{"id":240452,"date":"2018-04-16T08:44:37","date_gmt":"2018-04-16T11:44:37","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=240452"},"modified":"2018-04-16T08:44:37","modified_gmt":"2018-04-16T11:44:37","slug":"as-escritoras-que-tiveram-de-usar-pseudonimos-masculinos-e-agora-serao-lidas-com-seus-nomes-verdadeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/as-escritoras-que-tiveram-de-usar-pseudonimos-masculinos-e-agora-serao-lidas-com-seus-nomes-verdadeiros\/","title":{"rendered":"As escritoras que tiveram de usar pseud\u00f4nimos masculinos \u2013 e agora ser\u00e3o lidas com seus nomes verdadeiros"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Camilla Costa\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/3514\/production\/_100888531_1ac8b566-499f-4be2-a8b7-c39860d20428.jpg\" alt=\"Autoras do s\u00e9culo 19\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Amantine Dupin (esq.) ficou conhecida como George Sand e Mary Ann Evans (dir.), como George Eliot. Ambas s\u00e3o consideradas duas das maiores romancistas europeias<\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">O romance\u00a0<i>Middlemarch: um estudo da vida provinciana<\/i>, lan\u00e7ado em 1874 pelo escritor George Eliot, \u00e9 considerado hoje uma das melhores obras da literatura inglesa. A escritora Virginia Woolf chegou a cham\u00e1-lo de &#8220;um dos poucos livros ingleses feitos para gente grande&#8221;.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, no mesmo s\u00e9culo 19, George Sand tamb\u00e9m deixava sua marca na literatura. Ele foi descrito pelo autor russo Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski como ocupante do &#8220;primeiro lugar nas fileiras dos escritores novos&#8221;. Recentemente, o governo franc\u00eas debateu enterrar seus restos mortais no Panthe\u00f3n, ao lado de nomes como Victor Hugo e Voltaire.<\/p>\n<p>Curiosamente, ambos os Georges, o brit\u00e2nico e o franc\u00eas, eram mulheres, que usaram pseud\u00f4nimos masculinos para publicar.<\/p>\n<p>George Eliot era Mary Ann Evans, que assinou artigos com seu pr\u00f3prio nome em um jornal. Ao se aventurar pelo mundo da fic\u00e7\u00e3o, no entanto, ela adotou a identidade masculina e chegou a escrever um ensaio chamado\u00a0<i>Silly Novels by Lady Novelists<\/i>\u00a0(Romances bobos de mulheres romancistas, em tradu\u00e7\u00e3o livre), criticando os romances escritos por mulheres, para se distanciar de outras autoras de sua \u00e9poca e para que seu trabalho fosse levado a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>George Sand era a francesa Amantine Dupin, uma das autoras mais prol\u00edficas de sua \u00e9poca. Ela escrevia contos de amor e de diferen\u00e7as de classe, criticando as normas sociais. E tamb\u00e9m escreveu textos pol\u00edticos e pe\u00e7as, que encenava em um teatro particular.<\/p>\n<p>&#8220;Naquela \u00e9poca, uma mulher que tinha atividade intelectual estava cometendo uma transgress\u00e3o enorme&#8221;, disse \u00e0 BBC Brasil Sandra Vasconcelos, professora titular de Literatura Inglesa e Comparada da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>&#8220;As que ousavam publicar usando seus pr\u00f3prios nomes recebiam muitas cr\u00edticas, porque estavam extrapolando o papel designado para elas. A maioria acaba usando pseud\u00f4nimo porque n\u00e3o quer se expor publicamente.&#8221;<\/p>\n<p>Agora, um projeto brasileiro da empresa HP e e de uma ag\u00eancia de publicidade quer estimular a leitura dessas e de outras autoras com novas capas, que mostram seus nomes reais.<\/p>\n<p>&#8220;Quer\u00edamos reimprimir a Hist\u00f3ria, que, por diversos motivos, n\u00e3o trataram bem essas autoras&#8221;, disse \u00e0 BBC Brasil Keka Morelle, a diretora de cria\u00e7\u00e3o do projeto\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"http:\/\/hporiginalwriters.com\/pt\">OriginalWriters<\/a>\u00a0(Escritoras originais, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>Os livros das autoras do s\u00e9culo 19 e do in\u00edcio do s\u00e9culo 20, principalmente europeias, j\u00e1 estavam dispon\u00edveis no site\u00a0<a class=\"story-body__link-external\" href=\"http:\/\/www.gutenberg.org\/\">Gutenberg Project<\/a>\u00a0&#8211; um projeto que oferece, gratuitamente, mais de 50 mil obras de dom\u00ednio p\u00fablico.<\/p>\n<p>Mas a empresa decidiu fazer novas capas, que possibilitassem aos leitores conhecer a identidade real de suas autoras. Segundo Marcelo Rosa, produtor de conte\u00fado do projeto, o plano ainda inclui a tradu\u00e7\u00e3o dessas obras para sua publica\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas &#8211; atualmente, elas est\u00e3o em seus idiomas originais.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, a busca por brasileiras que tenham feito o mesmo e que possam ter seus livros disponibilizados gratuitamente.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/3844\/production\/_100640441_gettyimages-489732936.jpg\" alt=\"Livro de George Eliot\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">No s\u00e9culo 18, escritoras como Jane Austen publicaram como mulheres, mas anonimamente. Quando os romances se tornaram mais respeitados, no entanto, usar pseud\u00f4nimos ficou mais comum<\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Escrito por uma dama&#8217;<\/h2>\n<p>Durante os s\u00e9culos 18 e 19, diz Vasconcelos, cristalizou-se o papel da mulher como primordialmente m\u00e3e e esposa dentro da fam\u00edlia burguesa.<\/p>\n<p>&#8220;A esposa era a respons\u00e1vel pelo mundo dom\u00e9stico, da porta da casa para dentro. Muitas delas n\u00e3o tinham sequer acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal. E toda mulher que tinha algum tipo de ambi\u00e7\u00e3o para al\u00e9m disso era um ponto fora da curva.&#8221;<\/p>\n<p>Mulheres que desejavam se tornar escritoras de romances publicavam com pseud\u00f4nimos ou mesmo anonimamente, a partir do s\u00e9culo 18. A mais famosa delas \u00e9 a inglesa Jane Austen. A capa de seu primeiro romance,\u00a0<i>Orgulho e Preconceito<\/i>, diz apenas: &#8220;Um romance. Em tr\u00eas partes. Escrito por uma dama.&#8221;<\/p>\n<p>Austen, na verdade, n\u00e3o publicou nenhum romance assinado em vida. Os seus livros seguintes eram creditados \u00e0 &#8220;mesma autora&#8221; dos anteriores.<\/p>\n<p>Mas, no s\u00e9culo 19, mesmo publicar anonimamente ficou menos comum.<\/p>\n<p>&#8220;Escrever se tornou profiss\u00e3o e os romances se tornaram mais respeitados como g\u00eanero. A partir da\u00ed, ficou mais dif\u00edcil para as mulheres terem autoridade cultural para assinar livros de fic\u00e7\u00e3o&#8221;, disse \u00e0 BBC Brasil Sue Lanser, professora de Ingl\u00eas, Literatura Comparada e Estudos sobre Mulheres, G\u00eanero e Sexualidade da Universidade Brandeis, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>&#8220;A hist\u00f3ria ocidental \u00e9 principalmente de autoridade masculina. Por isso as mulheres come\u00e7aram a usar nomes amb\u00edguos ou diretamente masculinos. Elas estavam tentando se autorizar.&#8221;<\/p>\n<p>Foi o que fizeram as irm\u00e3s brit\u00e2nicas Charlotte, Emily and Anne Bront\u00eb (Emily \u00e9 autora de\u00a0<i>O Morro dos Ventos Uivantes<\/i>\u00a0e Charlotte, do romance\u00a0<i>Jane Eyre<\/i>), que publicaram seus livros como Currer, Ellis e Acton Bell.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica continuou com for\u00e7a at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo 20 &#8211; mesmo quando as escritoras em quest\u00e3o eram mulheres intelectuais, de fam\u00edlias da alta classe e bem conectadas, como a francesa Amantine Dupin.<\/p>\n<p>Entre seus amigos famosos, estavam os escritores Gustave Flaubert (autor de\u00a0<i>Madame Bovary<\/i>) e Honor\u00e9 de Balzac (autor de\u00a0<i>A Com\u00e9dia Humana<\/i>), ambos seus admiradores e defensores. Mesmo assim, ela permaneceu como George Sand no mundo liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>O escritor russo Ivan Turgenev chegou a dizer: &#8220;que homem corajoso ela foi, e que boa mulher&#8221;. Na vida social, Dupin causava pol\u00eamica em Paris por usar roupas masculinas, fumar em p\u00fablico e ter casos amorosos frequentes &#8211; coisas proibidas a uma mulher da \u00e9poca.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/FB94\/production\/_100640446_01.jpg\" alt=\"Capas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Projeto criou novas capas para romances de autoras europeias, usando seus nomes reais<\/span><\/figure>\n<p>No Brasil, muitas escritoras tamb\u00e9m usaram o recurso do pseud\u00f4nimo ou do livro an\u00f4nimo pelos mesmos motivos, segundo a professora de literatura brasileira da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Const\u00e2ncia Lima Duarte.<\/p>\n<p>&#8220;Claro que o c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo (da escritora) sabia do que se tratava. Mas elas faziam isso para se proteger da opini\u00e3o p\u00fablica. Os homens tamb\u00e9m chegaram a fazer isso, mas por motivos mais subjetivos&#8221;, disse \u00e0 BBC Brasil.<\/p>\n<p>A maioria destas escritoras, no entanto, apenas come\u00e7a a ser descoberta, segundo Duarte. Uma delas \u00e9 Maria Firmina dos Reis, autora do romance<i>\u00a0\u00darsula<\/i>(1859), considerado por alguns historiadores como o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira. Sua assinatura, no entanto, dizia apenas &#8220;uma maranhense&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1887, na Bahia, o livro\u00a0<i>As Mulheres: Um protesto por uma m\u00e3e<\/i>\u00a0denuncia o &#8220;diminuto mercado de trabalho que era reservado \u00e0s mulheres, a absurda diferen\u00e7a salarial entre homens e mulheres e a valoriza\u00e7\u00e3o excessiva das fun\u00e7\u00f5es reservadas aos homens&#8221;, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um livro important\u00edssimo, mas ela se escondeu t\u00e3o bem que ningu\u00e9m descobriu depois quem teria sido essa escritora.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/149B4\/production\/_100640448_02.jpg\" alt=\"Capas antigas e novas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">&#8220;N\u00e3o podemos reescrever a Hist\u00f3ria. Alguns autores, quando usam um pseud\u00f4nimo, querem habitar outra identidade. \u00c9 importante mostrar os dois nomes&#8221;, diz especialista americana em literatura<\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/20D4\/production\/_100640480_03.jpg\" alt=\"Capa antiga e nova\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Cr\u00edticos liter\u00e1rios no s\u00e9culo 19 costumavam assumir que todos os romances escritos por mulheres eram autobiogr\u00e1ficos<\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Liberta\u00e7\u00e3o das restri\u00e7\u00f5es sociais<\/h2>\n<p>De acordo com Lanser, a &#8220;sensa\u00e7\u00e3o de liberdade&#8221; tamb\u00e9m era um fator que levava escritoras a publicar com pseud\u00f4nimos.<\/p>\n<p>&#8220;Havia muitas restri\u00e7\u00f5es e expectativas sociais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres &#8211; sobre a maneira como elas deveriam escrever e os assuntos sobre os quais elas poderiam falar. E tamb\u00e9m era muito comum que cr\u00edticos e leitores presumissem que seus livros eram sempre autobiogr\u00e1ficos&#8221;, explica.<\/p>\n<p>&#8220;Por isso, se houvesse qualquer elemento sexual question\u00e1vel nos romances, ou considerado pouco apropriado para uma dama da sociedade, elas seriam julgadas. O pseud\u00f4nimo era tamb\u00e9m uma maneira de proteger a vida pessoal.&#8221;<\/p>\n<p>Mas segundo a pesquisadora, o fen\u00f4meno n\u00e3o desapareceu completamente. J\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, a franco-brit\u00e2nica Violet Paget manteve seus escritos &#8211; que iam desde livros sobre viagem e m\u00fasica at\u00e9 contos sobrenaturais, cr\u00edticas de arte, ensaios sobre liberalismo e romances &#8211; sob o pseud\u00f4nimo de Vernon Lee, talvez tamb\u00e9m para evitar coment\u00e1rios sobre sua homossexualidade.<\/p>\n<p>E nos anos 1990, a escritora brit\u00e2nica J.K. Rowling escondeu seu primeiro nome, Joanne, por sugest\u00e3o da empresa que publicou sua obra. Em entrevistas concedidas depois do sucesso mundial de sua s\u00e9rie de livros\u00a0<i>Harry Potter<\/i>, ela disse ter ouvido de seu editor que o uso dos primeiros nomes abreviados, que deixavam a assinatura mais amb\u00edgua, facilitaria que os livros fossem lidos por meninos.<\/p>\n<p>Para escapar das expectativas em torno de seu primeiro romance policial, Rowling tamb\u00e9m escolheu um pseud\u00f4nimo masculino, Robert Galbraith. N\u00e3o demorou muito, no entanto, para que ela fosse descoberta. O livro havia vendido pouco, mas recebeu cr\u00edticas t\u00e3o positivas que levantou suspeitas de que n\u00e3o fosse um romance de estreia de um novo autor.<\/p>\n<p>Depois da revela\u00e7\u00e3o, uma primeira edi\u00e7\u00e3o assinada da obra chegou a ser vendida por mais de R$ 13 mil.<\/p>\n<p>Foi o contr\u00e1rio do que aconteceu George Eliot, ou Mary Ann Evans, nos anos 1860. A pesquisadora Sue Lanser conta que, quando sua identidade de mulher foi revelada, ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de seu primeiro romance, um jornal de cr\u00edtica liter\u00e1ria revisou a cr\u00edtica que havia feito do livro. A primeira era elogiosa. A segunda, bastante negativa.<\/p>\n<p>&#8220;Isso ainda \u00e9 comum no mundo acad\u00eamico, nas ci\u00eancias. H\u00e1 um vi\u00e9s a favor da autoridade masculina no conhecimento. \u00c9 um vi\u00e9s que \u00e0s vezes \u00e9 impl\u00edcito, inconsciente. Achamos que isso mudou, mas, na verdade, n\u00e3o mudou tanto assim&#8221;, afirma Lanser.<\/p>\n<p>Em 2015, a escritora americana Catherine Nichols fez a experi\u00eancia de enviar um manuscrito seu para agentes liter\u00e1rios sob um pseud\u00f4nimo masculino e surpreendeu-se com o n\u00famero de respostas que teve. Quando mandou o mesmo material usando seu nome, dias antes, teve duas respostas positivas em 50 tentativas. Com o nome masculino e o mesmo material, teve 17 de 50.<\/p>\n<p>Levantamentos da organiza\u00e7\u00e3o americana VIDA &#8211; Women in Literary Arts mostram que livros escritos por mulheres ainda s\u00e3o menos revisados por cr\u00edticos em revistas liter\u00e1rias do que os escritos por homens. E ensaios escritos por mulheres s\u00e3o menos publicados nestas revistas especializadas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Literatura para homens&#8217; x &#8216;Literatura para mulheres&#8217;<\/h2>\n<p>Al\u00e9m disso, o fen\u00f4meno da segmenta\u00e7\u00e3o de mercado entre &#8220;literatura para mulheres&#8221; e &#8220;literatura para homens&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 algo recente e contribui para que escritoras que querem ultrapassar a expectativa de p\u00fablico para seus livros mudem seus nomes, como no caso de J.K. Rowling e\u00a0<i>Harry Potter<\/i>.<\/p>\n<p>&#8220;Quando o romance de fic\u00e7\u00e3o surge, os homens tamb\u00e9m liam. Tanto que grande parte dos coment\u00e1rios sobre os romances feitos nos jornais era feito por homens. E alguns dos maiores romances com protagonistas mulheres s\u00e3o de escritores homens. N\u00e3o havia essa diferen\u00e7a, todos liam tudo&#8221;, relembra Sandra Vasconcelos.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje, os editores interferem bastante na vida dos livros e dos autores tomando decis\u00f5es que t\u00eam essa suposta segmenta\u00e7\u00e3o de mercado como justificativa.&#8221;<\/p>\n<p>Lanser tamb\u00e9m concorda que o fen\u00f4meno \u00e9 moderno. &#8220;Agora existe uma dicotomia maior em termos de g\u00eanero e pr\u00e1ticas de leitura. Desde que Jane Austen, por exemplo, se tornou popular, s\u00f3 nos \u00faltimos 20 anos \u00e9 que os homens pararam de l\u00ea-la e n\u00e3o querem mais ter aulas sobre ela&#8221;, afirma.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/AD74\/production\/_100640444_35f8b3b0-6833-4c15-9107-1587b1c6518c.jpg\" alt=\"J. K. Rowling\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">J\u00e1 nos anos 1990, autora de Harry Potter foi orientada a esconder seu nome, Joanne, para n\u00e3o afastar leitores do sexo masculino<\/span><\/figure>\n<p>&#8220;Pesquisadores ainda leem, mas o estudante universit\u00e1rio m\u00e9dio n\u00e3o l\u00ea e diz que \u00e9 &#8216;chick lit&#8217; (literatura de mulherzinha, em tradu\u00e7\u00e3o livre, uma g\u00edria depreciativa). Muitos colegas meus t\u00eam a mesma experi\u00eancia. Uma das maiores autoras da l\u00edngua inglesa foi reduzida na mente das pessoas a uma &#8216;autora de romances&#8217;, mas ela est\u00e1 falando da sociedade, e escreve at\u00e9 mais sobre dinheiro do que sobre amor, se voc\u00ea olhar bem.&#8221;<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, diz Lanser, \u00e9 &#8220;absurdo&#8221; que se considere, no s\u00e9culo 21, que hist\u00f3rias sobre mulheres, especialmente se t\u00eam algum tipo de hist\u00f3ria de amor no enredo, sejam automaticamente consideradas &#8220;literatura menor&#8221; e &#8220;s\u00f3 para mulheres&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;N\u00e3o podemos mudar a hist\u00f3ria&#8217;<\/h2>\n<p>Mas se o projeto da HP diz ter a inten\u00e7\u00e3o de &#8220;reimprimir a Hist\u00f3ria&#8221; dessas escritoras usando seus pr\u00f3prios nomes, a pesquisadora americana alerta que \u00e9 preciso tomar cuidado com a ideia.<\/p>\n<p>&#8220;Nem todas essas mulheres queriam apenas se proteger com o pseud\u00f4nimo. Algumas estavam tentando habitar outras identidades. Talvez Mary Ann Evans ou Violet Paget se sentissem, de fato, George Eliot e Vernon Lee quando escreviam&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Lanser diz que acha boa a ideia de tornar os livros e as identidades de suas autoras conhecidos a um p\u00fablico novo, mas que \u00e9 importante manter os nomes com os quais elas publicaram suas obras originalmente.<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo que algumas delas tivessem tentando se esconder, precisamos tamb\u00e9m mostrar o nosso passado, n\u00e3o podemos mud\u00e1-lo. N\u00e3o d\u00e1 pra mudar a Hist\u00f3ria e transform\u00e1-la em algo que gostar\u00edamos que fosse.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Acho que mostrar os dois nomes \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de honrar a trajet\u00f3ria dessas mulheres.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;As que ousavam publicar usando seus pr\u00f3prios nomes recebiam muitas cr\u00edticas, porque estavam extrapolando o papel designado para elas. 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