{"id":233373,"date":"2018-02-07T08:43:15","date_gmt":"2018-02-07T11:43:15","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=233373"},"modified":"2018-02-07T08:43:15","modified_gmt":"2018-02-07T11:43:15","slug":"as-3-teses-que-tentam-explicar-como-febre-amarela-rompeu-fronteiras-da-amazonia-e-atingiu-o-sudeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/as-3-teses-que-tentam-explicar-como-febre-amarela-rompeu-fronteiras-da-amazonia-e-atingiu-o-sudeste\/","title":{"rendered":"As 3 teses que tentam explicar como a febre amarela rompeu fronteiras da Amaz\u00f4nia e atingiu o Sudeste"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Nathalia Passarinho<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/10A6E\/production\/_99860286_sabethes_albiprivus-1.jpg\" alt=\"Mosquito silvestre\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Especialistas t\u00eam diferentes teses sobre migra\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da febre amarela | Foto: Josu\u00e9 Damacena\/IOC\/Fiocruz<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Como a febre amarela rompeu os limites da Floresta Amaz\u00f4nica e alcan\u00e7ou o Sudeste, atingindo parques e matas pr\u00f3ximos de grandes centros urbanos de Minas Gerais, Esp\u00edrito Santo, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo?<\/p>\n<p>Cientistas se debru\u00e7am sobre tr\u00eas teses que tentam explicar o fen\u00f4meno. A partir do ano passado, o n\u00famero de casos da doen\u00e7a alcan\u00e7ou n\u00edveis sem precedentes nos \u00faltimos 50 anos, provocando correrias a postos de sa\u00fade &#8211; inclusive de pessoas que n\u00e3o se encontram em \u00e1reas de risco.<\/p>\n<p>Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, desde o in\u00edcio de 2017 foram confirmados 779 casos, 262 deles resultando em mortes &#8211; o maior surto de febre amarela silvestre (ou seja, transmitida em \u00e1rea de floresta) da hist\u00f3ria. Outros 435 registros ainda est\u00e3o sob investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Casos de pessoas infectadas no Sudeste come\u00e7aram a ser registrados no in\u00edcio dos anos 2000, afirmam especialistas, e j\u00e1 havia a indica\u00e7\u00e3o de que a doen\u00e7a estava progressivamente migrando para o litoral leste do pa\u00eds. O que pegou alguns pesquisadores de surpresa foi a rapidez com que o v\u00edrus se espalhou.<\/p>\n<p>De acordo com uma das teorias que tentam explicar essa migra\u00e7\u00e3o, um humano infectado na Amaz\u00f4nia teria se deslocado em seguida para alguma regi\u00e3o de Mata Atl\u00e2ntica, possivelmente em Minas Gerais, e sido picado l\u00e1 por outros mosquitos, que teriam depois espalhado a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma segunda hip\u00f3tese \u00e9 a de que insetos que adquiriram o v\u00edrus na Amaz\u00f4nia foram se deslocando progressivamente para o sul do pa\u00eds, por meio de corredores de floresta e rios, passando por Bahia, Minas Gerais, Esp\u00edrito Santo, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. A estimativa \u00e9 que um mosquito seja capaz de voar por cerca de 3 km por dia.<\/p>\n<p>Uma terceira teoria aponta desequil\u00edbrios ambientais causados pelo rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG), como fator respons\u00e1vel por multiplicar casos de contamina\u00e7\u00e3o por febre amarela. Segundo essa teoria indica, o desastre ambiental eliminou predadores dos mosquitos, aumentando a popula\u00e7\u00e3o desses insetos.<\/p>\n<p>Descobrir o que provocou a chegada do v\u00edrus ao Sudeste e o aumento inesperado de casos \u00e9 importante, segundo especialistas, para detectar por onde a doen\u00e7a ainda deve passar e adotar medidas de preven\u00e7\u00e3o contra novos surtos, com campanhas de vacina\u00e7\u00e3o e de elimina\u00e7\u00e3o de focos de mosquito.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Como tudo come\u00e7ou&#8230;<\/h2>\n<p>O v\u00edrus da febre amarela existe no Brasil desde os tempos coloniais.<\/p>\n<p>Os navios portugueses vindos da \u00c1frica no s\u00e9culo 17 e 18 n\u00e3o trouxeram ao Brasil somente africanos escravizados e mercadorias. Dois inimigos silenciosos do homem vieram junto &#8211; o v\u00edrus da febre amarela, presente no corpo dos passageiros, e o mosquito\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>, que tamb\u00e9m transmite dengue, chikungunya e zika.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias foram uma s\u00e9rie de surtos de febre amarela urbana no Brasil, com milhares de mortos. Diferentemente do que ocorre hoje, a doen\u00e7a predominava nas cidades, n\u00e3o nas florestas, e era transmitida pelo\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>, n\u00e3o por mosquitos silvestres (que vivem em matas).<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 20, campanhas de erradica\u00e7\u00e3o do\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>\u00a0conseguiram acabar com a febre amarela urbana. Mas o v\u00edrus j\u00e1 tinha migrado &#8211; pelo tr\u00e2nsito de pessoas infectadas &#8211; para zonas de floresta na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica, e passou a ser transmitido apenas por mosquitos silvestres de duas categorias,\u00a0<i>Haemagogus<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Sabethes<\/i>.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1588E\/production\/_99860288_haemagogus_leucocelaenus_21022017_2.jpg\" alt=\"Mosquito silvestre\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Uma das teses aponta o desaste de Mariana como respons\u00e1vel por espalhar a doen\u00e7a | Foto: Josu\u00e9 Damacena\/IOC\/Fiocruz<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;A partir da febre amarela urbana, as pessoas, entrando na mata, introduziram o v\u00edrus no ambiente silvestre. O fato \u00e9 que, na Amaz\u00f4nia, o v\u00edrus ficou at\u00e9 hoje. Na Mata Atl\u00e2ntica, ficou at\u00e9 1940, quando se extinguiu o ciclo silvestre na regi\u00e3o&#8221;, explica Falqueto.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 2000, alguns casos de febre amarela come\u00e7aram a ressurgir em \u00e1reas da Mata Atl\u00e2ntica, segundo o pesquisador Ricardo Louren\u00e7o, do Instituto Oswaldo Cruz. A partir de dezembro de 2016, o n\u00famero de infectados explodiu em algumas regi\u00f5es de Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo, caracterizando um surto. E, entre 2017 e 2018, registros de febre amarela cresceram rapidamente no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/40F6\/production\/_99903661_0554e6cd-5373-4783-b8ea-1dac30d0c97f.jpg\" alt=\"Vacina\u00e7\u00e3o contra febre amarela\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Pesquisadores dizem que governo ignorou alerta de que o v\u00edrus chegaria a regi\u00f5es do Sudeste<\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Teoria 1 &#8211; v\u00edrus trazido pelo homem<\/h2>\n<p>Alguns pesquisadores argumentam que o v\u00edrus desceu do Norte para o Sudeste do pa\u00eds porque um ser humano infectado na Amaz\u00f4nia foi para a Mata Atl\u00e2ntica e acabou sendo picado por outros mosquitos silvestres que espalharam a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;A minha teoria \u00e9 o elemento urbano. Muitas pessoas migram para a Amaz\u00f4nia sem tomar vacina. Uma pessoa pegou o v\u00edrus na Amaz\u00f4nia e entrou na Mata Atl\u00e2ntica depois, possivelmente na altura de Montes Claros, em Minas Gerais, onde surgiram casos de macacos e pessoas infectadas&#8221;, defende o professor Alo\u00edsio Falqueto, da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo (Ufes).<\/p>\n<p>O pesquisador destaca que, uma vez na Mata Atl\u00e2ntica, o v\u00edrus se espalhou rapidamente, j\u00e1 que l\u00e1 havia uma grande quantidade de alimentos para os mosquitos &#8211; sangue de macacos. E os primatas dessa floresta estavam vulner\u00e1veis &#8211; n\u00e3o tinham desenvolvido anticorpos, uma vez que o v\u00edrus havia desaparecido da regi\u00e3o na d\u00e9cada de 1940.<\/p>\n<p>Os mosquitos\u00a0<i>Sabethes\u00a0<\/i>e\u00a0<i>Haemagogus<\/i>, atuais transmissores da febre amarela, moram na copa das \u00e1rvores e preferem o sangue dos macacos. Essa prefer\u00eancia vem de um processo de adapta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, ao longo de anos de evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui \u00e9 um barril de p\u00f3lvora. A for\u00e7a de transmiss\u00e3o \u00e9 muito maior, porque j\u00e1 havia o vetor &#8211; mosquitos que moravam na Mata Atl\u00e2ntica &#8211; e uma diversidade ampla de macacos vulner\u00e1veis \u00e0 febre amarela que nunca tinham desenvolvido anticorpos&#8221;, afirma Falqueto.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, macacos t\u00eam sido mortos n\u00e3o apenas em decorr\u00eancia da febre amarela, mas tamb\u00e9m por seres humanos que temem contrair a doen\u00e7a. Mas pesquisadores alertam que o massacre desses bichos \u00e9 um &#8220;tiro no p\u00e9&#8221;: se muitos macacos come\u00e7arem a morrer, a tend\u00eancia \u00e9 que cres\u00e7a a chance de contamina\u00e7\u00e3o de humanos.<\/p>\n<p>Sem ter primatas para picar na copa das \u00e1rvores, os mosquitos buscar\u00e3o alimento em outras localidades &#8211; e o homem vira a pr\u00f3xima op\u00e7\u00e3o como fonte de sangue. Como o homem \u00e9 um animal que se assemelha ao macaco, naturalmente se torna alternativa para o mosquito da febre amarela, que buscar\u00e1 instintivamente um bicho geneticamente pr\u00f3ximo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7216\/production\/_99860292_haemagogus_leucocelaenus_21022017_1.jpg\" alt=\"Mosquito\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">O v\u00edrus da febre amarela existe no Brasil desde os tempos coloniais | Foto: Josu\u00e9 Damacena\/IOC\/Fiocruz<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Teoria 2 &#8211; viagem do mosquito<\/h2>\n<p>Outros pesquisadores argumentam que os mosquitos silvestres que transmitem a febre amarela se deslocaram do Norte do pa\u00eds para o Sudeste aos poucos, voando ao longo de rios e corredores de mata.<\/p>\n<p>Conforme foram picando macacos na Mata Atl\u00e2ntica, e esses bichos foram morrendo, os mosquitos teriam se deslocado mais ao sul, passando de Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo para S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 poss\u00edvel que (a migra\u00e7\u00e3o do v\u00edrus) tenha sido causada por mosquitos que voaram entre manchas de mata. Os mosquitos se dispersam por dois motivos: para achar lugar para colocar ovo e para achar fonte de alimenta\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea&#8221;, explica o pesquisador Ricardo Louren\u00e7o, do Instituto Oswaldo Cruz.<\/p>\n<p>&#8220;Se come\u00e7a a morrer macaco, o mosquito come\u00e7a a buscar sangue em outro lugar. E ele vai voar dist\u00e2ncias maiores para colocar seus ovos. O deslocamento dessas esp\u00e9cies de mosquito pode alcan\u00e7ar 3 km por dia.&#8221;<\/p>\n<p>Tanto o homem quanto o macaco, quando picados, s\u00f3 carregam o v\u00edrus da febre amarela em quantidades suficientes para infectar outros mosquitos por cerca de tr\u00eas dias. Depois disso, o organismo passa a produzir anticorpos, e a concentra\u00e7\u00e3o do v\u00edrus diminui. Em cerca de dez dias, primatas e humanos ter\u00e3o morrido ou se curado da doen\u00e7a, ficando imunes a ela.<\/p>\n<p>J\u00e1 o mosquito permanece com o v\u00edrus da febre amarela para sempre, segundo Ricardo Louren\u00e7o. Eles podem at\u00e9 passar o v\u00edrus para os ovos e, consequentemente, para os filhotes que nascerem.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6806\/production\/_99903662_e1d90fc1-89a6-42c3-b6d9-e8455c942c75.jpg\" alt=\"Homem tentando erradicar o mosquito\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"media-caption__text\">Pesquisadores estimam que mais de 700 pessoas tenham sido infectadas pelo v\u00edrus da febre amarela desde julho de 2017<\/span><\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Teoria 3 &#8211; rompimento da barragem em Mariana<\/h2>\n<p>J\u00e1 o professor da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) Eduardo Massad, que tamb\u00e9m leciona na London School of Hygiene and Tropical Medicine, no Reino Unido, acredita que o rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG), em 2015, teve papel relevante na dissemina\u00e7\u00e3o acelerada da doen\u00e7a no Sudeste do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Essa tese aponta que a destrui\u00e7\u00e3o do habitat natural de diferentes esp\u00e9cies, al\u00e9m da morte de peixes e outros animais, pode ter reduzido os predadores naturais dos mosquitos. Ao mesmo tempo, a trag\u00e9dia ambiental pode ter afetado o sistema imunol\u00f3gico dos macacos, tornando-os mais suscet\u00edveis ao v\u00edrus da febre amarela.<\/p>\n<p>&#8220;A grande surpresa foi a velocidade com que a doen\u00e7a se espalhou no Sudeste. Tenho quase certeza de que esse surto se iniciou como resultado do desastre em Mariana, em Minas Gerais, quando houve um grande desequil\u00edbrio ecol\u00f3gico e algum fator causou o espalhamento r\u00e1pido da doen\u00e7a no macaco&#8221;, diz Massad, que \u00e9 infectologista.<\/p>\n<p>Segundo o professor, da USP, em um ano &#8211; de janeiro de 2017 a janeiro de 2018 &#8211; houve um volume de casos compar\u00e1vel ao registrado em um per\u00edodo de 30 anos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/FFE2\/production\/_99860556_sabethes_identicus-1.jpg\" alt=\"Mosquito da categoria sabethes\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Mosquitos Sabethes transmitem febre amarela em regi\u00f5es de mata | Foto: Josu\u00e9 Damacena\/IOC\/Fiocruz<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">E para onde o v\u00edrus anda vai?<\/h2>\n<p>E a &#8220;viagem&#8221; da febre amarela n\u00e3o deve terminar em S\u00e3o Paulo. O professor Aloisio Falqueto, da Ufes, prev\u00ea que o v\u00edrus continuar\u00e1 seguindo por corredores de mata e chegar\u00e1 ao Sul do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;A essa altura j\u00e1 dev\u00edamos estar vacinando as popula\u00e7\u00f5es de determinadas \u00e1reas do Paran\u00e1 e de Santa Catarina&#8221;, diz. A &#8220;migra\u00e7\u00e3o&#8221; do v\u00edrus at\u00e9 o Sul, segundo o pesquisador, ocorrer\u00e1 a partir do voo dos mosquitos silvestres que transmitem a doen\u00e7a e que transitam por \u00e1reas de floresta em busca de alimentos.<\/p>\n<p>Para Falqueto, o n\u00famero de pessoas infectadas pela febre amarela desde que os casos come\u00e7aram a aumentar rapidamente, em 2016, poderia ter sido menor se governo estaduais tivessem planejado melhor a imuniza\u00e7\u00e3o de zonas rurais, conforme o mapeamento dos &#8220;caminhos&#8221; poss\u00edveis do v\u00edrus.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, segundo ele, prever o trajeto levando em conta corredores de floresta a exist\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es de macacos. &#8220;Temos clamado desde o in\u00edcio do ano passado para vacinarem a popula\u00e7\u00e3o das \u00e1reas rurais em contato com a Mata Atl\u00e2ntica. Eles despejaram muitas vacinas nas \u00e1reas urbanas quando n\u00e3o precisava. E faltou vacina para quem estava exposto&#8221;, diz Falqueto.<\/p>\n<p>O professor Eduardo Massad, da USP, diz que elaborou, em 2014, um plano de imuniza\u00e7\u00e3o para o Estado de S\u00e3o Paulo depois que 11 pessoas morreram v\u00edtimas de febre amarela em Botucatu, em 2009.<\/p>\n<p>Mas, segundo ele, a Secretaria Estadual de Sa\u00fade n\u00e3o implementou a campanha de vacina\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas onde havia risco de chegada do v\u00edrus.<\/p>\n<p>&#8220;Eu fiz c\u00e1lculos matem\u00e1ticos para determinar qual seria a propor\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas n\u00e3o vacinadas que deveria ser imunizada, considerando os riscos de efeitos adversos da vacina&#8221;, conta.<\/p>\n<p>&#8220;Infelizmente a Secretaria de Sa\u00fade n\u00e3o adotou essa estrat\u00e9gia. Os casos est\u00e3o acontecendo exatamente nas \u00e1reas onde eu havia recomendado a vacina\u00e7\u00e3o. A Secretaria est\u00e1 correndo atr\u00e1s do preju\u00edzo.&#8221;<\/p>\n<p>Desde julho de 2017, foram contaminadas mais de 100 pessoas em S\u00e3o Paulo &#8211; mais de 40 pessoas morreram.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Vacinar ou n\u00e3o vacinar?<\/h2>\n<p>Por sua vez, o chefe da Coordenadoria de Controle de Doen\u00e7as do Estado de S\u00e3o Paulo, Marcos Boulos, tamb\u00e9m infectologista e professor da USP, argumenta que teria sido &#8220;irresponsabilidade&#8221; vacinar moradores em \u00e1reas que, na \u00e9poca, n\u00e3o era consideradas foco do v\u00edrus da febre amarela.<\/p>\n<p>Boulos afirma que a vacina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m traz riscos e, portanto, deve ser promovida com cautela. &#8220;Em Botucatu tivemos 11 mortos pela febre amarela e 4 mortos por efeitos colaterais de vacina. Quando voc\u00ea usa a vacina em regi\u00f5es onde n\u00e3o tem epidemia, voc\u00ea s\u00f3 aumenta os riscos.&#8221;<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m afirmou que, a partir dos primeiros casos de febre amarela no Estado, em 2017, a Secretaria de Sa\u00fade promoveu vacina\u00e7\u00e3o em \u00e1reas onde se previa que o v\u00edrus iria passar.<\/p>\n<p>&#8220;No ano passado, vacinamos com cuidado, seguindo as rotas de macacos e corredores de floresta. De cinco milh\u00f5es de vacinas, tivemos dois efeitos com morte.&#8221;<\/p>\n<p>Ele argumenta que houve mais casos de febre amarela em Mairipor\u00e3 e Atibaia porque tratam-se de cidades repletas de moradias em meio a florestas. Al\u00e9m disso, acrescenta, o aumento do reflorestamento criou novos corredores de floresta entre Minas Gerais e S\u00e3o Paulo, possibilitando novas rotas de migra\u00e7\u00e3o do v\u00edrus.<\/p>\n<p>&#8220;A entrada foi por \u00e1rea de reflorestamento. Houve 16% do aumento de florestas e se formou continuidades de mata. A entrada por Campinas foi por reflorestamento na fronteira com Minas Gerais&#8221;, disse.<\/p>\n<p>&#8220;Sab\u00edamos que um dia poderia chegar pr\u00f3ximo ao litoral, mas se acreditava que seria em mais sete ou 14 anos, e que daria para vacinar progressivamente. Est\u00e1vamos visitando as casas e vacinando.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Decis\u00e3o dif\u00edcil&#8217;<\/h2>\n<p>O pesquisador Ricardo Louren\u00e7o reconhece que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil tomar a decis\u00e3o de promover campanhas de vacina\u00e7\u00e3o em \u00e1reas onde ainda n\u00e3o h\u00e1 alerta de febre amarela, j\u00e1 que, embora considerada segura, a vacina\u00e7\u00e3o sempre gera alguns riscos.<\/p>\n<p>A vacina cont\u00e9m uma dose ativa, por\u00e9m enfraquecida do v\u00edrus, e estimula o corpo a produzir anticorpos contra a doen\u00e7a. Em alguns casos, pessoas desenvolvem os sintomas mais leves da febre amarela, como febre baixa e dor no corpo. Em casos mais raros, h\u00e1 o aparecimento dos sintomas graves &#8211; icter\u00edcia (amarelamento da pele e dos olhos), inflama\u00e7\u00e3o dos rins e f\u00edgado, hemorragias e, eventualmente, fal\u00eancia m\u00faltipla dos \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>Uma dose imuniza a pessoa para a vida toda, conforme a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. A dose fracionada adotada atualmente dura, segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, por pelo menos oito anos.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o do tempo de dura\u00e7\u00e3o da dose fracionada vem, segundo Louren\u00e7o, de um estudo feito com 700 pessoas que tomaram essa dose menor e que v\u00eam sendo monitoradas h\u00e1 oito anos.<\/p>\n<p>&#8220;Se a cada um milh\u00e3o de pessoas vacinadas, uma pode ter uma infec\u00e7\u00e3o com doen\u00e7a grave, para que arriscar? Essa \u00e9 a pergunta que se faz. Mas o aviso de que a febre est\u00e1 se aproximando est\u00e1 ocorrendo h\u00e1 muito tempo&#8221;, diz Louren\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8220;Se a febre amarela tivesse sido controlada h\u00e1 mais tempo, se tivesse sido feita uma avalia\u00e7\u00e3o e um est\u00edmulo maior para vacinar a popula\u00e7\u00e3o lim\u00edtrofe das \u00faltimas epidemias em Minas e em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o ter\u00edamos tantas pessoas infectadas hoje. Muita gente nasceu em \u00e1reas sem febre amarela e morreu disso, porque era tarde demais&#8221;, defende.<\/p>\n<p>Para o pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, os governos locais &#8220;n\u00e3o foram sens\u00edveis e r\u00e1pidos para comunicar e perceber o in\u00edcio da epidemia. E o governo federal n\u00e3o produziu a campanha no tempo necess\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade defende as a\u00e7\u00f5es de imuniza\u00e7\u00e3o adotadas. Em nota, a pasta afirmou que, &#8220;desde 2016, os Estados e munic\u00edpios v\u00eam sendo orientados para a necessidade de intensificar as medidas de preven\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Foram refor\u00e7ados os estoques de vacina\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas atingidas &#8211; s\u00f3 no ano passado, o minist\u00e9rio enviou aos Estados 45 milh\u00f5es de doses da vacina &#8211; e realizadas videoconfer\u00eancias com os gestores das regi\u00f5es afetadas para programar a\u00e7\u00f5es para conting\u00eancia e a realiza\u00e7\u00e3o da maior campanha de vacina fracionada do mundo, agora em curso&#8221;, diz o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 importante lembrar ainda que a estrat\u00e9gia de vacina\u00e7\u00e3o j\u00e1 faz parte da rotina de 21 Estados brasileiros e tamb\u00e9m \u00e9 recomendado para pessoas de outras regi\u00f5es que v\u00e3o se deslocar para \u00e1reas de mata nessas localidades. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, ao longo de d\u00e9cadas, vem mantendo os estoques de vacina e ampliando as \u00e1reas de vacina\u00e7\u00e3o conforme a necessidades apontadas pelo monitoramento constante&#8221;, afirmou a pasta na nota enviada \u00e0 BBC Brasil.<\/p>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 de que pessoas em \u00e1reas de risco se vacinem.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns pesquisadores argumentam que o v\u00edrus desceu do Norte para o Sudeste do pa\u00eds porque um ser humano infectado na Amaz\u00f4nia foi para a Mata Atl\u00e2ntica e acabou sendo picado por outros mosquitos silvestres que espalharam a doen<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":233374,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,12],"tags":[],"class_list":["post-233373","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/vacina.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=233373"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233373\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/233374"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=233373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=233373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=233373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}