{"id":234949,"date":"2018-02-22T06:34:12","date_gmt":"2018-02-22T09:34:12","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=234949"},"modified":"2018-02-22T06:34:12","modified_gmt":"2018-02-22T09:34:12","slug":"o-estranho-caso-do-mergulhador-cujo-corpo-comecou-inchar-inexplicavelmente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-estranho-caso-do-mergulhador-cujo-corpo-comecou-inchar-inexplicavelmente\/","title":{"rendered":"O estranho caso do mergulhador cujo corpo come\u00e7ou a inchar inexplicavelmente"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Stefania Gozzer<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/70BB\/production\/_100095882_img_20180115_103502.jpg\" alt=\"Willy no Centro M\u00e9dico Naval\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Alejandro Ramos, o &#8216;Willy&#8217;, convive com seu corpo inchado h\u00e1 quatro anos | Foto: Feliciano Herrera<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Alejandro Ramos n\u00e3o chega a ter 1,60 metro de altura, mas usa camisetas que poderiam ser de uma pessoa bem maior. Seus ombros mal cabem nas mangas ou nas da jaqueta azul que um amigo adaptou com tecido da mesma cor para que seus bra\u00e7os pudessem entrar.<\/p>\n<p>Ramos, ou Willy, como \u00e9 chamado por sua fam\u00edlia, mostra o presente com orgulho no quarto que ocupa no Centro M\u00e9dico Naval, na capital do Peru, Lima, desde dezembro, quando a Marinha decidiu estud\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Seu caso \u00e9 in\u00e9dito na hist\u00f3ria do mergulho, atividade que pratica em sua profiss\u00e3o. H\u00e1 quatro anos, minutos ap\u00f3s ter emergido da \u00e1gua, seu corpo come\u00e7ou a inchar, mantendo-se assim desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Dos cotovelos para baixo, seus bra\u00e7os poderiam ser os de qualquer outro homem de 56 anos saud\u00e1vel. S\u00e3o seus b\u00edceps, com 62 e 72 cm de circunfer\u00eancia, que atraem os olhares e fazem com que ele tenha vergonha de sair na rua.<\/p>\n<p>As protuber\u00e2ncias se fundem com seus ombros. Seu peitoral inflado cai sobre seu est\u00f4mago \u2013 suas costas, cintura e coxas tamb\u00e9m t\u00eam um volume maior do que o normal. Ao fator est\u00e9tico, somam-se a dor nos ossos e o chiado em seu peito toda vez que respira.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/0386\/production\/_100120900_img_7983.jpg\" alt=\"Willy \u00e9 examinado por m\u00e9dico no hospital\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Ap\u00f3s tr\u00eas anos sem tratamento, o Centro M\u00e9dico Naval estuda agora seu caso | Foto: Feliciano Herrera<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">At\u00e9 a bexiga aguentar<\/h2>\n<p>Willy est\u00e1 convencido de que tudo isso s\u00e3o sequelas de um acidente de trabalho no fim de 2013, enquanto mergulhava a mais de 30 metros de profundidade em busca de mexilh\u00f5es presos a penhascos e barrancos submarinos.<\/p>\n<p>Os mergulhadores como ele trabalham de forma artesanal e passam horas desprendendo e coletando os moluscos antes de voltar \u00e0 superf\u00edcie. O tempo que passam submersos em meio a frias correntes mar\u00edtimas \u00e9 determinado por sua &#8220;necessidade de urinar&#8221;, como explicam v\u00e1rios profissionais de Pisco, cidade pesqueira 230 km ao sul da capital peruana, Lima.<\/p>\n<p>Willy diz que aguentava por at\u00e9 oito horas. &#8220;Subia para urinar \u00e0s vezes, mas achava que era uma perda de tempo&#8221;, recorda-se. Esvaziar a bexiga a tal profundidade n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o quando se usa um traje feito com c\u00e2maras de pneus de caminh\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2359\/production\/_100094090_gettyimages-683757792.jpg\" alt=\"Mexilh\u00f5es\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Willy trabalhava como mergulhador na pesca de mexilh\u00f5es | Foto: Ridjin<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Os mergulhadores mais jovens preferem usar roupas de neoprene, que custam em m\u00e9dia US$ 200 (R$ 650), mas, para um pescador de mexilh\u00f5es, elas n\u00e3o duram nem quatro meses, segundo Enrique Quino, um artes\u00e3o de Pisco que desmonta rodas para fabricar os trajes de borracha, pelos quais cobra US$ 183 (R$ 596) e que, segundo ele, duram por tr\u00eas ou quatro anos.<\/p>\n<p>O traje \u00e9 composto por uma jaqueta e uma cal\u00e7a t\u00e3o grandes que dentro cabem o pescador e v\u00e1rias outras camadas de roupas de frio. Inclui p\u00e9s de pato, m\u00e1scara e um cinto de chumbo que os ajuda a afundar.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11D7A\/production\/_100128037_neopreno.jpg\" alt=\"Willy e Enrique Quino mostram traje de borracha\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">O mergulhador usava um traje feito com borracha de pneu de caminh\u00e3o | Foto: V. M. V\u00e1squez<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O acidente<\/h2>\n<p>Assim estava vestido Willy quando, quase ao final de sua jornada de trabalho, ele notou que a mangueira em sua boca havia come\u00e7ado a roubar seu ar em que vez de fornec\u00ea-lo. &#8220;Todo mergulhador sabe o que isso significa.&#8221;<\/p>\n<p>Um mergulhador nunca sai sozinho para pescar. Tripulantes v\u00e1rios metros acima de sua cabe\u00e7a se encarregam de receber o produto coletado e colocar gasolina em uma m\u00e1quina a cada 90 minutos.<\/p>\n<p>O equipamento comprime o ar e o envia ao mergulhador por meio de uma mangueira. A maioria dos pescadores de marisco peruanos n\u00e3o usa reguladores, um acess\u00f3rio que garantiria de 10 a 15 minutos de oxig\u00eanio em caso de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Naquela tarde, uma lancha se aproximou demais da embarca\u00e7\u00e3o de Willy, em que seu filho e um colega esperavam por ele. A h\u00e9lice deste barco rompeu a mangueira e obrigou o mergulhador a subir 36 metros de uma s\u00f3 vez. Um trajeto de poucos minutos que podia ter lhe custado a vida.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/157F1\/production\/_100094088_gettyimages-902701660.jpg\" alt=\"Pescadores em Pisco\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"media-caption__text\">Pisco \u00e9 uma cidade pesqueira localizada a 230 km ao sul de Lima<\/span><\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O perigo do nitrog\u00eanio<\/h2>\n<p>&#8220;Quando mergulhamos, estamos a uma press\u00e3o maior, o que faz com que o ar e o oxig\u00eanio sofram mudan\u00e7as f\u00edsicas&#8221;, explica Ra\u00fal Alejandro Aguado, m\u00e9dico subaqu\u00e1tico do Centro M\u00e9dico Naval.<\/p>\n<p>O ar \u00e9 78% composto por um g\u00e1s que o corpo humano n\u00e3o usa: o nitrog\u00eanio. A press\u00e3o no fundo do mar faz com que ele se dissolva e se abrigue no tecido adiposo. Mas, no retorno \u00e0 superf\u00edcie, o nitrog\u00eanio entra no sistema sangu\u00edneo, onde come\u00e7a a voltar a seu estado gasoso.<\/p>\n<p>Por isso, um mergulhador deve subir em etapas, com paradas de tempos em tempos. Uma subida r\u00e1pida pode gerar bolhas de nitrog\u00eanio grandes demais, que podem obstruir a circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea e gerar uma s\u00edndrome de descompress\u00e3o.<\/p>\n<p>Por sua vez, uma subida mais lenta d\u00e1 ao g\u00e1s tempo suficiente para viajar pelos vasos enquanto ainda tem pouco volume at\u00e9 chegar aos pulm\u00f5es, por onde s\u00e3o expelidos do organismo. H\u00e1 tabelas que indicam quantos minutos ou at\u00e9 mesmo horas que devem dedicar \u00e0 subida em fun\u00e7\u00e3o do tempo e da profundidade a que ficaram submersos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/76FB\/production\/_100095403_willy.jpg\" alt=\"Willy na praia\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">A princ\u00edpio, os m\u00e9dicos pensavam que a causa do problema seria nitrog\u00eanio preso em seu corpo | Foto: V. M. V\u00e1squez<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>N\u00e3o seguir isso pode fazer com que o nitrog\u00eanio se expanda em locais como os ossos, gerando necrose, a morte de um tecido por falta de irriga\u00e7\u00e3o. Esse mal pode ser identificado por sintomas como incha\u00e7o, dores de cabe\u00e7a e cansa\u00e7o. Em casos mais graves, pode causar acidentes cardiovasculares que podem deixar uma pessoa paralisada e at\u00e9 mat\u00e1-la.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">42 metros abaixo d&#8217;\u00e1gua<\/h2>\n<p>Willy perdeu uma das pernas aos 30 anos, pouco depois de ter decidido seguir os pais e trabalhar com a pesca submarina. &#8220;Mas isso \u00e9 normal acontecer com mergulhadores&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, seus colegas o chamavam de\u00a0<i>pampito<\/i>, porque ele n\u00e3o se atrevia a ir muito fundo (os pescadores peruanos chamam de\u00a0<i>pampa<\/i>\u00a0a parte mais rasa). &#8220;Mas meu fiho mais velho era asm\u00e1tico. Respirava com dificuldade&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou a ir mais fundo nas \u00e1guas de Pisco para encontrar mais mexilh\u00f5es e pagar pelo tratamento do menino, j\u00e1 que n\u00e3o tinha um plano de sa\u00fade. &#8220;Na \u00e9poca do meu pai, todas as ilhas de Pisco tinham mexilh\u00f5es. N\u00e3o era preciso ir al\u00e9m de 14 metros de profundidade. Agora, s\u00f3 os encontramos partir dos 25 metros&#8221;, lamenta.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BF99\/production\/_100094094_pescadores.jpg\" alt=\"Pescadores vendem suas mercadorias no porto de Pisco\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Mergulhar e pescar frutos do mar s\u00e3o apenas uma parte do trabalho: \u00e9 preciso vend\u00ea-los | Foto: V. M. V\u00e1squez<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas, \u00e0s vezes, \u00e9 preciso ir mais fundo, chegando a 42 metros. &#8220;Temos que nos arriscar, sen\u00e3o n\u00e3o faturamos.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Deformado&#8217;, mas vivo<\/h2>\n<p>No dia do acidente, quando Willy por fim chegou \u00e0 superf\u00edcie, teve de recorrer a uma manobra de emerg\u00eancia: voltar a submergir \u00e0 mesma profundidade e subir respeitando as paradas de seguran\u00e7a. &#8220;\u00c9 como retomar uma descompress\u00e3o que n\u00e3o foi feita&#8221;, explica Aguado. &#8220;Ajuda um pouco&#8230; mas n\u00e3o \u00e9 algo muito seguro, porque, se o mergulhador ficar inconsciente na \u00e1gua, pode se afogar.&#8221;<\/p>\n<p>O pescador assumiu o risco e afundou novamente no mar com um compressor emprestado por um lancha pr\u00f3xima. Mas os tripulantes deste barco estavam impacientes. Haviam terminado sua jornada de trabalho e queriam ir ao porto vender sua mercadoria.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1841F\/production\/_100095399_ptopisco.jpg\" alt=\"Barcos no porto de Pisco\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">\u00c9 comum encontrar no porto outros pescadores com sequelas deixadas pela s\u00edndrome de descompress\u00e3o | Foto: V. M. V\u00e1squez<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>A pressa falou mais alto que a solidariedade, e eles foram embora, deixando Willy sem um compressor. Assim, ele s\u00f3 p\u00f4de completar os primeiros 30 minutos das duas horas que, segundo as tabelas de descompress\u00e3o, deveria ter dedicado \u00e0 subida.<\/p>\n<p>Ele chegou ao hospital de Pisco &#8220;inchado como uma batata&#8221;, recorda-se. &#8220;Foi um milagre eu ter me salvado. Agrade\u00e7o a Deus que, bem, fiquei deformado, mas estou vivo&#8230; Ainda que, \u00e0s vezes, eu fique triste porque n\u00e3o queria estar nesta situa\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Um tratamento \u00e0s cegas<\/h2>\n<p>Willy tentou buscar uma cura para seu incha\u00e7o nos primeiros meses ap\u00f3s o acidente, mas n\u00e3o p\u00f4de pagar por ela por muito tempo. Os m\u00e9dicos nunca haviam visto um caso parecido e pediram que ele fizesse uma resson\u00e2ncia magn\u00e9tica para ver o que havia sob a grande massa que fez seu peso corporal aumentar em 30 kg. Mas \u00e9 um exame caro e que deve ser feito em uma parte do corpo por vez.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C51B\/production\/_100095405_plomo.jpg\" alt=\"Homem mostra cinto de chumbo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Os mergulhadores usam um cinto de chumbo para conseguir submergir | Foto: V. M. V\u00e1squez<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>S\u00f3 em seu ombro, custaria ao menos US$ 150 (R$ 488), um valor muito alto para algu\u00e9m que n\u00e3o tem renda. Mesmo com um emprego, ele teria dificuldades para pagar: como mergulhador, n\u00e3o ganhava mais do que US$ 30 (R$ 97) por dois dias de trabalho.<\/p>\n<p>Sem a resson\u00e2ncia, os m\u00e9dicos com que ele se consultou trabalharam \u00e0s cegas e atribu\u00edram a inflama\u00e7\u00e3o a problemas de descompress\u00e3o e receitaram o tratamento tradicional: a c\u00e2mara hiperb\u00e1rica.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Oxig\u00eanio como rem\u00e9dio<\/h2>\n<p>Mergulhadores sabem que a melhor arma contra a s\u00edndrome de descompress\u00e3o \u00e9 uma cabine onde a press\u00e3o atmosf\u00e9rica \u00e9 elevada e se respira oxig\u00eanio. Assim, o g\u00e1s consegue alcan\u00e7ar as zonas afetadas aonde n\u00e3o podia chegar de forma natural.<\/p>\n<p>O Hospital San Juan de Dios de Pisco tem duas c\u00e2maras doadas por um cons\u00f3rcio de empresas para beneficiar os mergulhadores da regi\u00e3o, mas o pre\u00e7o das sess\u00f5es de tratamento \u00e9 um impeditivo para eles.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/28DB\/production\/_100095401_gettyimages-496647101.jpg\" alt=\"C\u00e2mara hiperb\u00e1rica\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"media-caption__text\">As c\u00e2maras hiperb\u00e1ricas s\u00e3o a melhor arma contra os problemas de descompress\u00e3o<\/span><\/span><\/figure>\n<p>Pedro Espinoza Aguilar, um mergulhador de 58 anos que segue trabalhando mesmo ap\u00f3s ter ficado com sequelas de uma s\u00edndrome de descompress\u00e3o, admite que a c\u00e2mara traz um al\u00edvio moment\u00e2neo \u00e0 dor nos ossos. &#8220;Mas \u00e9 muito caro. E vivemos com o que ganhamos no dia. Se voc\u00ea trabalha, tem dinheiro. Se n\u00e3o trabalha, n\u00e3o tem.&#8221;<\/p>\n<p>A maioria dos mergulhadores pensa como ele, ent\u00e3o, s\u00f3 recorrem \u00e0 c\u00e2mara hiperb\u00e1rica em casos de emerg\u00eancia. Willy, que j\u00e1 n\u00e3o pode trabalhar, diz que cobravam US$ 25 (R$ 81) por sess\u00e3o. Seu m\u00e9dico convenceu o hospital a dar a eles sess\u00f5es gr\u00e1tis, mas era uma tarefa dif\u00edcil. &#8220;Nem por ser um caso in\u00e9dito queriam me atender (gratuitamente)&#8221;, queixa-se.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Est\u00e1 horroroso&#8217;<\/h2>\n<p>Ainda que possa deixar sequelas, a s\u00edndrome de descompress\u00e3o nunca \u00e9 algo cr\u00f4nico, afirma Aguado. O corpo de Willy deveria ter voltado ao normal pouco tempo ap\u00f3s o acidente. Ao ver que os m\u00e9dicos n\u00e3o sabiam o que se passava e que investigar sairia muito caro, ele come\u00e7ou a ficar desanimado.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10913\/production\/_100095876_willy_caminando.jpg\" alt=\"Willy caminha em um parque\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Willy evitou por muitos anos sair na rua por vergonha de seu corpo | Foto: V. M. V\u00e1squez<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ele ficou ainda mais arrasado quando recebeu uma liga\u00e7\u00e3o de uma antiga namorada: &#8220;Ei, vi voc\u00ea no hospital. Voc\u00ea est\u00e1 horroroso, o que aconteceu? Nossa, que pena&#8221;. &#8220;A gente paga pelo que a gente faz, o mundo d\u00e1 voltas&#8221;, diz o mergulhador, que d\u00e9cadas antes planejava se casar com a mulher \u2013 at\u00e9 deix\u00e1-la por outra. &#8220;Ela deve estar feliz, porque eu agora estou assim&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Sua ex-namorada havia visto fotos de Willy expostas no corredor do hospital para explicar o que era a s\u00edndrome de descompress\u00e3o. Segundo ele, sem sua permiss\u00e3o. A institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o respondeu aos questionamentos sobre esse ponto.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a conversa, o mergulhador entrou em crise e n\u00e3o quis mais sair na rua. &#8220;Por tr\u00eas anos, v\u00e1rias pessoas me ligaram para dizer que eu tinha virado um monstro, que estava deformado. Fiquei deprimido. As pessoas te chamam de certas coisas, sentem pena&#8230; Passaram algumas ideias pela minha cabe\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1133B\/production\/_100095407_calle.jpg\" alt=\"Willy na porta da casa de um amigo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">O mergulhador diz que hoje sente-se melhor com sua condi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se importa de ser visto em p\u00fablico em sua cidade | Foto: V. M. V\u00e1squez<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Descompress\u00e3o ou tumor?<\/h2>\n<p>Willy s\u00f3 se deixava ser visto em p\u00fablico quando visitava seus irm\u00e3os ou \u00eda \u00e0 praia nas horas menos movimentadas para ver o mar. &#8220;Quase n\u00e3o saio de casa, porque sinto vergonha quando as pessoas param para me olhar como se eu fosse um animal raro&#8221;, disse ele em uma conversa por telefone em setembro passado.<\/p>\n<p>Agora que m\u00e9dicos estudam seu caso, ele garante ter recebido uma &#8220;inje\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo&#8221; e que a &#8220;psicose&#8221; passou. Sua apari\u00e7\u00e3o em um programa de TV peruano fez o Centro M\u00e9dico Naval conhecer sua situa\u00e7\u00e3o e oferecer tratamento gratuito.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, Willy fez as resson\u00e2ncias magn\u00e9ticas, ultrassons e exames de medicina nuclear de que tanto precisava. Ele est\u00e1 sendo tratado apenas para as dores por enquanto, porque os m\u00e9dicos n\u00e3o est\u00e3o certos de que seu problema foi causado pelo acidente de mergulho e buscam um diagn\u00f3stico mais preciso.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/49AB\/production\/_100095881_gettyimages-91785341.jpg\" alt=\"Mergulhadores\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"media-caption__text\">Os mergulhadores precisam fazer paradas de seguran\u00e7a ao retornar \u00e0 superf\u00edcie para n\u00e3o ter problemas de descompress\u00e3o<\/span><\/span><\/figure>\n<p>Segundo os primeiros resultados, o que gera as deforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o seria o g\u00e1s preso em seu corpo, como se pensava at\u00e9 agora, mas a gordura que se desenvolve em sua hipoderme, a camada mais profunda da pele, explica Aguado.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico acredita que seria &#8220;imprudente&#8221; adiantar conclus\u00f5es, mas admite que pode se tratar de uma esp\u00e9cie de tumor no tecido adiposo. &#8220;Se for assim, pode ser uma enfermidade cong\u00eanita que n\u00e3o havia se manifestado at\u00e9 o acidente, coincidentemente.&#8221;<\/p>\n<p>Outra possibilidade &#8220;mais remota&#8221;, diz, \u00e9 que seja uma &#8220;sequela de mergulho nunca antes vista&#8221;. Mas j\u00e1 se concluiu que o mergulhador precisa de uma cirurgia em seu quadril, porque a necrose dos ossos dessa regi\u00e3o est\u00e1 muito avan\u00e7ada.<\/p>\n<p>Ele ser\u00e1 operado gratuitamente, mas precisa obter a pr\u00f3tese por conta pr\u00f3pria. Willy tem esperan\u00e7a que uma ONG ou empresa fa\u00e7am uma doa\u00e7\u00e3o ao saber de seu caso.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O fim de uma carreira<\/h2>\n<p>Enquanto isso, o mergulhador aproveita os dias livres que os m\u00e9dicos lhe d\u00e3o de vez em quando para ir a Pisco para ficar com sua fam\u00edlia e ir ao porto, onde relembra seus dias dentro do mar. Faz isso \u00e0s segundas, quartas ou sextas-feiras, dias em que pescadores v\u00e3o ali vender suas mercadorias.<\/p>\n<p>Entre caixas repletas de mexilh\u00f5es, mariscos e caranguejos, \u00e9 poss\u00edvel ver Willy caminhando com dificuldade, ainda que n\u00e3o seja o \u00fanico nesta situa\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que a tarde avan\u00e7a, se re\u00fanem ali mergulhadores aposentados que carregam sequelas da s\u00edndrome de descompress\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00e3o ao porto mendigar dinheiro ou um pouco de frutos do mar para vender e ter alguma renda, j\u00e1 que sua profiss\u00e3o n\u00e3o confere a eles o direito a uma pens\u00e3o ao se aposentar. &#8220;\u00c9 assim que n\u00f3s, mergulhadores, terminamos, porque o Estado n\u00e3o se preocupa com a gente&#8221;, lamenta Willy.<\/p>\n<p>Ele tem a sorte de poder contar com seus irm\u00e3os, que o ajudam e o sustentam. Mas, ainda assim, ele sonha em voltar a mergulhar. &#8220;Quero continuar a fazer isso, porque, al\u00e9m de ser minha fonte de renda, era meu hobby. Amo mergulhar.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele ficou ainda mais arrasado quando recebeu uma liga\u00e7\u00e3o de uma antiga namorada: &#8220;Ei, vi voc\u00ea no hospital. Voc\u00ea est\u00e1 horroroso, o que aconteceu? Nossa, que pena&#8221;. &#8220;A gente paga pelo que a gente faz, o mundo d\u00e1 voltas&#8221;, diz o mergulhador, qu<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":234950,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,12],"tags":[],"class_list":["post-234949","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/disfuncao-1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234949","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=234949"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234949\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/234950"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=234949"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=234949"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=234949"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}