{"id":233869,"date":"2018-02-12T10:01:02","date_gmt":"2018-02-12T13:01:02","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=233869"},"modified":"2018-02-12T10:01:02","modified_gmt":"2018-02-12T13:01:02","slug":"voce-so-aprende-viver-quando-sabe-o-que-e-morrer-as-historias-de-quem-vive-com-hiv-desde-os-anos-80","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/voce-so-aprende-viver-quando-sabe-o-que-e-morrer-as-historias-de-quem-vive-com-hiv-desde-os-anos-80\/","title":{"rendered":"&#8216;Voc\u00ea s\u00f3 aprende a viver quando sabe o que \u00e9 morrer&#8217;: as hist\u00f3rias de quem vive com HIV desde os anos 80"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Vin\u00edcius Lemos<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1857E\/production\/_99701799_10112017-11.jpg\" alt=\"Leiry Maria Rodrigues\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Leiry Maria Rodrigues descobriu que convivia com HIV aos 25 anos, em 1989 (Foto: Emanoele Daiane)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Uma senten\u00e7a de morte. Desta forma, a servidora p\u00fablica Leiry Maria Rodrigues, de 54 anos, classifica o resultado do exame que revelou que ela convivia com o v\u00edrus HIV em 11 de agosto de 1989, aos 25 anos.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, n\u00e3o havia muitos esclarecimentos sobre o assunto e tampouco tratamento eficaz. Ent\u00e3o, a expectativa de vida para aqueles que possu\u00edam o v\u00edrus n\u00e3o passava de um ano.<\/p>\n<p>&#8220;O m\u00e9dico me disse que n\u00e3o havia nada a ser feito. Eu questionei: &#8216;ent\u00e3o vou esperar morrer?&#8217;. Ele disse que era &#8216;mais ou menos isso&#8217;. Eu completei: &#8216;a \u00fanica preven\u00e7\u00e3o que posso fazer \u00e9 comprar um caix\u00e3o e colocar atr\u00e1s da porta?&#8217;. Novamente, ele me disse que era &#8216;mais ou menos isso'&#8221;, relata Rodrigues, que convive com o v\u00edrus h\u00e1 quase 30 anos.<\/p>\n<p>Ela foi infectada por um namorado com quem ficou por dois anos. &#8220;Ele morreu, em decorr\u00eancia da Aids, e o m\u00e9dico pediu que eu fizesse o exame. Sempre me cuidei, mas como era um relacionamento s\u00e9rio, deixamos de usar preservativo&#8221;, revela.<\/p>\n<p>Desde a descoberta do v\u00edrus, ela nunca deixou de trabalhar, teve uma filha &#8211; que nasceu sem o v\u00edrus &#8211; e come\u00e7ou a cursar psicologia, curso no qual se formar\u00e1 neste ano.<\/p>\n<p>&#8220;Levo uma vida normal, apesar de tomar medicamentos e ter algumas poucas complica\u00e7\u00f5es em raz\u00e3o do HIV. Nunca pensei que fosse viver tanto tempo. Costumo dizer que sou uma sobrevivente.&#8221;<\/p>\n<p>Entre 1980 e 1990, conforme o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, foram notificados 25.513 casos de Aids no Brasil, 80% deles em homens.<\/p>\n<p>As pessoas que sobreviveram ao v\u00edrus nos anos 80 viram amigos e parentes morrerem em decorr\u00eancia de Aids &#8211; doen\u00e7a desenvolvida quando o sistema imunol\u00f3gico \u00e9 afetado pelo v\u00edrus HIV. Elas carregavam consigo a certeza de que teriam o mesmo destino em poucos meses. Hoje, 30 anos depois, se consideram vitoriosos por estarem vivos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2A3A\/production\/_99701801_dd6677a9-fe4c-4411-a6fc-ab04db76a6a1.jpg\" alt=\"rem\u00e9dios HIV\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">A terapia antirretroviral \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas rem\u00e9dios ou mais para impedir a multiplica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus HIV no corpo humano (Foto: SCIENCE PHOTO LIBRARY)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>O infectologista Alexandre Naime Barbosa, membro do Comit\u00ea de HIV\/Aids da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que muitos sobreviveram ao HIV em raz\u00e3o do modo como seus organismos reagiram ao v\u00edrus. &#8220;Todos n\u00f3s somos programados, ao nascer, para termos respostas distintas, mais forte ou mais fracas, a diferentes doen\u00e7as. H\u00e1 pessoas que se infectam pelo v\u00edrus, mas o pr\u00f3prio sistema imune consegue control\u00e1-lo e por isso t\u00eam a quantidade de v\u00edrus muito baixa. Elas podem passar a vida toda sem descobrir que s\u00e3o portadoras do HIV. Isso explica porque muita gente se infectou na d\u00e9cada de 80 e est\u00e1 bem at\u00e9 hoje.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Por\u00e9m, 90% das pessoas infectadas ficam doentes em um per\u00edodo de seis a oito anos, caso n\u00e3o se tratem. H\u00e1 tamb\u00e9m aquelas que em menos de dois anos ap\u00f3s adquirir o v\u00edrus j\u00e1 sofrem complica\u00e7\u00f5es&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Apesar de terem sobrevivido e levarem uma vida normal, aqueles que convivem com o HIV h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas carregam consigo mazelas em decorr\u00eancia do v\u00edrus e das d\u00e9cadas de tratamento. Muitos se assustam com a aparente tranquilidade com a qual gera\u00e7\u00f5es mais novas t\u00eam lidado com o tema.<\/p>\n<p>&#8220;Certa vez, estava em um congresso e um m\u00e9dico falou que o HIV era igual \u00e0 gripe. Mas n\u00e3o \u00e9 verdade. A gripe \u00e9 um probleminha, enquanto o HIV \u00e9 um problem\u00e3o, para a vida toda&#8221;, relata o escritor Beto Volpe, que contraiu o v\u00edrus em 1989, aos 28 anos.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Os anos 80<\/h2>\n<p>O HIV foi descoberto em 1981, ano em que foram descritos os primeiros casos em humanos. At\u00e9 o in\u00edcio dos anos 90, em raz\u00e3o das poucas op\u00e7\u00f5es de tratamento, as pessoas que eram infectadas pelo v\u00edrus costumavam ficar doentes com frequ\u00eancia. Com a fragilidade na sa\u00fade, as doen\u00e7as oportunistas eram respons\u00e1veis por grande parte das mortes.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/785A\/production\/_99701803_volpe.jpg\" alt=\"Beto Volpe\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">&#8220;Uma vez um m\u00e9dico falou que o HIV era igual \u00e0 gripe. Mas a gripe \u00e9 um probleminha, enquanto o HIV \u00e9 um problem\u00e3o, para a vida toda&#8221;, relata Beto Volpe (Foto: Arquivo Pessoal)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>De acordo com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, assim como hoje, o perfil da epidemia de HIV\/Aids no Brasil na d\u00e9cada de 80 era composto majoritariamente por homens que faziam sexo com outros homens. Havia tamb\u00e9m um grande n\u00famero de hemof\u00edlicos, infectados durante transfus\u00f5es de sangue, al\u00e9m de usu\u00e1rios de drogas injet\u00e1veis. As mulheres passaram a representar uma parcela relevante entre os infectados apenas no in\u00edcio da d\u00e9cada de 90.<\/p>\n<p>Os medicamentos antirretrovirais come\u00e7aram a surgir ainda na d\u00e9cada de 80, com o objetivo de impedir a multiplica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus causador da Aids e evitar o enfraquecimento do sistema imunol\u00f3gico. Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o primeiro medicamento foi o AZT, criado em 1987. No entanto, longe de representar uma solu\u00e7\u00e3o, ele apenas garantia uma sobrevida de at\u00e9 dois anos ao paciente, j\u00e1 que n\u00e3o era capaz de bloquear completamente a a\u00e7\u00e3o do HIV no organismo.<\/p>\n<p>As dificuldades de tratamento eram conhecidas por Volpe, hoje com 56 anos, que j\u00e1 havia perdido amigos em decorr\u00eancia do v\u00edrus. &#8220;Dos anos 70 ao in\u00edcio dos 80, eu n\u00e3o costumava usar camisinha, n\u00e3o era comum. Mas depois da descoberta do HIV, passei a usar. Cheguei a fazer um teste em maio de 1989, que deu negativo. Mas tive um envolvimento com outro rapaz, ele pediu para deixarmos de usar camisinha e acabei cedendo. Depois, ele descobriu que estava com o v\u00edrus. Eu tamb\u00e9m&#8221;, narra.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a descoberta do v\u00edrus, Beto obteve licen\u00e7a m\u00e9dica no trabalho em um banco de S\u00e3o Paulo. &#8220;Isso era concedido imediatamente. Muita gente foi aposentada compulsoriamente por conta do HIV&#8221;, diz. Em seu caso, a aposentadoria chegou no in\u00edcio dos anos 90.<\/p>\n<p>Ele conta que o resultado positivo para o HIV fez com que mudasse o modo como enxergava a vida. &#8220;Era uma morte anunciada. Ent\u00e3o passei a curtir o hoje, porque poderia n\u00e3o haver amanh\u00e3. Acredito que viver com o v\u00edrus \u00e9 como qualquer pessoa deveria viver, mesmo que n\u00e3o o tenha. \u00c9 aproveitar as coisas como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3, se alimentar corretamente e fazer exerc\u00edcios&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter tempo e a necessidade de aproveitar a vida tamb\u00e9m surgiram na jornalista e escritora Val\u00e9ria Polizzi, hoje com 46 anos, que descobriu ter HIV, em 1989, aos 18 anos. Ela deixou de fazer planos a longo prazo, pois acreditava que poderia morrer em poucos meses. &#8220;Era ano de vestibular, mas acabei indo para Nova York, para morar com uma tia. Depois voltei, fiz vestibular e passei para Letras. Mas ainda era muito forte a ideia de que iria morrer em pouco tempo. Eu pensava: &#8216;n\u00e3o vai dar tempo&#8217;. Acabei largando o curso. Depois fiz teatro e, anos mais tarde, decidi cursar jornalismo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 hoje, tenho problemas em fazer planos a longo prazo. Se algu\u00e9m me falar sobre algo no fim do ano, penso que o fim de 2018 n\u00e3o existe. Vamos ficar apenas com o primeiro semestre, por enquanto, que est\u00e1 \u00f3timo&#8221;, declara.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C67A\/production\/_99701805_polizzi.jpg\" alt=\"Val\u00e9ria Polizzi\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Polizzi deixou de fazer planos a longo prazo, pois acreditava que poderia morrer em poucos meses (Foto: Arquivo Pessoal)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Tratamentos<\/h2>\n<p>A aus\u00eancia de tratamentos trazia incerteza \u00e0s pessoas que descobriam conviver com o HIV nos anos 80 e 90. O arquiteto e arteterapeuta Jos\u00e9 H\u00e9lio Costalunga, de 66 anos, que descobriu estar infectado com o HIV em 1988, se recorda dos obst\u00e1culos encontrados ap\u00f3s receber o exame positivo. &#8220;O m\u00e9dico me disse que eu deveria esperar o incerto. Faziam acompanhamento da minha imunologia e outros exames para ver como estava a minha situa\u00e7\u00e3o. Era apenas isso.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eu &#8216;toquei o barco&#8217; e segui em frente. Preferi enfrentar a realidade da vida. Pensei: &#8216;se tiver que morrer, morri. Se tiver que viver, vivi&#8217;. E assim fui vivendo&#8221;, completa.<\/p>\n<p>O arquiteto foi infectado pelo HIV durante um namoro, aos 36 anos. O parceiro dele contraiu o v\u00edrus por volta de 1985 e somente foi descobrir cerca de tr\u00eas anos depois. &#8220;Ele come\u00e7ou a adoecer, emagrecer e descobriu que havia sido infectado. Em seguida, fiz o teste e deu positivo tamb\u00e9m.&#8221; Al\u00e9m da incerteza sobre o v\u00edrus, Costalunga tamb\u00e9m teve de lidar com o estado terminal do parceiro. &#8220;Foi uma situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil, mas fiquei ao lado dele at\u00e9 o per\u00edodo em que faleceu&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Costalunga afirma ter levado uma vida normal, sem grandes complica\u00e7\u00f5es com o v\u00edrus, at\u00e9 o ano de 1995, quando teve a primeira doen\u00e7a oportunista. &#8220;Eu tive uma tuberculose ganglionar e precisei me tratar.&#8221; Ele somente come\u00e7ou a tomar os medicamentos antirretrovirais no ano seguinte. &#8220;Meus clientes fizeram uma vaquinha e um deles, que estava indo passear em Nova York, comprou o coquetel. Foi assim que tomei a minha primeira dose&#8221;, relata.<\/p>\n<p>O coquetel de medicamentos antirretrovirais &#8211; feito por meio da combina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas drogas &#8211; foi desenvolvido em 1996. No mesmo ano, os rem\u00e9dios passaram a ser distribu\u00eddos gratuitamente no Brasil, por meio do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Desta forma, houve redu\u00e7\u00e3o nos n\u00fameros de mortes em decorr\u00eancia da Aids.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14447\/production\/_99851038_costalunga.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 H\u00e9lio Costalunga,\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">&#8216;Preferi enfrentar a realidade da vida. Pensei: &#8216;se tiver que morrer, morri. Se tiver que viver, vivi&#8217;, disse Jos\u00e9 H\u00e9lio Costalunga (BBC Brasil)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Esses medicamentos mudaram o modo como o HIV era tratado, porque, pela primeira vez na hist\u00f3ria da medicina, pacientes ficaram com a carga viral indetect\u00e1vel no sangue, ou seja, zeraram a taxa de HIV. Assim, passaram a ter uma qualidade de vida muito boa e uma expectativa de vida muito pr\u00f3xima ou igual \u00e0 de pessoas sem o v\u00edrus&#8221;, diz o infectologista Alexandre Naime.<\/p>\n<p>Para a escritora Val\u00e9ria Polizzi, os coquet\u00e9is foram fundamentais para conviver com o HIV. &#8220;Eu tive uma tuberculose em 94, quando estava nos Estados Unidos. Ent\u00e3o, fiz tratamento com o AZT. Por\u00e9m, o efeito dele era curto e meses depois tive de parar de tomar, porque n\u00e3o me ajudava mais. Somente em 97, quando comecei a tomar o coquetel, as coisas melhoraram e consegui me estabilizar&#8221;, detalha.<\/p>\n<p>&#8220;Eu cheguei a parar de tomar um dos tipos de medica\u00e7\u00e3o do coquetel, porque passava mal o dia inteiro. Cheguei a falar ao meu pai: &#8216;prefiro morrer a levar uma vida assim&#8217;. Mas isso varia de pessoa para pessoa. Depois, fui me adaptando aos medicamentos ao qual meu organismo reagiu melhor&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16B57\/production\/_99851039_b7b02022-905d-4f94-b83c-d481c242187f.jpg\" alt=\"tubo de exame de sangue com HIV positivo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"media-caption__text\">Rem\u00e9dios para controlar HIV come\u00e7aram a ser distribu\u00eddos gratuitamente no Brasil em 1996<\/span><\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Envelhecimento precoce<\/h2>\n<p>Uma das dificuldades destacadas por aqueles que convivem com o HIV h\u00e1 d\u00e9cadas \u00e9 o envelhecimento precoce. Eles afirmam terem desenvolvidos doen\u00e7as que s\u00e3o comuns a pessoas com idades mais avan\u00e7adas que as suas. Jos\u00e9 H\u00e9lio Costalunga possui neuropatia perif\u00e9rica, que fez com que ele perdesse o equil\u00edbrio. &#8220;Hoje em dia, passo o tempo inteiro tonto. Ando de bengala. Isso \u00e9 para o resto da vida.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Essa perda de equil\u00edbrio acontece com pessoas de 75 a 85 anos, mas comigo foi aos 65, em raz\u00e3o do envelhecimento precoce causado pelo HIV. H\u00e1 muitos estudiosos que est\u00e3o considerando que as pessoas com HIV se tornam idosas aos 50 anos&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Beto Volpe tamb\u00e9m revela ter tido algumas doen\u00e7as precocemente. &#8220;Tive catarata aos 38 anos. Conhe\u00e7o gente que teve osteoporose aos 27. Tenho v\u00e1rias mazelas como triglic\u00e9rides, colesterol e glicemia alterados, desde a faixa dos 30 anos&#8221;, pontua.<\/p>\n<p>Conforme o infectologista Alexandre Naime, o envelhecimento precoce \u00e9 recorrente em alguns pacientes que vivem com HIV em raz\u00e3o de uma inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica causada pelo v\u00edrus. &#8220;\u00c9 como se o indiv\u00edduo passasse por desafios imunol\u00f3gicos e respondesse com uma s\u00e9rie de marcadores inflamat\u00f3rios, que causam efeitos colaterais. Essa inflama\u00e7\u00e3o, com o passar dos anos, aumenta os riscos de doen\u00e7as. Isso \u00e9 muito mais intenso naqueles sem tratamento ou que n\u00e3o fazem o tratamento corretamente. Por\u00e9m, tamb\u00e9m pode ocorrer, em menor quantidade, naqueles que tomam os medicamentos corretamente e possuem carga viral indetect\u00e1vel.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5DCF\/production\/_99851042_fbcbf380-a829-4e37-9008-8545f6ee399d.jpg\" alt=\"campanha contra aids\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<p>&#8220;Entre esses problemas precoces est\u00e3o acidente vascular cerebral, infarto, diabetes, hipertens\u00e3o, fibrose, entre outros&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Para Jos\u00e9 H\u00e9lio Costalunga, a medicina enfrenta um novo dilema relacionado ao HIV: como tratar os sobreviventes da epidemia dos anos 80.<\/p>\n<p>&#8220;O nosso problema agora \u00e9 o envelhecimento precoce. Os rem\u00e9dios ativam isso ainda mais. O que cura, mata. Ele ajuda, mas tamb\u00e9m causa transtornos, como qualquer outra medica\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Os efeitos colaterais das drogas se acumulam. Leiry Rodrigues diz sofrer com a lipodistrofia &#8211; distribui\u00e7\u00e3o anormal de gordura &#8211; e lipoatrofia &#8211; perda de gordura em algumas \u00e1reas do corpo. J\u00e1 Polizzi passou a sofrer de inflama\u00e7\u00e3o renal. Por meio de comunicado, em resposta \u00e0 BBC Brasil, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade reconhece que h\u00e1 problemas decorrentes do longo per\u00edodo de utiliza\u00e7\u00e3o dos medicamentos. &#8220;Podem ocorrer algumas adversidades como toxicidade \u00f3ssea ou renal, dislipidemia &#8211; n\u00edveis elevados de gordura no sangue -, resist\u00eancia \u00e0 insulina ou doen\u00e7a cardiovascular.&#8221;<\/p>\n<p>No entanto, a pasta afirma que os antirretrovirais adotados atualmente possuem menos efeitos considerados graves ou intoler\u00e1veis que os utilizados anos atr\u00e1s. &#8220;Os benef\u00edcios da supress\u00e3o viral e a melhora na fun\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica, como resultado da terapia antirretroviral, superam largamente os riscos associados aos efeitos adversos de alguns desses medicamentos.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O preconceito e a banaliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Al\u00e9m dos efeitos da doen\u00e7a e dos medicamentos sobre o corpo, os pacientes de HIV tem que lidar com um bin\u00f4mio de rea\u00e7\u00f5es que os preocupa: o preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o e a banaliza\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. &#8220;Os pr\u00f3prios m\u00e9dicos diziam que era melhor n\u00e3o contar pra ningu\u00e9m, sen\u00e3o nossa vida acabava&#8221;, conta Val\u00e9ria Polizzi.<\/p>\n<p>Com Volpe, o preconceito se manifestou at\u00e9 mesmo no consult\u00f3rio m\u00e9dico, nos anos 90. &#8220;Quando cheguei, o m\u00e9dico n\u00e3o deixou que eu o cumprimentasse e me disse para ficar atr\u00e1s de uma linha amarela. Ele havia feito uma faixa, a dois metros, para as pessoas com HIV que iam l\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>Desde 2014, o Brasil possui Lei Antidiscrimina\u00e7\u00e3o, em 2014, que tornou crime qualquer tipo de discrimina\u00e7\u00e3o aos portadores do v\u00edrus da imunodefici\u00eancia e a doentes de Aids.<\/p>\n<p>Se os 30 anos na companhia da doen\u00e7a n\u00e3o reduziram o preconceito para quem vive com HIV, o avan\u00e7o no tratamento e a diminui\u00e7\u00e3o do tamanho do tabu tem causado uma certa banaliza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o. A primeira gera\u00e7\u00e3o de infectados assiste com preocupa\u00e7\u00e3o ao descaso de alguns jovens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 preven\u00e7\u00e3o: 52,5% dos casos atuais de HIV s\u00e3o diagnosticados na faixa et\u00e1ria entre 20 e 34 anos de idade.<\/p>\n<p>De acordo com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, os jovens homossexuais figuram entre a parcela de pessoas em que houve os maiores aumentos de registros de Aids no Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Do ano de 2006 para o de 2016, a taxa de detec\u00e7\u00e3o de casos de AIDS por 100 mil habitantes quase triplicou entre os homens de 15 a 19 anos. Entre os de 20 a 24 anos, a taxa mais que duplicou&#8221;, diz o \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje, o descaso \u00e9 muito grande, por conta dessa banaliza\u00e7\u00e3o. Muita gente pensa &#8216;tem terapia, ent\u00e3o \u00e9 s\u00f3 tomar que est\u00e1 tudo bem&#8217;. Mas as coisas n\u00e3o s\u00e3o assim t\u00e3o simples&#8221;, declara Rodrigues.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/36BF\/production\/_99851041_10112017-8.jpg\" alt=\"Leiry Maria Rodrigues\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">&#8220;Muita gente pensa &#8216;tem terapia, ent\u00e3o \u00e9 s\u00f3 tomar que est\u00e1 tudo bem&#8217;. Mas as coisas n\u00e3o s\u00e3o assim t\u00e3o simples&#8221;, disse Leiry (Foto: Emanoele Daiane)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Um dos temores de Jos\u00e9 H\u00e9lio Costalunga, que atua em movimentos sociais em favor de pessoas com HIV, \u00e9 que o Governo Federal deixe de entregar os medicamentos gratuitos.<\/p>\n<p>&#8220;No ano passado houve falta de medica\u00e7\u00e3o no Brasil. Muitos jovens pensam que est\u00e1 tudo lindo e maravilhoso, porque existe tratamento, mas as coisas n\u00e3o est\u00e3o assim. Falta medica\u00e7\u00e3o e a gente n\u00e3o sabe o que vai ser daqui pra frente, ainda mais com as mudan\u00e7as econ\u00f4micas que est\u00e3o acontecendo no Brasil&#8221;, declara.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, por\u00e9m, nega que exista a possibilidade de falta de rem\u00e9dios contra o HIV no Brasil. A pasta justifica que dificuldades com log\u00edstica na distribui\u00e7\u00e3o de medicamentos podem ter prejudicado algumas regi\u00f5es.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Expectativas para o futuro<\/h2>\n<p>Para quem sobreviveu aos anos 80 com o HIV, todos os dias \u00e9 classificado como uma nova oportunidade.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria Polizzi, que acreditava que n\u00e3o chegaria aos 19 anos, ainda se surpreende quando se lembra do momento em que descobriu o v\u00edrus.<\/p>\n<p>&#8220;A gente n\u00e3o ia sobreviver. Se algu\u00e9m me falasse que eu chegaria aos 45 anos, n\u00e3o acreditaria. \u00c9 duro chegar assim, tendo que tomar rem\u00e9dios todos os dias, com uma s\u00e9rie de efeitos colaterais. \u00c9 um p\u00e9 no saco. Mas \u00e9 o que a gente tem.&#8221;<\/p>\n<p>Ela torce para que os estudos avancem e que as novas gera\u00e7\u00f5es tenham, cada vez mais, menos efeitos colaterais.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 H\u00e9lio Costalunga afirma ter aprendido muito sobre a vida desde que descobriu o v\u00edrus.<\/p>\n<p>&#8220;Eu entendi, na real, o que um mestre dizia: &#8216;voc\u00ea s\u00f3 vai aprender a viver quando souber o que \u00e9 morrer&#8217;. A gente s\u00f3 entende a vida quando descobre o que \u00e9 a morte. Passei a entender que o momento \u00e9 agora, nem antes nem depois.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela foi infectada por um namorado com quem ficou por dois anos. &#8220;Ele morreu, em decorr\u00eancia da Aids, e o m\u00e9dico pediu que eu fizesse o exame. 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