{"id":24125,"date":"2013-10-21T07:36:52","date_gmt":"2013-10-21T10:36:52","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=24125"},"modified":"2013-10-21T07:36:52","modified_gmt":"2013-10-21T10:36:52","slug":"enem-reflete-desigualdades-comuns-no-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/enem-reflete-desigualdades-comuns-no-pais\/","title":{"rendered":"Enem reflete desigualdades comuns no pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-24126\" alt=\"enem2013-\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/enem2013--300x172.jpg\" width=\"300\" height=\"172\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/enem2013--300x172.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/enem2013-.jpg 340w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Criado para democratizar o acesso ao ensino superior no pa\u00eds, o Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem) n\u00e3o conseguiu se esquivar das desigualdades do Brasil. Uma an\u00e1lise do banco de dados do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), realizada pelo GLOBO, mostra que a prova vem refletindo as conhecidas diferen\u00e7as socioecon\u00f4micas do pa\u00eds. O levantamento deixa evidente que o desempenho dos participantes est\u00e1 ligado a sua renda. Quanto melhor a situa\u00e7\u00e3o financeira e de escolaridade familiar, maior \u00e9 a nota do candidato na reda\u00e7\u00e3o, principal prova do disputado processo de sele\u00e7\u00e3o do MEC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para chegar a essa conclus\u00e3o, o jornal analisou informa\u00e7\u00f5es de 3,87 milh\u00f5es de candidatos do Enem 2011 que responderam ao question\u00e1rio socioecon\u00f4mico no ato da inscri\u00e7\u00e3o e que fizeram a prova de reda\u00e7\u00e3o naquele ano. Esses dados s\u00e3o os mais recentes dispon\u00edveis em rela\u00e7\u00e3o ao exame que se tornou a principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil. Neste fim de semana, acontece a pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o do exame, que tem 7,1 milh\u00f5es de inscritos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao comparar renda familiar e desempenho na reda\u00e7\u00e3o, prova que tem o maior peso no exame, percebeu-se um aumento cont\u00ednuo da nota junto com a situa\u00e7\u00e3o financeira e a escolaridade dos pais. Enquanto a nota m\u00e9dia entre aqueles com renda de at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo foi de 460 pontos, o grupo com renda acima de 15 sal\u00e1rios chegou a 642 pontos. Diferen\u00e7a de 40%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na compara\u00e7\u00e3o entre as unidades da federa\u00e7\u00e3o, essa disparidade \u00e9 mais ampla no Piau\u00ed, onde a diferen\u00e7a entre a menor e a maior m\u00e9dias \u00e9 de 50%. Santa Catarina e Amap\u00e1 s\u00e3o os que apresentam menor discrep\u00e2ncia: 27%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O Enem reproduz brutalmente as nossas desigualdades, e outros estudos que consideraram outras vari\u00e1veis sociais chegaram \u00e0s mesmas conclus\u00f5es. O pobre n\u00e3o \u00e9 burro, mas ele participa de um concurso com jovens que t\u00eam acesso a experi\u00eancias educacionais muito mais ricas. Nesse sentido, a sociedade n\u00e3o se d\u00e1 conta de que vivemos uma situa\u00e7\u00e3o de cartas marcadas, que reproduz nosso padr\u00e3o socioecon\u00f4mico. A solu\u00e7\u00e3o para isso n\u00e3o \u00e9 fazer uma avalia\u00e7\u00e3o mais leniente com quem vem de fam\u00edlia com baixa renda, mas melhorar a escola, p\u00f4r a quest\u00e3o do aprendizado no centro da aten\u00e7\u00e3o \u2014 diz o professor Francisco Soares, do grupo de avalia\u00e7\u00e3o e medidas socioeducativas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando as notas s\u00e3o avaliadas segundo a rede de ensino, as diferen\u00e7as persistem. Em 2011, cerca de 1,4 milh\u00e3o de alunos que fizeram a reda\u00e7\u00e3o do Enem estavam no ensino m\u00e9dio. A nota m\u00e9dia entre os candidatos de escolas estaduais (78% desse universo) foi de 486 pontos. A rede municipal alcan\u00e7ou 498. J\u00e1 a m\u00e9dia entre os col\u00e9gios privados chegou a 612, pouco abaixo do ensino federal, com 623. A porcentagem de alunos de escolas federais no Enem, por\u00e9m, est\u00e1 em 1,8%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O baixo desempenho nas redes estadual e municipal \u00e9 explicado tamb\u00e9m pela renda das fam\u00edlias. Cerca de 80% dos estudantes das escolas estaduais e municipais que fizeram o Enem 2011 afirmaram ter renda de at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos. Na rede federal, esse percentual cai para 55%, e na privada \u00e9 de apenas 30%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m h\u00e1 muita discrep\u00e2ncia quando se comparam notas entre alunos de baixa e alta renda dentro da mesma rede de ensino. Nas escolas municipais, a m\u00e9dia entre alunos com renda de at\u00e9 um sal\u00e1rio \u00e9 de 433 pontos, enquanto entre os de renda de mais de 15 sal\u00e1rios \u00e9 de 553 (diferen\u00e7a de 28%). Na rede estadual, as notas v\u00e3o de 443 a 562 (27%). Na federal, de 550 a 689 (25%). E na particular, de 539 a 652 (21%).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desist\u00eancia maior na rede estadual<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O coordenador de projetos da Funda\u00e7\u00e3o Lemann, Ernesto Martins Faria, explica que jovens de fam\u00edlias com poucos recursos vivem em condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis que afetam o aprendizado, como, por exemplo, espa\u00e7o inadequado em casa para se dedicar aos estudos, baixo acesso a livros e at\u00e9 mesmo um vocabul\u00e1rio pouco diversificado utilizado pelos pais. Para Faria, a rela\u00e7\u00e3o entre desempenho na reda\u00e7\u00e3o e renda familiar, contudo, deve ser vista com cautela quando se trata de alunos da rede federal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O patamar das notas dos alunos de baixa renda \u00e9 bem mais baixo nas redes p\u00fablicas estadual e municipal. Esses alunos t\u00eam um\u00a0background\u00a0extraescolar mais desfavor\u00e1vel. Alunos da rede particular provavelmente t\u00eam pais mais engajados, e o gasto com educa\u00e7\u00e3o privada, apesar da baixa renda familiar, ilustra isso. J\u00e1 entre os alunos da rede federal, alguns devem ter passado por processos seletivos que s\u00e3o feitos em certas escolas. Para alunos que passam por processos seletivos a renda n\u00e3o \u00e9 uma boa ilustra\u00e7\u00e3o do\u00a0background\u00a0ou das oportunidades educacionais \u2014 afirma Faria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com poucos recursos e enfrentando situa\u00e7\u00f5es por vezes desfavor\u00e1veis, boa parte dos alunos da rede p\u00fablica desiste no meio do concurso. Pelos dados analisados pelo jornal, quanto menor a renda familiar, menor \u00e9 a probabilidade de os alunos participarem da reda\u00e7\u00e3o, aplicada no segundo dia de provas. A desist\u00eancia entre os alunos na rede municipal chegou a 24%, seguida da estadual, com 19,7%. Nas escolas federais, a desist\u00eancia foi de apenas 6%, patamar muito pr\u00f3ximo da rede privada (5%).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Esses dados revelam algo que merece uma maior aten\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico. O Enem gera um incentivo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o dos alunos, porque eles querem o ensino superior. Quem faz a reda\u00e7\u00e3o est\u00e1 envolvido com essa perspectiva. A desist\u00eancia maior entre alunos da rede p\u00fablica indica, a meu ver, uma falta de perspectiva dos alunos. Eles pensam que n\u00e3o poder\u00e3o ser aprovados ou, caso sejam, pensam em como poder\u00e3o se manter financeiramente no ensino superior. Isso tudo tem a ver com as pol\u00edticas que podem ser criadas para permitir que esses jovens se dediquem aos estudos ou possam se manter durante a faculdade \u2014 observa Faria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falta de professores prejudica estudante<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aluna do Col\u00e9gio Estadual Jo\u00e3o Alfredo, Rayane Flor\u00eancio, de 17 anos, vai fazer o Enem este ano. A moradora do bairro de Jacar\u00e9, na Zona Norte, ficou sem professor de qu\u00edmica durante meses, e est\u00e1 sem professor de geografia devido \u00e0 greve de profissionais da categoria nas redes estadual e municipal do Rio. Para correr atr\u00e1s, entrou num cursinho pr\u00e9-vestibular comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Gostaria de estar num col\u00e9gio particular para n\u00e3o ter esses problemas, mas n\u00e3o teria como pagar \u2014 conta a aluna, filha de um caminhoneiro e uma dona de casa, cujo sonho \u00e9 estudar Letras na UFF. \u2014 Tenho um pouco de medo. Sei que a prova vai cobrar coisas que n\u00e3o aprendi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 agosto, Rayane trabalhava numa pizzaria \u00e0 noite, para ter seu pr\u00f3prio dinheiro, mas isso atrapalhava demais sua prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Tinha a escola pela manh\u00e3 e, depois, o cursinho das 13h \u00e0s 18h. Sa\u00eda correndo para o trabalho, onde ficava at\u00e9 meia-noite. Era cansativo. Abri m\u00e3o do trabalho para focar no Enem \u2014 desabafa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No estudo feito pelo GLOBO, tamb\u00e9m foram comparadas as m\u00e9dias por estados. Como a participa\u00e7\u00e3o no Enem \u00e9 volunt\u00e1ria, os dados servem apenas para ilustrar o desempenho dos alunos que fizeram as provas, e n\u00e3o para explicar disparidades sociecon\u00f4micas nos estados como um todo. No Piau\u00ed, onde a discrep\u00e2ncia entre as notas de alunos com baixa e alta renda chega a 50%, os estudantes de fam\u00edlias que vivem com at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo tiveram m\u00e9dia da reda\u00e7\u00e3o de 450 pontos, enquanto os com renda acima de 15 sal\u00e1rios alcan\u00e7aram 676. Em Mato Grosso do Sul, a disparidade foi de 46%. As menores diferen\u00e7as foram no Amap\u00e1 e em Santa Catarina (ambos com 27%), seguido de S\u00e3o Paulo (33%).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O impacto da situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica no rendimento dos alunos foi analisado pelo doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) Rodrigo Travitzki. Na pesquisa, feita para defesa da sua tese este ano, ele comparou a m\u00e9dia das escolas no Enem e concluiu que mais de 80% das varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o explicadas por fatores que n\u00e3o podem ser controlados pelas escolas, como renda e escolaridade familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Esse dado revela que a educa\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds n\u00e3o pode ser muito melhor que o pa\u00eds. As escolas sozinhas n\u00e3o resolvem. Precisamos melhorar as escolas, mas precisamos tamb\u00e9m reduzir nossas desigualdades. Minha tese procurou discutir esse tema, porque n\u00e3o adianta focar no ranking das melhores escolas do Enem. Acaba virando marketing das escolas, quando sabemos que elas, sozinhas, pouco podem fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep), \u00f3rg\u00e3o do MEC respons\u00e1vel pela aplica\u00e7\u00e3o do Enem, Luiz Claudio Costa reconhece que o exame, por si s\u00f3, n\u00e3o vai melhorar os rumos da educa\u00e7\u00e3o. Ele sabe das discrep\u00e2ncias entre as notas de alunos de baixa e alta renda familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 maratona. \u00c9 preciso transformar toda uma realidade. Nossa historia \u00e9 de exclus\u00e3o, e o Brasil vem mudando isso, colocando jovens nas escolas. O Enem, assim como as cotas, \u00e9 uma ferramenta no processo. Antigamente, dois ou tr\u00eas vestibulares influenciavam muito no ensino, e s\u00f3 dialogavam com escolas particulares. O Enem promove di\u00e1logo com a escola p\u00fablica. Mas n\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a r\u00e1pida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Criado para democratizar o acesso ao ensino superior no pa\u00eds, o Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem) n\u00e3o conseguiu se esquivar das desigualdades do Brasil. Uma an\u00e1lise do banco de dados do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), realizada pelo GLOBO, mostra que a prova vem refletindo as conhecidas diferen\u00e7as socioecon\u00f4micas do pa\u00eds. O levantamento deixa evidente que o desempenho dos participantes est\u00e1 ligado a sua renda. 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