{"id":229585,"date":"2018-01-01T11:50:29","date_gmt":"2018-01-01T14:50:29","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=229585"},"modified":"2018-01-01T11:50:29","modified_gmt":"2018-01-01T14:50:29","slug":"passei-o-ano-novo-sozinho-e-o-terminei-como-o-comecei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/passei-o-ano-novo-sozinho-e-o-terminei-como-o-comecei\/","title":{"rendered":"Passei o Ano Novo sozinho e o terminei como o comecei"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\"><em>Um homem de 37 anos, divorciado. Discute com seus pais e decide encarar o fim do ano sem companhia. Este \u00e9 o relato da sua aventura<\/em><\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<aside id=\"compartir_superior\" class=\"compartir compartir--fijo\">\n<div class=\"compartir__interior\">\n<div class=\"compartir-varios\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"firma \">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Agust\u00edn Gal\u00e1n\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/icon\/a\/\">AGUST\u00cdN GAL\u00c1N<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"articulo-datos\"><\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2015\/12\/17\/estilo\/1450371062_009129_1514733737_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2015\/12\/17\/estilo\/1450371062_009129_1514733737_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2015\/12\/17\/estilo\/1450371062_009129_1514733737_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2015\/12\/17\/estilo\/1450371062_009129_1514733737_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Passei o Ano Novo sozinho e o terminei como o comecei\" width=\"980\" height=\"577\" \/><\/figure>\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<section id=\"sumario_7|apoyos\" class=\"sumario_apoyos izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<header class=\"sumario-encabezado\">\n<h3 class=\"sumario-titulo\"><\/h3>\n<\/header>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Tenho 37 anos e me divorciei faz um ano. Tenho uma filha com idade pr\u00e9-escolar. N\u00e3o tenho uma parceira est\u00e1vel; para falar a verdade, faz tempo que n\u00e3o fico com uma garota. Digamos que eu me chame Agust\u00edn. Passei\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/30\/eps\/1512060080_753134.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a v\u00e9spera de Natal com meus pais e n\u00e3o foi muito boa<\/a>. Discutimos muito e, para piorar as coisas, tive que comer aqueles malditos damascos, que eu acho que ainda estou digerindo. Aprendi a li\u00e7\u00e3o: embora tenha previsto tamb\u00e9m passar o R\u00e9veillon com eles, dei uma desculpa para n\u00e3o comparecer. Busquei uma alternativa, mas a realidade \u00e9 a seguinte: quase todos meus amigos est\u00e3o em casa com suas fam\u00edlias; alguns poucos viajaram ou t\u00eam planos aos quais n\u00e3o posso me juntar. Diante deste panorama, em vez de me frustrar, tomei a \u00fanica decis\u00e3o digna: passar o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ano_nuevo\/a\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ano Novo<\/a>\u00a0sozinho.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\" data-google-query-id=\"CJWU0PmAt9gCFc4Lhgodt1oMug\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/estilo\/intext_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>31 de dezembro, 20:00 horas.<\/strong>\u00a0Tenho tudo sob controle. Saio do supermercado com o frango que comprei para comer sozinho. Deixo o recipiente de alum\u00ednio na minha cozinha e des\u00e7o ao bar para brindar com quem encontrar. Pe\u00e7o um espumante Cava Rosado, o que eu presumo ser pouco convencional, e conto a todo mundo que esta noite n\u00e3o tenho compromissos e posso fazer o que quiser. Eu me sinto uma alma livre, o vento incha minhas velas, e as bolhas, minha barriga. Mas o bar anuncia que est\u00e1 fechando e retorno para minha casa para desfrutar da melhor companhia: eu mesmo.<\/p>\n<p><strong>31 de dezembro, 21:45 horas.<\/strong>\u00a0Inicio um disco de sucessos de Frank Sinatra enquanto coloco a mesa. Como estou sozinho, posso comer onde eu quiser, inclusive em uma bandeja, mas \u00e9 importante manter o\u00a0<em>glamour<\/em>. Um par de velas e a voz de Frank ambientam minha sala de jantar, coloco prato e talheres para uma \u00fanica pessoa sobre uma bandeja dourada que tamb\u00e9m comprei no supermercado. Pensei em rode\u00e1-la com pinh\u00f5es brancos e estou orgulhoso da minha ideia. Mas abro o recipiente e encontro um frango enorme. Dou um par de voltas na mesa da cozinha\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/12\/20\/cultura\/1513770335_961918.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pensando no que fazer com ele<\/a>. No meu celular, n\u00e3o param de aparecer mensagens grupais de &#8220;Feliz Ano Novo&#8221;. Fico nervoso e o desligo. O frango esfriou e, evidentemente, n\u00e3o cabe no micro-ondas.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"texto_grande\">No caminho do banheiro, cruzo com meu quarto e vejo a roupa preta em cima da cama. Como sou um homem de a\u00e7\u00e3o (b\u00eabado, mas de a\u00e7\u00e3o), tomo a decis\u00e3o de sair. Sem roteiro.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>31 de dezembro, 22:30 horas.<\/strong>\u00a0Sou um homem de a\u00e7\u00e3o e tenho fome: decido cortar o frango para esquentar a minha por\u00e7\u00e3o no micro-ondas. De qualquer maneira, n\u00e3o conseguiria com\u00ea-lo inteiro. Ao abrir a ave, descubro que est\u00e1 cheia de damascos. Mas sabe o qu\u00ea? Desta vez, n\u00e3o tenho que com\u00ea-los. Programo tr\u00eas minutos de calor, com o disco de Sinatra em\u00a0<em>looping<\/em>. A mesa est\u00e1 posta. Sem cunhados. Sem m\u00e3es ou pais. Um para\u00edso. Quatro milh\u00f5es de espanh\u00f3is sentem-se sozinhos e \u00e9 uma pena, mas, eu, esta noite, gosto de ser um deles. Sirvo mais espumante (jantarei com espumante, porque deix\u00e1-lo para a sobremesa \u00e9 uma esquisitice comum que amarga o paladar) e, neste momento, soa o apito do micro-ondas. Acredito que seja o instante de maior estresse, imagine. Uma del\u00edcia. O jantar est\u00e1 servido.<\/p>\n<p><strong>31 de dezembro, 23:25 horas.<\/strong>\u00a0Quando voc\u00ea janta sozinho, tudo acaba rapidamente. N\u00e3o perde tempo em conversas sup\u00e9rfluas. Comi, calculo com o olhar, por volta de 10% do frango, que estava muito bom. Sobrou tanto que amanh\u00e3 posso convidar quem quiser. Mas o que estou dizendo?\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/12\/12\/eps\/1513081600_859165.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00c9 t\u00e3o bom estar sozinho!<\/a>\u00a0Sobre a minha cama, estiquei um traje preto apropriado para tudo: casamentos, funerais ou sa\u00eddas de Ano Novo. No entanto, n\u00e3o sei o que fazer nesta madrugada. Tenho tempo para pensar. E ainda falta um momento para as uvas. Ligo o celular novamente e aparece uma enxurrada de mensagens de felicita\u00e7\u00f5es coletivas, frases feitas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/11\/04\/estilo\/1509828141_450483.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e ditados de Paulo Coelho<\/a>, que servem tanto para o Ano Novo quanto para San Ferm\u00edn. Minha m\u00e3e me v\u00ea online e imediatamente me chama. Repito que \u00e9 uma pena n\u00e3o poder passar a noite com eles. &#8220;Veja, estou aqui, trabalhando&#8221;, minto. Diz que me ama. Eu me sinto incomodado.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"texto_grande\">Minha m\u00e3e me v\u00ea online e imediatamente me chama. Repito que \u00e9 uma pena n\u00e3o poder passar a noite com eles. &#8220;Veja, estou aqui, trabalhando&#8221;, minto. Diz que me ama. Eu me sinto incomodado.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>31 de dezembro, 23:55 horas.<\/strong>\u00a0Liguei a televis\u00e3o. Pela primeira vez em minha vida, verei as badaladas sozinho e tranquilamente. N\u00e3o tenho uvas. Essa hist\u00f3ria das uvas sempre me pareceu muito cansativa. \u00c9 meia noite. A verdade \u00e9 que, quando n\u00e3o h\u00e1 uvas, tamb\u00e9m n\u00e3o sabemos muito bem o que fazer com os quartos, as badaladas e todas essas brincadeiras. Me invade um sentimento de gravidade. Na tela, Anne Igartiburu e Ram\u00f3n Garc\u00eda anunciam o novo ano. Ele com sua habitual capa de tuno. Ela de vermelho vivo e, por meio do muro do meu apartamento, ou\u00e7o a vizinha gritar o seguinte: &#8220;Este rosto e esses peitos s\u00e3o de gr\u00e1vida!&#8221;. Acredito que se refere a Anne, porque \u00e9 verdade que, na Antena 3, est\u00e1 Carlos Sobera com Cristina Pedroche, que usa um vestido transparente. Toca o celular. \u00c9 minha m\u00e3e outra vez. Decido n\u00e3o atender, no caso de dizer novamente que me ama.<\/p>\n<p><strong>1\u00ba de janeiro, 2:00 horas.<\/strong>\u00a0Passo cento e vinte minutos hipnotizado pelo televisor, espantado. Sentar na frente da televis\u00e3o na noite de Ano Novo e zapear pelos canais pode ser uma experi\u00eancia caleidosc\u00f3pica. Na TVE, oferecem um programa convencional que come\u00e7a com David Bisbal e logo recebe as companhias de Mal\u00fa, Pablo L\u00f3pez, Sergio Dalma e por a\u00ed vai. Colocam as badaladas das Ilhas Can\u00e1rias e fazem sorteios de dinheiro. Enquanto isso, no La 2, apresentam-se Los Fresones Rebeldes, como se fosse normal. Na Antena 3, n\u00e3o gastam um euro e recorrem ao material requentado de costume; uma s\u00e9rie de grava\u00e7\u00f5es de arquivo para karaok\u00ea: Juan Magan, Pitbull, Camela, Pablo Motos cantando com Jorge Lorenzo, e um repert\u00f3rio, em geral, mais orientado para o p\u00e9lvico. Na Telecinco, colocam um potpourri de Los Del R\u00edo. Vade retro. De volta \u00e0 TVE, Bebe d\u00e1 lugar a uma gracinha de Eva Gonz\u00e1lez com Pepe Viyuela. Ele est\u00e1 de fraque e gravata borboleta e se parece mais com Anacleto do que com o Filem\u00f3n. Logo aparece um mago. Um frenesi. Bebi espumante suficiente para me sentir b\u00eabado e adormecido ao mesmo tempo. No caminho do banheiro, cruzo com meu quarto e vejo a roupa preta em cima da cama. Como sou um homem de a\u00e7\u00e3o (b\u00eabado, mas de a\u00e7\u00e3o), tomo a decis\u00e3o de sair. Sem roteiro.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Sou abordado por duas garotas no ponto de t\u00e1xi e me perguntam em que dire\u00e7\u00e3o vou. Como sou um dos pr\u00f3ximos da fila e elas parecem nervosas, oferecem a me deixar em casa, ocupando-se do gasto, se compartilhar meu carro com elas<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>1\u00ba de janeiro, 2:20 horas.<\/strong>\u00a0Em pouco tempo, passei uma col\u00f4nia fina, vesti minha roupa preta e subi em um t\u00e1xi. Por sorte, n\u00e3o parece que vai chover muito. Meu destino \u00e9 um bar do centro, um cl\u00e1ssico do primeiro copo. Na porta, encontro um conhecido. Usa um colar de pl\u00e1stico com cores brilhantes que faz com que seu smoking pare\u00e7a gasto. Me abra\u00e7a como se tivesse voltado da morte. Quero entrar com ele e seus amigos no estabelecimento, mas sou barrado. Pelo visto, h\u00e1 uma festa no local e a capacidade j\u00e1 foi preenchida.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/04\/29\/tecnologia\/1430327358_463976.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Como a entrada inclui bebida \u00e0 vontade<\/a>, meu conhecido se oferece para me pegar um\u00a0<em>drink<\/em>, se eu esperar na porta: j\u00e1 \u00e9 alguma coisa. Agrade\u00e7o sua amabilidade e digo que n\u00e3o, de maneira alguma. Minto e juro que de qualquer maneira tenho outro lugar para ir. Tento a sorte em outros dois bares da regi\u00e3o, mas com resultados id\u00eanticos. Vejo um vendedor ambulante asi\u00e1tico e compro uma cerveja. Custa um euro.<\/p>\n<p><strong>1\u00ba de janeiro, 4:00 horas.<\/strong>\u00a0Desejei feliz ano novo para aproximadamente 1.200 pessoas, a maioria desconhecidas. Tamb\u00e9m cruzei com alguns amigos, todos em casais, que me trataram como exc\u00eantrico. Minha sa\u00edda sozinho \u00e9 um fracasso; o \u00fanico local em que consegui entrar estava lotado de adolescentes com roupas da Primark e bon\u00e9s de beisebol. Tenho menos futuro que Blatter e Platini em um baile da Fifa. Come\u00e7a a esfriar e busco um t\u00e1xi para voltar. Esta noite, dependendo da cidade em que voc\u00ea vive, as tarifas dos t\u00e1xis podem sofrer um aumento de 2 a 6,70 euros. Que n\u00e3o nos falte o dinheiro. Ainda pode haver alguma reprise de\u00a0<em>Los Morancos<\/em>\u00a0na televis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>1\u00ba de janeiro, 4:21 horas.<\/strong>\u00a0Sou abordado por duas garotas no ponto de t\u00e1xi e me perguntam em que dire\u00e7\u00e3o vou. Como sou um dos pr\u00f3ximos da fila e elas parecem nervosas, oferecem a me deixar em casa, ocupando-se do gasto, se compartilhar meu carro com elas. Pergunto para onde est\u00e3o indo e dizem que para uma boate, onde toca um amigo seu. \u00c9 verdade que estou com sono. Tamb\u00e9m que sou um homem de princ\u00edpios, e quem me segue na coluna adota olhos assassinos. Ningu\u00e9m gosta de se esgueirar, muito menos em uma noite de estresse. Mas, acima do sono e dos princ\u00edpios, sou um homem de a\u00e7\u00e3o. Decido acompanh\u00e1-los, para ter algo a contar.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"texto_grande\">Um senhor de roupa azul cobalto coloca dinheiro na minha m\u00e3o e me pede algo que n\u00e3o tenho; acredito que esteja me confundindo com outra pessoa. Retiro-me a um sof\u00e1 para ordenar minhas notas<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p><strong>1\u00ba de janeiro, 6:45 horas.<\/strong>\u00a0Nas \u00faltimas duas horas, comprei uma entrada para uma boate em que nunca havia estado. Custou 15 euros, que me deram direito a uma bebida. Posso ter tomado mais alguma por conta pr\u00f3pria. Tamb\u00e9m me deram uma bolsa com um chapeuzinho de papel\u00e3o, visco e uma quantidade de confete letal para um asm\u00e1tico. Pela primeira vez desde que sa\u00ed de casa, tive sorte: n\u00e3o sou asm\u00e1tico. Minhas acompanhantes, Nieves e Lola, revelam-se simp\u00e1ticas. Uma delas, Lola, est\u00e1 se sentindo um pouco mal, com indigest\u00e3o. Passou um tempo sentada com o DJ, amigo seu, que colocou para tocar uma m\u00fasica muito boa de Curtis Harding. O repert\u00f3rio \u00e0 parte, a discoteca \u00e9 um lugar infame que cheira mal. \u00c9 quase de manh\u00e3. Um senhor de roupa azul cobalto coloca dinheiro na minha m\u00e3o e me pede algo que n\u00e3o tenho; acredito que esteja me confundindo com outra pessoa. Retiro-me a um sof\u00e1 para ordenar minhas notas.<\/p>\n<p><strong>1\u00ba de janeiro, 7:03 horas.<\/strong>\u00a0Lola foi para casa, e a discoteca anunciou que vai fechar. Nievas me disse que n\u00e3o parece uma boa ideia come\u00e7ar o ano sozinha. Ent\u00e3o, me beijou, mas acredito que um pouco por obriga\u00e7\u00e3o. N\u00f3s dois nos sentimos estranhos, como Luke e Leia se beijando em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/star_wars\/a\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Star Wars<\/em><\/a>. A verdade \u00e9 que a princesa gal\u00e1ctica mant\u00e9m melhor o seu coque de festa; a esta altura, Nieves tem o cabelo parecido com um ninho de passarinhos. Amanheceu.<\/p>\n<p><strong>1\u00ba de janeiro, 8:00 horas.<\/strong>\u00a0Estou esgotado. Nieves me mandou seu n\u00famero de celular por Whatsapp e se foi com o DJ para comer churros. Porque tem que manter a tradi\u00e7\u00e3o, disse. Eu nem quero pensar em frituras. Cheguei em casa desviando de res\u00edduos e garrafas vazias. Lembro uma not\u00edcia que li ano passado: &#8220;Apenas em Madri, o Ano Novo gerou 26 toneladas de lixo&#8221;. Meu primeiro fim de ano sozinho n\u00e3o foi memor\u00e1vel, muito menos inconsequente. Mas foi diferente, e foi meu.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um homem de 37 anos, divorciado. Discute com seus pais e decide encarar o fim do ano sem companhia. 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