{"id":237551,"date":"2018-03-19T15:13:46","date_gmt":"2018-03-19T18:13:46","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=237551"},"modified":"2018-03-19T15:13:46","modified_gmt":"2018-03-19T18:13:46","slug":"faco-doutorado-e-vivo-de-doacao-atraso-em-bolsas-faz-cientistas-passarem-necessidade-em-mg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/faco-doutorado-e-vivo-de-doacao-atraso-em-bolsas-faz-cientistas-passarem-necessidade-em-mg\/","title":{"rendered":"\u2018Fa\u00e7o doutorado e vivo de doa\u00e7\u00e3o\u2019: atraso em bolsas faz cientistas passarem necessidade em MG"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Leandro Machado<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/1619A\/production\/_100422509_pesquisadora.jpg\" alt=\"Ang\u00e9lica Samer\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">A pesquisadora Ang\u00e9lica Samer est\u00e1 deixando de ir \u00e0 universidade para economizar | Foto: Arquivo pessoal<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">A pesquisadora Let\u00edcia precisa importar livros da Fran\u00e7a para terminar seu doutorado em psicologia, pois n\u00e3o existem tradu\u00e7\u00f5es das obras para o portugu\u00eas. Mas ela conta que nos \u00faltimos meses teve preocupa\u00e7\u00f5es mais urgentes e b\u00e1sicas: como conseguir comida?<\/p>\n<p>J\u00e1 Ang\u00e9lica Samer, doutoranda em biologia, est\u00e1 evitando ir \u00e0 Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde estuda, para economizar R$ 16 da passagem de \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Elas est\u00e3o entre os 7 mil bolsistas de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Fapemig (Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de Minas Gerais). Recebem R$ 2,2 mil mensais para produzir suas pesquisas, mas os constantes atrasos de pagamento do aux\u00edlio est\u00e3o criando dificuldades que elas n\u00e3o imaginavam passar nessa fase da vida acad\u00eamica.<\/p>\n<p>&#8220;Em fevereiro a fome bateu, cara. Passei fome, sim. Olhei o arm\u00e1rio e n\u00e3o tinha carne, n\u00e3o tinha arroz, farinha&#8221;, conta Let\u00edcia, de 40 anos. A seu pedido, seu nome verdadeiro foi trocado nesta reportagem pois ela teme sofrer repres\u00e1lias.<\/p>\n<p>A acad\u00eamica come\u00e7ou a receber o aux\u00edlio da Fapemig em 2016, quando iniciou o doutorado em psicologia na UFMG. Ela e outros estudantes de universidades p\u00fablicas de Minas contam hist\u00f3rias semelhantes: at\u00e9 meados de 2016, as bolsas de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mestrado e doutorado eram pagas em dia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o elas come\u00e7aram a chegar poucos dias ap\u00f3s o prazo &#8211; a data oficial de pagamento chegou a ser postergada para evitar atrasos. A partir de outubro do ano passado, a situa\u00e7\u00e3o piorou: as bolsas passaram a atrasar por mais de um m\u00eas.<\/p>\n<p>As de janeiro de 2018 s\u00f3 foram pagas em meados de mar\u00e7o e os aux\u00edlios de fevereiro ainda n\u00e3o ca\u00edram. Ap\u00f3s o contato da reportagem, na sexta-feira, a Fapemig afirmou que a verba come\u00e7ar\u00e1 a ser paga nos pr\u00f3ximos dias.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/47BD\/production\/_100456381_4bf06102-5f7f-45b1-83d8-d34fcacdb59d.jpg\" alt=\"Alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Minas Gerais\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Membros da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos P\u00f3s-Graduandos fizeram reuni\u00f5es para cobrar regulariza\u00e7\u00e3o dos pagamentos | Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Essas bolsas s\u00e3o do tipo &#8220;dedica\u00e7\u00e3o exclusiva&#8221;. Para consegui-la, o estudante assina um contrato se comprometendo a n\u00e3o ter outra atividade remunerada que n\u00e3o seja a pesquisa &#8211; ele deve dedicar 40 horas por semanas \u00e0 academia.<\/p>\n<p>Caso descumpra e consiga um trabalho, por exemplo, o bolsista perde automaticamente o benef\u00edcio e pode ter de devolver toda a verba que recebeu, por meio de processo. Ele tamb\u00e9m precisa publicar artigos acad\u00eamicos em revistas cient\u00edficas e participar de congressos.<\/p>\n<p>Let\u00edcia \u00e9 um desses casos. N\u00e3o pode trabalhar at\u00e9 terminar seu doutorado. O problema \u00e9 que a bolsa tem atrasado cada vez mais &#8211; ela parou de comprar os livros de que precisa. &#8220;Sou uma pessoa pobre. Tenho de comprar comida, pagar aluguel, comprar os livros. Como vou fazer isso se a bolsa n\u00e3o \u00e9 paga?&#8221;, diz ela, que se mudou para Belo Horizonte para trilhar carreira acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Sem o pagamento, as contas se acumularam e o cheque especial passou a cobrar os juros.<\/p>\n<p>Em fevereiro, quando viu seu arm\u00e1rio vazio e a conta banc\u00e1ria negativa, ela pediu ajuda a colegas. Pesquisadores de outras universidades arrecadaram dinheiro e alimentos para ajud\u00e1-la . &#8220;A Fapemig diz que voc\u00ea n\u00e3o pode trabalhar, que precisa se dedicar, escrever artigos. Mas n\u00e3o te paga a bolsa. Eles s\u00e3o muito r\u00edgidos em tudo, menos em pagar o nosso dinheiro&#8221;, conta.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Tinha o sonho de ser cientista&#8217;<\/h2>\n<p>Tamb\u00e9m doutoranda na UFMG, a bi\u00f3loga Ang\u00e9lica Samer, de 26 anos, estuda a incid\u00eancia de dengue e zika em Minas Gerais, mas n\u00e3o consegue ir \u00e0 universidade por falta de dinheiro &#8211; tamb\u00e9m desistiu das aulas de ingl\u00eas e do plano de sa\u00fade. Os constantes atrasos da bolsa desanimaram a estudante.<\/p>\n<p>&#8220;Sempre tive o sonho de ser uma cientista: fiz gradua\u00e7\u00e3o, mestrado e, agora, doutorado. Mas o que fa\u00e7o agora? Estou perdida. Me sinto qualificada para trabalhar, mas n\u00e3o posso por causa da bolsa&#8221;, diz.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/95DD\/production\/_100456383_ufmg.jpg\" alt=\"Campus da Universidade Federal de Minas Gerais\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais foram afetados pelos atrasos do pagamento de bolsas | Foto: Foca Lisboa\/UFMG<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ela cita o cientista brit\u00e2nico Stephen Hawking, que morreu na semana passada. &#8220;As pessoas ficaram comovidas com a morte dele. Infelizmente, elas n\u00e3o sabem das dificuldades que os pesquisadores brasileiros passam para produzir ci\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p>Renata (nome fict\u00edcio), doutoranda em agronomia na Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (UFU), tem sentimento parecido. &#8220;N\u00e3o desisto porque quero muito terminar, mas me sinto completamente desestimulada. Eu poderia ganhar muito mais atuando no mercado&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>A agr\u00f4noma conta que, durante sua pesquisa de campo, acabou sem dinheiro para coletar o material que precisava para finalizar seu estudo. Ela tamb\u00e9m evita se deslocar \u00e0 universidade, a 23 km de sua casa. &#8220;\u00c9 humilhante voc\u00ea estar no doutorado e ter de pedir dinheiro a sua m\u00e3e para comprar produtos b\u00e1sicos de higiene&#8221;, conta Renata, de 30 anos. Ela tem uma filha de um ano e quatro meses.<\/p>\n<p>Estudante de geografia, Gustavo tamb\u00e9m tem dificuldades para se manter no campus da UFU em Ituiutaba, no interior de Minas, cidade para onde ele se mudou por causa da gradua\u00e7\u00e3o. Ele recebe uma bolsa de R$ 400 para realizar uma pesquisa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica &#8211; usa parte do dinheiro para pagar o aluguel.<\/p>\n<p>&#8220;Sonho em fazer mestrado e doutorado, mas j\u00e1 na gradua\u00e7\u00e3o enfrento essas dificuldades. \u00c9 muito frustrante. Quando eu me formar, talvez eu v\u00e1 trabalhar no mercado&#8221;, diz.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/AF12\/production\/_100481844_fernandopimentel.jpg\" alt=\"Governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">A Fapemig recebe recursos do Estado de Minas Gerais, governado pelo petista Fernando Pimentel | Foto: Marcelo Sant&#8217;Anna \/ Ag\u00eancia MG<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Crise financeira<\/h2>\n<p>A Fapemig \u00e9 mantida pelo Estado de Minas Gerais, hoje governado pelo petista Fernando Pimentel. A funda\u00e7\u00e3o foi criada h\u00e1 32 anos para apoiar &#8220;projetos de natureza cient\u00edfica, tecnol\u00f3gica e de inova\u00e7\u00e3o considerados estrat\u00e9gicos para o desenvolvimento do Estado&#8221;, diz a descri\u00e7\u00e3o em seu site.<\/p>\n<p>Segundo a funda\u00e7\u00e3o, as bolsas de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mestrado e doutorado custaram R$ 58,6 milh\u00f5es aos cofres p\u00fablicos em 2017, apesar dos atrasos. O or\u00e7amento total do \u00f3rg\u00e3o foi de R$ 295 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A institui\u00e7\u00e3o diz que sua verba \u00e9 passada pelo governo estadual, que &#8220;est\u00e1 em crise financeira.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A Fapemig tem como prioridade manter em dia o pagamento das bolsas concedidas pela Funda\u00e7\u00e3o. A dire\u00e7\u00e3o da Fapemig tem efetuado diversas a\u00e7\u00f5es junto ao tesouro estadual, fonte dos recursos para pagamento das bolsas, a fim de assegurar esse pagamento&#8221;, afirmou a institui\u00e7\u00e3o, em nota.<\/p>\n<p>Membro Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-Graduandos, La\u00eds Moreira faz uma cr\u00edtica \u00e0 forma como os governos estaduais e federal tratam a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil. Ela aponta, por exemplo, o fato de o presidente Michel Temer (PMDB) ter fundido o antigo Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia com o de Comunica\u00e7\u00f5es, em 2016, e, no ano seguinte, anunciado um corte de verbas na pasta.<\/p>\n<p>&#8220;A desvaloriza\u00e7\u00e3o da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o ocorre no Brasil inteiro. Nossa luta n\u00e3o \u00e9 corporativista, a bolsa n\u00e3o \u00e9 um sal\u00e1rio. N\u00e3o existe sa\u00edda para a crise por meio de desenvolvimento econ\u00f4mico e inova\u00e7\u00e3o sem passar pela p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o &#8220;, diz La\u00eds.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais foram afetados pelos atrasos do pagamento de bolsas | Foto: Foca Lisboa\/UFMG<br \/>\nEla cita o cientista brit\u00e2nico Stephen Hawking, que morreu na semana passada. &#8220;As pessoas ficaram comovidas com a morte dele. 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