. Vales e Vicente Campos. Ariel, 2017. 344 p\u00e1ginas. 20,90 euros (83 reais).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1 de janeiro de 1818 foi publicada uma modesta edi\u00e7\u00e3o do m\u00edtico romance em que uma precoce Mary W. 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