{"id":233959,"date":"2018-02-13T08:05:29","date_gmt":"2018-02-13T11:05:29","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=233959"},"modified":"2018-02-13T08:05:29","modified_gmt":"2018-02-13T11:05:29","slug":"judith-butler-ensino-de-genero-nas-escolas-deveria-ser-obrigatorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/judith-butler-ensino-de-genero-nas-escolas-deveria-ser-obrigatorio\/","title":{"rendered":"Judith Butler: &#8216;ensino de g\u00eanero nas escolas deveria ser obrigat\u00f3rio&#8217;"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"bigtitle\" style=\"text-align: justify;\" data-section=\"\"><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><time class=\"time d-b\" datetime=\"2018-02-13BRST09:02\">Carolina de Assis\u00a0<\/time><\/p>\n<div class=\"subtitle\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Em sua primeira visita a SP, fil\u00f3sofa norte-americana falou sobre viol\u00eancia policial e alian\u00e7as entre movimentos sociais e comentou pol\u00eamica sobre g\u00eanero e diversidade sexual no curr\u00edculo escolar: &#8216;exclus\u00e3o do tema \u00e9 uma forma de censura&#8217;.<\/strong><\/em><\/div>\n<div class=\"social pc\" style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<div class=\"newsaside no600\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"cf\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"descript\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/ColetivaButler_AlexandreGon%C3%A7alvesJr.JPG\" alt=\"\" \/><br \/>\nJudith Butler durante a entrevista coletiva que precedeu sua confer\u00eancia no I Semin\u00e1rio Queer, no Sesc Vila Mariana, em S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>Em 1990, a fil\u00f3sofa norte-americana Judith Butler publicou nos Estados Unidos o livro\u00a0<em>Gender Trouble<\/em>. Editada no Brasil com o t\u00edtulo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.record.com.br\/livro_sinopse.asp?id_livro=28882\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Problemas de G\u00eanero<\/em><\/a>, a obra rapidamente se tornou um dos pilares dos estudos feministas e da teoria queer. No in\u00edcio de setembro, 25 anos depois da publica\u00e7\u00e3o de seu mais conhecido trabalho, Butler finalmente veio ao Brasil para um debate p\u00fablico sobre os temas que a movem: identidades, vulnerabilidades e resist\u00eancias.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s participar de congressos em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto e Salvador, a fil\u00f3sofa apresentou nesta quarta-feira (09\/09) a confer\u00eancia magna do I Semin\u00e1rio Queer, realizado no Sesc Vila Mariana, em S\u00e3o Paulo. Organizado pela revista Cult e pelo Sesc, o evento prop\u00f4s debates sobre a supera\u00e7\u00e3o das fronteiras sexuais e de g\u00eanero e suas implica\u00e7\u00f5es na cultura e na sociedade.<\/p>\n<p>Judith Butler \u00e9 um nome central neste universo por suas contribui\u00e7\u00f5es aos estudos feministas e queer, especialmente com a no\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/blog\/samuel\/transtudo\/judith-butler-genero-como-performatividade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">g\u00eanero como performatividade<\/a>\u00a0e com a cr\u00edtica do que ela denomina matriz heterossexual. A primeira sugere que g\u00eanero \u00e9 a\u00e7\u00e3o \u2013 muitas e diferentes a\u00e7\u00f5es que, repetidas ao longo da vida, nos levam a reiterar nossa identifica\u00e7\u00e3o com certo g\u00eanero e express\u00e1-la ao mundo. J\u00e1 a segunda estabelece como norma a conex\u00e3o entre sexo, g\u00eanero e desejo em uma l\u00f3gica voltada para a reprodu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie: uma pessoa com p\u00eanis \u00e9 necessariamente um homem, que deve necessariamente sentir desejo por mulheres, que por sua vez s\u00e3o pessoas que necessariamente t\u00eam vagina e que necessariamente sentem desejo por homens.<\/p>\n<p>Qualquer exist\u00eancia que n\u00e3o obede\u00e7a a essa norma \u00e9 considerada desviante. Entre estas exist\u00eancias est\u00e3o pessoas l\u00e9sbicas, gays, trans e intersex que, assim como muitas feministas, encontraram na obra de Butler mais um instrumento para perturbar normas identit\u00e1rias e sexuais que limitam possibilidades de vida e que est\u00e3o no centro da viol\u00eancia contra mulheres e pessoas LGBTI.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cMeu trabalho com a teoria queer sempre interagiu com um movimento social mais abrangente\u201d, comentou Butler durante a entrevista coletiva que antecedeu sua interven\u00e7\u00e3o no semin\u00e1rio. \u201cO aspecto dos estudos queer que eu mais valorizo diz respeito \u00e0s alian\u00e7as. Queer n\u00e3o \u00e9 uma identidade. Voc\u00ea pode dizer \u2018eu sou queer\u2019, mas \u00e9 muito estranho dizer isso. Acho que queer \u00e9 uma maneira de nomear um movimento que toma uma dire\u00e7\u00e3o diferente daquela esperada. Ent\u00e3o pertencer a um movimento queer \u00e9 contestar as normas dominantes e o processo de normaliza\u00e7\u00e3o que torna t\u00e3o dif\u00edcil para pessoas l\u00e9sbicas, gays, bissexuais, intersex, trans, viver mais aberta e facilmente e aparecer no espa\u00e7o p\u00fablico.\u201d<\/p>\n<p>Para a fil\u00f3sofa, as alian\u00e7as que caracterizam o movimento queer v\u00e3o al\u00e9m das quest\u00f5es sexuais e de g\u00eanero. \u201cRecentemente eu tenho sentido que o ativismo queer \u00e9 mais eficiente quando se alia a grupos de pessoas que est\u00e3o lutando contra a precariedade econ\u00f4mica e a priva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E acho que a ideia de alian\u00e7as que \u00e9 t\u00e3o importante para o movimento queer deve continuar se expandindo, para que a gente possa construir uma esquerda que se oponha a crescentes desigualdades econ\u00f4micas, racismo, homofobia e sexismo. Acho que essa \u00e9 uma maneira de pensar em coaliz\u00f5es em toda a sua complexidade e com todas as suas dificuldades.\u201d<\/p>\n<p>Esta foi a principal quest\u00e3o abordada pela fil\u00f3sofa em sua confer\u00eancia, intitulada\u00a0<em>Rethinking vulnerability and resistance<\/em>\u00a0(\u201cRepensando a vulnerabilidade e a resist\u00eancia\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre). Butler explicou que hoje tem se dedicado principalmente \u00e0 quest\u00e3o da precariedade e \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es globais contra as desigualdades econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas, que produzem cada vez mais popula\u00e7\u00f5es \u201cdesignadas como dispens\u00e1veis e indignas de luto\u201d.<\/p>\n<p>Alexandre Gon\u00e7alves Jr \/ Sesc S\u00e3o Paulo<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/SafatleButler_fotoAlexandreGon%C3%A7alvesJr(1).JPG\" alt=\"\" \/><br \/>\nO fil\u00f3sofo brasileiro Vladimir Safatle e Judith Butler no palco do teatro do Sesc Vila Mariana durante o I Semin\u00e1rio Queer, nesta quarta-feira (09\/09)<\/p>\n<p>Nesse sentido, os movimentos e as pol\u00edticas denominados queer podem seguir fazendo sentido se a palavra mantiver pelo menos dois sentidos, diz Butler: \u201cum deles diz respeito a diverg\u00eancia, desvio da norma, se abrir para possibilidades; o segundo diz respeito \u00e0 alian\u00e7a entre grupos de pessoas que n\u00e3o teriam muito em comum e entre os quais h\u00e1 inclusive, \u00e0s vezes, desconfian\u00e7a e antagonismo.\u201d Este \u00faltimo sentido abarca tamb\u00e9m a \u201cafirma\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as que n\u00e3o podem ser superadas por uma identidade unificada\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNem toda alian\u00e7a \u00e9 amor. \u00c0s vezes n\u00f3s nos aliamos para estabelecer o direito de amar e viver sem ser submetido a viol\u00eancia\u201d, e isso n\u00e3o significa \u201cque n\u00f3s amemos e desejemos\u201d todas as pessoas a quem nos aliamos. Em alus\u00e3o a tens\u00f5es dentro do movimento LGBT e dos movimentos sociais como um todo, Butler lembrou que \u201calian\u00e7as s\u00e3o dif\u00edceis\u201d e que \u201catuar em conjunto n\u00e3o pressup\u00f5e nem produz uma identidade coletiva\u201d, mas sim uma s\u00e9rie de rela\u00e7\u00f5es que \u201cincluem apoio, disputas, rupturas e solidariedade.\u201d<\/p>\n<p><strong>G\u00eanero na escola: medo e fasc\u00ednio<\/strong><\/p>\n<p>O mais quente debate sobre g\u00eanero e sexualidade no Brasil no momento diz respeito \u00e0 inclus\u00e3o destes temas no curr\u00edculo escolar, e Butler foi instada pela plateia a falar sobre o assunto. Como era de se esperar, as pessoas que apoiam e trabalham pela discuss\u00e3o da tem\u00e1tica com crian\u00e7as e adolescentes em prol de uma educa\u00e7\u00e3o que acolha a diversidade sexual e de g\u00eanero e problematize a viol\u00eancia contra mulheres e pessoas LGBT estavam muito bem representadas na plateia que a ouvia. Aqueles que s\u00e3o contr\u00e1rios \u00e0 inser\u00e7\u00e3o do debate de g\u00eanero e diversidade sexual nas escolas tamb\u00e9m se fizeram representar, atrav\u00e9s de um inusitado protesto pouco antes da apresenta\u00e7\u00e3o de Butler.<\/p>\n<p>Cinco manifestantes \u2013 membros do Instituto Pl\u00ednio Corr\u00eaa de Oliveira, que se define como uma entidade \u201cem defesa dos valores da civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d \u2013 se postaram em frente ao Sesc Vila Mariana com uma bandeira do Brasil e um estandarte.\u00a0<a href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/blog\/samuel\/agora\/voces-sao-escoteiros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ao som de uma gaita de foles<\/a>, eles carregavam cartazes denunciando a \u201cideologia de g\u00eanero\u201d e a \u201cideologia homossexual\u201d nas escolas, prel\u00fadios da \u201cdestrui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>Imagem via Revista Cult<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/pco(1).jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nOs manifestantes contra a &#8220;ideologia de g\u00eanero&#8221; em frente ao Sesc Vila Mariana<\/p>\n<p>Butler comentou o medo que o debate de g\u00eanero e diversidade sexual incute em setores que desconhecem os conceitos e seu potencial libertador \u2013 ou temem exatamente isso \u2013 e se utilizam de argumentos pseudorreligiosos ou pseudocient\u00edficos para fundamentar sua oposi\u00e7\u00e3o. \u201cA exclus\u00e3o do tema das pol\u00edticas educacionais me parece uma forma de censura, com o objetivo de abafar a conversa sobre as maneiras diversas em que vivem os g\u00eaneros e com o intuito de estabelecer que, seja qual for o seu sexo, ele corresponde ao que est\u00e1 na B\u00edblia ou ao que determina alguma vers\u00e3o da ci\u00eancia que esteja de acordo com o que est\u00e1 na B\u00edblia. A censura ao tema \u00e9 claramente um ato de medo.\u201d<\/p>\n<p>A fil\u00f3sofa lembra tamb\u00e9m que a determina\u00e7\u00e3o sexual e a forma\u00e7\u00e3o das identidades de g\u00eanero s\u00e3o t\u00f3picos calorosamente disputados e discutidos entre cientistas. \u201cA comunidade cient\u00edfica tem diferentes e complexas vis\u00f5es sobre a determina\u00e7\u00e3o sexual e cientistas brigam o tempo todo sobre isso. Este \u00e9 um tema muito disputado dentro da ci\u00eancia. Ent\u00e3o por que esses debates n\u00e3o devem ser conhecidos e discutidos? Isso tamb\u00e9m \u00e9 ci\u00eancia. Sabemos que a categoria \u2018sexo\u2019 muda ao longo da hist\u00f3ria e em diferentes lugares do mundo; por que isso n\u00e3o deve ser discutido? Por que n\u00e3o seria interessante e \u00fatil saber sobre as diferentes maneiras que as pessoas pensam sobre sexo? N\u00e3o apenas a vers\u00e3o da religi\u00e3o ou uma vers\u00e3o \u00fanica e reducionista da ci\u00eancia. Em nome da investiga\u00e7\u00e3o intelectual aberta, deveria ser obrigat\u00f3rio o ensino de g\u00eanero.\u201d<\/p>\n<section class=\"noticias-relevantes cf\">\n<h4 class=\"subtitle\"><\/h4>\n<\/section>\n<div><\/div>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/S7g22OlSFK4\" width=\"960\" height=\"540\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Para al\u00e9m da ignor\u00e2ncia sobre os conceitos e os fundamentos das teorias de g\u00eanero e sexualidade, Butler aponta que o temor dos conservadores tem muito de fasc\u00ednio. \u201cQuando voc\u00ea come\u00e7a a censurar uma palavra, \u2018g\u00eanero\u2019, \u00e9 porque essa palavra \u00e9 considerada muito poderosa. Ent\u00e3o eles est\u00e3o atribuindo certo poder a essa palavra. Como se, se uma jovem aprender que ela pode mudar de g\u00eanero, ela vai de fato mudar de g\u00eanero imediatamente. Se um ou uma jovem aprender sobre a vida das pessoas gays ou das pessoas l\u00e9sbicas, aquele ou aquela jovem vai se tornar gay ou l\u00e9sbica. Eles imaginam que o que quer que seja que n\u00f3s estamos fazendo \u00e9 t\u00e3o atraente e t\u00e3o poderoso que os e as jovens n\u00e3o v\u00e3o conseguir resistir. E que todas e todos ser\u00e3o recrutados em um grande ex\u00e9rcito de l\u00e9sbicas, gays e pessoas trans. \u00c9 uma grande fantasia.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u201cRegime de viol\u00eancia legal\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A fil\u00f3sofa comentou tamb\u00e9m os protestos contra a viol\u00eancia policial em seu pa\u00eds, em especial o movimento\u00a0<em>Black Lives Matter<\/em>, conectando-o ao contexto brasileiro. \u201cNo Brasil voc\u00eas vivem com o fato de que milhares de pessoas s\u00e3o mortas anualmente pela pol\u00edcia e menos de 1% desses assassinatos geram a\u00e7\u00e3o penal.\u201d Para Butler, esse \u201cregime de viol\u00eancia e cumplicidade policial\u201d deve ser compreendido internacionalmente. \u201cIsso nos possibilita n\u00e3o s\u00f3 formar redes globais de solidariedade e protesto contra esse tipo de viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m observar como o racismo funciona no sentido de permitir que algumas popula\u00e7\u00f5es sejam livremente assassinadas enquanto outras s\u00e3o intensamente protegidas.\u201d<\/p>\n<p>Este \u201cregime de viol\u00eancia legal\u201d, diz Butler, afeta tamb\u00e9m a vida de pessoas trans e queer e mulheres, que s\u00e3o \u201cdesproporcionalmente vulner\u00e1veis a mortes violentas\u201d. A fil\u00f3sofa trouxe alguns dados sobre a realidade dessas popula\u00e7\u00f5es no Brasil: segundo o Instituto Avante, cerca de 40 mil mulheres foram assassinadas entre 2001 e 2010, e o pa\u00eds \u00e9 o\u00a0<a href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/blog\/samuel\/transtudo\/dia-da-memoria-transgenerx-homenagem-e-luta-contra-a-transfobia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">l\u00edder no mundo em assassinatos de pessoas trans<\/a>, de acordo com a iniciativa<em>Trans Murder Monitoring<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s podemos e devemos produzir mais n\u00fameros sobre isso, mas n\u00fameros t\u00eam sempre um contexto e podem sempre ser desconsiderados, al\u00e9m de n\u00e3o serem capazes de produzir, por si s\u00f3, uma an\u00e1lise.\u201d Para Butler, \u201cno Brasil n\u00e3o est\u00e1 em curso apenas um terrorismo sexual e de g\u00eanero que tem a viol\u00eancia e a cumplicidade da pol\u00edcia em seu cerne, mas tamb\u00e9m a longa hist\u00f3ria do racismo, as reverbera\u00e7\u00f5es constantes da escravid\u00e3o na vida cotidiana, e a designa\u00e7\u00e3o de algumas popula\u00e7\u00f5es como dispens\u00e1veis e indignas de luto, dispon\u00edveis para serem assassinadas com impunidade.\u201d<\/p>\n<p>Essas popula\u00e7\u00f5es vivem um paradoxo pol\u00edtico, diz a fil\u00f3sofa: sua vulnerabilidade pode e deve ser ressaltada, o que incorreria em vitimiza\u00e7\u00e3o e no clamor por prote\u00e7\u00e3o legal, exemplificado pela lei do feminic\u00eddio, sancionada em mar\u00e7o pela presidenta Dilma Rousseff. Mas a insist\u00eancia nesse paradigma pode, involuntariamente, apagar o hist\u00f3rico de resist\u00eancia cotidiana de mulheres, minorias \u00e9tnico-raciais, pessoas trans e queer e trabalhadoras do sexo. \u201cN\u00e3o quero subestimar a import\u00e2ncia de novas leis, mas se elas s\u00e3o institu\u00eddas dentro de um regime legal que exercita sua pr\u00f3pria forma de viol\u00eancia, quais s\u00e3o as implica\u00e7\u00f5es disso para o objetivo final de mudar as estruturas sociais de racismo, misoginia, homofobia e transfobia que levam \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de vidas indignas de luto?\u201d<\/p>\n<p>Questionada pela plateia sobre a demanda de criminaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra pessoas LGBT por parte do movimento social no Brasil, Butler se diz resistente \u00e0 medida. \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil ser a favor do aumento da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria. N\u00e3o acho que o encarceramento seja a resposta para a viol\u00eancia contra pessoas LGBTQ. Tamb\u00e9m por isso n\u00f3s devemos ter uma an\u00e1lise mais complexa da viol\u00eancia legal: a pris\u00e3o, junto com a pol\u00edcia, \u00e9 um dos maiores instrumentos de viol\u00eancia legal em diversos pa\u00edses.\u201d<\/p>\n<p>Ela apontou que a criminaliza\u00e7\u00e3o individualiza a viol\u00eancia, criando \u201caberra\u00e7\u00f5es\u201d. \u201cA viol\u00eancia contra mulheres, pessoas LGBTQ, minorias \u00e9tnico-raciais, trabalhadoras sexuais e migrantes \u00e9 a express\u00e3o de uma viol\u00eancia institucional mais abrangente, de formas mais abrangentes de racismo, sexismo, homofobia, xenofobia. As pris\u00f5es e os tribunais n\u00e3o v\u00e3o reconhecer que a viol\u00eancia contra mulheres e pessoas trans \u00e9 end\u00eamica na sociedade. Elas v\u00e3o criar indiv\u00edduos criminosos e dizer \u2018\u00e9 apenas essa pessoa, e essa pessoa, e essa pessoa\u2019. Ent\u00e3o elas v\u00e3o se exonerar da responsabilidade ao criminalizar indiv\u00edduos e isol\u00e1-los da sociedade.\u201d<\/p>\n<p>Butler prop\u00f5e, mais uma vez, um paradoxo, lembrando tamb\u00e9m que a pol\u00edcia e o sistema legal acabam sendo c\u00famplice de diferentes viol\u00eancias ao escolher n\u00e3o investig\u00e1-las e process\u00e1-las. \u201cTalvez possamos perguntar: ok, uma vez que a pessoa foi presa, o que acontece? Angela Davis [escritora e ativista feminista norte-americana] tem uma ideia de justi\u00e7a restaurativa fora do sistema prisional. H\u00e1 diferentes maneiras de lidar com essas situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o necessariamente envolvam o encarceramento.\u201d<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em sua primeira visita a SP, fil\u00f3sofa norte-americana falou sobre viol\u00eancia policial e alian\u00e7as entre movimentos sociais e comentou pol\u00eamica sobre g\u00eanero e diversidade sexual no curr\u00edculo escolar: &#8216;exclus\u00e3o do tema \u00e9 uma forma de censura&#8217;.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":222448,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-233959","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/sala-de-aula-leitura.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233959","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=233959"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233959\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/222448"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=233959"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=233959"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=233959"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}