{"id":235087,"date":"2018-02-23T09:46:42","date_gmt":"2018-02-23T12:46:42","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=235087"},"modified":"2018-02-23T09:46:42","modified_gmt":"2018-02-23T12:46:42","slug":"fui-protagonista-bolsista-que-fez-discurso-duro-sobre-preconceito-na-formatura-rejeita-papel-de-vitima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/fui-protagonista-bolsista-que-fez-discurso-duro-sobre-preconceito-na-formatura-rejeita-papel-de-vitima\/","title":{"rendered":"\u2018Fui protagonista\u2019: bolsista que fez discurso duro sobre preconceito na formatura rejeita &#8216;papel de v\u00edtima&#8217;"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">Fernanda Odilla<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/13595\/production\/_100135297_michele11.jpg\" alt=\"Michele Alves\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Diante de um audit\u00f3rio lotado, Michele Alves discursou pela resist\u00eancia, contra o preconceito em nome dos alunos bolsistas | Foto: Michele Alves\/Cortesia<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">No terceiro dia de aula na PUC S\u00e3o Paulo, Michele Alves ouviu uma professora de Direito Civil dizer aos alunos que n\u00e3o se preparassem para as provas apenas com base nos pequenos resumos que est\u00e3o no in\u00edcio dos livros acad\u00eamicos porque &#8220;at\u00e9 a filha da empregada que faz Direito na &#8216;Uniesquina&#8217; estuda por sinopse&#8221;.<\/p>\n<p>Michele, que \u00e9 filha de empregada dom\u00e9stica, saiu da sala para chorar no banheiro. Ligou para a m\u00e3e, Celma, de 40 anos, que chorou junto com ela. Durante as l\u00e1grimas compartilhadas, Michele quis desistir da faculdade. A m\u00e3e n\u00e3o deixou e a convenceu a resistir.<\/p>\n<p>Cinco anos depois, Michele, de 23 anos, decidiu contar essa hist\u00f3ria diante de um audit\u00f3rio lotado no Citibank Hall. O discurso, gravado em v\u00eddeo, viralizou na internet e, desde a formatura, Michele diz ter recebido muitas mensagens de agradecimento, apoio e tamb\u00e9m de \u00f3dio por ter compartilhado as dificuldades e o preconceito enfrentado pelos bolsistas de fam\u00edlias pobres com pouco estudo que conseguem chegar \u00e0 faculdade.<\/p>\n<p>&#8220;O discurso foi escrito por mim, mas essa hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 minha&#8221;, disse \u00e0 BBC Brasil, por telefone, repetindo trecho do discurso no qual falou em nome dos bolsistas formandos da PUC S\u00e3o Paulo, os &#8220;filhos e filhas do gari, da faxineira, do pedreiro, do motorista e da m\u00e3e solteira&#8221;.<\/p>\n<p>Muita gente a aplaudiu de p\u00e9 na noite da formatura. Mas ela mesma diz que muitos ficaram incomodados.<\/p>\n<p>A agora rec\u00e9m-formada em Direito n\u00e3o citou o nome da professora no discurso nem fala quem \u00e9, mas diz ter ficado sabendo que ela estava na cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8220;Nem sei se ela tem consci\u00eancia do que fez. Mas o que professor diz na sala de aula tem um impacto muito grande, eu nunca esqueci. Marcou minha vida&#8221;, contou, ponderando que teve &#8220;professores maravilhosos tamb\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/110D3\/production\/_100134896_michele111.jpg\" alt=\"Michele Alves vestindo beca\" width=\"484\" height=\"645\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Michele Alves: &#8216;Tem hora que tem que ser mais incisivo&#8217; | Foto: Michele Alves\/Cortesia<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Depois das l\u00e1grimas, as palavras da professora a fizeram tentar motivar amigos e vizinhos. &#8220;Passei a dizer \u00e0s pessoas que n\u00e3o podem desistir, que t\u00eam que ocupar os espa\u00e7os&#8221;.<\/p>\n<p>Filha de m\u00e3e solteira, Michele nasceu na Bahia e foi a primeira da fam\u00edlia a entrar na faculdade. Quando conseguiu a vaga, tinha not\u00edcia apenas de uns primos distantes que fizeram curso superior.<\/p>\n<p>Em 2007, quando tinha 12 anos, ela saiu da zona rural de Maca\u00fabas (BA) com a m\u00e3e para fazer um tratamento m\u00e9dico em S\u00e3o Paulo. &#8220;Tive uma depress\u00e3o saindo da inf\u00e2ncia&#8221;, contou. A irm\u00e3 dela e o av\u00f4 deixaram a Bahia meses depois para se juntar a elas.<\/p>\n<p>Hoje ela vive com eles e com o padrasto em Itapevi, na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo. Trabalha em um escrit\u00f3rio com direito administrativo e constitucional.<\/p>\n<p>Apesar de admitir que vive um momento de incerteza, Michele diz estar decidida a inspirar alunos de escola p\u00fablica. &#8220;Est\u00e3o me convidando para falar em escolas p\u00fablicas e eu vou com prazer&#8221;.<\/p>\n<p>Michele estudou a vida toda em escola p\u00fablica. Fez um cursinho popular e ganhou uma bolsa para fazer outro e perseguir o sonho de entrar na faculdade, ainda que a fam\u00edlia achasse que era &#8220;loucura e coisa de rico&#8221;.<\/p>\n<p>O Direito, contudo, n\u00e3o foi a primeira op\u00e7\u00e3o de Michele. Achava que a nota de corte era alta demais para ela. Primeiro ela foi para PUC Campinas cursar Ci\u00eancias Sociais. Mas, durante o primeiro semestre, viu despertar o interesse por temas mais alinhados ao estudo do Estado. Um professor acabou a estimulando a mudar de curso.<\/p>\n<p>Ela acabou passando para a PUC S\u00e3o Paulo e para a Universidade Federal do Rio. Preferiu ficar perto da fam\u00edlia.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Sem dinheiro para o lanche<\/h2>\n<p>O choque ao pisar no campus da PUC na capital paulista, diz Michele, foi muito grande. &#8220;Por causa da burocracia, entrei um m\u00eas depois de as aulas terem come\u00e7ado. Mas era completamente diferente&#8221;, recorda, dizendo no curso de Ci\u00eancias Sociais em Campinas era muito menos elitizado e o n\u00famero de bolsistas era muito maior.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, n\u00e3o fez nenhum amigo no Direito &#8211; se relacionava com bolsistas de outros cursos, em especial da Economia. Ouvia os colegas de sala falando de viagens \u00e0 Europa, de festas de R$ 300. &#8220;E eu mal tinha dinheiro para comprar o lanche&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15EF3\/production\/_100134898_michele2.jpg\" alt=\"Michele Alves estudando\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">A ex-bolsista rejeita o papel de v\u00edtima: &#8216;Fui protagonista&#8217; | Michele Alves\/Facebook<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>N\u00e3o tinha tamb\u00e9m roupa social para ir \u00e0s aulas que exigiam traje espec\u00edfico nem para as entrevistas de est\u00e1gio. &#8220;Devo muito \u00e0 fam\u00edlia para quem minha m\u00e3e trabalhou, porque eles doaram algumas roupas.&#8221;<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Michele trabalhou a vida toda na casa da mesma senhora, que morreu no ano passado. Agora, ela est\u00e1 com o irm\u00e3o da antiga patroa. &#8220;Eles sempre foram muito bons pra gente.&#8221;<\/p>\n<p>Quando conheceu os bolsistas de Direito, diz que vida ficou melhor. Eles doavam livros, tinham dicas de est\u00e1gios que eram menos rigorosos para selecionar candidatos que determinados escrit\u00f3rios e n\u00e3o exigiam, por exemplo, n\u00edvel avan\u00e7ado de ingl\u00eas &#8211; que segundo ela \u00e9, talvez, um das maiores dificuldades para os bolsistas.<\/p>\n<p>Ao longo do curso, conseguiu est\u00e1gios que pagavam melhor que o sal\u00e1rio da m\u00e3e ou a aposentadoria do av\u00f4. Conseguiu at\u00e9 fazer interc\u00e2mbio, gra\u00e7as a uma bolsa, na Universidade Cat\u00f3lica da Argentina.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Estranhos<\/h2>\n<p>Michele admite que ela era mais radical e mais fechada no come\u00e7o do curso. &#8220;N\u00e3o conseguia chegar perto das pessoas que n\u00e3o tinham a mesma realidade que eu. Eu era t\u00e3o estranha para eles quanto eles eram para mim&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Com o tempo ela conta que aprendeu a &#8220;mudar o n\u00edvel de radicalidade&#8221;. &#8220;Tem hora que tem que ser mais incisivo&#8221;, diz, acrescentando que, al\u00e9m de encontrar tom adequado, o mais importante \u00e9 encontrar a hora certa de falar verdades.<\/p>\n<p>A formatura foi um desses momentos. Diz que a participa\u00e7\u00e3o dos bolsistas foi negociada com a comiss\u00e3o que organizou o evento. Ganharam ingressos e o direito de fazer um discurso.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o esperava rea\u00e7\u00e3o positiva por parte dos colegas. Tem gente falando que 90% aplaudiu de p\u00e9, e n\u00e3o acho que foi tudo isso. Eu fiquei t\u00e3o atordoada que n\u00e3o observei. Mas sei que muita gente se sentiu incomodada, que virou tema de debate em fam\u00edlia.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Valsa<\/h2>\n<p>Michele discursou e foi ao baile tamb\u00e9m. Dan\u00e7ou valsa com a m\u00e3e que, segundo ela, ficou muito assustada com o barulho que as palavras de Michele est\u00e3o fazendo as redes sociais a ponto de pedir \u00e0 filha para &#8220;dar um tempo&#8221; e parar de ler todos os coment\u00e1rios que tem recebido.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos elogios e cumprimentos, Michele tem lido na internet coment\u00e1rios que, de certa forma, reproduzem o discurso preconceituoso e discriminador similar ao que enfrentou durante os anos de faculdade.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos colegas, pondera que n\u00e3o sabe se as recorrentes &#8220;piadas sobre pobres e as cr\u00edticas sobre as esmolas do governo&#8221;, para citar as palavras que usou no discurso, eram conscientes. &#8220;Muitas daquelas pessoas n\u00e3o tiveram contato com pessoas como eu, com uma hist\u00f3ria de luta social, n\u00e3o tiveram a mesma realidade&#8221;, diz, dando o beneficio da d\u00favida aos que estudaram com ela.<\/p>\n<p>Mas Michele rejeita o papel de v\u00edtima: &#8220;Fui protagonista&#8221;.<\/p>\n<p>E o futuro? Para Michele, ainda \u00e9 incerto. Ela gosta do trabalho que faz no escrit\u00f3rio de advocacia, mas pensa em tentar ser defensora p\u00fablica. No entanto, diz que n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de parar de trabalhar para estudar para o concurso.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E o futuro? Para Michele, ainda \u00e9 incerto. 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