{"id":241251,"date":"2018-04-25T00:31:59","date_gmt":"2018-04-25T03:31:59","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=241251"},"modified":"2018-04-24T19:35:20","modified_gmt":"2018-04-24T22:35:20","slug":"como-um-tropeiro-do-seculo-18-espalhou-mutacao-genetica-rara-que-causa-cancer-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-um-tropeiro-do-seculo-18-espalhou-mutacao-genetica-rara-que-causa-cancer-no-brasil\/","title":{"rendered":"Como um tropeiro do s\u00e9culo 18 espalhou muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica rara que causa c\u00e2ncer no Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Camilla Costa\u00a0<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/866F\/production\/_100951443_vania_avos.jpg\" alt=\"Fam\u00edlia de V\u00e2nia Nascimento\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Av\u00f3s de V\u00e2nia Nascimento (centro da foto) tiveram dez filhos, mas perderam oito para o c\u00e2ncer<\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Maria Isabel Achatz ainda estava na faculdade de Medicina, em S\u00e3o Paulo, no final dos anos 1990, quando encontrou a paciente que mudaria sua carreira e sua vida para sempre. Era uma mulher que havia tido c\u00e2ncer seis vezes &#8211; em todas elas, tumores prim\u00e1rios, ou seja, independentes um do outro.<\/p>\n<p>&#8220;Naquela \u00e9poca ainda n\u00e3o pod\u00edamos consultar a internet, ent\u00e3o fui na biblioteca da universidade, comprei um artigo cient\u00edfico e tive que esperar um m\u00eas para que ele chegasse&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>&#8220;Falei com meus orientadores que achava que era um caso de S\u00edndrome de Li-Fraumeni, e eles me disseram: &#8216;Isabel, s\u00f3 tem 200 casos dessa doen\u00e7a no mundo. Voc\u00ea acha realmente que viu um deles aqui?&#8217;. E eu respondi: &#8216;Acho, sim&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio da paciente n\u00e3o foi resolvido, porque a estudante deixou de atend\u00ea-la. Mas, por causa da suspeita, ela descobriu, anos depois, uma muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que tornou a doen\u00e7a, considerada rara, mais comum no Sul e no Sudeste do Brasil do que em qualquer lugar do mundo.<\/p>\n<p>&#8220;No meu primeiro ano trabalhando do A.C. Camargo Cancer Center (Hospital do C\u00e2ncer em S\u00e3o Paulo) eu vi 35 pacientes que diagnostiquei com a s\u00edndrome. As pessoas diziam que eu estava louca, mas percebi que havia algo de diferente ali.&#8221;<\/p>\n<p>A descoberta tamb\u00e9m uniu fam\u00edlias de diversas cidades em torno de um surpreendente ancestral comum: um tropeiro do s\u00e9culo 18.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Guardi\u00e3o do genoma<\/h2>\n<p>A S\u00edndrome de Li-Fraumeni \u00e9 uma s\u00e9rie de tipos de c\u00e2ncer causados pela muta\u00e7\u00e3o no TP53, considerado um &#8220;guardi\u00e3o do genoma&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Quando as c\u00e9lulas se dividem e ocorre um erro, o organismo tem que corrigir esse erro para que a c\u00e9lula n\u00e3o fique alterada ou provocar a morte desta c\u00e9lula. O c\u00e2ncer ocorre quando o organismo n\u00e3o consegue fazer nenhuma das duas coisas, e as c\u00e9lulas danificadas se proliferam desordenadamente&#8221;, explica a oncogeneticista Maria Nirvana Formiga, atual l\u00edder do departamento de oncogen\u00e9tica do A.C. Camargo.<\/p>\n<p>O TP53 executa v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es no ciclo celular e tenta impedir justamente que as c\u00e9lulas que t\u00eam erros se proliferem, dando origem a tumores. Uma muta\u00e7\u00e3o nele compromete essa caracter\u00edstica. E basta que um dos pais tenha a mudan\u00e7a para que ela seja passada adiante.<\/p>\n<p>&#8220;Uma pessoa com Li-Fraumeni basicamente tem uma chance bem superior de desenvolver c\u00e2ncer em determinadas partes do corpo, mais do que a popula\u00e7\u00e3o em geral&#8221;, diz Formiga.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/16CE7\/production\/_100951439_gettyimages-696241690.jpg\" alt=\"C\u00e9lula cancer\u00edgena e DNA\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"media-caption__text\">S\u00edndrome, que vitimou o ex-vice-presidente Jos\u00e9 de Alencar, \u00e9 causada por uma muta\u00e7\u00e3o no gene TP53, que age como supressor de tumores<\/span><\/span><\/figure>\n<p>Um portador ou portadora da muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica pode ter somente um tumor, diversos tumores independentes, como a primeira paciente de Maria Isabel Achatz, ou mesmo nunca desenvolver a doen\u00e7a. Mas, em geral, \u00e9 comum que tenham um hist\u00f3rico de diversos familiares que morreram de c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Os tipos de c\u00e2ncer mais caracter\u00edsticos da s\u00edndrome s\u00e3o o c\u00e2ncer de mama antes dos 35 anos, os chamados sarcomas \u00f3sseos ou de partes moles (que podem aparecer em diversos tecidos do corpo, como os m\u00fasculos) antes dos 45 anos, leucemias, tumores nas gl\u00e2ndulas adrenais (que ficam acima dos rins) e no sistema nervoso central.<\/p>\n<p>&#8220;Quando h\u00e1 um familiar com um desses tumores e outro familiar com outro, j\u00e1 consideramos que pode haver Li-Fraumeni naquela fam\u00edlia&#8221;, explica a oncogeneticista.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Ancestral tropeiro<\/h2>\n<p>No in\u00edcio dos anos 2000, a pesquisa de Maria Isabel Achatz chamou a aten\u00e7\u00e3o de um pesquisador franc\u00eas, que a encorajou a descobrir o porqu\u00ea da &#8220;situa\u00e7\u00e3o \u00fanica&#8221; que ela havia observado em seus pacientes no Brasil. Al\u00e9m de sua pesquisa em S\u00e3o Paulo, cientistas no Paran\u00e1 e no Rio Grande do Sul j\u00e1 faziam questionamentos semelhantes sobre a frequ\u00eancia com que se deparavam com a s\u00edndrome.<\/p>\n<p>Ela come\u00e7ou pela an\u00e1lise do gene TP53 nas pessoas que suspeitava que sofressem de Li-Fraumeni, para encontrar a muta\u00e7\u00e3o que causava a doen\u00e7a &#8211; muta\u00e7\u00f5es diferentes no mesmo gene podem levar \u00e0 s\u00edndrome.<\/p>\n<p>&#8220;Um gene \u00e9 composto de cinco partes e, na \u00e9poca, a maioria das pessoas analisava apenas a parte central, que faz a liga\u00e7\u00e3o com o DNA. Mas nos meus pacientes eu n\u00e3o encontrava nada. Fiquei arrasada, achei que estava diagnosticando errado&#8221;, relembra.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/A2A8\/production\/_101004614_5548fd48-a2d8-443d-afba-2da1f144d28c.jpg\" alt=\"Maria Isabel Achatz\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">&#8216;A S\u00edndrome de Li-Fraumeni me escolheu&#8217;, diz m\u00e9dica que come\u00e7ou a suspeitar de muta\u00e7\u00e3o brasileira nos primeiros anos de carreira<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas a geneticista descobriu que a muta\u00e7\u00e3o de seus pacientes estava em outra parte do gene TP53, o que tornava o Li-Fraumeni brasileiro \u00fanico no mundo.<\/p>\n<p>Com a descoberta, ela voltou ao pa\u00eds e come\u00e7ou a pedir que alguns de seus pacientes perguntassem aos familiares se eles tamb\u00e9m n\u00e3o teriam interesse em saber se, por acaso, teriam a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Foi assim que a fam\u00edlia da nutricionista Regina Romano, de 33 anos, descobriu por que perdia tantos membros para o c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>&#8220;Uma sobrinha da minha av\u00f3 se tratava com a doutora Maria Isabel Achatz. E a\u00ed ela come\u00e7ou a pesquisa e veio atr\u00e1s da fam\u00edlia no interior de S\u00e3o Paulo&#8221;, disse \u00e0 BBC Brasil.<\/p>\n<p>Na primeira reuni\u00e3o com a fam\u00edlia, a m\u00e9dica se viu, pela primeira vez, explicando simultaneamente a quase 30 pessoas, na cozinha da matriarca, do que se tratava a s\u00edndrome e por que ela precisaria coletar o sangue de todos eles &#8211; ou, pelo menos, de todos os que quisessem se submeter a um teste gen\u00e9tico.<\/p>\n<p>&#8220;Quando voltei para S\u00e3o Paulo eles me ligaram de novo e disseram que toda a fam\u00edlia decidiu testar. Mas eu n\u00e3o sabia que viriam dois \u00f4nibus de turismo, porque um deles era prefeito da cidade vizinha e organizou a viagem&#8221;, conta.<\/p>\n<p>A matriarca da fam\u00edlia, segundo os resultados, tinha o gene defeituoso, apesar de nunca ter desenvolvido a doen\u00e7a. Pelo menos tr\u00eas de seus quatro filhos tamb\u00e9m tinham, e passaram a alguns de seus netos.<\/p>\n<p>&#8220;Ela disse para mim: &#8216;Isso \u00e9 coisa do meu av\u00f4 tropeiro. Ele sumia uns seis meses e voltava. Acho que deixava umas fam\u00edlias a\u00ed pelo caminho&#8217;. E aquilo me chamou a aten\u00e7\u00e3o&#8221;, relembra a m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo 18, os tropeiros eram homens que conduziam tropas de cavalos por estradas regi\u00f5es Sudeste e Sul do Brasil fazendo o com\u00e9rcio de mercadorias.<\/p>\n<p>&#8220;Na \u00e9poca, eu comprei um livro sobre os tropeiros onde estava um mapa da rota mais comum que eles seguiam. Em seguida, marquei em outro mapa as cidades de onde vieram os pacientes que eu tinha diagnosticado. Sobrepus os dois mapas e eram id\u00eanticos.&#8221;<\/p>\n<p>Mas se diversos tropeiros faziam a mesma rota, como saber se apenas um foi o respons\u00e1vel pela transmiss\u00e3o da s\u00edndrome de Li-Fraumeni para diversas fam\u00edlias?<\/p>\n<p>Com o material gen\u00e9tico dos pacientes, os pesquisadores fizeram tamb\u00e9m uma compara\u00e7\u00e3o de polimorfismos intrag\u00eanicos &#8211; marcas espec\u00edficas nos genes que s\u00f3 pessoas da mesma fam\u00edlia apresentam e que funciona como uma esp\u00e9cie de teste de paternidade.<\/p>\n<p>&#8220;Encontramos em todas as nove fam\u00edlias grandes que testamos o mesmo painel, e a probabilidade de encontrar isso na popula\u00e7\u00e3o \u00e9 quase imposs\u00edvel. Ficou claro que eles t\u00eam uma origem comum. A\u00ed fizemos uma hip\u00f3tese hist\u00f3rica&#8221;, afirma Achatz.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/384F\/production\/_100951441_regina.jpg\" alt=\"Regina Romano, o marido e afilha\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Regina Romano descobriu por acidente que sua fam\u00edlia tinha a S\u00edndrome de Li-Fraumeni, mas sua filha n\u00e3o herdou a muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica causadora da doen\u00e7a<\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O dilema de &#8216;passar o gene adiante&#8217;<\/h2>\n<p>A pr\u00f3pria Regina Romano demorou cerca de tr\u00eas anos para descobrir que tamb\u00e9m carregava o &#8220;gene tropeiro&#8221; da fam\u00edlia. Ela n\u00e3o estava na cozinha da av\u00f3 no dia em que Maria Isabel Achatz, acompanhada de seu orientador franc\u00eas, esteve l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8220;Meu pai fez o teste gen\u00e9tico, o irm\u00e3o dele e mais alguns primos, mas ele n\u00e3o contou para mim. S\u00f3 fiquei sabendo quando a m\u00e9dica pediu que eles refizessem o exame, porque alguns resultados se perderam&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Em 2014, j\u00e1 com o diagn\u00f3stico da s\u00edndrome, Regina descobriu um c\u00e2ncer de mama. &#8220;Eu j\u00e1 fazia acompanhamento, mas a gente nunca acha que vai ter. Ent\u00e3o foi dif\u00edcil. Eu ia casar dali a um ano, queria engravidar e dar de mamar&#8221;, relembra, emocionada.<\/p>\n<p>A S\u00edndrome de Li-Fraumeni n\u00e3o pula gera\u00e7\u00f5es. Isso quer dizer que a probabilidade de filhos herdarem a muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica dos pais \u00e9 alta, mesmo que eles nunca tenham tido um c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Ao pensar em engravidar, Regina foi confrontada pela primeira vez com a possibilidade de que sua filha tamb\u00e9m tivesse a condi\u00e7\u00e3o. Crian\u00e7as precisam ser acompanhadas com frequ\u00eancia &#8211; devem fazer exames a cada quatro meses pelo menos at\u00e9 os cinco anos de idade &#8211; por causa do alto risco de tumores nas gl\u00e2ndulas adrenais nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>Alguns pacientes, segundo m\u00e9dicos e psic\u00f3logos do hospital A.C. Camargo, optam por procedimentos como vasectomia e histerectomia, para evitar passar a s\u00edndrome adiante.<\/p>\n<p>Os especialistas tamb\u00e9m aconselham os casais sobre a possibilidade de fazer a fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro e pr\u00e9-selecionar embri\u00f5es que n\u00e3o tenham a muta\u00e7\u00e3o. Regina, no entanto, decidiu enfrentar a loteria da gen\u00e9tica.<\/p>\n<p>&#8220;Pra mim n\u00e3o fazia sentido fazer essa pr\u00e9-sele\u00e7\u00e3o porque seria como se minha m\u00e3e tivesse dito: &#8216;N\u00e3o quero voc\u00ea aqui, Regina&#8217;. Meu marido e eu combinamos que aceitar\u00edamos o que viesse, fosse com s\u00edndrome ou sem s\u00edndrome&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;Mas quando eu engravidei \u00e9 que veio toda a preocupa\u00e7\u00e3o. Com um m\u00eas e meio fui tirar o sangue dela para o teste gen\u00e9tico e acho que nunca chorei tanto.&#8221;<\/p>\n<p>A filha de Regina n\u00e3o herdou a muta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Mas uma sobrinha, sim. &#8220;Penso em ter outro beb\u00ea, mas \u00e9 muito dif\u00edcil considerar isso agora.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15D47\/production\/_100951498_familiavania.jpg\" alt=\"Fam\u00edlia de V\u00e2nia Nascimento\" width=\"640\" height=\"480\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Fam\u00edlia de V\u00e2nia Nascimento \u00e9 uma das que compartilha muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que seria de um tropeiro do s\u00e9culo 18<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Diferen\u00e7as brasileiras<\/h2>\n<p>Por ser em um local diferente do gene TP53, a muta\u00e7\u00e3o brasileira faz com que a s\u00edndrome de Li-Fraumeni tenha caracter\u00edsticas distintas aqui quando comparada com outros lugares do mundo.<\/p>\n<p>Uma delas \u00e9 a probabilidade de desenvolver tumores. Em geral, portadores da s\u00edndrome, homens e mulheres, t\u00eam cerca de 90% a 100% mais chances de terem c\u00e2ncer do que a popula\u00e7\u00e3o em geral. No Brasil, mulheres t\u00eam cerca de 78% de probabilidade e, em homens, ela \u00e9 menor do que 50%.<\/p>\n<p>No resto do mundo, muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas no TP53 tamb\u00e9m costumam causar c\u00e2ncer mais cedo &#8211; em 50% dos casos, antes dos 30 anos. No caso brasileiro, esse \u00edndice \u00e9 de 30%.<\/p>\n<p>&#8220;Por isso, os brasileiros com a s\u00edndrome vivem mais tempo sem tumores e, por isso, t\u00eam mais probabilidade de ter filhos e de passar o gene adiante&#8221;, diz a geneticista Maria Isabel Achatz.<\/p>\n<p>Isso pode ajudar a explicar, diz ela, por que a preval\u00eancia da doen\u00e7a do Sul e no Sudeste do Brasil \u00e9 t\u00e3o maior do que no resto do mundo. Estudos nas popula\u00e7\u00f5es de Porto Alegre (RS) e de Curitiba (PR) demonstraram que uma em cada 300 pessoas tem a s\u00edndrome &#8211; estima-se que, atualmente cerca de 300 mil indiv\u00edduos sejam afetados no Brasil.<\/p>\n<p>Em outros lugares, h\u00e1 dados diferentes sobre preval\u00eancia da muta\u00e7\u00e3o, que v\u00e3o de uma a cada 5 mil pessoas at\u00e9 uma a cada 20 mil, o que faz com que a s\u00edndrome seja considerada rara.<\/p>\n<p>Maria Isabel Achatz, hoje no Hospital S\u00edrio-Liban\u00eas, ainda pesquisa a hip\u00f3tese de que os portadores Li-Fraumeni no Brasil vivam mais.<\/p>\n<p>&#8220;Conversando com os pacientes, percebi que alguns deles tinham mais de 70 anos e eram extremamente ativos, praticavam esportes, andavam de bicicleta. Eu n\u00e3o encontrava casos de Mal de Alzheimer, Mal de Parkinson, nem sinais de envelhecimento precoce, pelo contr\u00e1rio&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Se comprovada, a longevidade destes brasileiros tamb\u00e9m pode ajudar a explicar por que aqui a muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica se multiplicou mais rapidamente.<\/p>\n<p>Outro estudo em desenvolvimento, segundo a geneticista, mostra que a amamenta\u00e7\u00e3o durante pelo menos sete meses protege mulheres com Li-Fraumeni do c\u00e2ncer de mama.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/11EC7\/production\/_100951437_gettyimages-868888242.jpg\" alt=\"Cromossomos\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">S\u00edndrome foi descoberta em 1969 por pesquisadores americanos, mas \u00e9 mais prevalente no Sul e no Sudeste do Brasil do que em qualquer lugar do mundo<\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Grande fam\u00edlia<\/h2>\n<p>A necessidade de acompanhamento constante pelos m\u00e9dicos e a origem comum da doen\u00e7a fez com que pacientes e especialistas decidissem organizar encontros com as fam\u00edlias brasileiras com Li-Fraumeni.<\/p>\n<p>Em geral, eles ocorrem em hospitais, mas tamb\u00e9m podem ser eventos l\u00fadicos, como caminhadas. E j\u00e1 h\u00e1 pelo menos um grupo de Facebook para trocar informa\u00e7\u00f5es e marcar encontros entre familiares distantes ou entre primos que sequer se conheciam.<\/p>\n<p>&#8220;O hospital em S\u00e3o Paulo \u00e9 minha segunda casa. Encontro minha fam\u00edlia de Minas l\u00e1. Tentamos marcar os exames na mesma data para nos encontrarmos&#8221;, diz a banc\u00e1ria V\u00e2nia Nascimento, de 41 anos, que tem Li-Fraumeni.<\/p>\n<p>Seu av\u00f4 teve dez filhos, dos quais oito morreram de c\u00e2ncer. Em toda a fam\u00edlia, de mais de 50 pessoas, pelo menos 20 manifestaram a doen\u00e7a. Ela foi a primeira da fam\u00edlia que conseguiu sobreviver a um tumor.<\/p>\n<p>&#8220;Cada vez que algu\u00e9m morria, nos pergunt\u00e1vamos quem seria o pr\u00f3ximo. N\u00e3o entend\u00edamos o porqu\u00ea de tantos casos. E at\u00e9 hoje, em alguns lugares, vou fazer exames e tenho que explicar aos m\u00e9dicos o que \u00e9 a s\u00edndrome. Muitos n\u00e3o conhecem.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13637\/production\/_100951497_gettyimages-881542882.jpg\" alt=\"Enfermeira tirando sangue de paciente\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Pacientes diagnosticados com muta\u00e7\u00e3o que provoca S\u00edndrome de Li-Fraumeni precisam fazer exames peri\u00f3dicos para detectar tumores em fase inicial<\/span><\/figure>\n<p>O encontro com outros pacientes, segundo ela, \u00e9 tamb\u00e9m uma maneira de entender o que o avan\u00e7o das pesquisas sobre o tema e, principalmente de esclarecer as d\u00favidas dos novos membros da fam\u00edlia que descobrem a heran\u00e7a gen\u00e9tica.<\/p>\n<p>&#8220;O pessoal mais jovem quer saber com o que est\u00e1 lidando e encara numa boa, mas dos mais velhos, muitos n\u00e3o fazem os testes. Alguns n\u00e3o querem nem falar a respeito&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Para Regina Romano, conhecer a &#8220;fam\u00edlia estendida&#8221; da s\u00edndrome ajudou a fortalecer sua disposi\u00e7\u00e3o de encarar a doen\u00e7a com otimismo.<\/p>\n<p>&#8220;A gente v\u00ea algumas pessoas que, com qualquer coisa, j\u00e1 pensam: &#8216;Eu vou morrer&#8217;. E surtam mesmo. Mas conversamos muito, e os m\u00e9dicos nos explicam que a cura n\u00e3o existe, mas as nossas chances s\u00e3o muito maiores se encontrarmos o tumor no comecinho.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Tamb\u00e9m conheci alguns primos de outra cidade nessas reuni\u00f5es, parentes do meu pai. N\u00f3s brincamos dizendo: &#8216;Esse maldito tropeiro saiu por a\u00ed fazendo filhos e agora estamos aqui&#8221;, ri.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Av\u00f3s de V\u00e2nia Nascimento tiveram dez filhos, mas perderam oito para o c\u00e2ncer<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":241252,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,12],"tags":[],"class_list":["post-241251","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/familia-antiga.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241251","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=241251"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241251\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/241252"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=241251"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=241251"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=241251"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}