{"id":234758,"date":"2018-02-20T15:45:26","date_gmt":"2018-02-20T18:45:26","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=234758"},"modified":"2018-02-20T15:45:26","modified_gmt":"2018-02-20T18:45:26","slug":"historia-das-operacoes-e-planos-de-seguranca-no-rio-tres-decadas-de-fracassos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/historia-das-operacoes-e-planos-de-seguranca-no-rio-tres-decadas-de-fracassos\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria das opera\u00e7\u00f5es e planos de seguran\u00e7a no Rio: tr\u00eas d\u00e9cadas de fracassos"},"content":{"rendered":"<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\">\n<h1 id=\"articulo-titulo\" class=\"articulo-titulo \"><\/h1>\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Aposta pelo uso da for\u00e7a e apelo aos militares vem sendo constante no Estado desde 1992<\/h2>\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">UPPs representaram tentativa estruturante e de longo prazo, mas tamb\u00e9m falhou<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<aside id=\"compartir_superior\" class=\"compartir compartir--fijo\">\n<div class=\"compartir__interior\">\n<div class=\"compartir-varios\"><\/div>\n<\/div>\n<\/aside>\n<\/header>\n<div class=\"articulo-apertura \" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto centro foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/02\/19\/politica\/1519058632_353673_1519059191_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/02\/19\/politica\/1519058632_353673_1519059191_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/02\/19\/politica\/1519058632_353673_1519059191_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/02\/19\/politica\/1519058632_353673_1519059191_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Militares patrulham o aterro do Flamengo, no \u00faltimo s\u00e1bado.\" width=\"980\" height=\"635\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Militares patrulham o aterro do Flamengo, no \u00faltimo s\u00e1bado.<\/span>\u00a0<span class=\"foto-firma\"><span class=\"foto-agencia\">AFP<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"firma firma--vertical\">\n<div class=\"autor\">\n<figure class=\"foto\"><\/figure>\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Felipe Betim\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/felipe_betim\/a\/\">FELIPE BETIM<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo-introduccion\" class=\"articulo-introduccion\">\n<p>Os holofotes sempre se centram no Estado e na cidade do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/rio_de_janeiro\/a\">Rio de Janeiro<\/a>\u00a0quando o assunto nacional \u00e9 seguran\u00e7a p\u00fablica \u2014 apesar de que em outras unidades da federa\u00e7\u00e3o as taxas de homic\u00eddios sejam inclusive maiores,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.forumseguranca.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">segundo os dados do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/a>. Durante ao menos tr\u00eas d\u00e9cadas, \u00e0s vezes com maior ou menor intensidade, o Rio vem sendo palco de fracassadas opera\u00e7\u00f5es policiais em favelas e periferias que, segundo especialistas da \u00e1rea, mais servem para encher os notici\u00e1rios de imagens espetaculares do que para alcan\u00e7ar resultados efetivos. Uma vez ou outra tamb\u00e9m aparecem por aqui as For\u00e7as Armadas, seja nas ruas da nobre Zona Sul para dar uma sensa\u00e7\u00e3o de maior seguran\u00e7a, seja para dar apoio \u00e0s opera\u00e7\u00f5es policiais. Grandes planos para conter a viol\u00eancia no Rio foram anunciados, sendo o \u00faltimo deles o das Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs). Todos inclu\u00edam o uso ostensivo da for\u00e7a e todos, seja a curto ou m\u00e9dio prazo, fracassaram.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/16\/politica\/1518803598_360807.html\">Com a in\u00e9dita\u00a0<strong>interven\u00e7\u00e3o federal<\/strong><\/a>\u00a0de car\u00e1ter militar decretada pelo presidente\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/michel_temer\/a\">Michel Temer<\/a>\u00a0(MDB), abre-se um novo cap\u00edtulo na hist\u00f3ria das tentativas de estancar a viol\u00eancia no Rio e resolver um problema que possui ra\u00edzes hist\u00f3ricas e estruturais. In\u00e9dito porque, apesar do uso das For\u00e7as Armadas no Rio em outras ocasi\u00f5es, \u00e9 a primeira vez desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o que o Governo federal interv\u00e9m diretamente no estadual, retirando deste suas compet\u00eancias na \u00e1rea de seguran\u00e7a p\u00fablica e nomeando um interventor federal\u00a0\u2014 neste caso, o general do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ejercito_brasileno\/a\">Ex\u00e9rcito<\/a>Walter Souza Braga Netto, chefe do Comando Militar do Leste e, agora, respons\u00e1vel m\u00e1ximo pelas pol\u00edcias Militar e Civil, Corpo de Bombeiros e da Administra\u00e7\u00e3o Penitenci\u00e1ria fluminenses. Cabe ao general, e n\u00e3o mais ao governador Luiz Fernando Pez\u00e3o (MDB), tomar todas as medidas que achar necess\u00e1rias para conter o crime no Rio, incluindo o dom\u00ednio das fac\u00e7\u00f5es criminosas de alcance nacional.<\/p>\n<div id=\"elpais_gpt-INTEXT\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/politica\/intext_0__container__\"><iframe id=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/politica\/intext_0\" title=\"3rd party ad content\" name=\"google_ads_iframe_\/7811748\/elpais_web\/brasil\/politica\/intext_0\" width=\"1\" height=\"1\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<p>A crise na seguran\u00e7a p\u00fablica fluminense vem de d\u00e9cadas e os fatores s\u00e3o m\u00faltiplos, segundo v\u00e1rios especialistas:\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/12\/14\/politica\/1513281266_989904.html\">expans\u00e3o do crime organizado em \u00e1reas abandonadas pelo setor p\u00fablico<\/a>, falta de uma pol\u00edtica s\u00e9ria de habita\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o policial, sucateamento da capacidade investigativa da Pol\u00edcia Civil, falta de capacita\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar, aposta pela pol\u00edtica de guerra \u00e0s drogas&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;A hist\u00f3ria da criminalidade no Rio come\u00e7a l\u00e1 nos anos 70, quando a coca\u00edna come\u00e7a a se expandir. Entramos pelos anos 80 e 90 com o tr\u00e1fico vai aumentando seu dom\u00ednio pela cidade. No meio desse caminho aparece o fuzil nas m\u00e3os dos traficantes, e depois a pol\u00edcia acompanha e adota o fuzil tamb\u00e9m. Depois temos uma onda sequestros que deixou a cidade virada de cabe\u00e7a pra baixo e as fac\u00e7\u00f5es foram se consolidando nesse per\u00edodo&#8221;, explicou Fernando Veloso, ex-chefe da Pol\u00edcia Civil, durante o evento\u00a0<em>Brasil do Amanh\u00e3 &#8211; Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/em>\u00a0realizando na segunda-feira. &#8220;E chegamos nos anos 2000 com as UPPs, quando todas as esperan\u00e7as se acenderam e todos n\u00f3s ach\u00e1vamos que t\u00ednhamos achado o caminho. Parece que n\u00e3o&#8221;, conclui ele, durante seu breve relato hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Cabe ent\u00e3o aqui fazer um breve apanhado sobre como, durante esse per\u00edodo, os governos Federal e Estadual vem tentando lidar com o assunto\u00a0\u2014 ao menos aos olhos da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<h3>Redemocratiza\u00e7\u00e3o e Rio-92<\/h3>\n<p>O in\u00edcio da redemocratiza\u00e7\u00e3o e a volta das elei\u00e7\u00f5es para governador, ainda no in\u00edcio dos anos 80, coincidiu com o aumento do crime organizado e da sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a no Estado do Rio, como explicou Veloso acima. Durante as elei\u00e7\u00f5es para o Governo estadual de 1982, da qual saiu vitorioso, Leonel Brizola focou sua campanha em educa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a p\u00fablica, tratando o primeiro ponto como solu\u00e7\u00e3o para o segundo. Tentou uma abordagem menos repressiva nas favelas e sub\u00farbios, focando nas causas da criminalidade, e apostou por combater os esquadr\u00f5es de exterm\u00ednio da pol\u00edcia. Mas sua pol\u00edtica de seguran\u00e7a n\u00e3o gerou os resultados esperados. Nas elei\u00e7\u00f5es de 1986, o ent\u00e3o candidato Wellington Moreira Franco \u2014 hoje\u00a0<span class=\"st\">ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presid\u00eancia<\/span>\u00a0e um dos idealizadores da atual interven\u00e7\u00e3o federal\u00a0\u2014 ganhou as elei\u00e7\u00f5es estaduais prometendo que acabaria com a viol\u00eancia em seis meses. &#8220;N\u00f3s vamos enfrentar os grupos de crime organizado, custe o que custar e doa a quem doer, que eu sou intransigente&#8221;, disse na \u00e9poca. No final de seu governo, em 1991, a taxa de homic\u00eddios no Estado havia aumentado para 60,3 mortes para cada 100.000 habitantes, segundo dados da Secret\u00e1ria Estadual de Seguran\u00e7a. Traficantes j\u00e1 usavam fuzil, armamento que passou a ser usado pela Pol\u00edcia Militar logo depois.<\/p>\n<p>Em 1992, o Rio de Janeiro sediaria a confer\u00eancia da ONU sobre meio ambiente, a chamada Rio-92, que foi realizada entre os dias 3 e 14 de junho. O ent\u00e3o presidente,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/fernando_collor_de_mello\/a\">Fernando Collor<\/a>, assinou uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e enviou tropas federais para ajudar na seguran\u00e7a p\u00fablica do Rio. Homens do ex\u00e9rcito, jipes e tanques passaram a fazer parte da paisagem urbana e ficaram estacionados sobretudo em ruas onde passavam as delega\u00e7\u00f5es estrangeiras. O esquema contou com a presen\u00e7a de 17.000 homens e teve como um dos alvos as favelas da Rocinha e do Vidigal. A partir de ent\u00e3o, todos os presidentes democraticamente eleitos passaram a usar este dispositivo para acionar as tropas.<\/p>\n<h3>Os anos 90 e 2000<\/h3>\n<p>Os \u00edndices de viol\u00eancia n\u00e3o paravam de piorar e, em 1994, a taxa de homic\u00eddios no Estado atingiu um pico de 64,8 mortes por 100.000 habitantes, segundo dados da Secretaria Estadual de Seguran\u00e7a. Foi nessa \u00e9poca que o ent\u00e3o governador Nilo Batista, substituto de Leonel Brizola, que havia renunciado ao seu segundo mandato para concorrer \u00e0 vice-presid\u00eancia na chapa de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, assinou um conv\u00eanio com o Governo Itamar Franco na \u00e1rea de seguran\u00e7a p\u00fablica. O acordo subordinava a estrutura policial do Estado ao Comando Militar do Leste. O ent\u00e3o general C\u00e2mara Senna ficou respons\u00e1vel por comandar um \u00f3rg\u00e3o central que coordenava e planejava as a\u00e7\u00f5es das pol\u00edcias Militar e Civil, da Defesa Civil e da Secretaria Estadual de Justi\u00e7a, segundo noticiou na \u00e9poca o jornal\u00a0<em>O Globo<\/em>.<\/p>\n<p>Seis meses depois, ap\u00f3s a posse do novo governador Marcello Alencar (PSDB), em 1995, foi deflagrada a Opera\u00e7\u00e3o Rio II. Mais uma vez, o Comando Militar do Leste, chefiado na \u00e9poca pelo general Abdias Ramos, mobilizou 20.000 homens para levar a cabo um pacote de medidas elaboradas com o fim de conter a onda de sequestros e &#8220;ampliar as propostas para combater o crime organizado como um todo&#8221;, segundo explicou o ent\u00e3o ministro da Justi\u00e7a, Nelson Jobim. A a\u00e7\u00e3o conjunta contou com Ex\u00e9rcito, Receita Federal, Pol\u00edcias Federal, Civil, Militar e Rodovi\u00e1ria Federal, al\u00e9m de Marinha e Aeron\u00e1utica.<\/p>\n<p>Ainda que as taxas de homic\u00eddio tenham diminu\u00eddo nessa \u00e9poca, variando entre 54 e 45 mortes para cada 100.000 habitantes, os problemas de seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o arrefeceram. Voltaram a piorar no in\u00edcio dos anos 2000 e atravessaram os governos de Anthony e Rosinha Garotinho, al\u00e9m dos meses em que Benedita da Silva esteve no lugar do primeiro, em 2002, ano de elei\u00e7\u00f5es gerais. Favelas do Rio tinham chefes do tr\u00e1fico que atuavam no varejo de drogas e a l\u00f3gica de ent\u00e3o era a de enfrentamento a partir de opera\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Militar paliativas. Benedita chegou a dizer na \u00e9poca: &#8220;Hoje o que n\u00f3s estamos mais uma vez fazendo \u00e9 criando a\u00e7\u00f5es emergenciais para combater uma situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 ainda localizada&#8221;.<\/p>\n<h3>UPPs e mil\u00edcias<\/h3>\n<p>Foi s\u00f3 quando o peemedebista S\u00e9rgio Cabral Filho assumiu o governo do Estado, em janeiro de 2007, que uma solu\u00e7\u00e3o estruturante e de longo prazo para a seguran\u00e7a p\u00fablica passou a estar em cima da mesa. As\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/upp_unidad_policia_pacificadora\/a\">Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs)<\/a>\u00a0foram inauguradas no final de 2008 com uma opera\u00e7\u00e3o no morro Dona Marta, no bairro de Botafogo. A estrat\u00e9gia, que logo foi replicada em outras comunidades, consistia em expulsar o tr\u00e1fico e instalar bases da Pol\u00edcia Militar com agentes de prefer\u00eancia novos, sem antigos v\u00edcios da corpora\u00e7\u00e3o, e treinados para manter uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade com os moradores do local. A ideia, segundo dizia-se, era primeiro fazer uma ocupa\u00e7\u00e3o policial da favela e, paralelamente, levar servi\u00e7os p\u00fablicos e obras de saneamento. Os tiroteios cessaram em comunidades, atividades econ\u00f4micas floresceram e as taxas de homic\u00eddio diminu\u00edram em todo o Estado, chegando a 28,7 mortes para 100.000 habitantes em 2012. &#8220;Isso aconteceu porque a pol\u00edcia parou de trocar tiro. Quem \u00e9 o administrador da morte? O Estado. A pol\u00edcia entrava para impedir disputas entre fac\u00e7\u00f5es, mas ela depois passou de produzir o confronto e a ocupar o territ\u00f3rio. Mas o efeito disso \u00e9 provis\u00f3rio, porque h\u00e1 um rearranjo da economia criminosa&#8221;, explica a antrop\u00f3loga Jaqueline Muniz, especialista de seguran\u00e7a p\u00fablica da UFF.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou para que o programa apresentasse suas falhas. A segunda parte, que inclu\u00eda obras de infraestrutura e servi\u00e7os p\u00fablicos de qualidade, nunca se concretizou. A rela\u00e7\u00e3o entre moradores e policiais se manteve tensa e logo alguns abusos se fizeram evidentes. Em julho de 2013, o pedreiro Amarildo foi detido,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/06\/23\/politica\/1435071575_102301.html\">torturado e morto por policiais da UPP da favela da Rocinha<\/a>. Seu caso foi repercutido nacionalmente e internacionalmente. Al\u00e9m disso, as UPPs se mostraram de f\u00e1cil implementa\u00e7\u00e3o em favelas pequenas como o Vidigal e Dona Marta, mas de dif\u00edcil aplica\u00e7\u00e3o em outras maiores como a pr\u00f3pria Rocinha e o Complexo do Alem\u00e3o, ambas com cerca de 100.000 habitantes. Foi nesta \u00faltima comunidade que, em 2010, uma ambiciosa megaopera\u00e7\u00e3o envolvendo a Pol\u00edcia Militar e as For\u00e7as Armadas tentou expulsar o tr\u00e1fico e instalar uma UPP. O plano para o Alem\u00e3o nunca foi cem por cento bem sucedido: tiroteios e abusos continuaram sendo parte da rotina dos moradores, tendo se intensificado nos \u00faltimos dois anos.<\/p>\n<p>Uma das cr\u00edticas recorrentes dos especialistas e da oposi\u00e7\u00e3o ao programa das UPPs \u00e9 que ele focou nas favelas pr\u00f3ximas dos principais pontos tur\u00edsticos do Rio e das \u00e1reas nobres da cidade\u00a0\u2014 que, do asfalto, enxergou uma melhoria na seguran\u00e7a. Paralelamente, dizia-se que territ\u00f3rios das perif\u00e9ricas Zona Norte e Zona Oeste cidade, al\u00e9m dos munic\u00edpios da Baixada Fluminense, foram abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m nessa \u00e9poca que as mil\u00edcias entraram em cena. Elas consistem em agentes do Estado, como policiais e bombeiros, que controlam determinado territ\u00f3rio e servi\u00e7os como o fornecimento de g\u00e1s. Pol\u00edticos importantes do Rio chegaram a dizer no passado que elas eram uma esp\u00e9cie de prote\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, mas logo ficou claro o regime de terror que era implantado nesses territ\u00f3rios e a rela\u00e7\u00e3o umbilical com esses pol\u00edticos. Cabia a milicianos, por exemplo, autorizar ou n\u00e3o a distribui\u00e7\u00e3o de panfletos de campanha ou com\u00edcios em determinados bairros. Muitos deles inclusive eram deputados estaduais ou vereadores. As mil\u00edcias foram alvo de uma CPI na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro em 2008, comandada pelo deputado estadual Marcelo Freixo, e muitos milicianos chegaram a ser presos e condenados. Mas o problema nunca deixou de existir.<\/p>\n<h3>O Rio dos grandes eventos<\/h3>\n<p>O projeto das UPPs foi se enfraquecendo \u00e0 medida que seus problemas ficavam evidentes e a crise financeira do Estado aumentava. Paralelamente, o Rio passou a abrigar grandes eventos, como a Jornada Mundial da Juventude, em 2013, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Ol\u00edmpicos de 2016. Para todos, a presid\u00eancia da Rep\u00fablica, chefia nesse per\u00edodo por Dilma Rousseff (PT), emitiu Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para que as For\u00e7as Armadas apoiaram a seguran\u00e7a no Rio. Entre abril de 2014 e junho de 2015, militares ocuparam o Complexo da Mar\u00e9 a um custo m\u00ednimo estimado de 350 milh\u00f5es de reais, mas que pode ter chegado a 600 milh\u00f5es, para os cofres p\u00fablicos. &#8220;Com 10% daquilo, 3,5 milh\u00f5es de reais, voc\u00ea restruturava a inteligencia e investiga\u00e7\u00e3o que \u00e9 barata. Capacitaria policiais e desenvolveria programas preven\u00e7\u00e3o situacional e social na favela. E teria um impacto maior na economia criminosa&#8221;, explica a antrop\u00f3loga Muniz. &#8220;A gente est\u00e1 gastando muito dinheiro para pouco resultado e pouca operacionalidade. E por isso eu cobro os relat\u00f3rios. Qual \u00e9 a taxa de \u00eaxito? A coca\u00edna ficou mais cara? Qual o efeito na economia criminosa? N\u00e3o est\u00e1 tendo efeito e n\u00e3o ter\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>Em 2016, milhares de homens do ex\u00e9rcito e da For\u00e7a Nacional patrulharam as ruas do Rio enquanto aconteciam os Jogos Ol\u00edmpicos. A sensa\u00e7\u00e3o geral era de seguran\u00e7a,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/08\/20\/politica\/1471690574_365456.html\">enquanto que nas favelas e sub\u00farbios a viol\u00eancia n\u00e3o cessou durante um minuto<\/a>. Finalmente, no segundo semestre de 2017, o Governo Temer enviou mais uma vez os militares. &#8220;Gastou-se 10 milh\u00f5es de reais na Rocinha para apreender tr\u00eas armas na Rocinha&#8221;, lembra Muniz. Com o projeto das UPPs em decad\u00eancia, as opera\u00e7\u00f5es policiais de car\u00e1ter paliativo voltaram aos notici\u00e1rios, enquanto a taxa de homic\u00eddios aumentava mais uma vez para 40 mortes para 100.000 habitantes no ano passado. E assim chegamos a 2018, com uma interven\u00e7\u00e3o federal que, embora de car\u00e1ter in\u00e9dito, com muitas semelhan\u00e7as com outras medidas tomadas ao longo das tr\u00eas d\u00e9cadas passadas.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aposta pelo uso da for\u00e7a e apelo aos militares vem sendo constante no Estado desde 1992<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":234759,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[2,6],"tags":[],"class_list":["post-234758","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/soldados-do-exercito-na-rua.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=234758"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234758\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/234759"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=234758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=234758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=234758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}