{"id":229691,"date":"2018-01-02T10:56:03","date_gmt":"2018-01-02T13:56:03","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=229691"},"modified":"2018-01-02T11:09:35","modified_gmt":"2018-01-02T14:09:35","slug":"eu-estudo-na-mangueira-6-as-arvores-que-sao-salas-de-aula-para-mais-de-400-mil-criancas-em-mocambique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/eu-estudo-na-mangueira-6-as-arvores-que-sao-salas-de-aula-para-mais-de-400-mil-criancas-em-mocambique\/","title":{"rendered":"&#8216;Eu estudo na Mangueira 6&#8217; &#8211; as \u00e1rvores que s\u00e3o salas de aula para mais de 400 mil crian\u00e7as em Mo\u00e7ambique"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body\">\n<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Amanda Rossi<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/4F68\/production\/_99382302_sala_arvore_criancas.jpg\" alt=\"Cinco turmas escolares embaixo de \u00e1rvores, com crian\u00e7as sentadas no ch\u00e3o e quadro-negro apoiado nos troncos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"off-screen\">Image caption<\/span><span class=\"media-caption__text\">Existem 7,8 mil turmas em salas-\u00e1rvore em Mo\u00e7ambique \/ Foto: Amanda Rossi<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">H\u00e1 um pequeno arvoredo na Escola Prim\u00e1ria Samora Machel, em Mo\u00e7ambique, formado por cajueiros, mangueiras, mafurreiras (\u00e1rvores t\u00edpicas do sul da \u00c1frica) e ac\u00e1cias. N\u00e3o est\u00e1 ali para dar frutas, flores ou servir de espa\u00e7o para brincadeiras. Recostados nos troncos, h\u00e1 quadros-negros. Sob as copas, no ch\u00e3o de areia, est\u00e3o sentadas cerca de mil crian\u00e7as, com camisas azul-claro e cal\u00e7as azul-escuro, o uniforme escolar. Essas s\u00e3o as salas-\u00e1rvore, ou salas-sombra.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui temos uma terceira classe, que funciona debaixo dessa \u00e1rvore linda, que no fim vai nos dar uma fruta muito gostosa. Mas serve de sala&#8221;, afirma Joana Bazine, diretora pedag\u00f3gica da escola, que tem 61 turmas em salas-\u00e1rvores e 42 em salas de aula convencionais. No total, s\u00e3o mais de 3 mil crian\u00e7as estudando embaixo das \u00e1rvores. &#8220;Quando eu vejo uma mangueira, n\u00e3o vejo como \u00e1rvore, vejo como sala. A Mangueira 1&#8221;.<\/p>\n<p>A escola, que leva o nome do primeiro presidente de Mo\u00e7ambique, n\u00e3o est\u00e1 nos rec\u00f4nditos isolados do pa\u00eds, mas sim a apenas 30 quil\u00f4metros do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, na regi\u00e3o metropolitana de Maputo, a capital. E n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. Em todo o pa\u00eds, existem mais de 7,8 mil turmas estudando embaixo de \u00e1rvores, de acordo com dados de 2016. Como a m\u00e9dia nacional \u00e9 de 60 alunos por turma, isso d\u00e1 mais de 400 mil alunos. A maioria deles da primeira fase do ensino prim\u00e1rio, da 1\u00aa \u00e0 5\u00aa s\u00e9rie &#8211; crian\u00e7as de 6 a 10 anos.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 escolas com muito mais alunos embaixo das \u00e1rvores do que n\u00f3s&#8221;, diz Joana, que trabalha h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas com educa\u00e7\u00e3o. &#8220;As \u00e1rvores s\u00e3o preciosas. Dali, devem sair professores, engenheiros, advogados&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/EBA8\/production\/_99382306_vista_2_salas_sombras_crian.jpg\" alt=\"Duas turmas embaixo de salas-\u00e1rvore; em uma delas, as crian\u00e7as est\u00e3o com as m\u00e3os levantadas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Quando chove, n\u00e3o h\u00e1 aulas \/ Foto: Amanda Rossi<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;N\u00e3o recusamos alunos&#8217;<\/h2>\n<p>Mo\u00e7ambique, no Sul da \u00c1frica, tem uma das piores condi\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o do mundo. Segundo avalia\u00e7\u00e3o nacional, ap\u00f3s os tr\u00eas primeiros anos na escola, apenas 5% das crian\u00e7as conseguem ler uma frase simples e 7% podem fazer c\u00e1lculos b\u00e1sicos. Para compara\u00e7\u00e3o, no Brasil, metade das crian\u00e7as tem leitura considerada suficiente at\u00e9 a 3\u00aa s\u00e9rie.<\/p>\n<p>O abandono escolar tamb\u00e9m \u00e9 frequente. Cerca de metade das crian\u00e7as que entram na escola completam o ensino prim\u00e1rio (at\u00e9 a 7\u00aa s\u00e9rie).<\/p>\n<p>&#8220;Na regi\u00e3o, Mo\u00e7ambique \u00e9 o pa\u00eds que tem os maiores desafios na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma Michel Le Pecheoux, representante do Unicef em Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um dado positivo: a maioria das crian\u00e7as est\u00e1 na escola. Hoje, mais de 80% est\u00e3o matriculadas no ensino prim\u00e1rio. \u00c9 o dobro do registrado no final dos anos 1990.<\/p>\n<p>&#8220;O pa\u00eds partiu de uma taxa de escolariza\u00e7\u00e3o muito baixa e conseguiu resultados muito r\u00e1pidos. O problema \u00e9 a qualidade&#8221;, explica Le Pecheoux. &#8220;Como havia muitas crian\u00e7as fora da escola, foi mais uma corrida para matricul\u00e1-las do que se focar no que estavam aprendendo. A situa\u00e7\u00e3o era t\u00e3o grave que estava claro que os resultados seriam dif\u00edceis de atingir&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/AE54\/production\/_99382644_sala_arvore_jessica.jpg\" alt=\"Jessica, de 8 anos, aluna da 3\u00aa s\u00e9rie, faz a li\u00e7\u00e3o de portugu\u00eas sentada no ch\u00e3o\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Jessica, de 8 anos, aluna da 3\u00aa s\u00e9rie, faz a li\u00e7\u00e3o de portugu\u00eas sentada no ch\u00e3o \/ Foto: Amanda Rossi<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>O primeiro salto na matr\u00edcula ocorreu ap\u00f3s a independ\u00eancia de Portugal, em 1975. Em seguida, Mo\u00e7ambique entrou em uma sangrenta guerra civil, que durou 16 anos, e destruiu ou fechou seis entre dez escolas prim\u00e1rias. Ap\u00f3s o fim da guerra, em 1992, menos de 1,5 milh\u00e3o de crian\u00e7as iam para a escola. A partir da\u00ed, come\u00e7ou o segundo salto. Em 2015, j\u00e1 eram 5,9 milh\u00f5es &#8211; um aumento de quase quatro vezes.<\/p>\n<p>J\u00e1 as infraestruturas n\u00e3o cresceram no mesmo ritmo. Faltam 28 mil salas de aula para o ensino prim\u00e1rio e 7 mil para o secund\u00e1rio, segundo o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique. Mas, na \u00faltima d\u00e9cada, s\u00f3 foram constru\u00eddas 700 salas ao ano. Nesse ritmo, seria necess\u00e1rio meio s\u00e9culo para acabar com o deficit e, assim, n\u00e3o precisar mais das salas-\u00e1rvore.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia \u00e9 que as crian\u00e7as s\u00e3o inclu\u00eddas no sistema escolar, mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es adequadas para receb\u00ea-las. &#8220;Qualquer crian\u00e7a que queira estudar a gente acolhe. N\u00f3s n\u00e3o recusamos alunos, porque toda crian\u00e7a tem direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz a diretora Joana.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, mas esfor\u00e7os t\u00eam sido feitos anualmente para proporcionar e melhorar o ambiente de ensino-aprendizagem dos alunos&#8221;, informou, por nota, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique. Acrescentou ainda que tem mobilizado mais recursos para constru\u00e7\u00e3o de salas e aquisi\u00e7\u00e3o de carteiras e de materiais did\u00e1ticos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9D88\/production\/_99382304_sala_arvore_sala_quadro_neg.jpg\" alt=\"Professora d\u00e1 aula de portugu\u00eas com o quadro-negro no Sol\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Professora d\u00e1 aula de portugu\u00eas com o quadro-negro no Sol e move as crian\u00e7as de lugar conforme a sombra muda de posi\u00e7\u00e3o \/ Foto: Amanda Rossi<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15FC\/production\/_99382650_diretora_joana.jpg\" alt=\"Diretora pedag\u00f3gica Joana Bazine em frente a 8 salas-\u00e1rvore\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Diretora pedag\u00f3gica Joana Bazine coordena uma escola com 61 turmas embaixo da \u00e1rvore \/ Foto: Amanda Rossi<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Em dias de chuva, n\u00e3o h\u00e1 aulas<\/h2>\n<p>Sem carteiras, as crian\u00e7as se sentam em cima de capulanas &#8211; tecido tradicional africano, estampado e colorido &#8211; e apoiam o material escolar no colo. &#8220;N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Se o aluno estivesse em uma carteira, bem sentado, a maneira de aprender seria melhor&#8221;, afirma a professora A\u00e7ucena Mabunda, que tem 55 alunos por turma. Sua sala de aula \u00e9 a Mafurreira 2. Dois de seus filhos estudam na escola, um na Mafurreira 8 e outro no Cajueiro.<\/p>\n<p>Sentar-se no ch\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exclusividade das salas-\u00e1rvore. Das 14 salas de alvenaria da escola, 4 n\u00e3o t\u00eam carteiras. \u00c9 o caso da turma do professor Acarias Langa, com 58 alunos. &#8220;\u00c9 dif\u00edcil, mas essa \u00e9 a realidade que n\u00f3s temos&#8221;, fala o professor. &#8220;Pelo menos aqui tem boa cobertura, n\u00e3o pinga&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o pingar&#8221; \u00e9 realmente um privil\u00e9gio. Quando chove, n\u00e3o h\u00e1 aulas nas salas-\u00e1rvore. Ao longo de um ano, isso pode representar at\u00e9 20 dias sem estudar. Mo\u00e7ambique tem clima tropical, com precipita\u00e7\u00f5es frequentes entre o final de outubro e o in\u00edcio de abril. &#8220;Este ano fomos felizardos porque n\u00e3o choveu bastante. Mas, nos anos que chove sempre, a gente passa mal&#8221;, afirma a diretora Joana.<\/p>\n<p>&#8220;Com chuva, as crian\u00e7as nem v\u00eam \u00e0 escola, porque seus respons\u00e1veis sabem que est\u00e3o debaixo de uma \u00e1rvore, n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de ter aulas&#8221;, diz a professora A\u00e7ucena. Nos dias de tempo bom, ela precisa correr com o conte\u00fado, para compensar os dias perdidos pelo mau tempo.<\/p>\n<p>A chuva n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico empecilho do clima. Quando venta muito, tamb\u00e9m \u00e9 preciso mandar as crian\u00e7as de volta para casa, porque a areia levanta do ch\u00e3o. Em dias frios, as crian\u00e7as ficam expostas \u00e0s correntes de ar. E, ao longo do dia, a mudan\u00e7a na posi\u00e7\u00e3o do Sol obriga os professores a irem movimentando os alunos para as sombras.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/FC74\/production\/_99382646_p1070020.jpg\" alt=\"Professora A\u00e7ucena Mabunda \u00e0 frente, e sua sala de aula ao fundo; no \u00faltimo plano, outra professora da aula em outra sala-\u00e1rvore\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Professora A\u00e7ucena Mabunda d\u00e1 aulas na Mafurreira 2 e tem dois filhos em salas-\u00e1rvore \/ Foto: Amanda Rossi<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Quando folhas caem, novas salas s\u00e3o &#8216;improvisadas&#8217;<\/h2>\n<p>Quando as folhas das copas caem e a sombra acaba, as \u00e1rvores perdem a capacidade de ser uma boa sala. \u00c9 o caso das ac\u00e1cias. Durante parte do ano, t\u00eam copas frondosas. Na outra parte, ficam com apenas com os galhos \u00e0 mostra, e os professores precisam se adaptar.<\/p>\n<p>Na escola Samora Machel, uma das turmas das salas-ac\u00e1cia estudava embaixo de outra \u00e1rvore, localizada ao lado de uma pilha de lixo de mais de cinco metros de comprimento e de um po\u00e7o acionado por press\u00e3o manual. &#8220;N\u00e3o \u00e9 adequado. Mas \u00e9 uma sala improvisada. N\u00e3o \u00e9 uma sala permanente. Como a ac\u00e1cia n\u00e3o tem folhas, o professor encontrou um lugar ali&#8221;, explica a diretora Joana.<\/p>\n<p>Outras duas professoras n\u00e3o acharam espa\u00e7o livre em outras copas e, por isso, tiveram que continuar nas salas-ac\u00e1cia. Em vez de uma grande \u00e1rea coberta, dispunham de chuma\u00e7os de sombra, por onde as crian\u00e7as se espalhavam.<\/p>\n<p>Uma delas, Jessica, de 8 anos, aluna da 3\u00aa s\u00e9rie, estava encostada sozinha no tronco de uma pequena \u00e1rvore, um pouco longe do resto da turma. Era o \u00fanico lugar com uma sombra livre. Com livro e caderno sobre o colo, fazia a li\u00e7\u00e3o de portugu\u00eas, sua mat\u00e9ria preferida &#8211; e idioma oficial de Mo\u00e7ambique. A menina contou que sua palavra favorita \u00e9 escola. E que, quando crescer, quer ser professora.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14A94\/production\/_99382648_professor_sala_coberta.jpg\" alt=\"Professor Acarias Langa dentro de uma sala coberta, mas com alunos sentados no ch\u00e3o\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Professor Acarias Langa tem uma sala coberta, mas sem carteiras \/ Foto: Amanda Rossi<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Falta de prioridade para a educa\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>&#8220;O professor \u00e9 um her\u00f3i. Em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, embaixo de uma \u00e1rvore, com um quadro apoiado no ch\u00e3o, ele tem que estimular as crian\u00e7as a irem \u00e0 escola e n\u00e3o abandonarem os estudos. E no final do dia ainda ganha mal e tem o sal\u00e1rio atrasado&#8221;, afirma Celeste Banze, do Centro de Integridade P\u00fablica, institui\u00e7\u00e3o de pesquisa de Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p>A pesquisadora acredita que as dificuldades do passado, como o colonialismo e a guerra, n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos motivos para que Mo\u00e7ambique esteja t\u00e3o atr\u00e1s na educa\u00e7\u00e3o. Para ela, corrup\u00e7\u00e3o e falta de prioridades tamb\u00e9m dificultam o avan\u00e7o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se por um lado faltam salas de aula, por outro Maputo se transformou nos \u00faltimos anos em um canteiro de obras de pr\u00e9dios administrativos de minist\u00e9rios, institui\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a, banco p\u00fablico e at\u00e9 um novo Pal\u00e1cio Presidencial. &#8220;Isso \u00e9 um problema de falta de prioridade para aquilo que \u00e9 importante, \u00e9 essencial, como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, saneamento&#8221;, afirma Celeste.<\/p>\n<p>&#8220;Mo\u00e7ambique acaba de adquirir autom\u00f3veis Mercedes-Benz para dar dignidade aos deputados. Mas, neste mesmo pa\u00eds, h\u00e1 pessoas a serem transportadas em caminhonetas, porque n\u00e3o h\u00e1 \u00f4nibus. E crian\u00e7as a estudar embaixo de uma \u00e1rvore. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuarmos a priorizar luxos em um pa\u00eds que \u00e9 um dos 10 mais pobres do mundo. N\u00e3o faz sentido&#8221;, completa a pesquisadora.<\/p>\n<p>Na Escola Samora Machel, &#8220;as promessas s\u00e3o v\u00e1rias&#8221;, afirma a diretora Joana. &#8220;Mas n\u00f3s n\u00e3o gostamos de teoria. Queremos ver a pr\u00e1tica. Estamos aflitos, precisamos mesmo de aumento de salas&#8221;.<\/p>\n<p>Daudo Usshuale, respons\u00e1vel pela educa\u00e7\u00e3o na cidade da Matola, onde fica a escola, reconhece que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 preocupante. &#8220;Aqui, n\u00f3s precis\u00e1vamos no m\u00ednimo dos m\u00ednimos de 330 salas. Existe o projeto, mas n\u00e3o existe o dinheiro. O aumento da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi acompanhado do aumento de constru\u00e7\u00e3o de infraestruturas&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0530\/production\/_99382310_p1070039.jpg\" alt=\"Interior de uma sala-\u00f4nibus, \u00f4nibus reformado para ser sala de aula; ao fundo um quadro-negro, \u00e0 frente, carteiras\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Governo testa salas-\u00f4nibus, criadas a partir de \u00f4nibus quebrados que n\u00e3o podem mais rodar \/ Foto: Amanda Rossi<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">De salas-\u00e1rvores para salas-\u00f4nibus<\/h2>\n<p>A Escola Prim\u00e1ria Samora Machel vai ser a primeira de Mo\u00e7ambique a testar uma nova solu\u00e7\u00e3o para a falta de infraestrutura escolar: as salas-\u00f4nibus. O Minist\u00e9rio dos Transportes decidiu transformar dez \u00f4nibus quebrados, que n\u00e3o podem mais ser consertados, em salas de aula. Em Mo\u00e7ambique, eles s\u00e3o chamados de machimbombos. Ent\u00e3o, s\u00e3o as salas-machimbombo.<\/p>\n<p>Cinco deles j\u00e1 foram reformados. Perderam rodas, volante, bancos, e ganharam carteiras e quadro-negro. O principal problema \u00e9 que, debaixo do Sol, a lataria aquece muito, e n\u00e3o h\u00e1 ar condicionado nem ventilador para amenizar. Nas vinte carteiras de um metro de comprimento, onde caberiam 40 crian\u00e7as, ser\u00e3o colocadas 60 &#8211; a m\u00e9dia do n\u00famero de alunos por turma.<\/p>\n<p>&#8220;Eu preferiria salas. Por uma raz\u00e3o simples. N\u00e3o tenho muita experi\u00eancia com sala-machimbombo, nunca vivi essa situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 algo novo&#8221;, explica a diretora Joana.<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 as salas, sabemos que funcionam. Temos aqui algumas da d\u00e9cada 70. Ali j\u00e1 estudaram pessoas que hoje em dia s\u00e3o vov\u00f4s. E ainda continuam a ser boas salas. Mas n\u00e3o sei qual vai ser a resist\u00eancia da sala-machimbombo, se depois de apanhar muita chuva vai se danificar, n\u00e3o sei&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Mas, quando digo isso, n\u00e3o significa que n\u00e3o preciso de machimbombos. Preciso sim! Enquanto n\u00e3o tivermos salas, qualquer ajuda \u00e9 valiosa&#8221;, pede a diretora.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6034\/production\/_99382642_p1070046.jpg\" alt=\"Exterior de uma sala-\u00f4nibus, pintada com tem\u00e1tica infantil e sem rodas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Primeiras salas-\u00f4nibus ir\u00e3o para a Escola Samora Machel e devem reduzir o n\u00famero de turmas embaixo de \u00e1rvore de 61 para 46 \/ Foto: Amanda Rossi<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"tags-container\">\n<h2 class=\"tags-title story-body__crosshead\">T\u00f3picos relacionados<\/h2>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um pequeno arvoredo na Escola Prim\u00e1ria Samora Machel, em Mo\u00e7ambique, formado por cajueiros, mangueiras, mafurreiras (\u00e1rvores t\u00edpicas do sul da \u00c1frica) e ac\u00e1cias. N\u00e3o est\u00e1 ali para dar frutas, flores ou servir de espa\u00e7o para brincadeiras. Recostados nos troncos, h\u00e1 quadros-negros. Sob as copas, no ch\u00e3o de areia, est\u00e3o sentadas cerca de mil crian\u00e7as, com camisas azul-claro e cal\u00e7as<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":229702,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-229691","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/sala-debaixo-de-arvore.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229691","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=229691"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229691\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/229702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=229691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=229691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=229691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}