{"id":241017,"date":"2018-04-22T05:55:49","date_gmt":"2018-04-22T08:55:49","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=241017"},"modified":"2018-04-22T05:55:49","modified_gmt":"2018-04-22T08:55:49","slug":"minha-professora-e-diferente-e-ela-e-maravilhosa-a-trajetoria-da-educadora-com-down-alvo-de-preconceito-de-desembargadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/minha-professora-e-diferente-e-ela-e-maravilhosa-a-trajetoria-da-educadora-com-down-alvo-de-preconceito-de-desembargadora\/","title":{"rendered":"&#8216;Minha professora \u00e9 diferente, e ela \u00e9 maravilhosa&#8217;: a trajet\u00f3ria da educadora com Down alvo de preconceito de desembargadora"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Renata Moura<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/AE27\/production\/_100938544_debora.jpg\" alt=\"D\u00e9bora Seabra de Moura, na escola\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">D\u00e9bora Seabra atua como auxiliar de desenvolvimento infantil h\u00e1 13 anos em uma escola privada de Natal: &#8216;Porque as crian\u00e7as nos d\u00e3o alegria&#8217;<\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">&#8220;Estou escrevendo para agradecer a carta que voc\u00ea me mandou e lhe dizer que suas palavras me fizeram refletir muito. Bem mais do que as centenas de ataques que recebi nas \u00faltimas semanas. Desculpe a demora na resposta, mas eu precisava desse tempo.&#8221;<\/p>\n<p>A professora D\u00e9bora Seabra de Moura, de 36 anos, se preparava para mais um dia de aulas nesta quarta-feira em Natal (RN) quando se deparou com essas palavras, encaminhadas a ela por um amigo da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A autora da mensagem era a desembargadora Mar\u00edlia Castro Neves, do Tribunal de Justi\u00e7a do Rio de Janeiro. E o pedido de desculpas poderia ser um desfecho redentor para o caso de preconceito do qual a professora, considerada a primeira com s\u00edndrome de Down no Brasil, foi v\u00edtima.<\/p>\n<p>Mas D\u00e9bora foi pega de surpresa: a carta n\u00e3o foi enviada a ela, mas divulgada pela magistrada \u00e0 imprensa horas antes que o conte\u00fado chegasse, por acaso, em suas m\u00e3os.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;O que ser\u00e1 que essa professora ensina a quem?&#8217;<\/h2>\n<p>As vidas da professora e da desembargadora se cruzaram h\u00e1 cerca de tr\u00eas anos, quando Mar\u00edlia Castro Neves postou em um grupo de magistrados no Facebook um coment\u00e1rio em que dizia ter ouvido no r\u00e1dio que o Brasil \u00e9 &#8220;o primeiro pa\u00eds a ter uma professora portadora de s\u00edndrome de Down&#8221;.<\/p>\n<p>Na mensagem, ela declarou: &#8220;(\u2026) A\u00ed me perguntei: o que ser\u00e1 que essa professora ensina a quem? Esperem um momento que eu fui ali me matar e j\u00e1 volto, t\u00e1?&#8221;.<\/p>\n<p>O teor da publica\u00e7\u00e3o s\u00f3 viria a p\u00fablico em mar\u00e7o deste ano, depois que a ju\u00edza fez coment\u00e1rios ofensivos e com informa\u00e7\u00f5es falsas contra a vereadora Marielle Franco (PSOL), ent\u00e3o rec\u00e9m-assassinada a tiros na regi\u00e3o central do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8220;Me senti machucada&#8221;, contou D\u00e9bora \u00e0 BBC Brasil. &#8220;Doeu o preconceito de dizerem que sou incapaz de dar aula.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D537\/production\/_100938545_75a6125f-dd00-4d86-8e9b-e53a4179a628.jpg\" alt=\"Desembargadora Mar\u00edlia Castro Neves\" width=\"1301\" height=\"701\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Desembargadora Mar\u00edlia Castro Neves, que questionou a capacidade da professora, responde a cinco processos no CNJ por postagens na internet<\/span><\/figure>\n<p>O caso foi parar no Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ) ap\u00f3s den\u00fancia feita pela Federa\u00e7\u00e3o Brasileira das Associa\u00e7\u00f5es de S\u00edndrome de Down. Se somou a outros quatro ajuizados contra a desembargadora por causa de suas pol\u00eamicas postagens nas redes sociais. Todos tramitam em segredo de Justi\u00e7a \u2013 o \u00f3rg\u00e3o diz n\u00e3o poder dar esclarecimentos sobre o andamento dos processos.<\/p>\n<p>Em tese, o prazo de defesa de Neves no CNJ terminaria nesta quarta-feira \u2013 mesmo dia em que ela postou no Facebook o pedido de desculpas \u00e0 D\u00e9bora e &#8220;\u00e0 mem\u00f3ria de Marielle&#8221;.<\/p>\n<p>O texto foi publicado em seu perfil nas redes sociais, onde postagens mais recentes, inclusive essa, s\u00e3o fechadas e, portanto, vis\u00edveis somente a amigos. Acabou noticiado pela colunista M\u00f4nica Bergamo, do jornal Folha de S. Paulo, mas n\u00e3o foi e nem ser\u00e1 enviado diretamente a D\u00e9bora ou \u00e0 fam\u00edlia, segundo confirmou \u00e0 BBC Brasil um assessor do gabinete da desembargadora. &#8220;A divulga\u00e7\u00e3o que existe \u00e9 esta.&#8221;<\/p>\n<p>Procurada pela reportagem, a magistrada n\u00e3o quis dar entrevista. A fam\u00edlia de D\u00e9bora tamb\u00e9m preferiu n\u00e3o fazer coment\u00e1rios sobre a carta.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Tenho o que ensinar&#8217;<\/h2>\n<p>Mar\u00edlia Castro Neves escreveu 386 palavras. Em meio a elas, diz que &#8220;tem sofrido muito&#8221; desde que foi &#8220;atropelada&#8221; pela divulga\u00e7\u00e3o de coment\u00e1rios que fez em grupos privados, alguns dos quais &#8220;h\u00e1 tanto tempo&#8221; que ela j\u00e1 &#8220;nem lembrava deles&#8221;.<\/p>\n<p>Diante da &#8220;repercuss\u00e3o imensa&#8221;, ela diz que decidiu se recolher, chorou e pensou muito. E acrescenta: &#8220;E de tudo que li e ouvi ao meu pr\u00f3prio respeito, foi de voc\u00ea, de quem em um primeiro momento duvidei da capacidade de ensinar, que me veio a maior li\u00e7\u00e3o: a de que precisamos ser mais tolerantes e duvidar de pr\u00e9-conceitos&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Perd\u00e3o, D\u00e9bora, por ter julgado, h\u00e1 tr\u00eas anos atr\u00e1s, (&#8230;) que uma professora portadora de s\u00edndrome de Down seria incapaz de ensinar. Voc\u00ea me provou o contr\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n<p>D\u00e9bora havia publicado no Facebook, ainda em mar\u00e7o, uma carta-resposta ao questionamento da desembargadora.<\/p>\n<p>Pegou l\u00e1pis, uma folha de caderno e o &#8220;choque&#8221; que sentiu, como contou \u00e0 BBC Brasil. E ent\u00e3o escreveu o que chamou de &#8220;Recado para a ju\u00edza Mar\u00edlia&#8221;. No texto, detalha suas atividades em sala de aula e afirma &#8220;ensinar muitas coisas&#8221; \u00e0s crian\u00e7as.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13BA4\/production\/_100940808_fb8cdde5-17dc-4527-8d1b-2cbb10c1b5ff.jpg\" alt=\"Carta-resposta de D\u00e9bora \u00e0 desembargadora\" width=\"1216\" height=\"682\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/>Q<\/span><span class=\"media-caption__text\">uando viu a mensagem da desembargadora no Facebook, D\u00e9bora escreveu uma carta-resposta a m\u00e3o e postou &#8216;para combater o preconceito&#8217;<\/span><\/figure>\n<p>&#8220;A principal \u00e9 que sejam educadas, tenham respeito pelas outras, aceitem as diferen\u00e7as de cada uma e ajudem a quem precisa mais.&#8221;<\/p>\n<p>Quando terminou, &#8220;sentiu um al\u00edvio&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Pensei que tinha de responder logo. Tenho o que ensinar \u00e0s crian\u00e7as e a todo mundo.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Inseguran\u00e7a desnecess\u00e1ria&#8217;<\/h2>\n<p>D\u00e9bora cursou magist\u00e9rio e, logo depois de formada, foi chamada para ser auxiliar de desenvolvimento infantil na escola onde havia estudado \u2013 uma das mais tradicionais na rede privada em Natal (RN).<\/p>\n<p>Treze anos atr\u00e1s, quando p\u00f4s os p\u00e9s em uma sala de aula pela primeira vez na nova fun\u00e7\u00e3o, o sentimento entre pais e professores era de &#8220;inseguran\u00e7a&#8221;, admite a diretora geral da institui\u00e7\u00e3o, Lucila Ramalho.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 que foi de fato quebrar uma barreira. Nunca hav\u00edamos tido uma auxiliar com necessidades especiais&#8221;, diz. &#8220;Mas foi uma inseguran\u00e7a desnecess\u00e1ria e que foi se dissipando. A s\u00edndrome de Down n\u00e3o atrapalha a pr\u00e1tica dela. E ela conquista muito a crian\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Sandra Nicolussi, de 52 anos, a primeira professora a quem D\u00e9bora auxiliou, ficou &#8220;receosa&#8221;, mas &#8220;se surpreendeu&#8221;. &#8220;Ela precisava de tempo para aprender, mas foi se apropriando da rotina e mostrou que dava conta.&#8221;<\/p>\n<p>D\u00e9bora atua hoje em uma turma do 4\u00ba n\u00edvel, com cerca de 20 alunos na faixa dos cinco anos de idade. Faz dupla com outra auxiliar encarregada, assim como ela, de dar assist\u00eancia \u00e0s atividades definidas em plano de aula e coordenadas por uma pedagoga.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12357\/production\/_100938547_10620731_861335847297067_5116456821156388040_n-1.jpg\" alt=\"D\u00e9bora com a fam\u00edlia, na formatura do magist\u00e9rio\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">D\u00e9bora com os pais e o irm\u00e3o, Frederico, na formatura do magist\u00e9rio: &#8216;Eu ajudo a educar e a incluir todo mundo&#8217;, diz<\/span><\/figure>\n<p>Nessa fun\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma das m\u00e3os que ajudam a abrir os livros e a conduzir as crian\u00e7as ao parque e ao banheiro, assim como os olhos que leem e a boca que conta hist\u00f3rias, &#8220;de prefer\u00eancia sobre animais e contos de fadas&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Eu ajudo a educar e a incluir todo mundo&#8221;, descreve ela. &#8220;Ensino que eles n\u00e3o podem brigar, que precisam dividir brinquedos, materiais de aula e aceitar todas as crian\u00e7as como elas s\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>D\u00e9bora diz que &#8220;se apaixonou por crian\u00e7as&#8221;. &#8220;Porque elas trazem alegria para a gente.&#8221;<\/p>\n<p>Ela encontrou reciprocidade no caminho.<\/p>\n<p>Cinco anos atr\u00e1s, a professora La\u00edsa Palhano Torres, de 47 anos, ouviu a filha, Rebeca, dizer surpresa: &#8220;Sabe, mam\u00e3e, tem uma professora diferente na minha sala. E ela \u00e9 maravilhosa.&#8221;<\/p>\n<p>A menina tinha seis anos. &#8220;E acabou vendo o belo, por meio de diferen\u00e7as. Viu que n\u00e3o \u00e9 preciso ter um susto diante de um cadeirante, de um autista, ou da professora com s\u00edndrome de Down. Que \u00e9 parte da vida&#8221;, diz a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Na sala de aula, D\u00e9bora vira a &#8220;tia D\u00e9bora&#8221; \u2013 Ana J\u00falia, uma das alunas de sua turma neste ano, capricha na entona\u00e7\u00e3o para contar sobre ela \u00e0 m\u00e3e, a servidora federal Juliana Vieira Costa de Aguiar, de 34 anos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BAE2\/production\/_100924874_img_7325.jpg\" alt=\"D\u00e9bora, no lan\u00e7amento de seu livro\" width=\"1280\" height=\"808\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Lan\u00e7amento de livro de f\u00e1bulas infantis no Rio, em 2013: al\u00e9m de contar hist\u00f3rias a crian\u00e7as, ela tamb\u00e9m criou as suas<\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Livro de f\u00e1bulas<\/h2>\n<p>Da experi\u00eancia de contar hist\u00f3rias aos alunos, D\u00e9bora passou tamb\u00e9m a escrev\u00ea-las. Em 2010, trabalhou \u00e0s escondidas em seu quarto, criando hist\u00f3rias e personagens. E no Natal daquele ano, entregou um manuscrito, depois transformado em livro, como presente aos pais.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o pequenas f\u00e1bulas em que a preocupa\u00e7\u00e3o central \u00e9 sempre a compreens\u00e3o, a empatia e a conviv\u00eancia cordial e afetuosa com os diferentes&#8221;, descreveu o escritor Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro no pref\u00e1cio.<\/p>\n<p>Nas hist\u00f3rias que concebeu, uma menina, Sandra \u2013 uma homenagem \u00e0 primeira professora que auxiliou \u2013 vive em uma fazenda onde ajuda a resolver conflitos entre os animais e a disseminar a mensagem de &#8220;sim \u00e0 inclus\u00e3o&#8221; e &#8220;n\u00e3o ao preconceito&#8221;.<\/p>\n<p>Por meio de seus ensinamentos, um cachorro e um papagaio aprendem a conviver com as diferen\u00e7as e se tornam amigos, um coelhinho preto se d\u00e1 conta de que n\u00e3o precisa ter pelos brancos para conquistar espa\u00e7o e uma galinha surda, ent\u00e3o isolada, aprende a se comunicar. E por a\u00ed vai. &#8220;\u00c9 um pouco da hist\u00f3ria dela&#8221;, diz a m\u00e3e de D\u00e9bora, a advogada e procuradora aposentada Margarida Seabra de Moura.<\/p>\n<p>Na f\u00e1bula, um passarinho perdido \u00e9 encontrado ferido. Ele voa ent\u00e3o mais devagar e os outros questionam se n\u00e3o ficaria mais seguro se permanecesse na gaiola, sempre.<\/p>\n<p>Sandra, a menina da fazenda, discorda. &#8220;J\u00e1 pensaram se eu proibisse voc\u00eas de voarem para onde quisessem?&#8221;, pergunta. &#8220;Tentem conviver com ele, aceitando o seu jeito de voar mais devagar. Ele voa com uma asa s\u00f3, mas consegue ir para onde voc\u00eas v\u00e3o e chegar l\u00e1 como voc\u00eas chegam.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11494\/production\/_100940807_c5f63aba-029b-42d7-b62b-828ba47a823a.jpg\" alt=\"D\u00e9bora e o cartunista Henfil\" width=\"1280\" height=\"720\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">D\u00e9bora e o cartunista, quadrinista, jornalista e escritor Henfil, amigo da fam\u00edlia, no in\u00edcio dos anos 80: &#8216;Voc\u00ea vai fazer coisas inimagin\u00e1veis&#8217;, disse a ela<\/span><\/figure>\n<p>Trinta e seis anos atr\u00e1s, pouco tempo ap\u00f3s a professora e escritora nascer em Natal, ela estava em S\u00e3o Paulo com a fam\u00edlia quando o cartunista mineiro e amigo dos pais dela, Henfil, vaticinou: &#8220;D\u00e9bora, voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o forte quanto eu e vai fazer coisas inimagin\u00e1veis&#8221;.<\/p>\n<p>Poucos meses antes, o pai dela, o psiquiatra Jos\u00e9 Rob\u00e9rio Seabra de Moura, acompanhava o parto da filha quando viu o pediatra levar o beb\u00ea rapidamente para uma sala ao lado. Foi quando a fam\u00edlia soube da s\u00edndrome de Down \u2013 uma altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica sobre a qual, no pouco que se falava, parecia conter progn\u00f3sticos assustadores.<\/p>\n<p>Todos ficaram, afirma, &#8220;em choque&#8221;, mas a &#8220;aceita\u00e7\u00e3o&#8221; veio. &#8220;E j\u00e1 que o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre o \u00f3rg\u00e3o eleito para essas coisas, de repente ela estava ocupando o lugar dela, dentro da gente&#8221;, diz Rob\u00e9rio.<\/p>\n<p>Dentro deles e no mundo.<\/p>\n<p>D\u00e9bora foi \u00e0 escola \u2013 sempre em institui\u00e7\u00f5es regulares \u2013, cresceu estampando p\u00e1ginas de jornal ou falando em programas de TV locais e nacionais sobre inclus\u00e3o, mas n\u00e3o parou por a\u00ed.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C674\/production\/_100940805_deboraseabra-onu.jpg\" alt=\"D\u00e9bora, na ONU\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Em participa\u00e7\u00e3o na 3\u00aa Confer\u00eancia do Dia Internacional da S\u00edndrome de Down, na ONU, D\u00e9bora (de vermelho), disse que &#8216;a inclus\u00e3o come\u00e7a na fam\u00edlia&#8217;<\/span><\/figure>\n<p>Ela fez palestras em semin\u00e1rios e em outros eventos dentro e fora do Brasil \u2013 em Portugal, na Argentina e na 3\u00aa Confer\u00eancia do Dia Internacional da S\u00edndrome de Down, na sede das Na\u00e7\u00f5es Unidas em Nova York, nos Estados Unidos, onde ressaltou que &#8220;a inclus\u00e3o come\u00e7a na fam\u00edlia, come\u00e7a em casa&#8221;, mas tamb\u00e9m passa pelos amigos e pelo trabalho. Tamb\u00e9m recebeu, em 2015, o Pr\u00eamio Darcy Ribeiro, concedido pela C\u00e2mara dos Deputados a pessoas de destaque na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o dela, o advogado Frederico Seabra, um ano e meio mais velho, a define como a &#8220;antifr\u00e1gil&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Eu acho que D\u00e9bora \u00e9 o contr\u00e1rio de fr\u00e1gil. Ela sente o preconceito quando acontece, mas cresce. Consegue dar respostas fortes em cada situa\u00e7\u00e3o e sair bem disso.&#8221;<\/p>\n<p>Ele estava na sala de espera de uma cl\u00ednica onde faria exames quando chegou uma mensagem da m\u00e3e pelo WhatsApp: &#8220;Voc\u00ea viu o que D\u00e9bora fez?&#8221; Era uma foto da carta que a professora escreveu em resposta \u00e0 desembargadora. A fam\u00edlia ent\u00e3o perguntou a ela se queria mesmo publicar. Ela quis. E assim fez.<\/p>\n<p>&#8220;Ela sabe se defender. \u00c9 advogada de si mesmo&#8221;, diz Frederico.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/ED84\/production\/_100940806_9c69cf20-cbbd-4b87-8db5-7bce7a7a8866.jpg\" alt=\"D\u00e9bora beb\u00ea, com a m\u00e3e, Margarida\" width=\"1280\" height=\"865\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">D\u00e9bora quando beb\u00ea com a m\u00e3e, Margarida Seabra de Moura: estimula\u00e7\u00e3o precoce foi fundamental para seu desenvolvimento<\/span><\/figure>\n<p>Quando D\u00e9bora nasceu, a expectativa de vida de quem tinha s\u00edndrome de Down era de at\u00e9 20 anos de idade, diz o geneticista e pediatra Zan Mustacchi, especialista na \u00e1rea h\u00e1 40 anos. &#8220;Agora gira em torno de 60 a 70 anos&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o foi a \u00fanica mudan\u00e7a ocorrida com o tempo. &#8220;As pessoas com s\u00edndrome de Down eram marginalizadas com mais frequ\u00eancia no passado, mas era o medo que as pessoas tinham do desconhecido, havia menos divulga\u00e7\u00e3o na m\u00eddia sobre o assunto e menos oportunidades sociais e de acesso \u00e0 sa\u00fade&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda existem estere\u00f3tipos, mas isso est\u00e1 mudando.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, cerca de 300 mil pessoas no Brasil t\u00eam a s\u00edndrome, tamb\u00e9m conhecida como Trissomia 21, em refer\u00eancia ao cromossomo 21, presente nesses indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>A s\u00edndrome \u00e9 uma altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que afeta 1 em cada 800 rec\u00e9m-nascidos e \u00e9 resultado de uma falha na divis\u00e3o celular do \u00f3vulo ou do espermatozoide antes da concep\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a. Com isso, em vez de ter 46 cromossomos \u2013 como a maior parte da popula\u00e7\u00e3o \u2013, ela nasce com 47.<\/p>\n<p>O pai de D\u00e9bora brinca que um dos cromossomos dela \u00e9 o que a torna resistente e persistente para ir atr\u00e1s do que quer e defender suas bandeiras.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o desisto dos meus sonhos&#8221;, ela diz. Dos planos tamb\u00e9m n\u00e3o. E os que tem em mente, revela, s\u00e3o &#8220;casar e continuar sendo professora at\u00e9 se aposentar&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Mas a aposentadoria ainda est\u00e1 longe.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D\u00e9bora Seabra atua como auxiliar de desenvolvimento infantil h\u00e1 13 anos em uma escola privada de Natal: &#8216;Porque as crian\u00e7as nos d\u00e3o alegria&#8217;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":241018,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-241017","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/professora-daw.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241017","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=241017"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241017\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/241018"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=241017"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=241017"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=241017"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}