{"id":241815,"date":"2018-04-30T05:43:48","date_gmt":"2018-04-30T08:43:48","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=241815"},"modified":"2018-04-30T05:43:48","modified_gmt":"2018-04-30T08:43:48","slug":"um-ano-sem-belchior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/um-ano-sem-belchior\/","title":{"rendered":"Um ano sem Belchior"},"content":{"rendered":"<div class=\"featured-box featured-box-cultura\">\n<h2><\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"\" src=\"https:\/\/www.brasil247.com\/images\/cache\/1000x357\/crop\/images%7Ccms-image-000588911.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"357\" data-src-a=\"\/images\/cache\/480x240\/crop\/images%7Ccms-image-000588911.jpg\" data-src-b=\"\/images\/cache\/490x280\/crop\/images%7Ccms-image-000588911.jpg\" \/><\/p>\n<p class=\"meta\">\n<\/div>\n<div class=\"sidebar-columns single-page clearfix style-cultura\">\n<section>\n<div class=\"entry\">\n<div id=\"audimaWidget\" class=\"audima-position-default\"><\/div>\n<p><strong>Por: Gustavo Conde<\/strong><\/p>\n<p>A m\u00fasica popular brasileira tem em Belchior um de seus momentos mais densos. O compositor cearense imp\u00f4s ao cancioneiro brasileiro uma tem\u00e1tica complexa, ousada e de forte apelo popular. As letras de Belchior ultrapassam a for\u00e7a da pr\u00f3pria can\u00e7\u00e3o e invadem o regime das cita\u00e7\u00f5es sociais de maneira fragment\u00e1ria e destacada.<\/p>\n<p>\u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o discursiva espont\u00e2nea e singular, muito pouco comum para um letrista pertencente ao universo da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica e \u00e0 cultura popular das narrativas urbanas. Belchior ultrapassa fronteiras formais, instala uma voz poderosa na cena musical e cria um discurso filos\u00f3fico repleto de intertextos que violenta a percep\u00e7\u00e3o do ouvinte tradicional da can\u00e7\u00e3o, sugerindo uma a\u00e7\u00e3o cr\u00edtica deste ouvinte, seja com rela\u00e7\u00e3o a sua exist\u00eancia enquanto sujeito da hist\u00f3ria, seja com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria can\u00e7\u00e3o, numa dial\u00e9tica complexa e de car\u00e1ter mobilizador.<\/p>\n<p>Belchior escolhe com muita precis\u00e3o a tem\u00e1tica que vai servir de condutor para esta pletora de sentidos. Ele faz uso, em primeiro plano, da hist\u00f3ria. Suas can\u00e7\u00f5es s\u00e3o fortemente contextualizadas no tempo e no espa\u00e7o. O Brasil dos anos 70 est\u00e1 l\u00e1 como em poucos outros lugares: as migra\u00e7\u00f5es internas, o preconceito, a utopia, a opress\u00e3o, a cultura como fonte de resist\u00eancia, a plurivocalidade da can\u00e7\u00e3o popular (que se desdobra em tema), a cena familiar e passional t\u00edpicas de um regime de exce\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o, a amizade revolucion\u00e1ria, a sutileza avassaladora das met\u00e1foras que driblam a censura do pr\u00f3prio \u2018eu\u2019, enfim, uma organiza\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica que vai produzir um significado muito peculiar de unidade formal, porque, dentro da sua multiplicidade, vai servir sempre a um sentido fundador e onipresente: o sujeito que n\u00e3o se enquadra nas conven\u00e7\u00f5es sociais mas que ao mesmo tempo as respeita e as investe de delicadeza e humanidade.<\/p>\n<p>Em um segundo plano formal, Belchior constr\u00f3i scripts que conduzir\u00e3o toda a sua obra de maneira quase obsessiva. Ele lida com dicotomias retoricamente muito poderosas e geradoras de energia narrativa: o velho e o novo, o passado e o presente, o conhecido e o desconhecido, o contemplado e o contemplador, o cantor e o ouvinte, a origem e o fim, o popular e o erudito e a urg\u00eancia e o vagar.<\/p>\n<p>Todos esses contr\u00e1rios s\u00e3o as molas narrativas que lan\u00e7am em cena um sujeito tomado por uma tens\u00e3o filos\u00f3fica incessante, que estabelece um regime de temporalidades psicol\u00f3gicas vertiginoso, em que os espa\u00e7os para distens\u00e3o ser\u00e3o os momentos de resolu\u00e7\u00e3o das can\u00e7\u00f5es, em geral seus finais, em que o eu cancional consegue respirar em meio \u00e0s suas infinitas indaga\u00e7\u00f5es existenciais.<\/p>\n<p>Belchior tamb\u00e9m postula um eu cancional dotado de extrema personalidade, persuasivo, invocador, mobilizador, atentador. Um eu que quer o tempo todo tocar e invadir o espa\u00e7o de seu outro, seja o objeto desejado na can\u00e7\u00e3o, seja o pr\u00f3prio ouvinte da can\u00e7\u00e3o. Isso se materializa numa dic\u00e7\u00e3o fortemente interpelativa, interlocut\u00f3ria, dial\u00f3gica. O eu belchioriano \u00e9 invasivo, revolucion\u00e1rio e dotado de extrema energia simb\u00f3lica e f\u00edsica \u2013 pois ele busca e se debru\u00e7a via sub narrativas nesse \u2018outro\u2019 que habita a can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O eu belchioriano, no entanto, vai al\u00e9m. Ele se estilha\u00e7a e promove um discurso polif\u00f4nico, distribuindo a voz m\u00faltipla que habita o cora\u00e7\u00e3o do compositor. A pot\u00eancia de um eu t\u00e3o complexo e, por vezes, difuso acaba por configurar uma voz extremamente inquieta, como s\u00f3i acontecer, por exemplo, em Dostoi\u00e9vski. O eu cancional de Belchior adentra essa sofistica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e possibilita essa multiplicidade vocal que, como em Dostoi\u00e9vski, pode, \u00e0s vezes, ceder espa\u00e7o autoral \u00e0s pr\u00f3prias cria\u00e7\u00f5es que emanam de uma mente concreta e localiz\u00e1vel no mundo (Antonio Carlos Belchior e\/ou Fi\u00f3dor Mikhailovitch Dostoi\u00e9vski). Em suma, em alguns momentos um dos v\u00e1rios eus coadjuvantes de Belchior toma posse da narrativa cancional e joga o protagonista para uma posi\u00e7\u00e3o narrativa secund\u00e1ria\u00a0(isso acontece em \u201cParalelas\u201d).<\/p>\n<p>Belchior, portanto, n\u00e3o prop\u00f5e um eu cancional onipresente apenas: ele prop\u00f5e um regime de eus. Outra consequ\u00eancia dessa formaliza\u00e7\u00e3o enunciativa \u00e9 uma voz concreta do int\u00e9rprete de si mesmo Belchior que acabou por se tornar uma refer\u00eancia est\u00e9tica de proje\u00e7\u00e3o vocal. Belchior fala enquanto canta. Ele discursa, acelera os tempos, comprime a pros\u00f3dia, amplifica a m\u00e9trica, modula a colocatura, busca a \u201cfalha\u201d como express\u00e3o, adensa o timbre, manipula o curso natural das resolu\u00e7\u00f5es r\u00edtmicas, raspa a glote em busca de profundidade passional, alterna coloquialismos, inverte posi\u00e7\u00f5es sint\u00e1ticas \u2013 aqui, j\u00e1 numa contamina\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o intelectiva das can\u00e7\u00f5es como unidades de sentido e de tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, Belchior inaugura um ethos cancional peculiar, comum aos desbravadores de sentido, por assim dizer. Um ethos \u00e9 um modo de dizer, uma dic\u00e7\u00e3o espec\u00edfica dotada de um tom espec\u00edfico que produz um efeito novo com rela\u00e7\u00e3o ao conte\u00fado ali propagado. A t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o, eu colocaria entre os desbravadores de sentido, Darwin, Freud e Marx. Esse autores n\u00e3o foram s\u00f3 autores: eles fundaram discursividades, com suas respectivas maneiras de narrar as pr\u00f3prias descobertas cient\u00edficas.<\/p>\n<p>\u00c0 sua maneira, Belchior \u00e9 um fundador de discursividade. Ele planeja sua pe\u00e7a cancional dentro de um rigor est\u00e9tico muito evidente, mas ao interpretar a si mesmo com sua voz \u00fanica, ele intensifica ainda mais o sentido geral de seu enunciado.<\/p>\n<p>Belchior \u00e9 at\u00e9 mais que um int\u00e9rprete de si mesmo no sentido estrito. Sua pr\u00f3pria vida foi tomada pela for\u00e7a de sua obra. Como suas letras j\u00e1 relatavam uma autobiografia fragment\u00e1ria que se confundia com sua pr\u00f3pria vida de compositor e cantor celebrado na cena musical, o desdobramento de ambas, vida e obra, tomou o destino de assalto.<\/p>\n<p>Belchior que amou viajar pelo Brasil e fez disso um tema recorrente em suas can\u00e7\u00f5es, acabou ele mesmo confinado em um pa\u00eds vizinho \u2013 o Uruguai \u2013 para viver seus momentos finais como indiv\u00edduo de carne e osso. Projetos interrompidos, legado mal resolvido, legi\u00f5es de f\u00e3s \u00f3rf\u00e3s antes mesmo de sua despedida, tudo isso poderia muito bem compor um desdobramento de sua tem\u00e1tica cancional. Ali\u00e1s, de uma certa maneira, tudo isso est\u00e1 l\u00e1, edificado em versos premonit\u00f3rios e de rar\u00edssima beleza e for\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCRuy5PigeeBuecKnwqhM4yg\"><strong>Inscreva-se na TV 247<\/strong><\/a>\u00a0e assista ao Pocket Show da Resist\u00eancia Democr\u00e1tica em homenagem a Belchior:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/I9XG53bBW4k\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A m\u00fasica popular brasileira tem em Belchior um de seus momentos mais densos. O compositor cearense imp\u00f4s ao cancioneiro brasileiro uma tem\u00e1tica complexa, ousada e de forte apelo popular. 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